A aposta de ministros do STF sobre sessão para julgar caso Moraes
COLUNA MALU Gaspar Por Rafael Moraes Moura — Brasília / o globo
A decisão do presidente do STF, Edson Fachin, de convocar uma sessão extraordinária para analisar o relatório da Polícia Federal sobre as mensagens de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro resolveu um impasse que se arrastava desde a semana passada, mas deve criar novos embates e expor as fissuras internas da Corte antes mesmo de começar.
A aposta de ministros ouvidos pela equipe da coluna logo após a decisão de Fachin é que os próximos dias serão tomados por articulações das alas que hoje se enfrentam no STF para decidir o rito a ser adotado na sessão e aumentar suas chances de vitória.
Alguns integrantes da Corte já trabalham nos bastidores para que o julgamento não seja público, nem transmitido ao vivo pela TV Justiça, como uma forma de reduzir a pressão da opinião pública e poupar o STF de ainda mais desgastes — apesar do pedido do relator do caso Master, André Mendonça, para que a sessão seja “pública, transparente, presencial”.
Há ministros planejando também levantar questões de ordem como, por exemplo, se Mendonça pode ou não votar na sessão. Outros pressionam Dias Toffoli, que tem se declarado impedido no caso Master, para que vote no julgamento sobre Moraes, alegando que, embora seja relativo ao banco de Daniel Vorcaro, a sessão trata de um tema institucional do Supremo.
Também não está descartada a possibilidade de proporem a nulidade do próprio relatório elaborado pela PF a pedido de Mendonça sobre as 52 mensagens trocadas por Moraes com o dono do banco Master.
Todo esse esforço tem uma razão simples: se matarem o caso “no peito” por questões processuais, os ministros evitam a discussão mais delicada sobre o teor das mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes.
O documento demonstra que Moraes e Vorcaro negociaram diretamente o contrato de R$ 131 milhões firmados com o escritório da família do magistrado e se encontraram pessoalmente diversas vezes, incluindo a véspera da prisão do dono do Master em Guarulhos, ao tentar embarcar para Dubai.
Dois dias antes da prisão, em 15 de novembro de 2026, o dono do Master perguntou a Moraes: ‘Acha que 2ª tenho que estar fora?’, numa aparente discussão a respeito de uma fuga. Horas antes de ser preso, perguntou: “Conseguiu bloquear?”
Mapa de votos
O julgamento também vai servir para medir a adesão do plenário do STF à defesa incondicional de Moraes, além de lançar luz sobre três personagens considerados peça-chave na definição do resultado: Cármen Lúcia, Kassio Nunes Marques e o próprio Fachin, que passou a última quarta-feira (9) em uma maratona de conversas reservadas com os colegas para achar uma solução para a crise.
Tanto o grupo de Moraes quanto o de Mendonça já estão mapeando os votos para medir o termômetro da crise e contabilizar se há apoio à abertura de uma investigação contra o magistrado, que depende do aval da maioria do plenário. Nunca o STF autorizou em sua história a abertura de investigação contra um integrante da Corte.
O avanço das investigações do caso Master e a escalada da crise institucional que corrói a imagem do STF materializam o receio de Fachin em torno da apuração do maior escândalo financeiro da história do país: arrastar o Supremo para o epicentro do debate eleitoral num pleito que deve ser marcado mais uma vez pela polarização entre lulistas (que defendem Moraes) e bolsonaristas (que estão do lado de Mendonça).
Fachin teme que o caso contamine a eleição para o Senado Federal, que terá ⅔ das cadeiras renovadas no pleito de outubro, e impulsione a eleição de uma forte e influente bancada de direita com a aprovação de impeachment de integrantes da Corte como pauta prioritária.
Para o presidente do Supremo, a melhor resposta à crise de credibilidade do STF seria a implantação de um Código de Ética, mas isso aí já é outra batalha.
Um apelo ao que resta do Supremo
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, veio a público na manhã de ontem para dizer que os indícios reunidos pela Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro “reclamam o devido encaminhamento institucional” e que, ademais, o cargo de ministro do STF “não confere privilégios, mas impõe deveres”. Fachin também anunciou que, “no tempo devido e sem precipitação”, tomará as medidas cabíveis. É pouco, mas um sinal de que ainda resta vida republicana na Corte.
Não ficou claro qual é o “devido encaminhamento” que Fachin pretende dar ao caso, mas não deveria haver dúvida: o relatório da PF deve ser submetido o quanto antes à deliberação do plenário do STF, em sessão pública e presencial. Se o ministro Fachin fizer a coisa certa, roga-se aos ministros que ainda colocam a instituição acima de seus interesses pessoais que manifestem sem medo seu horror diante do colapso moral que ameaça o STF. Não será fácil, diante da conhecida truculência de alguns ministros, mas o Brasil precisa saber que ainda há genuínos e destemidos republicanos no Supremo.
Diante da extrema gravidade do que está em jogo, não há espaço para outro arranjo clandestino, como aquele a que o plenário se rebaixou para acomodar a evidente suspeição do ministro Dias Toffoli como o primeiro relator do caso Master no STF. Independentemente do parecer pusilânime e suspeito do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o relatório da PF documenta, de forma cabal, que Vorcaro tratava Moraes como um funcionário regiamente pago, cobrando-lhe providências, digamos assim, que nem a um advogado se cobra. Não estamos diante de um conjunto de ilações. Como revelou o Estadão, estão documentadas as relações promíscuas entre um investigado pela maior fraude financeira já praticada no País e um ministro do Supremo Tribunal Federal.
Se Moraes cometeu crimes ao se vender aos interesses comerciais de Vorcaro, só uma investigação técnica e um julgamento justo haverão de concluir. Mas é preciso reiterar com todas as letras: a despeito de sua situação jurídico-penal, Moraes já é um estorvo para o STF. Sua permanência na Corte se tornou o maior problema do Poder Judiciário desde a redemocratização do País. A premente necessidade de seu afastamento – seja voluntário, seja pela via constitucional do impeachment – independe do que um futuro inquérito policial venha a apurar sobre prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. A questão é moral antes de tudo. E questões morais têm de ser enfrentadas com coragem e um mínimo senso de decência pessoal.
Este jornal crê que ainda há, no Supremo, quem se preocupe com o papel da Corte como um dos pilares da República. É a essas autoridades que nos dirigimos, pedindo que examinem suas consciências e reconheçam que, ou bem o destino pessoal do sr. Moraes é desassociado do destino da instituição, ou o STF morrerá abraçado a um dos seus por reles corporativismo, quiçá cumplicidade. As consequências dessa segunda opção são imprevisíveis, mas, no limite, não será surpreendente se chegarem à desobediência civil.
Como presidente do STF, Fachin tem o dever de evitar esse desfecho trágico. A crise, no ponto a que chegou, não será debelada com um acerto de contas nos corredores da Corte nem muito menos com covardia. O plenário do STF precisa autorizar que uma investigação sobre a conduta de Moraes seja instaurada – e não só a dele, haja vista a relação que há entre Toffoli e Vorcaro por meio de investimentos do ministro no resort Tayayá – e criar as condições para que o próprio Moraes se afaste do cargo enquanto ela tramita, supondo, é claro, que o ministro tenha respeito por este país e pela instituição que integra.
A sobrevivência moral do STF como o conhecemos desde 1988 depende hoje da capacidade de seus ministros de provar à Nação que sabem o que significa proteger um dos seus e proteger a instituição.
Para blindar Moraes, Gonet usa decisão do STF que anulou processo julgado por Moro
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / COLINA DA MALU GASPAR
Ao defender a nulidade do relatório da Polícia Federal sobre a comprometedora troca de mensagens entre Daniel Vor Antes disso, no dia 15 de março, Soares enviou uma foto a Vorcaro ao lado de Gonet. “Liga aqui, ele quer falar com você”, escreveu ao banqueiro. Aparentemente, o carinho de Vorcaro por Gonet deve ser recíproco.
caro e o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, recorreu a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que anulou em 2020 um processo julgado pelo ex-juiz federal Sergio Moro no caso Banestado.
Entre os precedentes citados por Gonet ao longo das oito páginas do seu parecer está o caso do doleiro Paulo Roberto Krug, que conseguiu em agosto de 2020 que a Segunda Turma do STF anulasse uma condenação de 11 anos e nove meses de prisão que lhe havia sido imposta por Sergio Moro por envolvimento num esquema de fraude no antigo Banco do Estado do Paraná (Banestado).
A alegação da defesa de Krug, que foi endossada pelo STF, era a de que Moro atuou de forma parcial ao colher pessoalmente o depoimento dos delatores Alberto Youssef e Gabriel Nunes Pires no momento da assinatura do acordo de colaboração premiada, além de determinar a juntada de documentos após o prazo das alegações finais da defesa.
Os paralelos chamam a atenção já que Mendonça tem sido comparado a Moro pelos mesmos ministros do STF que atuaram para esvaziar a Lava-Jato e que agora tentam proteger Moraes. Além disso, tanto Moro quanto Mendonça ocuparam o cargo de ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro. E assim como Moro, Mendonça tem sido alvo de críticas por supostamente participar ativamente da produção de provas e direcionar as investigações. Procurado pelo blog, Moro informou que não se manifestaria. Mendonça também não comentou o parecer de Gonet.
‘Elementos de convicção’
No acórdão do julgamento de Krug, destacado por Gonet no parecer enviado a André Mendonça, o STF concluiu que “as circunstâncias particulares do presente caso demonstram que o juiz se investiu na função persecutória ainda na fase pré-processual, violando o sistema acusatório”.
É um argumento similar ao usado por Gonet agora para blindar Moraes, que foi um dos principais padrinhos da indicação e recondução de Gonet ao cargo de chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR). Gonet repudiou a atuação de Mendonça no caso do relatório policial sobre as mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes, alegando que o relator determinou uma investigação contra um colega sem consultar previamente o plenário do STF.
“Na realidade, o relator nem sequer detém competência para dirigir as ações policiais contra alvos que resolva mirar”, frisou o procurador-geral da República. “Quem investiga, na fase pré-processual é polícia judiciária, cabendo ao Ministério Público, como órgão de acusação, com a titularidade única para propor a ação penal, igualmente buscar elementos de convicção.”
O julgamento de Krug acabou empatado em 2 a 2, opondo de um lado Edson Fachin e Cármen Lúcia (que rejeitaram o pedido do doleiro), e de outro Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski (que ficaram do lado da defesa).
O regimento interno do STF determina que em caso de empate, deve prevalecer o entendimento favorável ao réu e por isso a condenação de Krug foi anulada. À época, o então decano do STF, Celso de Mello, estava afastado de licença médica, o que desfalcou o colegiado.
“Coisas muito estranhas aconteceram em Curitiba, naquela Vara Federal, que acabaram vindo à lume e foram amplamente divulgadas pela imprensa. E, agora, o Supremo Tribunal Federal tem condições de lançar um olhar mais verticalizado sobre o que ocorreu efetivamente em determinados processos”, disse Gilmar na ocasião.
“A partir da análise dos atos probatórios praticados pelo magistrado, verifica-se que houve uma atuação direta do julgador em reforço à acusação. Não houve uma mera supervisão dos atos de produção de prova, mas o direcionamento e a contribuição do juiz para o estabelecimento e para o fortalecimento da tese acusatória.”
Hoje, Gilmar é uma das principais vozes na Corte contrárias à adoção de um Código de Ética, defendido por Fachin, e à atuação de Mendonça no caso Master.
Uísque e charuto
O próprio Gonet é mencionado no relatório que pediu para ser anulado. O parecer do procurador-geral da República foi encaminhado com rapidez ao STF, apenas um dia após André Mendonça pedir que ele se manifestasse no caso. O relator havia dado um prazo de cinco dias.
Conforme informou o blog, as mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela PF mostram que o procurador-geral da República falou sobre a intenção de fumar charuto e beber uísque Macallan com o banqueiro em Londres. O encontro seria na segunda edição de um Fórum Jurídico patrocinado pelo Banco Master na Inglaterra, em 2025, que acabou sendo cancelado.
As mensagens de Gonet foram enviadas a Ciro Soares, ex-defensor do Banco Master, que as encaminhou para Vorcaro. No dia 28 de março de 2025, Soares enviou para Vorcaro uma mensagem em que Gonet diz “estar com saudade” do banqueiro. O ex-defensor do Master, ao encaminhar a mensagem, diz que o procurador-geral o “adora”.
Alexandre de Moraes precisa deixar o STF
Por Merval Pereira / O GLOBO
Não há possibilidade de Alexandre de Moraes continuar no STF- pelo menos, ele deveria se afastar enquanto as investigações acontecerem. Será uma vergonha se, mais uma vez, o STF tentar proteger um de seus membros diante de tantas evidências, conversas reveladas, de negócios, empréstimos de avião, e outros. Os comentários do PGR Paulo Gonet, perguntando se terá charuto e whisky Macallan são absurdos. E ainda pede para o filho entrar na boca livre de um banqueiro. Não é nem vergonha alheia, porque ela é nossa também - de ter um STF como esse. É muito desagradável ter que falar estas coisas, mas mais desagradável ainda é ter a desconfiança de que nada será feito. Ninguém acredita mais que o STF seja capaz de cortar na própria pele, de fazer uma mea culpa, de punir quem merece. O presidente Edson Fachin, que vende a ideia de um código de ética, tinha que ser muito mais contundente, mais afirmativo. Soltou hoje uma nota muito bem escrita, mas que no fundo não diz nada, apenas que vai analisar com calma. Vamos ver se o STF consegue superar as expectativas negativas e agir
Moraes tem de sair do Supremo
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Alexandre de Moraes não tem mais condições de seguir como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e deveria pedir exoneração do cargo, para o bem da própria Corte. As revelações feitas pelo Estadão de que Moraes ajudou a elaborar o contrato milionário entre o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, desmentem categoricamente que o ministro fosse alheio ao acerto e a todas as suas implicações éticas e legais.
Para começar, participar da elaboração de um contrato é exercício de advocacia, atividade incompatível com a magistratura. Mas as mensagens do celular de Vorcaro tornadas públicas ontem pintam um quadro muito mais grave. O banqueiro, pivô do maior escândalo da história do sistema financeiro nacional, tratava Moraes como alguém a quem podia recorrer para influir no curso de investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, perguntou, em referência ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Em outra mensagem: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Não se sabe o que Moraes respondeu. Pouco importa, porque já não se pode negar o que está diante dos olhos: um investigado por fraudes bilionárias buscava num ministro informação, orientação e intervenção sobre atos da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), enquanto seu banco pagava somas exorbitantes ao escritório de sua família – contrato que tem as digitais do próprio Moraes.
Há perguntas que só uma investigação responderá. Moraes procurou Gonet? Falou com Andrei? Tentou retardar diligências? Transmitiu informações sigilosas? Dependendo das respostas, podem estar em jogo ilícitos de imensa gravidade, como prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. Gonet não pode continuar tratando esse material como “insuficiente”, como já o fez no passado, sem cair ele mesmo em suspeição.
Gonet arquivou anteriormente uma representação contra o ministro. Agora surgiram evidências novas, e uma delas envolve o procurador-geral nominalmente: Vorcaro pedia a Moraes que recorresse ao próprio Gonet para conter a investigação. André Mendonça já cobrou esclarecimentos da PGR e avalia os próximos passos. Se isso ainda não basta para abrir uma investigação formal e independente, é difícil saber o que bastaria.
Investigar, porém, resolve apenas parte da crise. As suspeitas recaem justamente sobre o uso do poder que Moraes continua exercendo. O homem que lhe pedia ajuda para alcançar o chefe da PF e o procurador-geral era o dono do banco que despejava dezenas de milhões de reais no escritório de sua mulher. O ministro participou pessoalmente do contrato e agora pode ter de ser investigado pelas mesmas instituições sobre as quais Vorcaro esperava que ele exercesse influência. Essa situação é incompatível com a normalidade institucional.
Moraes tem direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as garantias legais que tantas vezes negou a outros, mas essas garantias não obrigam o Supremo a carregar, por tempo indefinido, o peso de um ministro cuja permanência compromete a autoridade da própria Corte.
O STF já errou demais no caso Master. Dias Toffoli, que também mantinha negócios com Vorcaro, só deixou a relatoria do caso depois que sua posição se tornou insustentável. Agora a crise atinge Moraes em outro patamar – o mesmo ministro que tantas vezes invocou a defesa do STF e do Estado Democrático de Direito para justificar o exercício de seus poderes. Chegou a hora de demonstrar que seu compromisso com as instituições vale também quando o sacrifício é seu.
Moraes tem de deixar o Supremo. Sua responsabilidade criminal será apurada, mas a responsabilidade institucional já se impõe. Se ele se recusar a retirar esse peso da Corte, sua permanência terá de ser enfrentada por quem a Constituição encarregou de julgar crimes de responsabilidade de ministros do STF: o Senado. Defender o Supremo, agora, significa impedir que a crise de um ministro se torne a crise da instituição.
STF deve cobrar explicações urgentes de Moraes
Por Editorial / O GLOBO
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes continua a dever explicações convincentes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master preso por ter comandado a maior fraude bancária da História do Brasil. O relatório da Polícia Federal (PF) revelado nesta terça-feira traz indícios que expõem um grau de proximidade entre Vorcaro e Moraes incompatível com a isenção e a imparcialidade indispensáveis a qualquer magistrado, ainda mais a um ministro da mais alta Corte do país.
No relatório, cujo conteúdo foi revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo, a PF atribui a Vorcaro mensagens endereçadas a Moraes, enviadas por um sofisticado mecanismo destinado a proteger a comunicação. Segundo a apuração dos investigadores, é possível afirmar que Moraes é o destinatário dessas mensagens. Suas respostas a Vorcaro não foram encontradas, porém, porque seu celular não foi periciado.
O ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, solicitou à Procuradoria-Geral da República que se manifestasse sobre as conclusões da PF, levantou o sigilo do caso e pediu uma sessão pública, transparente e presencial para examinar as evidências. “O caminho inevitável dos presentes autos leva ao plenário deste STF”, afirmou. A PGR se pronunciou, alegando que a investigação deveria ser anulada, pois não cabe a Mendonça investigar Moraes, prerrogativa exclusiva do Ministério Público.
Independentemente do desfecho jurídico do caso, com tudo o que já se sabia mais o conteúdo revelado nesta terça-feira, torna-se verossímil a versão segundo a qual Vorcaro contava com Moraes para protegê-lo de investigações que sabia estarem em andamento. Caso o ministro não consiga explicar os fatos, poderá ser ele próprio investigado.
Desde o ano passado, quando a colunista do GLOBO Malu Gaspar revelou o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório de advocacia da mulher de Moraes, o ministro tem escolhido o silêncio ou se manifestado por meio de notas lacônicas, emitidas por vezes semanas depois dos fatos. No início do ano, a própria Malu Gaspar revelou uma mensagem enviada por Vorcaro ao celular de Moraes horas antes de ser preso: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Segundo o relatório da PF, essa foi a mensagem culminante numa sucessão de outras nos dias anteriores. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, dizia, dois dias antes da prisão, uma mensagem em que, na interpretação da PF, Vorcaro se referia ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues — ambos convidados dele numa viagem a Londres em abril de 2024, coroada por degustação de uísque. “O Paulo só disse que tava olhando pessoalmente”, afirmava outra mensagem. “E com Andrei dá pra segurar?”, perguntava uma terceira, a menos de 24 horas da prisão. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, questionava, insinuando estar preparado para deixar o país caso necessário. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Muito obrigado por tudo”, afirmava outra mensagem, sugerindo que Moraes já havia respondido a demandas de Vorcaro no passado.
A PF encontrou evidências de que a minuta do contrato do Master com o escritório de advocacia foi editada pelo próprio Moraes. O escritório confirmou que envia contratos ao ministro e alegou que ele buscava “eventuais impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual”. Mas a dúvida ética persiste.
Todos os citados no relatório da PF têm esclarecimentos a prestar. Gonet era mesmo o Paulo das mensagens? E, se era, deu algum acesso especial a Vorcaro? Rodrigues era o Andrei citado? Foi instado ou tentou “segurar” alguma investigação? Por fim, a Moraes cabe não apenas se dizer honesto, mas demonstrar sua honestidade. Ninguém pode ser ou será considerado culpado de antemão. Mas a sociedade precisa de explicações. O silêncio ou notas lacônicas não serão suficientes.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes durante sessão plenária — Foto: Brenno Carvalho/O Globo
Mensagens em poder da PF expõem elos e indicam atuação de Moraes a favor de Vorcaro
FOLHA DE SP
Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicaram a atuação do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), a favor do ex-banqueiro e colocaram os órgãos da cúpula do Judiciário em uma crise inédita.
A retirada de sigilo da investigação nesta terça-feira (1º) , por decisão do ministro André Mendonça, aponta que, dias antes de ser preso pela PF, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país. O conteúdo revela ainda que o dono do Master, atualmente preso, pediu encontros com o magistrado para tratar dos negócios que o tornaram alvo de investigação por fraude bancária bilionária —e que eles se encontraram pelo menos seis vezes.
As informações em poder da PF mostram também que Moraes fez edições no contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Master, antes de o documento ser assinado. Procurado pela reportagem, o ministro não se manifestou.
Além de acirrar uma guerra interna dentro do STF e de mobilizar a oposição pelo impeachment de Moraes, as revelações geraram reação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, também citado nas conversas. Ele pediu a anulação do relatório da PF e disse que Mendonça "se valeu da polícia" para "impor a investigação" de Moraes, exercendo "atividades que não lhe foram assinaladas".
Mendonça solicitou ao presidente do STF, Edson Fachin, para que seja marcada sessão presencial do plenário do STF para debater as mensagens. Ele havia pedido que a PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifestasse sobre o caso, no qual aparecem também mensagens em que Vorcaro pede a um interlocutor a atuação de "Andrei e Paulo" a seu favor —as referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet.
Vorcaro foi preso pela PF no dia 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Documentos mostram que no dia 14 ele pergunta a Moraes se está "marcado amanhã lá em casa" ou se "prefere deixar para semana que vem". Minutos depois, confirma: "Vou chegar 14:30 ok! La em casa marcado".
Na noite do dia 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, o ex-banqueiro pede um encontro com Moraes que "pode ser bem rápido". "As 14 então. Passo na sua casa ou na minha?", completa.
Na ocasião, um sábado, Vorcaro envia a Moraes a mensagem: "Acha que segunda já tenho que estar fora?", questionando sobre a necessidade de sair do país. No dia seguinte, 16, um domingo, avisa: "Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?"
As trocas de mensagem sobre os encontros aconteceram simultaneamente a outras mensagens, nas quais Vorcaro questionava Moraes sobre o andamento do processo contra ele e o Master.
Durante as trocas, o dono do Master pergunta diversas vezes sobre as apurações contra ele, se mostra indignado e diz que está tentando resolver todas as pendências para evitar problemas.
As conversas entre Vorcaro e Moraes constam de material apreendido no celular do ex-banqueiro. Vorcaro costumava mandar mensagens em visualização única, que somem logo após serem lidas, e fazia isso enviando prints de textos anotados no bloco de notas do celular. A PF foi capaz de recuperar o conteúdo.
O relatório produzido mostra ainda que Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro (PL), intermediou o contato entre Vorcaro e Moraes. De acordo com o material, Faria repassou os números de telefone de Moraes a Vorcaro, no final de 2023, por meio do aplicativo WhatsApp, que foi salvo logo em seguida em sua agenda.
Logo em seguida, Faria encaminhou mensagem ao dono do Master mencionando "Alex" e "almoço no dia 30". A PF registrou também que, no mês seguinte, o ex-ministro de Bolsonaro perguntou a Vorcaro se ele poderia falar, pois iria conversar com interlocutor não nominado no diálogo, ao qual se refere por meio do emoji de "homem careca".
No mesmo dia, ele perguntou se Vorcaro "respondeu a Vivi". Dois dias depois, em 17 de janeiro de 2024, o contato "Vivi Moraes" retornou com a versão final do contrato firmado entre o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o dono do Master.
O acordo teve a sua última modificação feita pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes", em 15 de janeiro de 2024, conforme metadados do documento.
Em outra mensagem, Faria enviou mensagem a Vorcaro informando que havia confirmado jantar com "o Careca" para o início de fevereiro. Já em março de 2024, foi pedido um outro encontro por ele a Moraes, que respondeu que não conseguia jantar, mas teria tempo "de tomar um whisky".
Em nota, Faria disse que sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça de São Paulo, que não se reuniu em nenhum momento com a banca e "sequer tomou conhecimento dos valores contratados entre as partes".
Regras de conduta para Judiciário são bem-vindas
Por Editorial / O GLOBO
É oportuna a proposta do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de criar uma política de prevenção e gestão de conflitos de interesses no Judiciário. As regras estabelecidas pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional na década de 1970 e as posteriores, como as determinadas pelo Código de Ética da Magistratura de 2008, já demonstraram ser insuficientes. A imparcialidade dos juízes tem sido manchada com frequência por relações impróprias e conflitos de interesses.
O texto de Fachin prevê diretrizes para identificar potenciais problemas antes que surjam. Disciplina a participação dos magistrados em eventos patrocinados, o recebimento de presentes e o relacionamento profissional de seus familiares com grandes litigantes. Por não estar subordinado ao CNJ, o STF está infelizmente fora do escopo da iniciativa. Por isso mesmo, a formulação do Código de Ética prometido por Fachin para integrantes do Supremo deveria correr em paralelo, sem atrasos.
Fachin apresentou sua proposta de regras para o Judiciário em sessão plenária do CNJ nesta terça-feira. Em seguida, foi dado prazo de 60 dias para que tribunais e entidades apresentem sugestões. Ao fim, uma versão final das regras será redigida e avaliada pelos conselheiros do CNJ. Caso seja aprovada, o CNJ terá 120 dias para elaborar um guia, depois os tribunais contarão com 180 dias para se adaptar. Mesmo que demore até 2027 para entrar em vigor, a iniciativa é bem-vinda. Se a versão final não for desfigurada, ajudará a melhorar a governança e a fortalecer a credibilidade da Justiça.
Pela iniciativa de Fachin, os tribunais terão de criar canais de consulta para orientar magistrados e servidores antes de decisões ou da participação em atividades. As orientações não terão caráter disciplinar, mas indicarão o que é considerado boa prática. Programas de integridade e gestão de riscos terão de contemplar a prevenção de conflitos de interesses, divididos em três modalidades. A explícita, situação em que um interesse privado interfere no exercício da função pública; a potencial, em que se criam condições para que isso ocorra; e a aparente, em que não há influência, mas circunstâncias que podem pôr em questão a independência ou a imparcialidade do magistrado.
Cortes constitucionais de outros países têm buscado aperfeiçoar as regras para evitar conflitos de interesses. Na Alemanha, os 16 integrantes do Tribunal Constitucional publicaram em 2018 novas diretrizes, entre elas a obrigação de divulgar honorários recebidos por palestras. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte passou a adotar um Código de Ética em 2023. Embora vago, foi considerado um passo relevante no rumo da transparência.
A sociedade perderia caso juízes ficassem proibidos de participar de seminários ou congressos, muitas vezes importantes para ampliar conhecimentos necessários a julgar melhor. Os problemas surgem quando a presença deles nesses eventos é encarada como oportunidade para ganhar sua simpatia, e a viagem — muitas vezes carona em jatos privados de “amigos” —, a hospedagem e os patrocínios correm por conta de atores interessados no resultado de processos. A credibilidade da Justiça e de suas decisões tem sofrido com essa promiscuidade. Fachin fez bem ao dar início a mudanças nas instâncias inferiores. Não deveria perder tempo para levá-las ao Supremo.
O presidente do STF, ministro Edson Fachin — Foto: Brenno Carvalho/ Agência O Globo/02/02/2026
PF rejeita delação de Daniel Vorcaro por falta de informações relevantes para justificar acordo
A Polícia Federal rejeitou o acordo de delação premiada oferecido pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As informações apresentadas por Vorcaro foram consideradas insuficientes pelos investigadores responsáveis pelo caso.
A avaliação da PF é que os relatos feitos pelo ex-banqueiro não eram relevantes para justificar o acordo e não foram além das provas que já haviam sido obtidas nas apurações do caso.
Formalmente, Vorcaro pode apresentar fatos novos à própria Polícia Federal ou buscar um acordo apenas com a PGR (Procuradoria-Geral da República), na tentativa de convencê-los a aceitar um acordo. Autoridades que acompanham o caso, no entanto, afirmam ser pouco provável que ele tenha sucesso.
O ex-banqueiro vinha negociando um acordo conjunto com a PF e a PGR. Uma pessoa diretamente envolvida no caso aponta, de forma reservada, que Vorcaro não admitiu nos anexos entregues aos órgãos fatos que constam em seus próprios telefones celulares, apreendidos em fases da operação Compliance Zero.
Também há o diagnóstico de que Vorcaro não cumpriu os requisitos de boa-fé exigidos em acordos de colaboração. Segundo investigadores, ele teria tentado justificar os crimes que cometeu, enquanto as regras da delação premiada preveem que o delator precisa admitir todos os ilícitos dos quais participou e de que tem conhecimento.
A defesa de Vorcaro sinalizou a investigadores que tentará uma negociação direta com a PGR, deixando a PF de lado. Para isso, porém, os procuradores precisariam dar aval às informações que já foram rejeitadas pela PF. Seria necessário ainda obter a aprovação do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal).
Alguns termos da proposta apresentada por Vorcaro também enfrentam resistência na PGR. Um dos itens que contrariaram a PF e também têm resistência de procuradores foi a proposta de devolver cerca de R$ 40 bilhões em 10 anos. Como a Folha mostrou, a PF e a PGR querem que ele ressarça R$ 60 bilhões que teria desviado em fraudes do Banco Master e em um prazo mais curto.
Vorcaro é considerado o líder do esquema investigado, e por isso as autoridades consideram que os termos aplicados a ele na negociação devem ser rígidos. Os custos da quebra do Master superam os R$ 57 bilhões até o momento, segundo dados divulgados.
Somente os recursos que terão de ser ressarcidos aos clientes pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), mantido com recursos dos bancos, são estimados em R$ 51,8 bilhões. O valor exato da perda total ainda é desconhecido.
Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro do ano passado, quando tentava embarcar para o exterior, no aeroporto de Guarulhos (SP). A PF aponta que ele tentava fugir do país, mas ele argumenta que viajaria para encontrar investidores interessados em comprar o Master.
Ele foi solto dez dias depois e voltou a ser preso em 4 de março, em fase da operação policial Compliance Zero que também atingiu servidores do Banco Central. Atualmente, Vorcaro está detido na Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal.
Até então, a equipe de defesa que atuava no caso recusava a possibilidade de uma delação. Nos bastidores, a informação era a de que Vorcaro insistia que poderia explicar todas as acusações contra ele no mérito do processo, ou seja, sobre as fraudes e os crimes financeiros.
Nesta semana, a PF o transferiu para uma cela comum na superintendência do órgão, em Brasília. Até então, ele estava preso na cela preparada para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atualmente em prisão domiciliar.
O ex-banqueiro está na superintendência da PF desde 19 de março, quando indicou ao ministro a intenção de assinar um acordo de delação premiada.
A PF continuou realizando novas fases de operações, independentemente da delação de Vorcaro. No último dia 7, a PF cumpriu mandado de busca e apreensão em endereços do senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP.
Entre as principais suspeitas da PF estão a de que o senador, que foi ministro da Casa Civil na gestão Bolsonaro, recebia quantias repassadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, dono do banco. Além disso, de acordo com as investigações, haveria o pagamento de outras despesas pessoais do parlamentar, como viagens de jatinho.
Felipe teria feito uma parceria "ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil". O primo de Vorcaro foi preso temporariamente.
No dia 14 de maio, a PF prendeu Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, em Belo Horizonte. Henrique está sendo investigado por participar do grupo conhecido como A Turma, usado pelo dono do Banco Master para ameaçar adversários e definida pela PF como "organização criminosa suspeita de praticar condutas de intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos".
STF tende a validar PL da Dosimetria, mas com recados sobre combate a atos antidemocráticos
Luísa Martins / FOLHA DE SP
O STF (Supremo Tribunal Federal) tende a validar a redução de penas para condenados do 8 de Janeiro e da trama golpista, mas com uma série de recados sobre a necessidade de combater com rigor qualquer novo ataque à democracia.
Parte dos ministros discorda do PL da Dosimetria por entender que a medida significa um incentivo a novos atos antidemocráticos, mas mesmo entre esses magistrados há um consenso de que a definição das penas é uma prerrogativa do Congresso Nacional.
A leitura desse grupo é de que a severidade das punições era uma espécie de vacina contra um novo atentado às sedes dos três Poderes, risco que, em ano eleitoral, a área de segurança do Supremo não despreza.
Ao mesmo tempo, os magistrados avaliam que, se as punições foram altas, isso se deve ao próprio Congresso, já que a dosimetria foi calculada com base nas penalidades previstas em lei (ou seja, definidas anteriormente pelo Legislativo) para cada tipo de crime.
O líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), disse à Folha que, assim que a lei for promulgada, o partido vai entrar com uma ação no Supremo pedindo que a norma seja declarada inconstitucional. A judicialização já era esperada pelos magistrados da corte.
O processo será sorteado a um ministro relator, que vai avaliar se é o caso de conceder uma liminar para suspender temporariamente a lei (sujeita a referendo do plenário) ou se será adotado um rito abreviado, para julgamento de mérito direto no colegiado.
Segundo um ministro do STF e interlocutores de outros quatro ouvidos pela Folha, o cenário que se desenha é de uma maioria pela manutenção da lei, por respeito ao princípio constitucional da separação dos Poderes.
Nos gabinetes dos magistrados, houve comentários sobre uma possível afronta à impessoalidade, já que o projeto avançou para beneficiar um determinado grupo de pessoas.
Porém, a percepção é de que o momento institucional do Judiciário, que enfrenta a sua mais grave crise de credibilidade em meio às repercussões do caso Banco Master, é considerado delicado demais para qualquer interpretação mais ousada.
A ala que prega um Supremo mais autocontido em relação às iniciativas do Congresso —caso, por exemplo, de André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Edson Fachin, presidente da corte— deve votar pela constitucionalidade da lei que diminui as punições.
O decano, ministro Gilmar Mendes, já declarou publicamente que o Congresso tem atribuição para reduzir as penas, ponderando que a situação seria diferente caso a deliberação fosse por conceder anistia ampla aos condenados, o que seria inconstitucional.
Flávio Dino também já se posicionou. "O Congresso pode mudar [a lei penal]? Pode. Eu, particularmente, espero que não o faça, porque considero que a lei vigente é boa", disse ele em outubro passado, durante evento em São Paulo.
O relator das investigações sobre atos antidemocráticos, Alexandre de Moraes, chegou a dizer em dezembro, em sessão da Primeira Turma, que "atenuar as penas seria um recado à sociedade de que o Brasil tolera ou tolerará novos flertes contra a democracia".
No entanto, ele sinalizou a uma pessoa próxima que, se essa foi a opção do Congresso, cabe a ele apenas aplicar as mudanças a pedido das defesas, pois alterações legais que sejam mais benéficas aos réus devem obrigatoriamente retroagir.
Moraes só negou o pedido feito pela cabeleireira Débora Rodrigues, conhecida como "Débora do Batom", porque a lei ainda não está em vigor. Na quinta-feira (30), o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto, mas até agora não houve a promulgação da norma.
Como mostrou a Folha, Moraes foi um dos ministros do STF a manter um canal de diálogo com parlamentares sobre os contornos do projeto de lei, dando até sugestões concretas para a redação do texto.
Assessores e auxiliares de ministros avaliam que a vigência do projeto de lei da dosimetria pode ajudar a arrefecer as tensões, ao mesmo tempo em que preserva o poder do STF na execução das penas.
Isso porque a aplicação efetiva das novas regras ainda ficará a cargo de Moraes, que vai analisar os requerimentos das defesas caso a caso. Cinco advogados de condenados pela trama golpista relataram à Folha que já estão preparando os pedidos de recálculo.
O ministro deve deixar claro no julgamento da ação do PT que, apesar de os réus terem direito à lei mais benéfica, não vai recuar no enfrentamento a atos antidemocráticos e que as investigações sobre milícias digitais vão prosseguir com a devida firmeza.
De acordo com relatório divulgado por Moraes em 26 de abril, 1.402 réus já foram responsabilizados pelo 8 de Janeiro e pela trama golpista, dos quais 850 foram condenados a penas privativas de liberdade. Deles, 419 tiveram pena convertida em serviços comunitários.
Afora os ANPPs (Acordos de Não Persecução Penal), firmados com o Ministério Público, a penalidade mínima foi de três meses de prisão e a máxima, de 27 anos e três meses, caso do ex-presidente Jair Bolsonaro. A maior parte dos réus (404 casos) foi condenada a um ano.
Com a nova lei, a pena de Bolsonaro pode ser reduzida para 22 anos e um mês, com progressão de regime mais rápida. Atualmente, a previsão é de cinco anos e 11 meses em regime fechado, prazo que pode diminuir para três anos e três meses.

