O antiajuste fiscal de Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O programa de governo apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de reeleição diz que o petista, no atual mandato, liderou “a gestão fiscal mais republicana da história do Brasil”. E explica: “Sob a diretriz de ‘colocar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda’, a gestão realizou uma profunda reorganização fiscal que elevou a proteção social sem renunciar ao reequilíbrio das contas públicas”.
É uma pilha de insultos. O que os petistas chamam orgulhosamente de “reorganização fiscal” foi uma série de gambiarras para driblar o arcabouço fiscal que o próprio governo criou para substituir o desmoralizado teto de gastos. Tudo a pretexto de atender a situações “excepcionais”. No governo Lula, o “excepcional” se tornou regra. Não é um acidente: é a natureza do PT – e por isso não se deve esperar nada de diferente num eventual quarto mandato de Lula, por mais que a atual equipe econômica tente sugerir o contrário.
No final de 2005, por exemplo, Dilma Rousseff, então chefe da Casa Civil do primeiro mandato de Lula, deu uma célebre entrevista ao Estadão na qual explicou, didaticamente, que a tentativa de debater um ajuste fiscal de longo prazo, conduzida por alguns integrantes do governo, era algo “rudimentar” e que não se podia tratar desse assunto “pensando em planilha”. Para Dilma, “despesa é vida: ou você proíbe o povo de nascer, de morrer, de comer ou de adoecer, ou vai ter despesas correntes”.
Numa época em que havia superávit primário constante em torno de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), ajudando a estabilizar a dívida pública na casa dos 51,5% do PIB, parecia confortável falar em ampliar os gastos com a “vida”, como sempre pretenderam o PT e Lula. Mas a insistência nesse modelo perdulário conduziu o País ao desastre da recessão de 2015-2016, não por acaso durante o famigerado governo Dilma. Foi em 2014, com Dilma, que começou a série de déficits fiscais que perdura até hoje, obrigando o Banco Central a manter a taxa de juros na estratosfera para premiar quem se dispõe a financiar a galopante dívida pública – que somente no terceiro mandato de Lula saltou incríveis dez pontos porcentuais, de 71,4% para 81,9% do PIB.
Isso não tem nada de “republicano”, como se jacta o PT. É justamente o contrário. Ser republicano é, em primeiro lugar, respeitar a coisa pública. É ter consciência de que o dinheiro do contribuinte não brota em árvores e que precisa ser gasto com imensa parcimônia. É evidente que o Brasil tem grandes carências sociais que precisam ser enfrentadas, mas não a partir da presunção de que o Tesouro é uma milagrosa cornucópia. Por isso, cabe ao presidente da República, na condição de principal líder político do País, a condução do debate orçamentário, negociando com o Congresso cortes de despesas para que haja recursos suficientes para aquilo que se estabeleceu como prioridade.
No Brasil de Lula, contudo, não é preciso negociar nada. Basta ser criativo na hora de lançar as despesas na planilha, retirando-as do arcabouço fiscal sob os mais diversos pretextos, e saciar o apetite dos parlamentares por emendas para que não façam oposição de verdade. Enquanto isso, a aritmética se impõe, razão pela qual será necessário um robusto ajuste fiscal a partir do ano que vem, sob pena de não haver dinheiro nem para pagar a conta de luz do Ministério da Fazenda.
Mas estamos em ano de eleição, período em que os petistas ficam especialmente criativos. No mesmo programa de governo apresentado por Lula, lê-se que “trabalhamos em conjunto com o Congresso Nacional para a aprovação do arcabouço fiscal, das medidas de recomposição e justiça tributária e da redução dos benefícios fiscais” e que “foi assim que cortamos isenções tributárias e colocamos fim a benefícios ineficientes”. O que o documento não diz é que esses cortes foram modestos, porque os benefícios tributários concedidos pela União, por exemplo, continuam a consumir em torno de 4,5% do PIB.
Em resumo, Lula tenta convencer o eleitor já calejado com as patranhas petistas de que seu governo não é o que parece e que o próximo será ainda melhor. A dificuldade de Lula para subir nas pesquisas mostra que essa farsa não cola mais.
Lula diz que acredita na inocência de Lulinha, mas que ele pagará caso crime seja comprovado: "Não será protegido por ser meu filho"
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira (27) na sabatina promovida pela TV Globo, que o filho dele, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", será inocentado no caso de suposto tráfico de influência e corrupção investigado pela Polícia Federal. Lula disse ainda que, caso ele tenha cometido um crime, não haverá proteção.
— Se ele fez um erro, ele pagará; não tem outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho. Ele sabe o que tem que fazer. Ele tem que provar a inocência dele, e eu tenho certeza de que ele vai ser inocente — afirmou o presidente.
Lula disse que não vai afastar delegados da Polícia Federal ou outros movimentos que buscariam proteger Fábio, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que fez mudanças na corporação na intenção de proteger familiares investigados durante o governo dele.
Ao falar sobre os indícios apontados pela Polícia Federal, Lula classificou como "ilações tiradas de telefonemas" e comparou com as sofridas por ele na Operação Lava-Jato. Ao falar sobre a força-tarefa, ele disse que ela foi feita para impedi-lo de se eleger presidente em 2018 e que, ao ser preso, procurou provar a sua inocência.
— Não tem nenhuma acusação, são ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso. O que eu tenho dito? Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz, eu sou presidente da República e pai do Fábio. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro — declarou.
Ao ser pressionado sobre o tema, Lula também disse que o filho "não tem a obrigação de não ter cometido erro". O presidente também disse que está havendo vazamentos por parte da Polícia Federal de conversas envolvendo Lulinha para a imprensa.
— A Polícia Federal está investigando e a Polícia Federal está vazando as coisas para a imprensa, e eu espero que aconteça o julgamento. Se tiver que vir prestar depoimento, ele vai prestar depoimento, vai participar dos inquéritos. Se ele for culpado, pagará o preço. Se não for, ele será inocentado — declarou.
Lula é o quarto candidato à Presidência sabatinado pela TV Globo. Ele foi sabatinado pelos apresentadores Renata Vasconcellos e Cesar Trali. Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) foram os entrevistas de segunda (24), terça (25) e quarta-feira (26), respectivamente.
Investigação contra Lulinha
A PF investiga se Lulinha atuou para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como "Careca do INSS", em negociações do Ministério da Saúde. Antunes é o principal personagem envolvido na trama de descontos bilionários ilegais contra beneficiários do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). O que liga o filho do presidente ao caso é a relação com a lobista Roberta Luchsinger, ligada a Antunes.
Desde que a PF começou a investigar Lulinha em três inquéritos que giram em torno de suposto tráfico de influência em contratos no governo, o presidente tem adotado o tom de que o filho não será beneficiado nos inquéritos por ser filho dele. Ao mesmo tempo em que diz acreditar que o empresário é inocente, Lula tem afirmado que ele deve dar explicações para os policiais.
Crise dos Correios
Lula ainda afirmou que não vai vender os Correios e garantiu que a estatal sairá da crise em que se encontra. O prejuízo foi de R$ 3,1 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Ao ser questionado sobre a situação da empresa e propostas para uma privatização, Lula disse que os números negativos são uma realidade histórica. O petista, porém, apontou a importância estratégica da estatal e a presença dela em todas as partes do país.
O candidato à reeleição defendeu que os Correios devem se adaptar a uma realidade em que há concorrência de outras empresas do ramo. Além disso, Lula disse que será feito um "enxugamento" nas contas da estatal do que o governo achar necessário.
— A crise dos Correios é que não se adaptou aos novos tempos. Surgiram muitas empresas de fazer entregas e os Correios ficaram na mesmice — disse o presidente.
Os Correios enfrentam uma grave crise econômica há anos. Em junho de 2022, o resultado negativo era de R$ 171,8 milhões. Saltou para R$ 1,5 bilhão um ano depois e chegou a R$ 1,7 bilhão em 2024. Em 2025, o déficit foi de R$ 2,6 bilhões. Neste ano, o resultado foi de um déficit de R$ 1,5 bilhão.
Ministério da Segurança Pública
O presidente afirmou que irá criar o Ministério da Segurança Pública assim que for aprovada a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. O texto será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na próxima semana.
— A hora que se aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na Segurança Pública. Qual vai ser o papel da União, do Estado e do município — declarou Lula.
Lula se queixou da oposição de governadores ao tema, citando nominalmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-governador de Goiás e candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado (PSD).
— Muitos governadores que não quiseram. Tarcísio não quis, Caiado não quis. Eles não querem que o governo federal se meta na segurança pública — declarou o presidente.
O assunto segurança pública é visto internamente no PT como um "calcanhar de Aquiles" da campanha. Nos últimos anos, o discurso da direita de endurecer o combate a criminosos, inclusive de forma letal, ganhou tração na sociedade.
Lula diz que Lulinha será inocentado e que não haverá proteção por parte do governo
Escrito por Estadão Conteúdo / DIARIONORDESTE
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira, 27, na sabatina promovida pela TV Globo, que o filho dele, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", será inocentado no caso de suposto tráfico de influência e corrupção investigado pela Polícia Federal. Lula disse ainda que caso ele tenha cometido um crime, não haverá proteção.
"Se ele fez um erro, ele pagará; não tem outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho. Ele sabe o que tem que fazer. Ele tem que provar a inocência dele, e eu tenho certeza de que ele vai ser inocente", afirmou o presidente.
Lula disse que não vai afastar delegados da Polícia Federal ou outros movimentos que buscariam proteger Fábio, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que fez mudanças na corporação na intenção de proteger familiares investigados durante o governo dele.
Investigações da PF
Ao falar sobre os indícios apontados pela Polícia Federal, Lula classificou como "ilações tiradas de telefonemas" e comparou com as sofridas por ele na Operação Lava Jato. Ao falar sobre a força-tarefa, ele disse que ela foi feita para impedi-lo de se eleger presidente em 2018 e que, ao ser preso, procurou provar a sua inocência.
"Não tem nenhuma acusação, são ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso. O que eu tenho dito? Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz, eu sou presidente da República e pai do Fábio. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro", declarou.
Ao ser pressionado sobre o tema, Lula também disse que o filho "não tem a obrigação de não ter cometido erro". O presidente também disse que está havendo vazamentos por parte da Polícia Federal de conversas envolvendo Lulinha para a imprensa.
"A Polícia Federal está investigando e a Polícia Federal está vazando as coisas para a imprensa, e eu espero que aconteça o julgamento. Se tiver que vir prestar depoimento, ele vai prestar depoimento, vai participar dos inquéritos. Se ele for culpado, pagará o preço. Se não for, ele será inocentado", declarou.
Crimes de influência
A PF investiga se Lulinha atuou para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como "Careca do INSS", em negociações do Ministério da Saúde. Antunes é o principal personagem envolvido na trama de descontos bilionários ilegais contra beneficiários do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).
O que liga o filho do presidente ao caso é a relação com a lobista Roberta Luchsinger, ligada a Antunes.
Desde que a PF começou a investigar Lulinha em três inquéritos que giram em torno de suposto tráfico de influência em contratos no governo, o presidente tem adotado o tom de que o filho não será beneficiado nos inquéritos por ser filho dele.
Ao mesmo tempo em que diz acreditar que o empresário é inocente, Lula tem afirmado que ele deve dar explicações para os policiais.
Ciro e Elmano trocam acusações sobre facções e elevam tom em debate no Cariri
Escrito por Igor Cavalcante / DIARIONORDESTE
Os candidatos ao Governo do Ceará Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT), que disputa a reeleição, protagonizaram novos embates sobre segurança pública durante debate realizado nesta quinta-feira (27). O confronto entre o tucano e o petista foi promovido pelo Grupo de Comunicação O Povo, no Cariri. Os dois candidatos também discutiram sobre saúde, geração de emprego e renda, educação e políticas para jovens.
Ciro buscou responsabilizar a atual gestão pelo avanço da criminalidade e questionou indicadores econômicos apresentados pelo governador.
Já Elmano defendeu as ações do governo e a gestão dos seus antecessores mais recentes, os ex-governadores Cid Gomes (PSB) e Camilo Santana (PT).
Segurança abre confronto
O primeiro bloco do debate foi marcado pelo confronto sobre segurança pública, com Ciro e Elmano atribuindo um ao outro responsabilidades pela chegada e a expansão das facções criminosas no Ceará.
O tucano questionou declarações anteriores do governador sobre a existência de territórios dominados por grupos criminosos, enquanto Elmano associou a chegada das primeiras facções ao território cearense ao período em que Ciro governou o Estado. Saúde, geração de empregos e atendimento a famílias atípicas também entraram na discussão.
Ciro acusou o adversário de não reconhecer a dimensão da violência e citou o número de homicídios e as expulsões de moradores. O candidato também negou que as facções tenham se instalado no Ceará durante seu mandato como governador.
Emprego e políticas para jovens
No bloco seguinte, os candidatos responderam a perguntas de jornalistas sobre geração de empregos no Interior, impactos da reforma tributária, políticas para idosos e prevenção ao aliciamento de jovens por facções criminosas.
Elmano destacou políticas voltadas a idosos e jovens, prometeu construir um Hospital do Idoso e ampliar ações em parceria com os municípios. Sobre a prevenção ao recrutamento de jovens pelo crime organizado, citou a distribuição de tablets e programas de concessão de bolsas nas cidades mais violentas.
Ciro defendeu que prevenir o aliciamento passa pela oferta de renda, mudanças na educação e alternativas de perspectivas de vida. O tucano propôs ampliar a presença da cultura digital nas escolas, com inteligência artificial e aplicativos, e criticou os recursos destinados à política estadual de juventude.
Acusações e ataques
Já no fim do debate, os candidatos voltaram a fazer perguntas um ao outro e elevaram o tom das críticas. Ciro questionou o governador sobre a dificuldade de prisão do ex-prefeito foragido de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), e fez acusações sobre a relação dele com aliados governistas. Elmano rebateu citando antigas relações políticas de Bebeto com aliados de Ciro.
O tucano também criticou a saúde, a execução de obras e os indicadores de pobreza. Ao ser acusado por Elmano de ter “inveja” de Camilo Santana, voltou a atacar o ex-governador e a atual gestão. “É o velho coronelismo de volta no Estado do Ceará, com esse papo furado de democracia”, disse.
Elmano afirmou que 400 mil pessoas saíram da extrema pobreza no Ceará e destacou a geração de empregos e investimentos no Cariri. O governador também defendeu Camilo e atribuiu os ataques de Ciro ao rompimento entre os dois. “Sua raiva é que você, esse velho coronel, acha que todo mundo tem que se submeter à sua vontade”, finalizou.

Só lei não civiliza ciclovia
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
São bem-vindas as novas regras para o tráfego de bicicletas elétricas, patinetes elétricos e outros veículos autopropelidos, como monociclos e skates, nas ciclovias e ciclofaixas de São Paulo, que entraram em vigor nesta sexta-feira, ainda em caráter educativo. No entanto, por mais bem-feita e oportuna que seja, uma norma, sozinha, será incapaz de organizar o cada vez mais intenso trânsito desses veículos nas ciclovias.
É preciso investir em educação e, principalmente, em fiscalização. A julgar pela evidente falta de agentes de trânsito para punir os maus motoristas e motociclistas, que cotidianamente transformam as ruas de São Paulo numa terra sem lei, é difícil imaginar que os maus usuários dos tais veículos autopropelidos serão efetivamente punidos.
Entre as principais novidades está o limite de velocidade de 20 quilômetros por hora (km/h) nas ciclovias em geral e de 6 km/h nas vias compartilhadas com pedestres.
Acerta a Prefeitura ao reconhecer que está diante de um problema: há conflitos nesses equipamentos públicos, e uma regulamentação de seu uso é um imperativo. Como mostrou o Estadão, são recorrentes as cenas de desrespeito às faixas de pedestre por ciclistas e motociclistas; de imprudência de motociclistas que invadem ciclovias, ciclofaixas e calçadas; e de displicência de pedestres que, mesmo não podendo, usam ciclovia ou ciclofaixa como pista de caminhada ou corrida.
Para tentar acabar com essa confusão, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) anunciou que dará início a uma campanha de informação sobre as novas regras, com a instalação de placas de sinalização, banners informativos e painéis aferidores de velocidade, que, frise-se, não são radares. É um bom começo, mas insuficiente.
Se as leis bastassem para garantir a boa convivência no trânsito, as ruas paulistanas seriam o paraíso da civilidade. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é cristalino sobre direitos e deveres de quem trafega pela cidade, sobretudo no trecho segundo o qual “os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”. Como testemunhamos cotidianamente, trata-se de letra morta.
Nesse sentido, o plano da CET, para funcionar, precisa deixar claro que os infratores serão castigados. No entanto, o próprio órgão municipal informou que “os parâmetros para acompanhar o cumprimento das novas normas estão ainda em planejamento”. Talvez seja por isso que a fiscalização ficará para depois de 12 de outubro.
A Prefeitura e a CET dispõem de ferramentas para agir. Num primeiro momento, deve-se abordar os que excedem a velocidade permitida e explicar os riscos desse comportamento e a punição que acarreta. Depois desse período educativo, cumpra-se a lei. Só assim, como determina o Código de Trânsito Brasileiro, os mais fracos estarão protegidos da truculência dos mais fortes nas ciclovias paulistanas.
Acordo com a Meta ainda é insuficiente
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Meta aceitou pagar US$ 17 bilhões para encerrar ações movidas por Estados americanos que a acusavam de prejudicar crianças e adolescentes conhecendo os riscos de seus produtos. O acordo impõe mudanças no Facebook e no Instagram: limite diário de uso, restrições noturnas, menos notificações e menor exposição a métricas de popularidade. A empresa admitiu um princípio que deverá orientar a próxima etapa da regulação: o desenho das plataformas para menores pode ser objeto legítimo de restrições.
Proteger o sono e reduzir mecanismos que transformam popularidade em placar público atacam riscos conhecidos. O acordo, porém, recua diante do instrumento mais poderoso das plataformas. Adolescentes poderão escolher um feed cronológico, mas a recomendação algorítmica continuará funcionando por padrão. Há algo invertido em oferecer como opção de segurança a saída de um mecanismo concebido para aprender as preferências do usuário e tornar mais difícil que ele vá embora.
Limitar o tempo nas redes reduz a exposição. Resta saber o que acontece durante esse tempo. Algoritmos observam o comportamento para escolher o conteúdo com maior probabilidade de provocar uma reação e prolongar sua permanência. As redes introduziram ainda uma diferença qualitativa em relação às mídias tradicionais. Uma criança diante da TV é espectadora. No Instagram ou TikTok, se transforma em personagem: publica sua imagem, observa a reação dos pares, mede a própria popularidade e ajusta seu comportamento. Cada gesto alimenta o sistema que decidirá o que lhe mostrar em seguida. Exposição pessoal, comparação social e recomendação formam um circuito poderoso numa idade em que a aprovação dos outros pesa muito.
A distinção entre conteúdo e design oferece um caminho regulatório compatível com princípios liberais. Uma democracia deve desconfiar de autoridades que pretendam decidir quais opiniões podem circular. Já exigir padrões de segurança para mecanismos projetados pelas plataformas é diferente. A regulação deve mirar esses mecanismos e seus incentivos sem dar ao Estado licença para escolher ideias aceitáveis.
A evidência recomenda firmeza com cautela. Documentos internos da Meta registram riscos para menores. Há indícios fortes de causalidade entre superexposição dos jovens às redes e deterioração de sua saúde mental. Embora persistam controvérsias sobre a magnitude dessa correlação, em se tratando de menores é melhor pecar por excesso e reduzir riscos evitáveis do que esperar por certeza absoluta.
Daí um princípio regulatório promissor: a proteção deve vir por padrão. Recursos criados para prolongar a permanência do usuário não deveriam ser oferecidos aos menores em sua configuração mais agressiva para depois convidá-los a procurar o botão que os desativa. Isso vale para técnicas como a rolagem infinita, mas sobretudo para sistemas de recomendação treinados para maximizar engajamento a qualquer custo. As plataformas precisam ainda abrir dados para que pesquisadores independentes avaliem seus efeitos e descubram salvaguardas eficazes.
Os pais continuam sendo os primeiros responsáveis pelos filhos e precisam de controles melhores. Sua responsabilidade, contudo, tem limites. Um pai pode mandar o filho guardar o telefone. Não pode auditar o algoritmo que aprendeu como mantê-lo grudado na tela. Quem projeta esse mecanismo também responde pelos riscos que cria.
A Austrália testa solução mais drástica, proibindo redes para menores de 16 anos. Convém observar antes de imitar: bloqueios podem ser burlados e empurrar adolescentes para ambientes menos seguros. Se esses produtos podem ser redesenhados, vale exigir primeiro que sejam mais seguros.
Os processos contra a Meta já foram chamados de “momento tabaco” das redes. A analogia tem limites. Cigarros são nocivos por natureza; redes sociais podem informar, aproximar e divertir. A semelhança está em que empresas cientes dos riscos de seus produtos não podem tratá-los como assunto privado enquanto lucram com eles. O acordo da Meta será histórico se marcar o começo dessa mudança. Proteger adolescentes exige reduzir o tempo que as redes capturam. Mas exige, sobretudo, cuidar do que elas fazem com sua atenção enquanto a possuem.

