Uma pausa, muitas incertezas
Por Notas & Informações /O ESTADÃO DE SP
O prazo expirava às 21h de terça-feira. Horas antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou destruir a infraestrutura iraniana e aniquilar a própria sociedade do país – uma retórica genocida, tão inaceitável quanto reveladora dos riscos da escalada. Não foi o primeiro ultimato nem o primeiro recuo. Ainda assim, o mundo preparava-se para o pior. Em vez disso, veio um cessar-fogo de duas semanas, a minutos do limite. As armas se calaram, mas a guerra apenas mudou de forma
Na trincheira das narrativas, ambos declararam vitória. Os fatos são menos conclusivos. Teerã celebra a sobrevivência do regime e a preservação de sua principal alavanca estratégica. Mas sua demonstração de força se assenta sobre bases frágeis: a economia está seriamente abalada, a inflação avança, a infraestrutura está depauperada e o risco de pressão social interna foi renovado. Washington aponta para os danos às capacidades militares iranianas e para a reabertura do Estreito de Ormuz. Mas o estreito opera sob as mesmas forças que o haviam sequestrado, e a abertura não durou nem 24 horas sem que o Irã a condicionasse ao fim das hostilidades de Israel contra o Hezbollah. O programa nuclear segue praticamente intacto. E a negociação parte agora de propostas iranianas que, semanas atrás, seriam descartadas como inaceitáveis.
O recuo, mais do que escolha, foi uma necessidade. Os preços de energia, a instabilidade dos mercados e o risco de uma escalada regional incontrolável pesaram mais do que qualquer ganho previsível. Há um limite para o quanto democracias toleram custos crescentes e para o quanto ameaças extremas podem ser levadas adiante sem efeitos colaterais mais graves que os problemas que pretendem resolver. Ameaças dessa envergadura, quando alardeadas em público, criam uma pressão difícil de administrar: recuar cobra um preço; cumprir, um preço ainda maior.
A estratégia de Trump partiu de um pressuposto que lhe é familiar desde os tempos de incorporador em Manhattan: toda pressão, levada ao extremo, acaba por encontrar um preço – e, logo, uma concessão. O problema é que nem todo adversário opera segundo essa lógica. O Irã não precisava vencer nem ceder. Bastava resistir. A escalada, que deveria funcionar como instrumento de barganha, passou a operar como teste de permanência. Em conflitos desse tipo, não vence quem impõe mais danos imediatos, mas quem suporta por mais tempo suas consequências. Nesse jogo, regimes como o iraniano operam com vantagens que democracias dificilmente replicam, justamente porque toleram custos que, do outro lado, se provam politicamente insuportáveis.
O cessar-fogo reflete essa assimetria. É curto, condicional e carregado de ambiguidades. O ponto central das negociações – Ormuz – ilustra bem a mudança de equilíbrio. Não foi um bloqueio clássico. Ataques pontuais, ameaça de minas e prêmios de seguro proibitivos bastaram para que operadores privados suspendessem rotas por conta própria. O estreito não precisa ser fechado – apenas tornar-se economicamente inviável. Em Ormuz, o risco já se converteu em poder. Isso só confirma o fato essencial na raiz desta guerra: o regime terrorista dos aiatolás continua a representar uma ameaça estrutural à região e ao mundo, que se tornará muito mais grave caso venha a empunhar uma arma nuclear.
A pausa era difícil de evitar. Mas seu saldo está longe de ser confortável. O Irã sofreu perdas militares relevantes, mas preservou o regime e demonstrou a eficácia de sua principal ferramenta de pressão. A depender dos desdobramentos da interrupção, corre-se o risco de validar essa estratégia: usar a vulnerabilidade energética global como forma de extorsão. O dilema é evidente: prolongar as negociações dá tempo ao Irã; intensificar a guerra amplia riscos que já se mostraram difíceis de conter.
O Armagedon foi evitado – por ora. No lugar da catástrofe imediata, instalou-se uma incerteza mais duradoura. Cada lado encontra no desfecho sinais do que buscava. O essencial, porém, permanece em disputa. Nessas circunstâncias, o intervalo aberto pelo cessar-fogo tende a não ser um caminho para a paz, mas apenas o prelúdio de uma nova fase do conflito. O que se ganhou foi tempo. O que fazer com ele continua sendo a questão decisiva.
No centro do caso Master, Alexandre de Moraes tira da gaveta ação do PT para limitar delação
Por Malu Gaspar — Brasília / O GLOBO
Em meio ao avanço das tratativas para uma delação premiada de Daniel Vorcaro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes resolveu tirar da gaveta uma ação apresentada em 2021 por advogados do PT que questiona a validade e os limites constitucionais das colaborações premiadas. Na segunda-feira, ele pediu a inclusão na pauta de uma ação movida pelos advogados do PT Lenio Streck, André Trindade e Fabiano Santos, que foi presidente dos Correios neste terceiro mandato de Lula.
A movimentação indica que o ministro, potencial alvo das revelações do dono do Master, pretende tentar restringir a validade da delação, como já fez há duas semanas, quando deu uma liminar restringindo o uso dos relatórios de inteligência financeira do Coaf.
A ação em questão é a ADPF 919. Nela, o PT pede que o STF fixe critérios para impedir o uso arbitrário de delações premiadas e “coibir interpretações que violem garantias fundamentais”.
Em dezembro de 2021, Moraes já havia solicitado informações ao então presidente Jair Bolsonaro e ao Congresso sobre o tema, para instruir essa mesma ação, mas não tomou decisão a respeito.
Dois anos depois, em setembro de 2023, ele homologou a delação do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, no processo em que o ex-presidente terminou condenado a 27 anos de prisão por planejar um golpe de estado junto com ex-ministros e generais que compunham seu governo. A Procuradoria-Geral da República chegou a ser contra a delação de Mauro Cid, mas ele foi fechado diretamente com a Polícia Federal e com o aval de Moraes.
Hoje, Moraes é um potencial alvo da delação premiada de Vorcaro, junto com o ministro Dias Toffoli, que está em negociação tanto com a PGR como com a PF, e já enviou um recado aos investigadores de que pretende fazer uma “delação séria” e não poupar ninguém. O relator do caso Master no Supremo é o ministro André Mendonça.
Um dos pontos a ser esclarecido na delação é o contrato que o banco fechou em 2024 com o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, prevendo o pagamento de R$ 130 milhões de reais em três anos para a prestação de serviços junto ao Executivo e ao Legislativo em Brasília. A Receita Federal informou nesta semana à CPI do Crime Organizado que o banco pagou R$ 80 milhões em 22 meses ao escritório antes de ser liquidado pelo BC. Meses depois de questionado, o escritório afirmou ter feito reuniões e elaborado uma política de compliance para o banco, mas os valores são muito acima do mercado.
Além disso, o conteúdo do celular do banqueiro apreendido pela PF mostra que, no dia da prisão, Vorcaro trocou diversas mensagens com Moraes dizendo que estava tentando “salvar” o banco e perguntando: “Alguma novidade? Conseguiu bloquear?”.
A equipe da coluna apurou ainda que o ministro pressionou o presidente do BC, Gabriel Gaipolo, para autorizasse o fechamento do negócio entre o Banco Master e o BRB — operação que acabou no centro da fraude bilionária investigada pela Polícia Federal.
O resgate da ação sobre as delações premiadas vem duas semanas depois que o próprio Moraes dar uma liminar restringindo o acesso a RIFs do Coaf — os Relatórios de Inteligência Financeira que reúnem comunicações sobre movimentações atípicas ou suspeitas e costumam servir de ponto de partida para apurações de lavagem de dinheiro, corrupção e outros crimes financeiros.
Foi por meio desses relatórios que já se descobriu os pagamentos do Master à consultorias ligadas a políticos como o ex-prefeito de Salvador Antonio Carlos Magalhães Neto (União-BA) e o escritório do filho do então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).
Pela decisão, o compartilhamento desses relatórios passou a exigir investigação criminal formalmente instaurada, ou processo administrativo ou judicial sancionador, numa tentativa de barrar o que o ministro classificou como “pesca probatória”. A medida vale, inclusive, para CPIs e CPMIs, e prevê nulidade das provas obtidas fora desses parâmetros até que o plenário julgue o mérito.
Além de driblar um entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) válido desde 2019, o ministro Alexandre de Moraes deu uma guinada radical em relação a seu próprio histórico de decisões. Em agosto de 2025, nessa mesma ação, ele tinha dado uma liminar buscando o contrário, preservar o uso dos RIFs em investigações, permitindo o “compartilhamento de RIFs sem autorização judicial, desde que em procedimento formalmente instaurados e com garantia de sigilo”.
E esclareceu que os tribunais brasileiros, incluindo o Superior Tribunal de Justiça (STJ), não podiam anular investigações que utilizassem RIFs produzidos antes da instrução penal porque, conforme apontou o Ministério Público Federal (MPF), isso teria “graves consequências à persecução penal, como a anulação de provas, o trancamento de inquéritos, a revogação de prisões, a liberação de bens apreendidos e a invalidação de operações policiais essenciais ao combate ao crime organizado, à lavagem de dinheiro e à sonegação fiscal”.
Com a perspectiva de se tornar ele próprio objeto de investigações, Moraes já mudou de ideia sobre o uso das informações de inteligência do Coaf. Aparentemente, a próxima guinada deve se dar quanto ao uso das delações.
Master declarou pagamentos a Temer, Rueda, Mantega, Lewandowski e ACM Neto
Documentos enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado apontam repasses milionários do Banco Master, de Daniel Vorcaro, a escritórios de advocacia e empresas ligadas a Michel Temer (MDB), Antônio Rueda (União Brasil), ACM Neto (União Brasil), Marconi Perillo (PSDB), Guido Mantega, Fabio Wajngarten, Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski.
Os dados obtidos pela Folha indicam que, de 2024 a 2025, o Master pagou R$ 18,5 milhões a Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos primeiros mandatos de Lula (PT) e ex-titular da Fazenda de Temer, e R$ 14 milhões à Pollaris Consultoria, empresa de Guido Mantega, ex-ministro na pasta econômica em gestões petistas.
O banco também informou pagamento de R$ 10 milhões ao escritório de advocacia de Temer em 2025 e R$ 6,4 milhões, desde 2023, a dois escritórios de Rueda, presidente nacional do União Brasil.
A empresa MV Projetos e Consultoria, de Marconi Perillo, ex-governador de Goiás e ex-presidente do PSDB, recebeu pagamentos de R$ 14,5 milhões entre 2022 e 2025. Perillo presidiu o PSDB de novembro de 2023 a novembro de 2025. Ele diz ter atuado de forma lícita como consultor de algumas empresas.
Duas empresas do Grupo Massa, da família do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), também aparecem nos dados. A Massa Intermediação, do pai do governador, o apresentador Ratinho, recebeu R$ 21 milhões de 2022 até 2025. O apresentador era um dos garotos propaganda do cartão de consignado do banco, o CredCesta. Já a Gralha Azul Empreendimentos e Participações, que pertence ao Grupo Massa, recebeu R$ 3 milhões em 2022, segundo o Master.
Em nota, a assessoria de imprensa do Grupo Massa afirmou que "construiu uma trajetória pautada por práticas amplamente reconhecidas pelo mercado com rendimentos declarados à Receita Federal, incluindo campanhas publicitárias e parcerias com diversas marcas e empresas". A assessoria do Grupo Massa afirma que Ratinho Junior não é sócio do grupo. O governador não quis se manifestar a respeito do pagamento de R$ 21 milhões.
Já Meirelles afirmou que prestou consultoria ao Master e encerrou seu contrato em julho de 2025. Temer afirmou ter recebido uma quantia menor por serviços prestados.
Mantega, por sua vez, disse que foi contratado como consultor econômico financeiro para o banco entre 2024 e 2025, mas que, à época, "não tinha conhecimento de irregularidades eventualmente cometidas por essa instituição financeira".
Rueda afirma que não confirma "informações baseadas em dados fiscais supostamente vazados de forma ilícita" e que o serviço prestado teve caráter estritamente técnico. "Todos os serviços prestados pelos escritórios são legais, contratados regularmente e com plena conformidade tributária", declarou em nota.
Constam ainda nos documentos da Receita pagamentos de 2022 a 2025 no valor de R$ 12 milhões à BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora do líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
O senador também aparece na lista com o pagamento de uma quantia menor, de R$ 289 mil, como pessoa física. Wagner afirma que o valor é referente a rendimento de aplicação em conta de pessoa física, que não possui CNPJ e que nunca recebeu qualquer pagamento do Master. A BN Financeira diz que prestou serviços ao Master mediante emissão de nota fiscal, entre 2022 e 2025.
Os dados da Receita mostram valores pagos pelo Master desde 2022, sem correção pela inflação, incluindo cerca de R$ 80 milhões em 2024 e 2025 para o escritório da mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, como revelou a Folha. Parte dos valores repassados pelo Master às empresas e políticos ficou retido por cobrança de impostos retidos na fonte.
A defesa de Vorcaro foi procurada, mas afirmou que não iria se manifestar.
A Lewandowski Advocacia recebeu ao menos R$ 6,1 milhões em pagamentos, que começaram em novembro de 2023. O escritório tem como sócios um filho e a mulher de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo e da Justiça do governo Lula. Ele deixou a sociedade em janeiro de 2024, dias antes de entrar no governo. O ex-ministro diz que o escritório prestou serviços de consultoria jurídica ao Master.
O banco de Vorcaro pagou ainda R$ 5,45 milhões para a A&M Consultoria Ltda, empresa do ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao Governo da Bahia ACM Neto, de 2023 até o último ano. A consultoria afirma que os serviços foram devidamente prestados e que não pode validar os valores mencionados.
Vorcaro relatou um encontro com ACM ao empresário e ex-ministro Fábio Faria. Na troca de mensagens, de 22 de maio de 2024, Vorcaro afirma: "Mas está tudo certo. Estou indo para Brasília. Amanhã acho que assina Augusto [Lima]. ACM foi lá em casa".
Foi na Bahia, estado de ACM e Jaques Wagner, que tiveram origem as carteiras falsas de crédito consignado repassadas pelo Master ao BRB, segundo investigadores do caso Master.
A WF Comunicação, que pertence ao ex-secretário de Comunicação Social do governo de Jair Bolsonaro (PL), Fabio Wajngarten, recebeu ao menos R$ 3,8 milhões do banco de Vorcaro em 2025. Ele também é considerado por Aldo Rebelo (DC) como possível vice em uma chapa à Presidência. Wajngarten diz que integra a equipe de defesa de Vorcaro e que presta serviços para o ex-banqueiro.
A Folha procurou todos os nomes citados na reportagem como beneficiários de pagamentos declarados pelo Master. Temer afirmou que prestou serviços de mediação ao ser contratado pelo banco e que recebeu dois pagamentos, de R$ 5 milhões e de R$ 2,5 milhões.
Os controladores do Banco Master e do BRB (Banco de Brasília) procuraram Temer para tentar destravar o negócio entre as duas empresas, barrado pelo Banco Central, como mostrou a Folha.
Segundo pessoas que acompanham o assunto, o ex-presidente foi procurado inicialmente pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e por dirigentes do BRB. Daniel Vorcaro também participou das discussões.
A assessoria de Rueda afirmou, por meio de nota, que os serviços jurídicos prestados são "atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia no país, sem qualquer interferência da atuação pública de Antônio Rueda em relações privadas de natureza jurídica".
Em nota, Perillo afirma que atua na iniciativa privada "de forma lícita, transparente e com dignidade como consultor de algumas empresas". Em relação a o Master, diz que o contrato se encerrou em julho de 2025 e que prestou serviços de análises de cenários "a uma empresa idônea à época da contratação, sem qualquer vínculo pessoal com os seus dirigentes ou participação em sua gestão".
Meirelles afirmou que seu contrato tinha o objetivo de prestar consultoria em assuntos de macroeconomia e de mercado financeiro. "Eu não tinha o menor conhecimento das operações do banco, fiquei sabendo pelos jornais. No começo, eles demandavam mais meus serviços, depois passaram a demandar pouco e eu rescindi o contrato em julho de 2025", disse.
Em nota, a assessoria do ex-ministro Lewandowski diz que ele retornou à advocacia após deixar o STF, em abril de 2023, e se retirou do escritório ao assumir o Ministério da Justiça no ano seguinte. O escritório passou a ser controlado por sua família e manteve contrato com o Master.
"Além de vários outros clientes, prestava serviços de consultoria jurídica ao Banco Master. Ao ser convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o Ministério da Justiça de Segurança Pública, em janeiro de 2024, Lewandowski retirou-se de seu escritório de advocacia e suspendeu o seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil, como determina a legislação vigente", afirma.
A assessoria da empresa de ACM Neto, a A&M Consultoria, afirma que "os serviços mencionados pelo jornal foram contratados de maneira lícita, transparente, e devidamente prestados" e que não pode confirmar os valores "supostamente declarados à Receita Federal por não ter tido acesso a esses dados".
A nota afirma ainda que o contrato foi firmado quando os sócios da A&M não ocupavam cargos públicos. "Foi apresentada petição à PGR (Procuradoria-Geral da República) e ao STF na qual a A&M se coloca à disposição para prestar eventuais esclarecimentos e detalhes dos serviços prestados, assim como requereu que se apurasse o vazamento de dados fiscais sigilosos", diz.
Wajngarten afirmou à Folha que foi apresentado a Vorcaro no primeiro semestre de 2025 por meio dos advogados do ex-banqueiro dele e passou a integrar a equipe de defesa, da qual faz parte até o momento. O contrato tem cláusula de confidencialidade e, por isso, não foi tornado público.
A empresa de Bonnie Bonilha, BN Financeira, afirma que os serviços ao Master "tiveram por objetivo a prospecção e indicação de operações e convênios de crédito público e privado", mediante prestação de nota, e que os dois únicos sócios são Moisés Dantas e Bonnie Bonilha.
"Não existe qualquer investigação ou apuração policial quanto ao tema, pois não existe qualquer irregularidade. Todos os recursos recebidos se deram de forma oficial, contabilizada e mediante emissão de nota fiscal, distribuídos formalmente aos sócios e declarados à Receita", afirma.
Vorcaro foi preso pela segunda vez no começo de março pela Polícia Federal sob suspeita de comandar um esquema de fraude e ameaças. Ele negocia um acordo de delação premiada.
O ex-banqueiro é conhecido na Faria Lima há anos por seu estilo expansivo de fazer negócios e patrocínios milionários a eventos. Ainda se aproximou de autoridades da cúpula dos três Poderes e adotou postura agressiva contra adversários.
Thaísa Oliveira , Mateus Vargas , Carolina Linhares e João Gabriel / FOLHA DE SP
Ciro e Tasso reúnem deputados após bancada crescer e se consolidar como a 3ª maior na Alece

Os ex-governadores Tasso Jereissati (PSDB) e Ciro Gomes, presidente do PSDB no Ceará, reuniram, na tarde desta terça-feira (7), a bancada de deputados estaduais do partido. O encontro foi apresentado pela sigla como um movimento de reorganização e fortalecimento, após o crescimento da representação na Assembleia Legislativa — de um para sete parlamentares.
Além dos ex-governadores, participaram da reunião Sargento Reginauro, Queiroz Filho, Emília Pessoa, Heitor Férrer, Antônio Henrique e Felipe Mota. O ex-prefeito de Fortaleza, José Sarto, também esteve presente como presidente do partido em Fortaleza. O deputado estadual Cláudio Pinho não participou por estar em missão oficial em Brasília.
Em 2022, o PSDB elegeu apenas uma deputada estadual, Emília Pessoa. Com a janela partidária deste ano, a sigla agregou seis novos nomes. A estratégia é ampliar o espaço da oposição no Estado, em um cenário que considera uma eventual candidatura de Ciro ao Governo do Ceará.
Na conversa com os correligionários, Tasso Jereissati destacou a importância da recomposição do partido e o sentimento de retomada do protagonismo político no Estado.
Segundo ele, o PSDB volta a se apresentar como uma alternativa para o desenvolvimento do Ceará, ao relembrar o legado de crescimento e avanços sociais associado às gestões tucanas.
"Eu fico muito feliz com a volta do PSDB, que talvez tenha sido o partido, sem nenhum tipo de soberba, que mais fez pelo Ceará. Não só em obras, administração, eficiência, mas também em autoestima. O Ceará passou graças ao PSDB a ser um dos estados, talvez o mais respeitado no Brasil"
Já Ciro Gomes reforçou as boas-vindas aos novos integrantes da sigla e ressaltou a força do grupo de oposição que se forma na Assembleia Legislativa. Ele também enfatizou a necessidade de união para a construção de um novo projeto político, com foco na superação dos desafios atuais do Estado, incluindo a área da segurança pública.
"Somos a bancada que mais cresceu na Alece. E para quem conhece história, sabe que isso é uma proeza que só se conseguiria pela qualidade desses homens e mulher que aceitaram o desafio de construir essa grande saída para o futuro cearense. Nunca se construiu, no Ceará, uma bancada desse tamanho em oposição. Normalmente, quem consegue crescer bancadas é quem está com a caneta na mão"
Lula vilaniza aplicativos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, publicou recentemente no Diário Oficial da União uma portaria em que obriga as plataformas digitais de transporte e delivery a detalharem aos seus clientes a composição do preço do serviço realizado por um motorista ou entregador.
Não está claro o que o consumidor ganha ao tomar conhecimento do quanto aufere cada agente econômico envolvido nos serviços de transporte e de entrega por aplicativos. Transparência é sempre bom, especialmente em se tratando de preços, mas nesse caso parece improvável que o consumidor seja impelido a mudar de ideia e descartar o serviço se souber qual é a remuneração dos trabalhadores e qual é o ganho das plataformas digitais.
Portanto, é lícito supor que o objetivo real do governo Lula seja o de constranger as empresas que intermedeiam esses serviços e, ao mesmo tempo, de aparentar preocupação com a exploração do trabalho por aplicativo. Incapaz até aqui de entender as demandas dos trabalhadores desse ramo de atividade, o governo improvisa medidas para dar a sensação de que está fazendo algo por esses milhões de eleitores Brasil afora.
Para isso, o governo petista faz o que sabe fazer de melhor: instrumentaliza instâncias do Estado para fins eleitorais. Nesse caso, a Senacon, ao que tudo indica, usou de suas prerrogativas na área do Direito do Consumidor para tratar de assuntos da área do Direito do Trabalho – o que constituiria desvio de finalidade. Afinal, a remuneração pelo trabalho não é problema do consumidor.
Há poucos dias, o governo apresentou uma proposta de regulamentação das entregas por aplicativos, com pagamento mínimo e adicional por quilômetro rodado. No evento em que o projeto foi apresentado, tal como se estivesse num comício, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que os aplicativos cobram “uma taxa de agiotagem”. Boulos pode ser a face da nova liderança de esquerda, mas o palavrório recende ao velho sindicalismo.
O problema, para Lula, Boulos e para a esquerda brasileira em geral, é que o novo mundo do trabalho é território estrangeiro para quem se fez na política investindo na luta de classes. Os trabalhadores da era digital prezam a liberdade e entendem a intervenção estatal como prejudicial a seus interesses.
Lula, no entanto, continua fazendo promessas, nas quais cada vez menos gente acredita, conforme se infere pelas mais recentes pesquisas de intenção de votos. Na campanha eleitoral passada, Lula dizia que a regulamentação da atividade dos motoristas e entregadores de aplicativos seria uma prioridade de sua gestão. Não foi: no primeiro ano de mandato, o presidente instalou um “grupo de trabalho” para discutir um projeto para a categoria e, desde então, pouco avançou. Ou seja, como um bom demagogo, Lula da Silva só trata o tema como prioritário em ano eleitoral.
A delicada saúde mental das crianças
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Crianças cada vez menores têm demandado atenção em saúde mental na rede pública de saúde paulista. Uma reportagem publicada recentemente no Estadão mostrou que só ano passado nada menos do que 1,2 milhão de atendimentos ambulatoriais foram realizados com pacientes de idade entre 5 e 9 anos. Para ter ideia da gravidade, de 2023 para 2025 houve um crescimento de 50% nesse tipo de serviço, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. E nenhuma outra faixa etária superou o volume de atendimentos ambulatoriais prestados a esse público tão novo. Como se vê, não vai nada bem a saúde mental dos pequenos paulistas.
São crianças que precisam de cuidados especializados, como consultas com psicólogos e psiquiatras, terapia individual e em grupo, acompanhamento multiprofissional, prescrição e monitoramento de medicamentos e ações de acolhimento. Nas ocorrências mais complexas, em que os pacientes oferecem risco para si ou para quem está à sua volta, há a internação psiquiátrica. E o número desse tipo de procedimento também cresceu: alta de 8%, ou 119 crianças internadas.
Entre os principais motivos de atendimento ambulatorial, estão os transtornos de desenvolvimento e a deficiência intelectual ou o atraso cognitivo. Muitos deles têm causas genéticas, como o autismo e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), mas há também aqueles desencadeados por fatores externos, como a depressão e a ansiedade. Isso quer dizer que determinados estilos de vida têm empurrado as crianças para os consultórios de psicólogos ou psiquiatras – ou até mesmo para a internação. E são as famílias que, voluntária ou involuntariamente, expõem seus filhos a situações de risco, sobretudo quando lhes entregam em mãos um aparelho celular.
Como bem explicou o psiquiatra infantil Gustavo Estanislau, ouvido pelo Estadão, o uso de telas afasta as crianças das brincadeiras livres, o que, por óbvio, aumenta o risco de sobrepeso e obesidade, bem como prejudica o desenvolvimento de habilidades psíquicas, motoras e socioemocionais na fase da vida em que as interações deveriam ser estimuladas, e não bloqueadas. Segundo Estanislau, o uso de telas deixa as crianças mais sensíveis à frustração, hiper-reativas ao tédio e estressadas. Não à toa, elas se alimentam e dormem mal, manifestando, não raro, problemas que são comuns apenas na vida adulta.
Por tudo isso, essa alta de atendimento revela um paradoxo: os pais conseguem captar as necessidades dos filhos para lhes oferecer ajuda, o que indica superação do preconceito, da vergonha e do estigma, mas são esses mesmos pais que hoje levam seus filhos aos ambulatórios que lhes deram acesso pouco controlado a vídeos, joguinhos e redes sociais. Os sinais de ansiedade e angústia, de um lado, são precocemente identificados pelos responsáveis, o que é positivo. Mas, de outro lado, constata-se que tamanho sofrimento das crianças foi causado, não raro, por escolhas erradas feitas por aqueles que justamente deveriam protegê-las.
Os alertas vêm de várias direções, o que indica que o problema não ocorre apenas em São Paulo e não atinge somente os pequenos. Recentemente, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ouviu 118 mil adolescentes com idade de 13 a 17 anos, constatou que três em cada dez dos estudantes nessa faixa etária se sentem tristes sempre ou, no caso de 42,9%, se dizem “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa”. Além disso, 18,5% acham que “a vida não vale a pena ser vivida”.
Para evitar que as crianças de 5 a 9 anos arrastem tantos problemas para a adolescência, seus pais deveriam seguir o que dizem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição federal: cuidar, com absoluta prioridade, de seus filhos, a começar por jamais permitir que fiquem expostos às telas. Não é em vão que recentemente adotou-se uma lei que proíbe o uso dos celulares nas escolas: eles dispersam e prejudicam a aprendizagem. E, em casa, não é diferente: eles viciam e adoecem.

