Apesar de tudo, deu Lula
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu a proeza de se reeleger para um quarto mandato, a despeito de ter feito o pior governo de sua trajetória política desde que chegou à Presidência pela primeira vez, no longínquo ano de 2002. As pesquisas mostraram, ao longo dos quatro anos deste mandato, uma consistente rejeição dos brasileiros a seu modo de governar – uma reação natural a um presidente sem projeto para o País, sem responsabilidade fiscal, sem reverência pelo dinheiro do contribuinte e sem a menor ideia de como lidar com um mundo em profunda transformação. Logo, Lula só venceu porque do outro lado do ringue estava um dos Bolsonaros, cuja rejeição provou-se ligeiramente maior que a sua própria. Resta torcer para que o petista tenha consciência disso e faça um governo muito diferente deste que está no fim.
No entanto, não temos muitos motivos para otimismo. Recorde-se que, na eleição anterior, em 2022, Lula derrotou o então presidente Jair Bolsonaro porque prometeu ser o líder de uma “frente ampla” em defesa dos valores democráticos, mas entregou o governo mais petista da história, desprezando os não petistas que, diante das circunstâncias, haviam decidido apoiá-lo e foram cruciais para sua eleição. Portanto, a “frente ampla” foi, no jargão político, um estelionato eleitoral.
Agora, nem de estelionato se pode falar, porque nesta campanha Lula jamais prometeu fazer um governo minimamente responsável. Pelo contrário, a corrida eleitoral mostrou que Lula está no zênite da demagogia, distribuindo dinheiro e fazendo promessas desvairadas para tentar seduzir um eleitorado que lhe tem sido crescentemente hostil. É difícil imaginar que em seu quarto mandato, que se presume seja o último, Lula haverá de se emendar.
Para piorar, será grande a tentação de se julgar dispensado de tarefas mundanas, como governar o Brasil, negociar com o Congresso e enfrentar o dia a dia de um país em crise. Afinal, Lula tornou-se o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente da República pelo voto direto e, ao fim do novo mandato, terá governado o País por 16 anos, mais do que qualquer outro presidente, à exceção de Getúlio Vargas. O retirante que virou líder sindical, fundou um partido de massas, foi preso e voltou ao Palácio do Planalto é um dos personagens centrais da história brasileira. Com essa trajetória, Lula, que nunca foi exatamente modesto, pode achar que se tornou um totem, que deve ser adorado e sobre o qual não cabem questionamentos.
O problema é que nem todos compartilham a mitologia lulopetista. O Congresso eleito no começo de outubro, por exemplo, será francamente hostil a Lula, que deve levantar as mãos aos céus se conseguir terminar o mandato. Ademais, metade do País o rejeitou nas urnas e mesmo uma parte substancial dos eleitores que votaram nele não o fizeram por considerá-lo um bom presidente, mas porque têm ojeriza aos Bolsonaros.
Tudo isso se dará num cenário desafiador para qualquer presidente. Em agosto, segundo o Banco Central, a dívida pública bruta chegou a R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB, o maior patamar em cinco anos. A taxa básica de juros está em 13,75% ao ano, nível proibitivo para o crescimento econômico. Quem gasta mais do que arrecada paga caro para financiar seus gastos. E Lula não terá um antecessor para culpar, como sempre faz. O perdulário é ele.
Nossa obrigação, malgrado o pessimismo, é cobrar que haja um ajuste fiscal condizente com o tamanho da crise. O próprio governo previu que, a partir de 2028, faltará dinheiro para despesas discricionárias, com risco de paralisação da máquina pública.
Ademais, Lula também governará um país em crise institucional, em grande parte pelo esfacelamento da credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF). O petista terá ao menos quatro vagas a preencher no STF. Espera-se que o Senado faça a sua parte e obrigue Lula a nomear juristas respeitados, em vez dos integrantes da patota petista. Assim, por linhas tortas, pode ser que o STF comece a recuperar sua imagem.
Em resumo, o próximo mandato de Lula, a despeito de seus delírios solipsistas, terá o contorno que a realidade impuser. O Brasil certamente sairá lanhado, mas sobreviverá.
Virada dá a Lula lugar inédito na História do Brasil
Por Editorial / o globo
Em virada surpreendente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato. No primeiro turno, Lula fora derrotado por 2,2 milhões de votos. Em três semanas, numa reação determinada, tida como improvável depois da onda bolsonarista que varreu o país em 4 de outubro, reverteu a vantagem de Flávio, fato inédito em quase quatro décadas de eleições presidenciais. Seu lugar na História da República estará garantido como o líder brasileiro a ficar mais tempo no poder pelo voto popular.
A queda na abstenção desempenhou papel fundamental para a vitória de Lula. Eleitores que não compareceram no primeiro turno decidiram votar no segundo, ampliando suas chances num pleito equilibrado. A abstenção ficou em 19,2%, inferior à do primeiro turno, 21,1%. No Nordeste, onde Lula historicamente obtém desempenho melhor, ela caiu de 18,4% para 16,4%. No Sudeste, de 22,7% para 20,2%.
Não foi uma vitória sem transtornos. Foi lamentável a falta de ônibus, relatada por eleitores em diversos estados. O transporte gratuito no dia do pleito é um direito do eleitor. A campanha de Lula acionou a Justiça Eleitoral pedindo extensão da votação, que se encerraria às 17h. No meio da tarde, a campanha de Flávio também solicitou prorrogação, em razão das chuvas no Sul. Mas a Justiça foi lenta. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, não tomou decisão até o fechamento das urnas. Pouco depois das 17h, com algumas já fechadas, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h. O transtorno poderia ter sido evitado se autoridades agissem com maior presteza. As suspeitas de crime eleitoral precisam ser investigadas com rigor, e os eventuais responsáveis punidos, mas não prejudicaram a apuração final, como mostram os números.
E nenhum transtorno deve servir de pretexto para questionar o resultado. A eleição acabou, e a voz das urnas precisa ser respeitada. Depois da derrota, Flávio qualificou o resultado de “inaceitável” e insinuou que não aceitaria a prorrogação do horário, solicitada pelo seu próprio partido. Ora, ele obteve desempenho notável e deve entender que derrotas fazem parte da democracia. Espera-se que reaja de forma serena e respeite a escolha dos brasileiros. Quanto a Lula, seus desafios no próximo governo serão proporcionais ao feito histórico.
O mais evidente será governar com um Parlamento hostil. O Congresso que emergiu das urnas tem perfil nitidamente conservador. Com 121 deputados e 28 senadores, o PL de Flávio será o maior partido nas duas Casas do Parlamento, com musculatura suficiente para atrapalhar qualquer iniciativa de Lula. Lideranças centristas aliadas do PT no atual mandato perderam espaço ou foram derrotadas nas urnas. Será preciso maturidade de todos para deixar de lado desavenças eleitorais improdutivas e trabalhar pelo Brasil.
É natural que, numa disputa eleitoral, o discurso por vezes agressivo deixe feridas. Mas é preciso cicatrizá-las. Lula deve ter a compreensão de que precisa trabalhar para unir o país que se dividiu nas urnas, sem soberba nem revanchismo. “Este país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base com o que está escrito na Constituição da relação com o Congresso”, afirmou em seu primeiro discurso depois de reeleito. Foi um sinal positivo. Será preciso que, desta vez, Lula honre suas palavras, em vez de repetir o que fez em 2022, quando foi eleito por uma frente ampla, mas, uma vez no governo, desprezou seus aliados — atitude que quase lhe custou a reeleição.
Na véspera de completar 81 anos, Lula não pode manchar sua biografia extraordinária com ressentimentos. Ele já comandou greves históricas em plena ditadura militar, participou da elaboração da Constituição de 1988, disputou a primeira eleição para presidente em 1989, voltou a concorrer e perdeu em 1994 e 1998, até ser eleito em 2002 e governar por dois mandatos. Depois de condenado e preso na Operação Lava-Jato, os processos foram anulados pela suspeição do juiz — e ele voltou ao poder em 2022. Tornou-se símbolo da democracia ao derrotar Jair Bolsonaro, condenado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado.
Mais uma vez, demonstrou força ao derrotar seu filho Flávio, contra as previsões. O revés no primeiro turno forçou mudanças na campanha petista, com ação intensa nas redes sociais, comícios e manifestações de rua. Ao mesmo tempo, os estrategistas corrigiram um dos maiores equívocos do primeiro turno, ao incentivar Lula a participar de debates.
Ao longo da campanha, o confronto entre os dois foi marcado pela discussão superficial de questões essenciais. Nada é mais preocupante que a deterioração das contas públicas, agravada pela profusão de programas populistas no ano eleitoral, ao custo de centenas de bilhões de reais. Desde já, Lula precisa passar a tratar a questão fiscal com seriedade, e não com o desdém manifestado durante a campanha. O Estado brasileiro exige um ajuste urgente e robusto, que acabe com o déficit crônico e reduza a trajetória explosiva da dívida pública, enquanto o programa de governo petista sugere outro, tímido e gradual. Lula precisa enfrentar o problema com determinação.
Também tem o dever de assumir a liderança no enfrentamento às facções criminosas, milícias e gangues que infernizam o país. Aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança e recriar o Ministério da Segurança Pública são iniciativas bem-vindas, mas não bastam. É fundamental que o governo atue de forma coordenada com os estados, de modo a somar esforços. A população brasileira não tem mais condição de conviver com tanta violência e criminalidade.
Por fim, ele não pode ignorar as denúncias que pesam sobre seu círculo mais próximo. Apurações em curso verificam se seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, cometeu tráfico de influência para favorecer empresários em contratos com o governo. Outras suspeitas pesam sobre seu ex-chefe de gabinete, acusado pela Polícia Federal (PF) de receber repasse de uma lobista próxima a Lulinha. É fundamental que, no novo mandato, a PF continue a ter a independência necessária para apurar esses casos a fundo e, se comprovados crimes, que os responsáveis sejam julgados e punidos.
Lula acaba de receber do eleitor mais uma chance, muito provavelmente sua última. Mais uma vez, elegeu-se brandindo a bandeira da democracia. Por isso precisa, acima de tudo, entender o papel essencial do jornalismo em qualquer democracia que se preze. Deve ter claro que a imprensa profissional continuará vigilante sobre tudo o que fizer no poder. Crítica quando necessário, propositiva como sempre. É nossa missão — e continuaremos a cumpri-la em seu novo mandato.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa após ser reeleito para o quarto mandato — Foto: NELSON ALMEIDA/AFP
Eleitores relatam dificuldade para obter passagens gratuitas no CE; Arce orienta insistir na busca
Escrito por Bergson Araujo Costa / DIARIONORDESTE
Eleitores cearenses que precisam usar transporte coletivo intermunicipal para votar no segundo turno das Eleições 2026 têm relatado dificuldades para conseguir passagens gratuitas, que são garantidas por lei no dia de votação.
Levantamento da Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce) aponta que, no primeiro turno, foram emitidas 560 passagens, enquanto no segundo, foram emitidas 19.600, até o momento.
O motorista José Hamilton, de 59 anos, relatou que procurava passagens com o filho para a cidade de Iracema, localizada na região do Vale do Jaguaribe, mas não conseguiu pelo site da empresa Guanabara.
“Ele entrou no site para marcar as passagens, tem que marcar para poder ir à rodoviária. Só que não tinha mais vaga para ir, só para voltar no domingo à noite”, relatou ao Diário do Nordeste o profissional, que pela dificuldade, buscou e conseguiu uma carona para a cidade.
Já na rede social X, antigo Twitter, uma internauta também relatou que foi à agência da Guanabara, no Terminal do Antônio Bezerra, na semana passada, e foi informado de que as passagens gratuitas começaram a ser distribuídas a partir do dia 21, às 17h.
“No entanto, ontem, minha irmã foi até lá por volta das 13h e já não havia mais passagens”, disse a eleitora.
'eleitor deve continuar tentando', diz Arce
Em nota ao Diário do Nordeste, a Arce informou que passageiros devem continuar tentando obter passagens e que as agências têm trabalhado para garantir as vagas conforme a demanda.
“O sistema de emissão das passagens gratuitas para as eleições 2026 opera sob as mesmas regras e condições dos bilhetes que são comercializados normalmente pelas operadoras do transporte rodoviário do estado. As empresas concessionárias não diferenciam o atendimento de passageiros pagantes e beneficiários da referida gratuidade”, afirmou a entidade.
Segundo a Arce, a busca por passagens é simultânea e dinâmica em todo o Estado.
Portanto, a indisponibilidade de assentos em determinado momento reflete o preenchimento das vagas em tempo real, razão pela qual o eleitor deve continuar tentando, em momento posterior, a fim de acompanhar a abertura de novos horários
NOVAS PASSAGENS
À medida que os ônibus ficam lotados, as operadoras têm incluído, continuadamente, novas viagens extras no sistema, além da inclusão de veículos de reforço, segundo a Arce.
A entidade informou ainda que tem monitorado as rotas intermunicipais, a fim de garantir que todos os eleitores do estado do Ceará possam se deslocar até o seu local de votação.
“Assim como na compra convencional de bilhetes, é importante ter flexibilidade em relação aos horários de partida, já que partidas em horários de pico podem se esgotar, havendo vagas em outros horários”, reforçou a agência.
COMO RECLAMAR?
Se não encontrar passagens disponíveis para o itinerário desejado, o passageiro pode entrar em contato com os canais oficiais da Ouvidoria da Arce:
- Telefone (gratuito): 0800 275 3838
- WhatsApp: (85) 98229-3093
Lula ganha nova chance de corrigir seu governo
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), prestes a completar 81 anos de idade, deu mais uma mostra de vigor pessoal e político ao conseguir uma inédita virada em segundo turno e reeleger-se, neste domingo (25), para seu quarto mandato presidencial com 52% dos votos válidos.
Se o feito reforça sua condição de maior líder popular brasileiro deste século, urge que a soberba não o impeça de compreender o significado de sua vitória dada como improvável até o dia anterior.
Seu governo foi mal avaliado pela sociedade, o que quase lhe custou ser batido por um político de pouca expressão, nenhuma experiência no Executivo e ligações rumorosas —Flávio Bolsonaro (PL), como se não bastasse, seria também um risco para a normalidade democrática.
Para superar o rival, Lula recorreu, como nunca o fizera em disputas anteriores, ao uso descarado da máquina pública. Empilhou benesses e promessas casuísticas, conspurcou programas e tornou ainda mais pesada a herança de déficits e dívidas que deixará para si próprio.
Ainda que tenha preservado a alto custo sua cadeira no Planalto, não pôde impedir que forças à direita ampliassem, novamente, sua participação no Legislativo e nos estados —o que será outro grande obstáculo desde já.
Tudo isso deveria ser mais do que suficiente para inspirar autocrítica e correção de rumos. Há mais, porém: é tão grave a crise orçamentária semeada pelo petista que será preciso escolher entre um ajuste duro e potencialmente impopular, renegado na campanha, e a rota de um colapso econômico. Sem conter o déficit do governo, os juros permanecerão na estratosfera e levarão a uma recessão que elevará a pobreza e o desemprego.
A nova chance que Lula recebeu do eleitorado será também, muito provavelmente, a última. Sua impressionante trajetória política será enriquecida se encerrada com atitude de estadista, que busca o interesse público antes da popularidade.
Seu terceiro governo já deveria ter sido, como se prometera, de frente política ampla. No entanto as forças ao centro receberam não mais que postos subalternos no primeiro escalão, preenchido muito mais com critérios de afinidade partidária e ideológica que de competência técnica.
Relações de confiança também foram os parâmetros principais para as indicações para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), o que contribuiu para o descrédito da corte, ora em crise inaudita.
A despeito dos esforços quixotescos de Fernando Haddad na Fazenda, a política econômica foi ditada ora pelas crendices, ora pelas conveniências eleitoreiras de Lula e do PT. Está hoje desacreditada por completo.
O mandatário preferiu reeditar políticas do passado a adaptar-se a um novo contexto doméstico e global, bem mais adverso que o de suas primeiras passagens por Brasília. Que mire o futuro agora e faça um bom quarto governo.
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Campanha deixa de lado temas essenciais ao país
Por Editorial / O GLOBO
Com a campanha eleitoral perto do fim, fica claro que candidatos, marqueteiros e estrategistas deixaram fora da propaganda e do debate temas fundamentais para o próximo governo. Assuntos inexoráveis como a deterioração das contas da Previdência, a necessidade de um ajuste fiscal robusto e propostas concretas para combater o crime organizado para além do populismo penal foram omitidos ou abordados de forma superficial pelas campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sucumbindo à profusão de ataques pessoais, ambos ficaram devendo ao eleitor.
É injustificável que um debate sério sobre a Previdência tenha passado em branco. A situação crítica das contas do INSS deveria ensejar preocupação. Enquanto a média anual de contribuintes subiu 1,2% entre 2015 e 2025, os beneficiários aumentaram 1,9% ao ano, como mostrou reportagem do GLOBO. Não é preciso muito esforço para perceber que os números não fecham, especialmente num cenário de envelhecimento populacional. Decisões recentes, como o pacote de bondades para microempreendedores individuais (MEIs) ou a aprovação de aposentadoria especial para agentes de saúde e endemias, agravarão o problema. “É necessário um debate mais profundo a respeito do financiamento da Previdência a médio e longo prazos”, diz o economista Rogério Nagamine.
Na proposta orçamentária para 2027 enviada ao Congresso, a despesa com benefícios foi projetada em R$ 1,4 trilhão e representa metade dos gastos primários do governo. É consenso que a reforma da Previdência de 2019 já não é suficiente para tornar o regime sustentável. Cedo ou tarde, outra reforma terá de entrar na pauta. Infelizmente, os candidatos fazem cara de paisagem diante de um desafio que só tende a piorar a cada dia que passa.
Não foi o único tema deixado de lado numa campanha de muitos ataques e poucas propostas. O ajuste fiscal também tem sido tratado com desdém. Não é verossímil que tanto Lula quanto Flávio ignorem a situação dramática das contas públicas. A questão deveria estar no centro das discussões sobre o próximo governo. Mas não. Além de não se comprometerem com medidas de austeridade, os dois não param de anunciar programas e iniciativas populistas que gerarão mais despesas, ampliando o rombo nas finanças públicas.
Mesmo a segurança, aparentemente tema de destaque nas campanhas, vem sendo tratada de forma rasa, com base em achismos e frases de efeito e sem o menor amparo em evidências e estudos científicos. Será preciso muito mais para livrar o país do domínio nefasto de organizações criminosas que controlam grandes extensões do território das cidades. É necessário apresentar planos e estratégias consistentes de reocupação e combate a tais grupos, para além do rigor penal e do aceno a categorias de agentes de segurança.
Políticos não gostam de tocar em temas sensíveis com medo de perder votos, mas há questões incontornáveis na agenda. Um dos dois postulantes governará o país a partir de 2027, e o eleitor tem o direito de saber o que planeja. Seria lamentável que as respostas viessem só depois da eleição. Os candidatos terão hoje, no debate da TV Globo, uma última chance para evitar ataques pueris, apresentar suas propostas e esclarecer a população sobre tudo o que deixaram de lado ao longo de semanas. Devem aproveitá-la.
A sede do INSS em Brasília — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


