O alerta de aliados sobre o maior risco para Bolsonaro nestas eleições
Jair Bolsonaro rodeado pelos filhos Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan — Foto: Reprodução/Twitter Antes mesmo da escalada da guerra do clã Bolsonaro, com a divulgação do vídeo em que Michelle acusa Flávio de tê-la humilhado e apunhalado pelas costas, Jair Bolsonaro foi alertado por aliados mais pragmáticos sobre um grande risco à sua família nestas eleições: o de seus três filhos mais velhos ficarem sem mandato, num momento em que o patriarca está em prisão domiciliar e a disputa pelo seu espólio está escancarada em praça pública.
Tal cenário pode se concretizar caso Flávio Bolsonaro não se eleja presidente e Carlos, que é candidato a senador pelo PL em Santa Catarina, acabe a eleição atrás de Esperidião Amin (PP) e Carol de Toni (PL). Eduardo, deputado cassado, está nos Estados Unidos em um autoexílio. Dos Bolsonaro que disputam cargo público, sobram Jair Renan, o filho mais novo a disputar cargos públicos, que é candidato a deputado federal em Santa Catarina, e Michelle, que está bem colocada nas pesquisas para senadora pelo Distrito Federal. Mas os três filhos mais próximos podem sair da eleição sem cargo.
Tal cenário pode se concretizar caso Flávio Bolsonaro não se eleja presidente e Carlos, que é candidato a senador pelo PL em Santa Catarina, acabe a eleição atrás de Esperidião Amin (PP) e Carol de Toni (PL). Eduardo, deputado cassado, está nos Estados Unidos em um autoexílio. Dos Bolsonaro que disputam cargo público, sobram Jair Renan, o filho mais novo a disputar cargos públicos, que é candidato a deputado federal em Santa Catarina, e Michelle, que está bem colocada nas pesquisas para senadora pelo Distrito Federal. Mas os três filhos mais próximos podem sair da eleição sem cargo.
Carlos iniciou a carreira política ao assumir o cargo de vereador, em 2001. Flávio, por sua vez, foi eleito pela primeira vez para um mandato de deputado estadual em 2002, pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), onde exerceu quatro mandatos consecutivos. Já Eduardo foi eleito pela primeira vez nas eleições de 2014 para uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Estado de São Paulo.
Dos três filhos mais velhos, Eduardo é quem está numa situação mais delicada, tanto em termos políticos quanto jurídicos.
Cassado pela Câmara dos Deputados em dezembro do ano passado, o filho 03 está inelegível pelos próximos 12 anos e, portanto, impedido de disputar as próximas eleições.
A inelegibilidade é decorrência da condenação a quatro anos de prisão e dois meses de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo ao tramar sanções contra autoridades brasileiras para impedir a condenação do pai no caso da trama golpista, enquanto cumpre um auto-exílio nos Estados Unidos.
Carlos, por sua vez, enfrenta uma disputada eleição por uma vaga no Senado Federal por Santa Catarina, para onde transferiu seu domicílio eleitoral. Apesar de figurar como um tradicional reduto bolsonarista, o Estado é palco de uma acirrada disputa, com três candidatos competitivos do campo da direita – além de Carlos, a deputada federal Carol de Toni (PL) e o senador Esperidião Amin (PP) aparecem embolados em levantamentos de pesquisa.
“Parte do eleitorado catarinense vê Carlos como um estrangeiro”, afirma um interlocutor da família Bolsonaro ouvido reservadamente pelo blog, sobre as dificuldades no caminho do filho 02 na tentativa de representar o Estado no Parlamento.
A candidatura de Carlos também irritou lideranças locais e implodiu um acordo feito por Amin com o governador Jorginho Mello (PL). Após ser escanteado da composição da chapa, o parlamentar decidiu apoiar a candidatura ao governo do ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD).
Palácio do Planalto
A maior aposta da família é a candidatura presidencial de Flávio, que, segundo a última pesquisa Genial/Quaest, está com uma desvantagem de oito pontos percentuais em relação a Lula. De acordo com o levantamento, o presidente tem 45% das intenções de voto, contra 37% de Flávio. Em maio, havia um empate técnico entre os dois (42% a 41%), considerando a margem de erro.
De lá pra cá, a pré-campanha de Flávio foi abalada pelo vídeo de Michelle, que expôs as fissuras da família, e os desdobramentos das investigações do caso Banco Master, que trouxeram à tona mensagens em que o senador cobra do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para supostamente financiar “Dark Horse”, filme sobre o atentado a faca contra Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. A estreia do longa-metragem está prevista para ocorrer após o pleito de outubro, conforme informou ao blog a distribuidora Europa Filmes.
O caso Master voltou a assombrar Flávio nesta quarta-feira, após o site ICL Notícias divulgar uma foto em que Flávio aparece ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário". O capanga de Vorcaro recebia R$ 1 milhão por mês para providenciar uma série de atividades ilícitas para o chefe, como obter acesso a investigações sigilosas, intimidar pessoas consideradas adversárias, planejar emboscadas e até mesmo ocultar informações da internet que seriam desfavoráveis ao entorno do banqueiro.
Na foto, os dois estão de óculos escuros – e Flávio, sem camisa, indicando se tratar de uma situação informal. Segundo o ICL Notícias, a imagem foi feita em 2022, em um hotel da zona sul do Rio. No entorno de Flávio, a tentativa é a de minimizar o desgaste provocado pelo episódio. “Já tirei fotos com milhares de pessoas. Saber o que cada um faz e pesquisar CPF não existe”, afirma um integrante da tropa de choque bolsonarista no Congresso.
Em nota divulgada à imprensa, Flávio alegou que “não conhece e nunca viu a pessoa na foto”. “É irresponsável tentar atribuir qualquer significado pessoal a uma imagem aleatória. Além disso, não se sabe qual a procedência da foto, nem se a imagem é real ou produzida por inteligência artificial", disse o pré-candidato.
Se o filho mais velho enfrenta um caminho mais turbulento na corrida presidencial, o vereador de Balneário Camboriú Jair Renan (PL), o filho 04 de Bolsonaro, deve encontrar menos obstáculos em sua campanha pela Câmara dos Deputados, também por Santa Catarina. Em suas redes sociais, Jair Renan escreveu no último domingo que, ao lado de Flávio Bolsonaro, seguirá firme “na defesa de Deus, Pátria, Família e Liberdade”.
“Ser deputado federal é mais fácil”, resume um aliado. Difícil mesmo é garantir a paz na família Bolsonaro.
Pré-campanha de Lula tem disputa interna, e aliados travam embates do jurídico à comunicação
A cerca de um mês do começo oficial da corrida presidencial, a pré-campanha do presidente Lula (PT) vive disputas por espaço no núcleo de decisões de seu comitê eleitoral. A briga por poder vai da equipe de comunicação à definição do plano de governo para um eventual Lula 4, passando ainda pelo jurídico.
Os embates ocorrem em momento em que o presidente consolida sua vantagem em relação a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e tem uma recuperação na aprovação do governo. Segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta (15), o petista abriu vantagem de oito pontos sobre o senador.
A comunicação tem sido alvo de disputas constantes no núcleo do petista, a ponto de o ministro da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), Sidônio Palmeira, e o chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, terem travado um debate diante do presidente sobre os rumos da campanha. Segundo dois aliados próximos, Lula teve que dar um soco na mesa para interromper a discussão.
De acordo com esses relatos, Lula reclamava com Sidônio do tom festivo de uma peça publicitária produzida pela Secom, lembrando que já havia se manifestado contrário a esse estilo de propaganda. Enquanto Sidônio contra-argumentava, Marcola apoiou a opinião do presidente, desencadeando uma discussão entre os dois.
A peleja entre dois grupos palacianos cresceu com a transferência das contas pessoais do presidente para o PT. O partido tem Nicole Briones, mulher de Marcola, à frente da coordenação digital.
A mudança deixou os perfis de Lula a cargo do ex-secretário de produção e divulgação de conteúdo audiovisual, Ricardo Stuckert. E, por decisão do presidente, Sidônio permanecerá no governo.
Embora o ministro fique fora do marketing da campanha, o publicitário Raul Rabelo, seu ex-sócio, integrará a equipe, ao lado de Stuckert, Nicole e do secretário de comunicação do PT, Edén Valadares. O trabalho será coordenado pelo presidente do PT, Edinho Silva.
Sidônio tem minimizado o episódio com Marcola em conversas com pessoas próximas e disse que não houve briga. Aliados do marqueteiro também negam haver mal-estar entre ele e outros auxiliares de Lula, dizendo que o próprio presidente pediu que ele ficasse no governo.
Tanto Sidônio quanto Marcola foram procurados para comentar o caso, mas não responderam.
A elaboração do plano de governo também causou entrevero, especialmente depois de o coordenador do programa, Sérgio Gabrielli, questionar, publicamente, a centralidade da política de juros no combate à inflação.
Segundo relatos, o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), reagiu às críticas à condução da política econômica, sob a justificativa de que a equipe econômica não tinha sido consultada sobre o texto.
Gabrielli argumentou, durante reunião da coordenação da campanha, que está ouvindo governo e sociedade para redação da proposta —ainda em fase de construção. Lula determinou que só se fale sobre o programa de governo após aval da equipe econômica e de Haddad.
Gabrielli e Haddad também não responderam a pedido de comentário a respeito das rusgas na pré-campanha.
Além de arbitrar sobre desavenças, o presidente tem manifestado preocupação com o desempenho da equipe jurídica, diante de divergências entre o presidente do PT e o coordenador do grupo Prerrogativas, Marco Aurélio Carvalho.
Lula libera R$ 520 mi para propaganda antes da eleição, mais que o dobro de Bolsonaro em 2022
Mateus Vargas / FOLHA DE SP
O governo Lula (PT) ampliou despesas em propaganda no primeiro semestre deste ano, às vésperas do início da campanha do presidente à reeleição, e destinou mais que o dobro dos gastos do governo Jair Bolsonaro (PL) no mesmo período de 2022.
A gestão petista já empenhou R$ 520 milhões para a ação do Orçamento que é usada principalmente para custear as campanhas publicitárias da Secom (Secretaria de Comunicação Social) de janeiro a junho, antes de o calendário eleitoral impor travas aos gastos com comunicação. No ano da última disputa à Presidência, Bolsonaro encaminhou R$ 213,5 milhões no período.
Em anos eleitorais, a propaganda oficial fica concentrada principalmente no primeiro semestre porque a lei determina suspensão da publicidade institucional durante o período conhecido como defeso, que neste ano começa em 4 de julho. Ficam liberadas apenas exceções, como campanhas que a Justiça Eleitoral reconhece como de "grave e urgente necessidade pública".
A legislação também impõe limites de verba que os governos podem empenhar no primeiro semestre. A cifra é calculada a partir dos valores empenhados nos três anos anteriores com diversos tipos de ações de comunicação, incluindo a Secom.
Na mesma ação do Orçamento que custeia propagandas, o governo também destinou cerca de R$ 7,6 milhões para contratar pesquisas de opinião. Em nota, o governo afirmou que segue os limites de despesas estabelecidos por lei.
"Eventuais comparações entre exercícios distintos devem considerar as especificidades de cada período, as políticas públicas desenvolvidas, o planejamento anual de comunicação e as necessidades de campanhas de utilidade pública, não sendo adequada a comparação isolada de valores empenhados entre anos sem a devida contextualização", disse a Secom.
O levantamento feito pela Folha considera valores atualizados pela inflação e destinados à ação orçamentária de "comunicação institucional", que é totalmente destinada para a Secom encomendar peças de propaganda sobre programas do governo. Foi contabilizado o valor empenhado, que representa a fatia do orçamento reservada oficialmente para pagar uma determinada despesa.
A gestão federal também tem verbas de "publicidade de utilidade pública", que servem principalmente para campanhas do Ministério da Saúde. Elas também ficam travadas durante o período de defeso eleitoral, ressalvadas campanhas informativas e ligadas a temas como vacinação, com vedação ao uso de slogans do governo e menções a candidatos.
A campanha do governo de maior valor até aqui tem custo estimado em R$ 150 milhões e o slogan "conectando entregas e futuro". É uma propaganda classificada como de posicionamento, com objetivo de distribuir anúncios sobre diversas bandeiras da gestão petista.
A Secom também empenhou ao menos R$ 80 milhões para a campanha sobre o fim da escala 6x1, em que seis dias de trabalho são seguidos de um dia de descanso.
Os recursos foram usados para produzir a campanha com o mote "tempo com a família", lançada no começo de maio. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que acaba com a escala foi aprovada pela Câmara e ainda precisa passar pelo Senado.
O governo Lula destinou R$ 45 milhões para promover a nova edição do Desenrola Brasil, que prevê renegociação de dívidas.
Como a Folha mostrou, a verba empenhada para campanhas de utilidade pública e para propaganda do governo atingiu cerca de R$ 1,6 bilhão no ano passado, o maior valor desde 2017. A Secom consumiu a principal fatia (R$ 968 milhões), enquanto o restante foi utilizado principalmente pelo Ministério da Saúde.
O Orçamento total de 2026 prevê menos despesas com propaganda em comparação com o ano passado, cerca de R$ 1,5 bilhão, sendo que a maior fatia foi destinada às ações de interesse público (R$ 825,3 milhões).
Neste mandato, o governo Lula ampliou de cerca de 20% para mais de 30% a fatia de gastos com campanhas publicitárias na internet. Com a mudança, o recurso destinado para Google e Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) superou pela primeira vez, no ano passado, o valor em anúncios pagos nas redes de televisão SBT e Band.
O governo também tem contratado influenciadores digitais para promover as suas bandeiras. A Secom ainda contratou no último ano três agências —a Briviacom Comunicação e Marketing, a Binder Comunicação e a BKR Agência de Publicidade— para gestão de uma conta de R$ 100 milhões destinada à produção de vídeos, podcasts e outras propagandas do governo.
Os valores das campanhas publicitárias não são detalhados no Portal da Transparência. O site mostra de forma genérica quanto cada agência recebeu. A Secom tem um portal próprio com informações sobre a distribuição dos anúncios, mas com atualização defasada.
A Folha levantou os custos de parte das propagandas a partir de informações registradas em notas de empenho no Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira) e de dados obtidos com pessoas que acompanham a execução das campanhas federais. Os valores foram depois confirmados pela Secom.
Na quarta-feira (24), o PL, partido do senador Flávio Bolsonaro (RJ), pediu ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a suspensão de todas as campanhas publicitárias do governo Lula, sob argumento de que a gestão federal já ultrapassou o teto de gastos com publicidade no primeiro semestre do ano eleitoral (que é calculado com base na média mensal dos anos anteriores à eleição). O ministro André Mendonça é relator do caso.
No último dia 17, a Justiça Federal no Distrito Federal atendeu a um pedido do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e mandou o governo suspender, especificamente, anúncios nas redes da campanha pelo fim da escala 6x1.
A Secom informou que apresentará à Justiça "os esclarecimentos técnicos e jurídicos que se fizerem necessários".
Em 2022, o governo Bolsonaro pagou ao menos R$ 20 milhões para uma campanha sobre o bicentenário da Independência —o uso eleitoral da cerimônia motivaria uma das condenações em que o ex-presidente foi punido com inelegibilidade pelo TSE.
Um acórdão de 2024 do TCU (Tribunal de Contas da União) ainda apontou que campanhas de alto valor feitas em 2022 tiveram temática mal delimitada, como uma de R$ 100 milhões para "prestação de contas e balanço", além de outra de R$ 120 milhões classificada como "always on", estratégia voltada a manter por mais tempo na mídia diferentes mensagens do governo.
Parte destas campanhas do último ano do governo Bolsonaro foi empenhada após o período eleitoral, quando ele já havia sido derrotado.
Datafolha confirma favoritismo de Tarcísio em SP
Com a depuração das pré-candidaturas ao governo de São Paulo e a chegada da temporada de convenções para confirmar os nomes da disputa, o cenário é amplamente favorável ao incumbente, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Na primeira pesquisa feita pelo Datafolha nesse contexto, o governador larga com uma expressiva vantagem sobre seu principal oponente, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). No levantamento, Tarcísio marcou 46% das intenções de voto no estado, ante 30% do petista.
Em votos válidos, que excluem brancos e nulos e constituem a forma de contagem final no dia da eleição, o governador atinge 52%. Dado que a margem de erro é de dois pontos percentuais e que restam três meses até o pleito, não se pode afirmar que tal patamar indica vitória no primeiro turno —mas tal possibilidade está colocada.
O levantamento ainda aferiu a avaliação positiva de Tarcísio, cuja gestão é considerada ótima ou boa por 45% dos entrevistados, e uma aprovação de seu trabalho por 63%. São números que ajudam a sustentar bons prognósticos para sua campanha.
Deve-se observar, contudo, que os adversários ainda terão tempo de explorar as eventuais fragilidades do incumbente —um quase neófito na política, nascido no Rio de Janeiro e apadrinhado por Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.
Além das turbulências inerentes a corridas eleitorais, há insatisfações crônicas do eleitorado paulista: segurança pública e saúde são apontadas como os maiores problemas do estado, ambas por 27%, e 46% consideram que o mandatário fez menos do que poderia no cargo que assumiu após quase três décadas de hegemonia do PSDB.
A pesquisa traz um cenário complexo para Haddad. O ex-ministro foi novamente chamado a cumprir uma missão para seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —no caso, a repetição de um desempenho que leve a disputa para o segundo turno.
Deu certo em 2022, quando o já conhecido Haddad ajudou Lula a amealhar votos importantes para a vitória no olho mecânico contra Bolsonaro. Na simulação de agora, o petista perde o tira-teima por 53% a 37%.
Veterano de três derrotas eleitorais consecutivas, ele tem a maior rejeição entre os postulantes deste ano, de 47%, enquanto o governador tem 29%.
Haddad foi bem-sucedido em aglutinar a oposição na sua faixa política, retirando da disputa, por exemplo, Márcio França (PSB), que será seu vice. Mas enfrenta um revés inesperado com os 13% registrados por três candidatos de esquerda radical.
A maior dificuldade do petista está no interior, que abriga 53% do eleitorado do estado e dá vantagem folgada de 49% a 26% a Tarcísio. Nesse estrato, é forte a influência do conservadorismo e do antipetismo que a legenda de Lula ainda não logrou superar.
Conheça os não polarizados: eleitores que rejeitam Lula e Flávio somam 27%, são voláteis e se guiam por pautas concretas
Por Caio Sartori Kaio Magalhães*— Rio / O GLOBO
Dentro do Brasil que se polariza nas intenções de voto, há espaço para 27% que não se consideram antipetistas nem antibolsonaristas. Aberto a votar em quem fizer a campanha mais alinhada com seus anseios, sem rejeições intransigentes ou movido por paixões, esse eleitor, resignado com a falta de opção, se esforça para ouvir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e demais candidatos ao Palácio do Planalto. A tendência, segundo relatos, é que definam seu voto pela percepção sobre economia e a capacidade que presidenciáveis têm para apresentar soluções concretas em áreas como criação de emprego e redução de impostos.
Recortes inéditos da pesquisa Genial/Quaest mostram que os não polarizados têm maior incidência entre os mais pobres e aqueles que se consideram independentes — nem de direita, nem de esquerda. O diretor do instituto, Felipe Nunes, evita cravar o que eles valorizam, já que a pesquisa não entra nesse detalhe. Os dados gerais, no entanto, indicam o caminho.
— O que a estrutura do dado sugere, e aí é leitura minha, é que, por não responderem ao apelo ideológico, esses eleitores tendem a decidir por entrega concreta: renda, custo de vida, percepção de melhora de vida. É o eleitor que responde a resultado de governo, não a narrativas.
Atento à conjuntura
Analista de departamento pessoal, Lucas Sarmento, de 31 anos, é um farol para entender como pensam hoje os não polarizados: acredita que os dois lados têm pontos positivos e negativos. Já votou em Jair Bolsonaro e agora indica preferência por alguém de fora da polarização, mas, diante da conjuntura cristalizada, se prepara para escolher entre Lula e Flávio no segundo turno. Por causa da defesa do fim da escala 6x1, tende a votar no petista, apesar de ainda não estar decidido.
— No primeiro turno eu vou ver uma terceira opção, mas ainda nem sei direito quem são os candidatos — afirma. — A redução da carga horária de trabalho foi uma pauta interessante, ainda mais que trabalho fazendo pagamento de funcionários que trabalham 6x1. E também já trabalhei nessa escala, então é algo que realmente faz a diferença na minha escolha.
Hoje, segundo o resultado da Quaest, os eleitores neutros têm caminhado para Lula. Na aprovação de governo, por exemplo, o placar é de 51% a 40% dentro do recorte. Felipe Nunes alerta, no entanto, para a volatilidade desse eleitorado. Como não é calcificado, ele oscila de acordo com a percepção do momento político e econômico, sem convicções ideológicas.
— Por ser um eleitor que responde à conjuntura, esse saldo positivo é reversível. Lula melhorou agora, mas é exatamente o grupo que pode virar de novo se a percepção econômica mudar. É uma boa notícia para o governo, mas não é um voto consolidado — pontua Nunes.
Por não ter a repulsa aos polos como algo basilar da forma de encarar as eleições, o brasileiro não polarizado desponta como a joia da coroa das campanhas. É ele que Lula e Flávio, além dos outros presidenciáveis, precisam conquistar.
— Não está “travado” contra nenhum dos lados de antemão. Nesse sentido, é o pedaço mais genuinamente disputável do eleitorado, e soma-se a ele a fatia dos 10% que rejeitam os dois polos. Mais de um terço do país não está preso a nenhuma das duas camisas — aponta o diretor da Quaest.
O contador Mateus Souza, de 29 anos, é exemplar da volatilidade. Votou em Bolsonaro em 2018, mas migrou para Lula no segundo turno de 2022, após não escolher nenhum dos dois no primeiro turno: — Normalmente eu gosto de escutar ambos os lados, tento evitar ficar numa bolha.
Embora se enquadre na tendência e esteja agora mais inclinado para o petista, Souza demonstra ceticismo com a forma como algumas das principais bandeiras do Lula 3 são propagadas. Considera a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil uma medida “básica”, mas que foi vendida de forma populista pelo presidente. Também simpatiza com o Desenrola, apesar de não ver no programa uma solução perene.
O benefício da dúvida também é dado por Fernanda Araújo, paraibana de 29 anos que votou duas vezes no PT. Com a família tendo sido beneficiária do Bolsa Família, a educadora social enaltece a política de transferência de renda, mas o histórico pessoal não é suficiente para transformá-la numa petista convicta. Quer aguardar os debates entre todos os nomes que estão na briga para analisar o que será dito em áreas como segurança e saúde:
— Ainda é cedo para pensar em quem votar, estou acompanhando para ver um lado e o outro. Vou deixar isso mais para frente e avaliar o que melhor se encaixa com o que penso, mas sem tomar partido.
Série histórica
O patamar das diferentes classificações — antipetista, antibolsonarista, neutros e contra os dois — segue relativamente estável ao longo dos meses, se considerada a margem de erro de dois pontos percentuais da Genial/Quaest. Levando em conta os números absolutos, no entanto, o antipetismo registrou a mínima da série histórica em junho, com 29%. O antibolsonarismo está em 31%.
Há divisões significativas por gênero. Embora os neutros representem percentuais parecidos entre mulheres (28%) e homens (26%), a diferença se acentua na parcela de antibolsonaristas e antipetistas em cada sexo. Entre elas, o grupo mais relevante é o que repele o universo ligado à família Bolsonaro, 35%; entre eles, o petismo tem a maior rejeição, 32%.
Na outra ponta se comparado com Fernanda, eleitora de histórico mais próximo ao PT, o jornalista Vicente Almeida, de 33 anos, acompanhou o “ovo da serpente” do bolsonarismo por meio dos vídeos do filósofo Olavo de Carvalho. Mas, durante período em que trabalhou como motorista de aplicativo, aprendeu a ouvir diferentes perspectivas e extraiu dali a leitura de que é melhor não se prender a um lado. A fim de definir o voto, espera de Lula novas propostas econômicas e trabalhistas; de Flávio, medidas na direção da redução de impostos.
— A partir do momento em que você vê o jogo como um técnico e não como um jogador, consegue enxergar melhor — diz Almeida.
*Estagiário, sob supervisão de Fernanda Freitas

