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Caso Master: Toffoli coloca BC sob a lei do silêncio e impede o País de ter acesso aos fatos

Por Alvaro Gribel / O ESTADÃO DE SP

 

 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)Dias Toffoli detém sob sigilo - e sob controle - as informações mais sensíveis da República: o inquérito referente ao Banco Master. Na prática, isso significa que o órgão regulador do sistema financeiro, o Banco Central, está impedido de prestar informações ao País, já que também está submetido a essa lei do silêncio.

Documentos, atas, notificações, trocas de e-mails, mas principalmente entrevistas estão proibidas de serem prestadas à imprensa, e, com isso, as defesas de todos os investigados conseguem igualar o jogo e espalhar versões que tentam colocar o investigador em papel de investigado. O BC tem muito a esclarecer, mas está impedido - o que só ajuda a tornar o caso mais obscuro.

O depoimento do diretor de fiscalização Ailton de Aquino foi a única oportunidade que o Banco Central teve de se expressar até agora, e o Estadão revelou que havia intenções por trás de cada pergunta enviada por Toffoli à delegada Janaína Palazzo, com comentários por escrito de que buscava encontrar “omissões e contradições” nas falas do chefe pela área de fiscalização.

Aquino tomou um chá de cadeira de mais de dez horas no STF antes de prestar depoimento e foi impedido de falar por videoconferência. Falou por último, depois de a PF ter escutado os dois investigados do caso, o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. Naquela situação, o representante do órgão regulador falava como testemunha, mas era tratado como se precisasse prestar contas das suas ações.

Em um dos momentos mais constrangedores dos depoimentos, Palazzo é cobrada pelo juiz auxiliar Carlos Vieira von Adamek, do gabinete de Toffoli, para que fizesse as perguntas do magistrado após a primeira audiência, com Vorcaro.

Espantada, Palazzo explica que já havia abordado todos os temas, e questiona se Adamek queria que tudo fosse refeito, lendo palavra por palavra; ele apenas balança a cabeça com um “sim”. Não basta impor sigilo sobre o caso, é preciso deixar a delegada que cuida do inquérito em posição desconfortável para fazer o seu trabalho à frente dos investigados.

O Master era um banco de R$ 75 bilhões de ativos, um peixe pequeno na Faria Lima, mas que usava os recursos captados de pequenos investidores pessoas físicas para pagar consultorias, escritórios de advocacia e patrocinar eventos com autoridades do primeiro escalão de Brasília. Só isso explica o interesse do STF no caso.

Com o sigilo, Toffoli impede o País de ter acesso aos fatos e o Banco Central de dar explicações sobre o caso.

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Opinião por Alvaro Gribel

Repórter especial e colunista do Estadão em Brasília. Há mais de 15 anos acompanha os principais assuntos macroeconômicos no Brasil e no mundo. Foi colunista e coordenador de economia no Globo.

Parentes de ministros do STF têm 70% dos casos no Supremo e STJ após posse de familiares

Por Weslley Galzo e Hugo Henud / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA E SÃO PAULO – Parentes de primeiro grau de oito dos dez atuais ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram um salto na atuação em tribunais superiores após a ascensão de seus familiares à cúpula do Judiciário. Levantamento realizado pelo Estadão mostra que 70% dos processos com a participação desses advogados foram protocolados depois de os ministros serem empossados no STF.

 

A reportagem contabilizou 1.860 processos no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que contam com a participação de parentes dos ministros Alexandre de MoraesDias ToffoliEdson Fachin, Luiz FuxCristiano ZaninGilmar MendesKassio Nunes Marques e Flávio Dino. Desse montante, 1.289 casos tiveram início após esses magistrados se tornarem membros da Suprema Corte, o equivalente a sete em cada dez ações. Outros 571 processos com envolvimento dos advogados parentes dos magistrados tiveram início antes das suas posses.

O Estadão obteve resposta de apenas três dos oito parentes de ministros citados. São eles: Melina Fachin, Guiomar Feitosa e Rodrigo Fux. Todos argumentaram que os casos em que atuaram nos tribunais superiores foram originados em instâncias inferiores e que se mantiveram nos processos quando ascenderam aos tribunais dos parentes.

 

André Mendonça e Cármen Lúcia não têm parentes de primeiro grau com ações nos dois tribunais.  Em nota, o STF afirmou que os ministros cumprem rigorosamente as normas, “abstendo-se de atuar em qualquer causa em que haja impedimento legal”. “O Supremo Tribunal Federal (STF) esclarece que a atuação de profissionais da advocacia que possuem parentesco com magistrados é regulada pelo Código de Processo Civil e pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), que estabelecem hipóteses claras de impedimento e suspeição”, afirmou. (Leia a nota completa abaixo.)

 

A atuação de parentes advogados em tribunais nos quais há juízes familiares não é ilegal. Juristas e especialistas, porém, avaliam que o crescimento desse tipo de atuação reforça a necessidade de regras mais claras de transparência e de salvaguardas éticas capazes de preservar a legitimidade institucional da Corte e a percepção pública de imparcialidade.

 

“Do ponto de vista do cliente, a aposta é que ter um parente de ministro do STF como advogado leve os membros do STJ ou do próprio STF a analisarem o caso com mais cuidado, dadas as relações institucionais”, disse Bruno Carraza, autor do livro O País dos Privilégios.

 

O desembargador aposentado Walter Maierovitch argumenta que, “no campo dos indícios”, há elementos significativos de que o aumento está relacionado “ao vínculo de parentesco e à crença malandra de se poder obter, em razão disto, alguma vantagem no julgamento da causa”. Ele pondera, contudo, que outros fatores devem ser considerados, como o momento de entrada na causa e o tipo de ação.

 

As normas em vigor exigem, em linhas gerais, a declaração de impedimento do ministro para julgar processos nos quais haja atuação direta de parentes. seccional de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) apresentou ao presidente do STF, Edson Fachin, uma proposta de código de ética para ministros de Cortes superiores, cujo conteúdo veda a atuação dessas autoridades em processos que tenham parentes até o terceiro grau, amigos íntimos, advogados ou escritórios com vínculo direto com o magistrado. Os ministros também ficariam impedidos de julgar casos em que o resultado possa resultar em benefício pessoal ou a pessoas próximas.

 

Mulher de Moraes, ex-mulher de Toffoli e filho de Fux aumentaram atuação em Cortes superiores

O Estadão já mostrou que a atuação da mulher do ministro Alexandre de Moraes, a advogada Viviani Barci, aumentou de 27 processos no STF e no STJ para 152 nos mesmos tribunais após a posse do marido, um salto de 463%. Em muitos desses processos, Viviane contou com o apoio dos filhos do casal, que também são advogados.

A atuação do escritório passou a ser alvo de questionamentos após a revelação de um contrato de R$ 129 milhões firmado com o Banco Master, instituição que acabou liquidada em meio a suspeitas de fraudes financeiras estimadas em cerca de R$ 12,2 bilhões.

 

O mesmo ocorreu com a ex-mulher do ministro Dias Toffoli. Roberta Maria Rangel viu seus processos saltarem de 53 para 127, um aumento de cerca de 140%.  Já o filho do ministro Luiz Fux, o advogado Rodrigo Fux, saiu de cinco para 544 processos no STF, incluindo ações contra a Petrobras e um processo que tem como parte interessada o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Ao todo, 99% das ações com atuação do advogado nessas instâncias foram protocoladas após a posse de Fux no Supremo, em 2011. Procurado, Rodrigo Fux afirmou, em nota, que sempre atuou em processos desde a origem da causa e que a maioria das ações chegou ao STF por iniciativa da parte contrária.

 

Fachin: atuação da filha em defesa de Itaipu e Paraguai

Filha do atual presidente do Supremo, Edson Fachin, Melina Girardi Fachin concentrou a maior parte de sua atuação no STF e no STJ após a chegada do pai à Corte. Do total de processos em que a advogada atuou nessas instâncias, 69,5% foram protocolados depois da posse de Fachin, em 2015. No STF, três dos sete processos tiveram início após a nomeação do ministro. Já no STJ, esse número sobe para 63 dos 88 casos no mesmo período.

 

Em nota, a advogada afirmou que as ações nas quais atuou no STF estiveram sob sua responsabilidade desde as instâncias inferiores e, pelo curso natural das ações, chegaram aos tribunais superiores.

 

“Em toda nossa atuação profissional, mas sobretudo desde a posse do Ministro Fachin no Supremo, o elevado filtro ético permeia nossa atuação advocatícia para selecionar, a partir de nossa competência técnica, quais causas patrocinamos”, afirmou em nota Marcos Gonçalves, marido de Milena. “É natural que em 20 anos de atividade profissional nossa carteira de atuação tenha se expandido, marca do nosso bom trabalho e da credibilidade que construímos.”

 

Melina teve como principais clientes no STF a Itaipu Binacional e a República do Paraguai – advogados estrangeiros são impedidos por lei de atuarem no Brasil, o que exige que empresas internacionais e outras nações contratem defensores brasileiros para representá-los no País.

 

Dos seus sete processos na Suprema Corte, três foram representando o país vizinho e dois a empresa de dupla nacionalidade. Em um desses casos como advogada do Paraguai, Melina conseguiu derrotar o Ministério Público Federal (MPF), que ingressou com ação no STF para que o Tribunal de Contas da União (TCU) fosse autorizado a realizar a “fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial de todos os atos, contas e contratos” da Itaipu. A empresa, a União e o Paraguai foram contra o MPF.

 

O caso foi registrado em 2012, antes da posse de Fachin, e o julgamento só ocorreu em 2020, com o ministro já como membro do STF. O magistrado se declarou impedido de participar do julgamento por causa da atuação da filha como advogada no caso. Sem Fachin, o plenário foi unânime contra o pedido do MPF. Procurada, a Itaipu afirmou que “mantém, há muitos anos, contratos regularmente firmados com o escritório Fachin Advogados Associados, todos celebrados muito antes da posse do ministro Edson Fachin no Supremo Tribunal Federal, em 2015″. (Leia a nota completa ao final do texto.)

 

Em entrevista ao Estadão, o ministro disse que a discussão não pode ter “filhofobia”, em referência aos filhos de ministros que atuam como advogados“Por que um filho deve mudar de profissão quando o pai vira juiz? Não precisa. Agora, precisa ter transparência. Faz o quê? Advoga onde? Em que termos? Em quais ações? Tudo isso tem que estar transparente”, disse o ministro, ao defender que essas regras sejam incorporadas ao código de ética dos tribunais superiores, proposta que ele vem articulando com colegas do Supremo.

 

Gilmar: Guiomar Feitosa e as causas envolvendo Vale e Braskem

O ministro Gilmar Mendes teve o filho Francisco Mendes e a ex-mulher Guiomar Feitosa com causas nos tribunais superiores após a sua posse. Tanto no Supremo quanto no STJ, todos os processos assumidos por eles tiveram início depois de ele tomar posse na Corte, em 2002. Mas há particularidades na atuação dos dois. A advogada se casou com o ministro em 2007 e só passou a atuar profissionalmente como advogada a partir da década de 2010, quando deixou o serviço público e os cargos comissionados que exerceu para atuar no escritório Bermudes Advogados. Essa é a razão que faz com que todos os seus processos tenham sido iniciados após a posse do marido. Já Francisco advogou em apenas um caso no STF, em 2016.

 

Em nota, a advogada e ex-mulher do ministro disse que não atua em processos no STF e que seu nome aparece vinculado à Corte em referência a “atuações realizadas em instâncias inferiores, que chegaram ao STF por força do sistema recursal, hipótese em que o registro do nome do advogado permanece nos autos por razão formal, sem correspondência com atuação efetiva na instância superior”. (Leia a nota completa mais abaixo.)

 

Sobre os casos no STJ, ela argumenta que sua “atuação equivale a um número consideravelmente menor, frente ao volume de processos do escritório”. O ministro Gilmar Mendes enfatizou os argumentos da ex-mulher em nota à reportagem e declarou que não atuou em nenhum dos três processos defendidos por ela que chegaram ao STF.

Em uma caso de 2019 no STJ, Guiomar atuou na defesa da Braskem em um processo que trata de pedidos de bloqueio de recursos superiores a R$ 100 milhões da empresa, no contexto dos danos causados pela mineração realizada pela companhia em Maceió. O processo foi encerrado em 2020 após um acordo entre as partes, homologado pela Justiça Federal, o que levou ao arquivamento do pedido no STJ sem julgamento do mérito. Procurada pelo Estadão, a Braskem não respondeu.

 

Nunes Marques: defesa da JBS e da Equatorial pela irmã Karine Marques

Nunes Marques, por sua vez, tem a irmã Karine com atuação em tribunais superiores. Karine atua em diversos casos pela Equatorial Energia Piauí, concessionária responsável pela distribuição de energia elétrica no Estado, e também integrou a defesa da JBS, dos irmãos Joesley Batista Wesley Batista, em um recurso apresentado em 2023 pela Distribuidora de Carnes Equatorial em uma disputa de R$ 50,4 milhões.

 

O caso não teve o mérito analisado: em 2024, o tribunal rejeitou os embargos de declaração e manteve a decisão que barrou o recurso por falha processual, ao entender que a parte recorrente não atacou todos os fundamentos da decisão anterior. Com isso, prevaleceu o resultado favorável à JBS no STJ. Karine afirmou em resposta à reportagem que “nunca atuou no STF nem no TSE” e que não possui parente no STJ. Ainda segundo a advogada, “ela já era responsável por diversos processos antes da nomeação de seu irmão como ministro”. (Leia a nota completa no fim da reportagem.)

 

“O resultado exibido no site do STF não se refere a um caso em que Karine Marques atue ou tenha atuado no tribunal. Trata-se de um recurso apresentado por outra parte de uma ação em que ela havia atuado em instâncias anteriores e à qual ela renunciou quando chegou ao Supremo, como comprova o documento anexo”, justificou.

A advogada enviou o comprovante de desistência da causa no STF, que foi confirmado pelo Estadão. Ela afirmou ainda que segue atuante em 36 casos no STJ e que desistiu dos demais após se desligar da empresa em que trabalhava, em 2022.

 

Em nota, a Equatorial Energia afirmou que a contratação do escritório em que Karine trabalhou “não guarda qualquer relação com suposto favorecimento ou qualquer influência externa”. A empresa disse ainda que escritório já atuava na prestação de serviços terceirizados de advocacia para antiga Cepisa desde 2008, antes de a empresa passar a ser controlada pela Equatorial Energia. (Leia a nota completa mais abaixo.) Procurada, a JBS não respondeu.

Zanin e Dino: Valeska Martins, Sálvio Dino e o histórico no STJ

O ministro Cristiano Zanin é marido da advogada Valeska Martins, que não atuou perante o STF, mas tem 92 processos no STJ. Porém, a maioria dos casos foi protocolada antes da chegada do marido ao Supremo, em agosto de 2023. Dezoito foram iniciados depois de Zanin compor o colegiado. Situação semelhante aparece no caso do ministro Flávio Dino. O irmão dele, o advogado Sálvio Dino de Castro e Costa Júnior, soma 287 processos no STJ, em sua maioria anteriores à posse do ministro no STF, com 67 ações protocoladas posteriormente. No Supremo, foram identificados 35 processos, também predominantemente anteriores à posse, sendo dois iniciados após a chegada de Dino à Corte.

 

Especialistas alertam para influência, acesso a gabinetes e enfraquecimento das regras

Para o professor do Insper e pesquisador da USP Luiz Gomes Esteves, casos como esses ajudam a explicar por que a atuação de familiares de ministros se tornou um tema sensível dentro do Supremo. Os dados, afirma, mostram como a proximidade com ministros tende a funcionar como um “ativo” para clientes e escritórios de advocacia, ao facilitar o acesso às instâncias superiores do Judiciário. Na avaliação de Esteves, o código de conduta atualmente debatido no STF deveria ser ampliado e integrado a um marco mais robusto de regras sobre impedimentos e suspensões. “É preciso evitar que interesses e relações pessoais influenciem não apenas o julgamento final dos processos, mas também a percepção pública sobre a imparcialidade do tribunal”, disse.

 

Esteves chama a atenção ainda para um problema estrutural menos visível: o acesso de advogados aos gabinetes dos ministros, que não é regulamentado nem uniforme. Essa assimetria, segundo ele, abre espaço para tratamentos diferenciados e para a percepção de influência antes mesmo de o caso chegar ao plenário. “Esse acesso funciona como um ativo difícil de justificar em uma democracia”, disse.

 

O debate ganhou contornos institucionais com mudanças promovidas pelo próprio Supremo nas regras sobre a atuação de parentes de magistrados como advogados.

A professora de Direito da ESPM Ana Laura Barbosa, que participou da elaboração de uma proposta de código de conduta pela Fundação FHC, afirma que um dos principais problemas do modelo atual foi a flexibilização dessas normas pela própria Corte.

 

Aprovado em 2015, o Código de Processo Civil (CPC) vedava que juízes julgassem processos envolvendo pessoas ou empresas vinculadas a escritórios de advocacia de familiares. Em 2023, porém, o STF declarou a regra inconstitucional, ao atender a um pedido da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB). “Era uma solução positiva e benéfica à construção da imagem de imparcialidade”, afirmou.

 

Com a decisão, os ministros mantiveram apenas a regra que declara o juiz impedido quando um parente atua diretamente no processo. Para Ana Laura, além de rever essa flexibilização, o Supremo poderia adotar medidas adicionais de transparência, como a divulgação sistemática de dados sobre impedimentos e suspeições. “Um painel que mostre em quantos processos os ministros se declararam impedidos ou suspeitos tornaria o controle mais visível e ajudaria a fortalecer a confiança na atuação da Corte”, disse.

 

A discussão sobre a atuação de parentes de ministros se soma a outros episódios recentes que ampliaram o debate institucional sobre conduta e transparência no Supremo, dentro e fora do tribunal.

 

Leia a nota do STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) esclarece que a atuação de profissionais da advocacia que possuem parentesco com magistrados é regulada pelo Código de Processo Civil e pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), que estabelecem hipóteses claras de impedimento e suspeição. Os ministros cumprem rigorosamente tais normas, abstendo-se de atuar em qualquer causa em que haja impedimento legal.

 

Em relação ao questionamento sobre o Código de Ética, o Tribunal reafirma o compromisso anunciado hoje pelo presidente da Corte na abertura do Ano Judiciário de 2026. Sob a relatoria da ministra Cármen Lúcia, a elaboração do Código de Ética do STF terá como premissa o fortalecimento da transparência e da integridade institucional. A relatora conduzirá os trabalhos relativos à elaboração da proposta e esclarecemos que o conteúdo do texto, o cronograma e outros temas de discussão serão definidos de forma consensual entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Leia a nota de Milena Fachin, enviada pelo marido Marcos Gonçalves

A Professora Melina Fachin formou-se em direito em 2006 pela Universidade Federal do Paraná, mesmo ano em que iniciou suas atividades como advogada. Ainda 2006 iniciou o Mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) e em 2007 deu início ao magistério superior.

 

Concluiu o Mestrado em 2008 e em 2010 ingressou no Doutorado também na PUCSP, com tese defendida em 2013 após estágio de pesquisa na Harvard Law School. Em 2020 concluiu o Pós Doutoramento pela Universidade de Coimbra.

 

Em 2012 foi aprovada no concurso para docência em Direito Constitucional na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, instituição na qual desde de 2024 ocupa o cargo de Diretora do Setor de Ciências Jurídicas.

 

Além da direção, já ocupou os cargos de vice-chefe e chefe de departamento, ambos por dois mandatos, além de coordenar diversos projetos de pesquisa e extensão com ênfase no Direito Constitucional e nos Direitos Humanos. Ao lado da carreira acadêmica, durante esses quase 20 anos de atividade profissional, manteve sua atuação ética e comprometida na advocacia.

 

Quanto a mim, graduei-me pela pela Universidade Federal do Paraná em 2007, fiz mestrado também na PUCSP, com título obtido em 2012 e doutorado na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) com tese defendida em 2019. Ambos na área do Direito Civil. Ao longo do doutorado fiz estágio de pesquisa na Universidade de Coimbra.

 

Entre 2012 e 2017 lecionei em faculdade de direito de Curitiba, entre elas a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), tendo deixado o magistério superior para me dedicar a outras atividades profissionais (além de advogado, sou produtor cultural).

 

Em 2006 foi fundado o escritório Fachin Advogados Associados, do qual eram sócios o Dr. Luiz Edson Fachin e a Dra. Melina, além de um terceiro sócio. Em 2007, com minha graduação e imediata aprovação no exame da OAB, ingressei na mesma sociedade. Melina e eu somos casados desde 2008, sendo que convivemos juntos desde 2003.

 

Desde a fundação do escritório nossa atuação profissional é pautada pela solução de problemas complexos, com alto rigor técnico, fruto da especialização acadêmica concomitante e pela conduta ética inegociável.

 

Nossa responsabilidade profissional nos impõe buscar soluções técnicas e completas, razão pela qual acompanhamos os processos, como regra, desde a primeira instância até o seu devido desfecho.

 

Em 2015, com a posse do Dr. Luiz Edson Fachin no cargo de Ministro do STF e sua saída do escritório Fachin Advogados, estabelecemos a regra de não assumirmos casos que estivessem tramitando no Supremo, mantendo, contudo, aqueles anteriores para os quais havíamos sido contratados e acompanhávamos desde a origem e tínhamos responsabilidade ética em seguir a prestação profissional. Quanto ao STJ, mantivemos a mesma linha de conduta, mantendo o padrão técnico e o escopo de atuação que há quase vinte anos é a marca da nossa atividade profissional.

 

Em toda nossa atuação profissional, mas sobretudo desde a posse do Ministro Fachin no Supremo, o elevado filtro ético permeia nossa atuação advocatícia para selecionar, a partir de nossa competência técnica, quais causas patrocinamos.

 

É preciso que tudo isso seja dito, pois respeitosamente entendo que qualquer análise baseada apenas em números de processos é falha - especialmente quando expressado em percentuais, que muitas vezes acabam por transparecer grandezas maiores do que os números efetivos. É natural que em 20 anos de atividade profissional nossa carteira de atuação tenha se expandido, marca do nosso bom trabalho e a credibilidade que construímos. Seguindo essa inegociável rigidez ética, desde meado de 2025, com a posse do Ministro Fachin na Presidência do STF, decidimos pela atuação ainda mais contida e mais voltada à consultoria jurídica.

Fiz questão de descrever minuciosamente todas essas informações para deixar claro que nossa atuação é fruto de uma formação acadêmica sólida, extensa e comprometida com o desenvolvimento do pensamento jurídico. Há, em tudo isso, esforço legítimo e comprometimento com a ética para que possamos seguir atuando, na academia e na advocacia, preservando nossa credibilidade e a imagem que construímos até aqui

Leia a nota de Guiomar Feitosa

O Bermudes Advogados, escritório que atua há quase 60 anos no cenário jurídico brasileiro, esclarece que a advogada Guiomar Feitosa não atua em processos no Supremo Tribunal Federal (STF). Os poucos processos em que seu nome aparece vinculado à Corte se referem a atuações realizadas em instâncias inferiores, que chegaram ao STF por força do sistema recursal, hipótese em que o registro do nome do advogado permanece nos autos por razão formal, sem correspondência com atuação efetiva na instância superior.

A advogada Guiomar Feitosa, após carreira de 32 anos no serviço público, em órgãos como Ministério da Justiça, STF, TST e TSE, ingressou na advocacia privada após sua aposentadoria. Na ocasião, optou, por decisão estritamente pessoal, não atuar no STF desde então, embora não exista qualquer impedimento legal para tanto.

No âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sua atuação equivale a um número consideravelmente menor, frente ao volume de processos do escritório, especialmente quando comparado às milhares de causas conduzidas por outros advogados da banca ao longo de décadas. A atuação do Bermudes Advogados perante os Tribunais Superiores é distribuída entre diversos profissionais e se pauta exclusivamente por critérios técnicos e em estrita conformidade com a legislação e com o Código de Ética da Advocacia.

Leia a nota de Karine Nunes Marques

A advogada Karine Marques nunca atuou no STF nem no TSE. Ela não é parente de nenhum ministro do STJ. Ela já era responsável por diversos processos antes da nomeação de seu irmão como ministro.

O resultado exibido no site do STF não se refere a um caso em que Karine Marques atue ou tenha atuado no tribunal. Trata-se de um recurso apresentado por outra parte de uma ação em que ela havia atuado em instâncias anteriores e à qual ela renunciou quando chegou ao Supremo, como comprova o documento anexo.

No STJ, Karine Marques mantém 36 processos ativos. Os demais registros do site do tribunal são de ações das quais ela não participa mais. Ela saiu da maior parte desses processos em 2022, quando se desligou da empresa em que ingressou como estagiária e onde atuou por mais de 15 anos, acompanhando os casos desde a primeira instância.

Leia a nota da Equatorial Energia

A Equatorial Energia esclarece que a contratação do escritório Carvalho, Araújo & Marques Sociedade de Advogados (anteriormente denominado Lex Advocacia - Marques, Carvalho & Araújo) não guarda qualquer relação com suposto favorecimento ou qualquer influência externa.

Ressalta que o referido escritório já atuava na prestação de serviços terceirizados de advocacia para antiga Cepisa desde 2008, muito antes da assunção do controle pela Equatorial Energia, portanto, já integrando o quadro de parceiros jurídicos da companhia à época da aquisição do controle pela Equatorial e muito antes de que seu ex-sócio assumisse qualquer cargo público, primeiro no TRF1, depois no STF.

Importante destacar, ainda, que a irmã do ministro não compõe os quadros do referido escritório, não havendo vínculo profissional que possa caracterizar qualquer conflito de interesse.

Todas as contratações realizadas pela Equatorial seguem rigorosos critérios técnicos, legais e de compliance, estando alinhadas às melhores práticas de governança corporativa do mercado.

A empresa reafirma seu compromisso com a ética, a legalidade e a integridade em todas as suas relações, estando à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais.

Leia a nota da Itaipu Binacional

A ITAIPU Binacional esclarece que mantém, há muitos anos, contratos regularmente firmados com o escritório Fachin Advogados Associados, todos celebrados muito antes da posse do ministro Edson Fachin no Supremo Tribunal Federal, em 2015.

O primeiro contrato foi firmado em 2003; o segundo, em 2008; e o terceiro, em 2009, cada qual destinado à atuação jurídica em diferentes demandas envolvendo a empresa. Dois desses contratos permanecem vigentes em razão da continuidade dos processos correspondentes, enquanto o instrumento firmado em 2009 foi encerrado após o término das ações nele previstas.

A ITAIPU destaca, ainda, que está satisfeita com o trabalho desenvolvido pelo escritório ao longo desses anos, que sempre atuou com profissionalismo e obteve resultados positivos em favor da entidade.

Ex-presidente do Rioprevidência é preso após fundo virar alvo da PF por aplicações no Master

Leonardo Vieceli / FOLHA DE SÃO PAULO

 

 

Rio de Janeiro

O ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes foi preso nesta terça-feira (3) em Itatiaia, na região sul do Rio de Janeiro (a cerca de 180 km da capital), durante a segunda fase da Operação Barco de Papel.

Deflagrada pela PF (Polícia Federal) com apoio da PRF (Polícia Rodoviária Federal), a ação investiga aplicações do fundo fluminense no Banco Master. O Rioprevidência é responsável pelo pagamento das pensões e aposentadorias dos servidores estaduais do Rio de Janeiro.

Antunes pediu demissão e foi exonerado da presidência pelo governador Cláudio Castro (PL) em 23 de janeiro. A saída ocorreu após o gestor virar alvo no mesmo dia da primeira fase da operação Barco de Papel.

Naquela ocasião, policiais fizeram busca e apreensão em endereços dele e de outros dois ex-executivos no Rio. Antunes estaria em viagem de férias ao exterior.

Nesta terça, a PF afirmou que cumpre três mandados de prisão temporária, além de nove de busca e apreensão. As ações miram endereços ligados a investigados no Rio de Janeiro e em Santa Catarina.

Duas pessoas estão foragidas. As autoridades não confirmaram as identidades.

Segundo a Polícia Federal, os mandados foram decretados pela 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro com base em indícios de obstrução de investigações e ocultação de provas. Antunes é apontado como o principal alvo da operação.

"Após o cumprimento do mandado de busca e apreensão no apartamento do principal alvo da operação deflagrada em 23 de janeiro, a Polícia Federal identificou movimentações suspeitas de retirada de documentos do apartamento do investigado, manipulação de provas digitais, além da transferência de bens (dois veículos de luxo) para terceiros", afirmou a corporação em nota nesta terça.

Procurada pela Folha, a defesa de Antunes disse que "as questões estão sendo apuradas". 

A operação desta terça envolveu a delegacia especial da PF no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, e a PRF em Itatiaia.

De acordo com a Polícia Federal, Antunes foi preso após ser abordado por agentes no município fluminense, que fica na região de divisa com São Paulo. Ele estava em um veículo que teria sido alugado para a saída do aeroporto paulista.

Antunes foi conduzido a uma delegacia de Polícia Federal em Volta Redonda, também no Rio de Janeiro. Ele deve ser encaminhado à superintendência da PF na capital para ser ouvido antes de ir para o sistema prisional.

Ao pedir demissão, o ex-presidente enviou uma carta para Castro na qual disse que promoveu um "ciclo virtuoso de gestão" no Rioprevidência. Também afirmou no texto de janeiro que nunca se eximiu de responsabilidades e que se colocava à disposição das autoridades.

"Por fim, enfatizo que repilo tentativas de inquinar como ilegal qualquer ato que pratiquei na gestão do Riopreviência, pois, como disse, sempre agi com espírito público, correção e dentro dos mais elevados preceitos éticos, conduta essa que sempre pautou minha vida profissional nos locais onde trabalhei", acrescentou.

A investigação mira aplicações do Rioprevidência no Master que somam cerca de R$ 970 milhões. Conforme as informações oficiais, os investimentos ocorreram entre novembro de 2023 e julho de 2024.

As operações envolveram letras financeiras do banco sem garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Ou seja, podem resultar em prejuízo para o fundo de aposentadorias.

O Master foi liquidado pelo BC (Banco Central) após suspeitas de um amplo esquema de irregularidades na instituição comandada por Daniel Vorcaro.

Ao justificar a ação desta terça, a PF disse que a Justiça considerou haver risco de destruição de provas e obstrução das apurações, caso os investigados permanecessem em liberdade.

O governo Castro fez mudanças no comando do Rioprevidência na semana passada, depois da primeira fase da ação policial.

O governador exonerou Alcione Soares Menezes Filho do cargo de diretor de administração e finanças da autarquia. Para a mesma função, nomeou o servidor concursado Nicholas Ribeiro da Costa Cardoso.

Com a troca, Cardoso também assumiu a condição de presidente interino do Rioprevidência. Isso aconteceu porque, segundo o regimento interno do órgão, em caso de falta ou impedimento, o presidente deve ser substituído pelo diretor administrativo e financeiro. É o cenário atual.

Castro ainda nomeou Gilson Felix da Silva como diretor de investimentos. Ele substituiu Eucherio Lerner Rodrigues, que já havia deixado a autarquia. Rodrigues foi alvo da primeira fase da operação da PF no mês passado, assim como Pedro Pinheiro Guerra Leal, ex-gerente de investimentos.

Silva chegou ao Rioprevidência em janeiro, após atuar no mercado financeiro, de acordo com informações disponíveis em perfil no LinkedIn.

 

Toffoli faz mera tentativa de redução de danos

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Pela primeira vez desde que assumiu a relatoria do caso Banco Master, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, reagiu a questionamentos sobre conflitos de interesse e heterodoxia judicial.

Na quinta-feira (29), afirmou que decidirá, ao fim das investigações, se o caso será ou não remetido à primeira instância. É uma sinalização —tardia— na direção correta. É evidente, como já apontou esta Folha, que Toffoli perdeu as condições de permanecer à frente do processo.

A manifestação do magistrado, por ora, é mais uma tentativa de redução de danos para a reputação da corte. Nada indica que será possível parar por aí.

Os recuos parciais do ministro ao longo do processo atestam que suas decisões carecem de respaldo técnico —como ordenar, ao arrepio dos protocolos ordinários, uma acareação entre os suspeitos e o Banco Central, e o depósito no Supremo das provas colhidas pela Polícia Federal, depois direcionadas para a Procuradoria-Geral da República.

Ademais, nada justifica o sigilo do inquérito —decretado por Toffoli logo após sua viagem ao Peru na companhia do advogado de um funcionário do Master. Tal medida, que mina o princípio da transparência, será mantida até que a PGR se manifeste.

Não à toa, Toffoli também deu meio passo atrás nesse ponto e determinou, na última semana, o levantamento de parte do sigilo de depoimentos prestados à PF no fim de dezembro.

À época, foram colhidos os relatos de Daniel Vorcaro, dono do Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), e Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do BC. Neles, Vorcaro e Costa divergiram sobre a origem dos créditos falsos do Master entregues ao BRB.

Segundo Toffoli, o inquérito deve permanecer sob a sua batuta para evitar que "se apontem nulidades em razão de observância do foro por prerrogativa de função ou de violação da ampla defesa e do devido processo legal".

A razão para que o processo esteja no STF, no entanto, inexiste. O entendimento de que um negócio imobiliário entre Vorcaro e um deputado federal justificaria a guarida do caso pela mais alta corte do país carece de solidez na jurisprudência e, portanto, não deveria prevalecer.

Com heterodoxias e opacidade, além de relações anômalas entre partes e ministros, o Supremo passa a ser visto pela sociedade não como o bastião da democracia, imagem que costuma projetar, mas como instituição onde poderosos desfrutam de privilégios ofertados por togas amigas.

STF retoma trabalhos com divisão interna e se vê alvo do Congresso em ano eleitoral

Luísa Martins / FOLHA DE SP

 

 

Rachado diante das repercussões sobre a investigação do Banco Master, o STF (Supremo Tribunal Federal) retoma as atividades nesta segunda-feira (2) com o desafio de superar as rusgas internas e se blindar de desgastes ao longo do ano eleitoral, quando os atritos com o Congresso Nacional tendem a se intensificar.

Depois de um recesso marcado por uma tentativa do presidente do STF, Edson Fachin, de contornar a crise de imagem da corte, a abertura do ano judiciário de 2026 deve reunir um quórum quase completo de ministros. Houve um pedido especial de Fachin para que todos compareçam presencialmente à sessão solene.

A exceção ficará por conta do ministro Luiz Fux, que teve diagnóstico de uma pneumonia. O magistrado avisou a Fachin que, devido à condição, participará de forma remota da sessão.

A expectativa é de que Fachin faça um discurso em defesa do tribunal. Mas há dúvidas, mesmo entre as pessoas mais próximas ao ministro, se a fala vai ou não abordar claramente a principal bandeira da sua gestão, a implementação de um código de conduta para magistrados de tribunais superiores.

O presidente do STF tem o apoio de um grupo de colegas, mas outra ala resiste ao avanço da proposta neste momento. A avaliação é de que a iniciativa de Fachin acontece em um momento delicado, deixando os magistrados e a própria corte sujeitos a uma nova onda de ataques.

O ministro Dias Toffoli está no centro das discussões. Relator da investigação do Banco Master, ele viajou de jatinho com um dos advogados da causa no fim de novembro. Além disso, negócios familiares associam os seus irmãos a um fundo de investimentos ligado à instituição financeira.

Fachin foi aconselhado a não fazer "movimentos bruscos", sob pena de fragilizar o STF logo no início de um ano que promete ser conturbado devido às eleições de outubro. Três ministros ouvidos reservadamente pela Folha veem um horizonte de atritos com o Congresso nos próximos meses.

Com a abertura do ano legislativo também nesta segunda, esses magistrados entendem que uma série de embates podem ser destravados pelos parlamentares, como pedidos de impeachment de ministros, requerimentos que miram o Supremo em CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) e outras pautas do chamado "pacote anti-STF".

Além disso, um dos temas que deve predominar o ano no tribunal será o das emendas parlamentares. Entre 10 e 11 de março, a Primeira Turma vai decidir se condena um grupo de deputados do PL acusados de desvios. O julgamento é considerado um termômetro sobre o rigor que o STF vai adotar em ações semelhantes que ainda estão em tramitação.

A pauta da Primeira Turma ainda inclui, no dia 24 de fevereiro, o julgamento dos acusados de serem os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), em 2018. A ação penal contra o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), acusado de tentar interferir nas investigações sobre a trama golpista, também deve ser examinada no primeiro semestre.

Ministros da corte afirmam que o cenário ideal é julgar os casos mais controversos entre janeiro e junho, para que o calendário eleitoral do segundo semestre seja cumprido com o STF fora dos holofotes. As convenções partidárias costumam ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto. Depois desses eventos, as legendas podem solicitar os registros de candidatura.

Para a pauta do plenário, Fachin optou por julgar na quarta-feira (4) —primeira sessão plenária jurisdicional do ano— uma ação contra as regras definidas pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para o uso de redes sociais por parte de magistrados. A relatoria é do ministro Alexandre de Moraes. Já há quatro votos para manter os atuais termos da resolução.

Para a solenidade de abertura, já confirmaram presença o presidente Lula (PT) e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara dos DeputadosHugo Motta (Republicanos-PB). A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a PGR (Procuradoria-Geral da República) devem fazer breves discursos.

A presença do advogado-geral da União, Jorge Messias, também é esperada. Ele foi indicado em novembro por Lula para a vaga aberta no STF com a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso, mas ainda não passou pela sabatina no Senado. A corte inicia 2026, portanto, com um ministro a menos na sua composição.

Fachin convidou os nove colegas para uma reunião no dia 12 de fevereiro, longe das câmeras da TV Justiça. Oficialmente, o encontro é um almoço de confraternização para marcar o início dos trabalhos neste ano. Contudo, há expectativa de que o código de conduta para ministros também entre no cardápio de assuntos em debate.

Toffoli conversou com ministros do STF antes de divulgar nota sobre investigações do Banco Master

Por Carolina Brígido / O ES5TADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA – Dias Toffoli conversou com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) antes de divulgar, na quinta-feira, 29, uma nota sobre o andamento da investigação das fraudes do Banco Master. Toffoli não falou para os colegas qual seria o teor da nota nem pediu a opinião deles. A intenção foi informar os ministros antes que eles conhecessem o texto pela imprensa, o que poderia causar algum tipo de ruído em uma Corte já dividida em torno do caso.

 

A decisão de Toffoli foi tomada em meio a críticas internas e externas sobre a forma pouco usual como vem conduzindo o caso. Em conversa com integrantes de seu gabinete, decidiu que era importante explicar publicamente os rumos do caso e retirar o sigilo do que fosse possível neste momento, com o cuidado de não atrapalhar as investigações.

 

No STF, há expectativa de que Toffoli torne públicos outros trechos da apuração. Com a iniciativa, o ministro tenta comunicar que há boa vontade para distensionar a relação institucional do tribunal e mostrar que as investigações correm dentro da normalidade.

 

A nota divulgada por Toffoli é composta de 11 itens. As partes em negrito lembram que o relator foi escolhido por sorteio – ou seja, o ministro não teria tomado o caso para si a partir de interesses escusos. Em outro trecho, o relator ressalta que “o sigilo já havia sido decretado pelo juízo de primeiro grau”. Portanto, ele não poderia ser acusado de esconder detalhes das investigações por motivo pessoal.

 

Toffoli também ressaltou que o foro para o caso foi definido a partir de parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR). O ministro acrescentou que as investigações ainda não foram concluídas porque a Polícia Federal pediu prazo extra de 60 dias.

 

Ainda na nota, Toffoli afirmou que “as investigações continuam a ser realizadas normalmente e de forma regular”. E que, ao fim delas, vai definir se o caso continuará no STF, ou se será enviado de volta à primeira instância. Para reforçar o caráter de normalidade, o ministro divulgou, no mesmo dia, vídeos com depoimentos e acareação de testemunhas e investigados.

 

Mesmo com o movimento de Toffoli, o STF continua dividido. Parte do tribunal não vê problema na forma como o colega conduz o caso, mas outra ala acredita que a única forma de tirar o Supremo do centro da polêmica é com a volta da investigação para a primeira instância do Judiciário. Como informou o relator, se isso acontecer, não será agora.

Ministros do STF defendem prisão domiciliar para Bolsonaro

COLUNA DA MALU GASPAR Por  Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO

 

A articulação para Jair Bolsonaro ir para a prisão domiciliar envolve não apenas a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas também conta com o apoio de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) que nos bastidores têm manifestado apoio à transferência do ex-presidente.

 

Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, o ministro Gilmar Mendes ajudou a convencer o relator da trama golpista, Alexandre de Moraes, a receber Michelle em seu gabinete no último dia 15.

 

E o próprio Gilmar, que também conversou com Michelle, tem expressado reservadamente apoio à prisão domiciliar por conta dos problemas de saúde de Bolsonaro – ainda que sempre frise que a decisão cabe a Moraes, de quem é próximo.

 

Indicado ao cargo pelo ex-presidente, o ministro Kassio Nunes Marques também já disse a Moraes que apoia a prisão domiciliar. Gilmar e Nunes Marques são da Segunda Turma do STF e não da Primeira, portanto não votaram pela condenação de Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por articular um golpe de Estado.

 

“Se o Bolsonaro morrer na cadeia, o Supremo fica mais no sal ainda”, disse ao blog um interlocutor do ex-presidente ouvido em caráter reservado, em referência ao desgaste provocado na imagem da Corte com as decisões esdrúxulas tomadas pelo ministro Dias Toffoli no caso Banco Master.

 

Tanto no entorno bolsonarista quanto no Supremo e entre autoridades do governo do Distrito Federal, há quem tema um desfecho similar ao de Cleriston Pereira da Cunha, que estava preso preventivamente na Papuda devido aos atos golpistas do dia 8 de janeiro, e sofreu um “mal súbito” durante banho de sol na penitenciária.

 

O episódio ocorreu em novembro de 2023 e foi explorado politicamente por aliados de Bolsonaro para atacar o que consideram “excessos” de Moraes.

 

Peritos da PF já visitaram o ex-presidente

Conforme informou o blog, uma equipe de três peritos médicos da Polícia Federal visitou na semana passada Bolsonaro no 19º Batalhão da Polícia Militar, localizado dentro do complexo da Papuda e conhecido como “Papudinha”. A visita serviu para a elaboração de um novo laudo médico, que ainda não foi finalizado, mas que já se tornou uma nova aposta de aliados do ex-presidente para conseguir a transferência para a prisão domiciliar.

 

Ao mandar Bolsonaro para a Papudinha no último dia 15, Moraes determinou que o ex-presidente fosse submetido “imediatamente” a uma junta médica composta por médicos da Polícia Federal para a “avaliação do seu quadro clínico” e suas “necessidades para o cumprimento da pena”. Os peritos examinaram o ex-presidente e fizeram questionamentos sobre o seu estado de saúde em uma visita que durou aproximadamente duas horas.

 

Por determinação de Moraes, a Papudinha disponibilizou atendimento médico integral a Bolsonaro, em regime plantão, 24 horas por dia, o que está sendo cumprido. 

 

Apesar de geograficamente localizada na área da Papuda, a Papudinha não é de responsabilidade da Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal, e sim da própria Polícia Militar.

Toffoli libera R$ 200 milhões a entidade ligada a parentes de ministros mesmo após MP apontar 'afronta'; entenda

Por Filipe Vidon — São Paulo / O GLOBO

 

 

Um contrato milionário envolvendo royalties de petróleo no litoral paulista desencadeou uma troca de farpas em vários escalões do Judiciário brasileiro. De um lado, o Tribunal de Justiça e a Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo; do outro, uma decisão monocrática do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que liberou o pagamento de R$ 200 milhões em honorários advocatícios a uma entidade ligada a familiares de magistrados de cortes superiores.

 

Um alerta formal e incisivo feito pelo chefe do Ministério Público de São Paulo (MPSP) foi ignorado pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), antes da liberação das verbas. Em recurso protocolado em 5 de novembro de 2025, o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, classificou a manobra jurídica que levou o caso diretamente ao Supremo como uma "afronta às balizas do devido processo legal".

O caso foi revelado pelo Estadão e confirmado pelo GLOBO, que teve acesso aos autos do processo. A advertência consta no agravo regimental que tentava impedir o desbloqueio de honorários advocatícios devidos ao Núcleo Universitário de Pesquisa, Estudos e Consultoria (Nupec), entidade que subcontrata escritórios ligados a parentes dos ministros Luiz Fux (STF) e Francisco Falcão (STJ).

A entidade foi contratada pelo município de São Sebastião para atuar em uma disputa judicial contra a cidade vizinha de Ilhabela pela partilha dos royalties do petróleo.

 

Firmado por dispensa de licitação, o acordo estabeleceu o pagamento de 20% em honorários de êxito aos advogados atuantes no caso — o que corresponde a cifras de pelo menos R$ 200 milhões, considerando o montante de R$ 1 bilhão em royalties envolvidos na causa.

Sem levar em conta o pedido de cautela do Ministério Público, Toffoli determinou, na véspera do recesso judiciário (19 de dezembro), o pagamento imediato dos valores e, num lance que aprofundou a crise institucional, mandou cassar o compartilhamento de dados bancários sigilosos que já estavam em posse dos investigadores.

A origem do embate

O embate expôs o clima de tensão institucional entre o Judiciário paulista e a Corte Suprema. Pivô do embate, o contrato do Nupec tornou-se alvo de uma ação popular no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) ainda em 2022, quando a entidade entrou na mira de questionamentos.

 

Embora tenha obtido ganho de causa em primeiro grau, a organização sofreu um revés na 2ª Câmara de Direito Público da Corte paulista, que invalidou a decisão. O entendimento dos desembargadores foi o de que uma "associação civil sem fins lucrativos e sem registro na OAB", com objeto social genérico, não poderia ser contratada sem licitação para prestar serviços jurídicos, muito menos para representar o Poder Público.

 

O tribunal estadual foi taxativo ao ressaltar que a advocacia é atividade "privativa de advogados e escritórios", considerando que o contrato funcionava apenas como uma "intermediação" sem a efetiva prestação de serviço pela associação, além de classificar os honorários cobrados como "excessivos".

Enquanto a ação tramitava no TJ, o Supremo decidiu, pela validade da contratação direta de advogados pela administração pública, desde que cumpridos critérios específicos. Instada a analisar se esse precedente do STF salvaria o contrato do Nupec, a Corte paulista entendeu que não houve ofensa ao decidido pela Corte máxima, reiterando que o caso da associação "não se enquadra nas hipóteses de inexigibilidade de licitação".

 

Segundo o MPSP, para reverter a derrota no estado, a defesa do Nupec não aguardou o trâmite regular dos recursos. O grupo utilizou uma “petição” avulsa, que foi direcionada para o gabinete de Toffoli, que já havia arbitrado sobre o tema no STF.

Ministério Público cita ‘afronta’

No recurso enviado a Brasília, o chefe do MP paulista denunciou a estratégia como o uso de um "instrumento processual inexistente na legislação e inadequado". Para a Procuradoria, a validação desse atalho cria um tribunal de exceção, suprimindo instâncias inferiores.

 "A decisão de cassação de acórdão proferido em apelação (...) diretamente pelo Ministro Relator (...) e por meio de mera 'petição', não se coaduna com o due process of law (devido processo legal)", escreveu o procurador-geral. 

A tensão escalou quando o TJSP se recusou a cumprir a primeira ordem monocrática de Toffoli, em outubro. A Presidência da Seção de Direito Público do tribunal paulista informou oficialmente que aguardaria o trânsito em julgado da decisão antes de liberar o dinheiro. No mês seguinte, o MPSP fez coro e apresentou o agravo regimental contra a decisão do ministro.

A resistência da corte estadual e o pedido do Ministério Público paulista provocaram uma reação dura de Toffoli. Na véspera do recesso do judiciário, em 19 de dezembro, o ministro declarou que "houve o descumprimento da decisão" e rejeitou o argumento de que seria necessário esperar o julgamento do recurso do MP.

"Os recursos não impedem a eficácia da decisão (...) É evidente, portanto, que não há que se aguardar seu trânsito em julgado", despachou Toffoli.

 

O gabinete do ministro Dias Toffoli afirmou em nota que "a decisão do ministro é clara quanto à sua fundamentação e seu alcance, na esteira de precedente firmado em sede de repercussão geral com efeito vinculante. Ademais, sobre o devido processo legal, é importante esclarecer que a referida decisão pende de apreciação de agravo regimental a ser oportunamente apreciado pelo Colegiado."

O Ministério Público de São Paulo, o Nupec e a Prefeitura de São Sebastião foram procurados pelo GLOBO, mas não enviaram posicionamento até a última atualização desta reportagem.

 

 

 

 

Moraes arquiva apuração contra delegados da PF suspeitos de tentar barrar eleitores em 2022

José Marques / FOLHA DE SP

 

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), arquivou nesta quinta-feira (22) investigações sobre dois delegados da Polícia Federal indiciados sob suspeita de uso da estrutura da corporação em favor do então presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022.

O ministro seguiu entendimento da PGR (Procuradoria-Geral da República) de que não há provas suficientes contra Leo Garrido de Salles Meira e Alfredo de Souza Lima Coelho de que eles cometeram irregularidades.

Em agosto de 2024, a PF indiciou o ex-diretor-geral da PRF (Polícia Rodoviária Federal) Silvinei Vasques, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e quatro integrantes da Polícia Federal cedidos ao Ministério da Justiça naquela época: Marília Ferreira Alencar e Fernando de Sousa Oliveira, além de Meira e de Coelho.

Os seis foram indiciados com base no artigo 359-P do Código Penal, que prevê o crime de "restringir, impedir ou dificultar, com emprego de violência física, sexual ou psicológica o exercício de direitos políticos a qualquer pessoa em razão de seu sexo, raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".

No segundo turno da eleição de 2022, a Polícia Rodoviária Federal fez uma série de blitze em estradas federais, especialmente no Nordeste, reduto eleitoral de Lula.

Silvinei, Torres e Marília foram condenados pela Primeira Turma do Supremo em ações da trama golpista. Já Fernando de Sousa Oliveira foi absolvido em julgamento também relacionado aos mesmos episódios.

Em sua manifestação a Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse que "as diligências sistematizadas não indicaram suas adesões [de Meira, Coelho e Oliveira] às condutas de Anderson, Silvinei e Marília".

"Não se visualiza, assim, a existência de condutas criminais atribuíveis aos demais investigados ou diligências adicionais capazes de alterar o juízo de valor sobre suas condutas, inexistindo justa causa para o oferecimento de denúncia ou o prosseguimento da investigação."

Moraes decidiu arquivar o caso em relação aos dois delegados e, devido às condenações e absolvição dos demais indiciados, a apuração também foi arquivada em relação a eles.

 

Ministros do STF defendem envio do caso Master à 1ª instância como 'saída honrosa' para Toffoli

Luísa MartinsJosé MarquesAdriana Fernandes / FOLHA DE SP

 

Para contornar a crise de imagem enfrentada atualmente pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em razão dos desdobramentos do caso Master, integrantes da corte passaram a defender o envio da investigação à primeira instância como uma "saída honrosa" para o ministro Dias Toffoli. Ele, no entanto, resiste a deixar a condução das apurações.

Toffoli está sob pressão interna devido à sua postura na supervisão do inquérito. As críticas começaram com o severo regime de sigilo imposto ao caso, seguido pela viagem de jatinho com um dos advogados da causa e por negócios que associam seus familiares a um fundo de investimentos ligado ao Master, como revelou a Folha.

A operação Compliance Zero —cujo principal alvo é o dono do Banco MasterDaniel Vorcaro — começou na Justiça Federal em Brasília, mas subiu para o Supremo depois que a PF apreendeu um documento que cita o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), detentor de foro privilegiado.

 

Outra investigação, que se iniciou no âmbito da Justiça Federal em São Paulo, também foi enviada ao STF e fundamentou a segunda fase da operação, deflagrada no último dia 14, e que apura suspeitas de fraudes realizadas no Master por meio de fundos de investimento, incluindo empresários.

Contudo, até agora, não há qualquer linha de apuração que aponte para o envolvimento do parlamentar nas fraudes bancárias, segundo investigadores a par do caso. Bacelar afirma que participou de um fundo para a construção de um condomínio na Bahia e que Vorcaro havia demonstrado interesse em adquirir parte do projeto, mas a transação não foi adiante.

Uma ala da corte afirma que Toffoli poderia aproveitar a falta de evidências contra Bacelar para devolver os autos ao primeiro grau —seria uma maneira de tirar o STF do foco da crise, afastar as alegações de suspeição e manter válidos todos os atos assinados pelo ministro até aqui.

Nessa hipótese, os termos dos depoimentos dos investigados, a ata da acareação entre banqueiros e os resultados dos mandados de busca e apreensão cumpridos pela PF (Polícia Federal) na semana passada seriam compartilhados com a Justiça Federal e a investigação não precisaria voltar à estaca zero.

O envio do processo à primeira instância também é defendido por integrantes do MPF (Ministério Público Federal), por pessoas próximas a Toffoli e por advogados que acompanham o caso, embora tenha sido a defesa de Vorcaro a autora do requerimento para que a investigação fosse supervisionada pelo STF.

Apesar desses apelos, Toffoli descarta abandonar a relatoria das investigações, como mostrou a Folha. A interlocutores, o ministro afirmou que não existe razão para abdicar do processo, pois não se enquadra nas hipóteses objetivas de impedimento previstas em lei, nem tem qualquer motivo de foro íntimo para se declarar suspeito.

O Código de Processo Penal prevê que o juiz está impedido de atuar nas ações em que seu cônjuge ou parente tenha participado; em que ele próprio tenha atuado no passado (como advogado ou juiz de instância inferior); ou em que ele ou seus familiares forem "diretamente interessados".

 

Já a suspeição tem caráter subjetivo e diz respeito a situações, por exemplo, em que o ministro é amigo íntimo das partes ou dos advogados, recebe presentes de pessoas interessadas na causa ou aconselha as partes. Se houver motivo de foro íntimo, ele não é obrigado a detalhá-lo.

 

 

Toffoli sinalizou que essas variáveis não estão em jogo e argumentou que a sua imparcialidade não está comprometida. O ministro também tem afirmado que, na primeira instância, as informações estariam mais sujeitas a vazamentos, o que deve ser evitado a todo custo em uma investigação dessa natureza.

Ao mesmo tempo, Toffoli indica a auxiliares que só com novos avanços das apurações será possível definir com clareza se o caso fica no Supremo, se volta à primeira instância ou se o caminho é um meio-termo —um desmembramento da investigação, em que o ministro fica responsável por autoridades com foro e a Justiça Federal, pelos demais investigados.

Desde o início, o ministro tem tentado acelerar procedimentos da investigação, enquanto mantém controle completo sobre os seus rumos, o que já causou atritos com a PF. A acareação que ocorreu em 30 de dezembro entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa, por exemplo, foi marcada antes de serem tomados os depoimentos dos investigados.

Toffoli acabou definindo que os dois fossem ouvidos pela delegada do caso nas horas que antecederam a acareação. Ele também determinou que ela fizesse aos banqueiros mais de 80 perguntas elaboradas pelo seu próprio gabinete.

 

Na última semana, Toffoli também decidiu que a PF, que pretendia tomar outros depoimentos do inquérito nas semanas entre o final de janeiro e o início de fevereiro, resumisse esse procedimento a dois dias. O cronograma ficou definido para os próximos dias 26 e 27.

Além disso, o ministro definiu, por conta própria, os peritos que vão analisar as provas obtidas na última fase da Compliance Zero, o que fez a própria PF pedir ajuda ao governo para questionar a decisão. A associação de delegados da corporação disse que as decisões do ministro são uma "afronta às prerrogativas" da categoria.

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