Dança das cadeiras
Por Merval Pereira / O GLOBO
O encerramento da janela partidária provocou uma reorganização do sistema político brasileiro, mantendo, porém, a predominância de partidos da direita. Houve crescimento do PL — que está com a maior bancada, próxima dos cem deputados federais —, diminuição significativa do União Brasil e crescimento, em número de parlamentares e em influência nacional, do PSD. Este cresceu no Rio Grande do Sul, no Nordeste e em estados-chave como Minas e São Paulo. Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.
O PT manteve-se como o principal partido de esquerda, sem perdas. Mas a esquerda perdeu parlamentares que eram do PDT. O PSB cresceu nesse espectro partidário. Além de confirmar a tendência já registrada de apoio ao candidato do PL, as trocas partidárias reafirmaram a força das siglas mais estruturadas, que têm acesso aos recursos partidários e melhores condições de enfrentar as cláusulas de barreira. O crescimento de partidos como PL e PSD tornou o Centrão menos influente, embora continue sendo um importante eixo do sistema partidário brasileiro.
A atração exercida pelo PL se explica por diversos fatores, como força eleitoral óbvia na próxima campanha presidencial e acesso a recursos dos fundos eleitoral e partidário. O partido busca ser o agregador de forças conservadoras e liberais, papel disputado com o PSD, que não por acaso tem também um candidato à Presidência de direita, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado. É um quadro de hoje, mostrando que Flávio tem uma candidatura sólida. Isso fez com que muita gente quisesse estar no partido vencedor. Mas é sinal também de que Caiado representa parte da direita e de que o PSD pode fechar acordo com Flávio para o segundo turno, se é que ele será mesmo o representante da direita — pode ser que perca força durante a campanha, quando começar a ser atacado.
A candidatura de Caiado trabalha com a possibilidade de vir a substituir Flávio durante a corrida presidencial, caso ele não resista aos ataques que certamente sofrerá, e não apenas do PT. Não foi por acaso que, ao ser anunciado candidato do PSD, Caiado fez seu primeiro pronunciamento afirmando que dará anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a todos os condenados do 8 de Janeiro. Com isso, quis se colocar diante do eleitor de direita e extrema direita como alternativa viável, caso Flávio não confirme sua liderança.
Ao mesmo tempo, embrulhou a promessa numa pretensa “união nacional”, dando ao ato que o afasta do eleitor de centro um caráter menos ideológico. Um retrato do PSD de Gilberto Kassab, que tem uma perna na canoa da direita e outra na da esquerda, mantendo ministérios no governo Lula. A ponto de alguns terem defendido que fosse o vice-presidente na chapa de Lula.
O PL já era o partido mais forte desde Bolsonaro e está se reforçando porque Flávio surpreendeu e está sólido na campanha, embora complique a situação junto aos moderados de direita quando abre a boca. Assim como disputa com o presidente Lula quem é o mais rejeitado, também disputa quem produz mais gafes. Na semana passada, Flávio deixou de jogar parado para defender posições absurdas numa reunião de conservadores e direitistas nos Estados Unidos. Voltou a levantar dúvidas sobre as urnas eletrônicas, afirmando que só perderá a eleição se houver fraude, e ofereceu as terras-raras, objeto de desejo de Donald Trump, em troca do apoio do governo americano à sua candidatura.
À medida que a campanha eleitoral exigir que se posicione, Flávio terá dificuldades para confirmar seu caráter moderado. A escolha do vice será um bom teste. A ex-ministra Tereza Cristina seria indicação de moderação e significaria uma inserção na comunidade do agro que abalaria Caiado. Mas o ex-governador de Minas Romeu Zema tem mais consistência política, embora tenha postura mais radicalizada.
Cidades sem receita própria distorcem federalismo
Em sistemas federalistas, é esperado que a maior parte da receita pública venha do governo nacional, que tem maior capacidade de tributar em todo o território do país. Também é normal que municípios recebam recursos federais e estaduais, pois arrecadam menos e têm de atender mais de perto aos cidadãos. No Brasil, entretanto, tais relações assumiram proporções disfuncionais.
Como mostra levantamento feito pela Folha, 4 de cada 10 cidades brasileiras —ou, mais precisamente, 2.190 das 5.569— tinham 90% ou mais de seus orçamentos dependentes de verbas obtidas de governos estaduais e da União em 2024. Cinco anos antes, mais da metade delas estava nessa situação (2.950), contudo, é cedo para apontar se a melhora configura uma tendência.
Uma comparação com os Estados Unidos, um país de referência para nosso modelo federativo, é ilustrativa. Lá, em uma carga tributária total de 25,6% do Produto Interno Bruto, os municípios arrecadam 3,7% do PIB. Aqui, a carga total é bem maior, de 32,3%, mas os municípios arrecadam menos, somente 2,4% do produto.
A razão principal para essa discrepância é que, no Brasil, se institucionalizaram mecanismos de repasse obrigatório de recursos entre os entes federativos. Entre eles, destaca-se o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), composto por 25,5% das receitas dos federais Imposto de Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Isso não se dá sem efeitos colaterais relevantes.
Para os prefeitos, tornou-se politicamente mais simples reivindicar aumentos do FPM em Brasília do que arcar com o desgaste de cobrar os devidos impostos dos munícipes —basta dizer que o fundo absorvia não mais de 10% dos recursos do IR e do IPI quando foi criado, nos anos 1960.
Esse processo de expansão das transferências foi intensificado com o restabelecimento da democracia e a Constituição de 1988. Desmembrar e criar cidades com direito a verbas federais crescentes e poderes Executivo e Legislativo passou a ser um grande negócio para o mundo político, e surgiram mais de 1.300 novas prefeituras e câmaras de vereadores até o ano 2000.
A farra só começou a ser contida por uma emenda constitucional aprovada em 1996, que condicionou a criação de municípios a uma lei federal que regulasse o procedimento. Desde então, o Palácio do Planalto tem barrado iniciativas nesse sentido.
Distorções, porém, persistem. Prefeitos que contam com o conforto de repasses garantidos da União têm pouco incentivo a aperfeiçoar a cobrança dos impostos municipais, ISS e IPTU, e a melhorar a eficiência dos gastos.
Pior ainda, nos últimos anos, eles passaram a receber montantes anômalos de recursos oriundos de emendas de deputados e senadores ao Orçamento federal —destinados, no mais das vezes, a obras paroquiais de baixa qualidade que alimentam o clientelismo, quando não a corrupção.
Feitos e frustrações de MarinaFeitos e frustrações de Marina
Marina Silva deixou o cargo de ministra do Meio Ambiente na última semana —ela é cotada para concorrer a uma vaga no Senado pela federação PSOL-Rede. Nessa nova passagem pela pasta, conseguiu reduzir de forma expressiva o desmatamento, feito que já havia alcançado entre 2003 e 2008, durante o primeiro e parte do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mas o assim chamado desenvolvimentismo petista —fator que contribuiu para a sua saída do governo em 2008— novamente se impôs desta vez e, com um Congresso Nacional permeável à atuação de lobbies, dificultou outros avanços no setor.
Sob o desmonte promovido por Jair Bolsonaro (PL), a área devastada na Amazônia Legal subiu de 10,1 mil km² em 2019 para 11,5 mil km² em 2022, com pico de 13 mil km² em 2021 (maior patamar desde 2006), de acordo com o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 2025, o indicador caiu a 5,7 mil km², o terceiro menor da série histórica iniciada em 1998.
No cerrado, viu-se movimento semelhante, com alta de 6,3 mil km² para 10,6 mil km², entre 2019 e 2022, e diminuição até 7,3 mil km² no ano passado. Na seara dos combustíveis fósseis, aparece a contradição entre a pasta do Meio Ambiente e a chefia do Executivo. A Política Nacional de Transição Energética, lançada pelo Planalto em 2024, prestou-se a fomentar o gás natural. O programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), criado por medida provisória no mesmo ano, incluiu medidas retrógradas em meio ambiente e economia, como subsídios à indústria automotiva. Lula 3 também elevou o imposto para importação de carros elétricos e híbridos.
Sob pressão do governo federal, o Ibama concedeu licença para pesquisa da Petrobras na bacia da Foz do Amazonas poucos dias antes da COP30 em Belém. Num Congresso Nacional com forte atuação do agronegócio, o ministério sofreu derrota com a aprovação da lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, principalmente no caso do dispositivo que agiliza autorizações para empreendimentos considerados estratégicos por órgão ligado à Presidência —regra que recebeu aval do Planalto.
No lugar de Marina, assumiu João Paulo Capobianco, que era secretário-executivo da pasta e não deve mudar a política da gestão anterior. Apesar da melhoria no cenário do desmatamento, o governo Lula ainda deve medidas efetivas em áreas cruciais como transição energética e adaptação aos efeitos da mudança climática.
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Feitos e frustrações de Marina
Marina Silva deixou o cargo de ministra do Meio Ambiente na última semana —ela é cotada para concorrer a uma vaga no Senado pela federação PSOL-Rede.
Nessa nova passagem pela pasta, conseguiu reduzir de forma expressiva o desmatamento, feito que já havia alcançado entre 2003 e 2008, durante o primeiro e parte do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mas o assim chamado desenvolvimentismo petista —fator que contribuiu para a sua saída do governo em 2008— novamente se impôs desta vez e, com um Congresso Nacional permeável à atuação de lobbies, dificultou outros avanços no setor.
Sob o desmonte promovido por Jair Bolsonaro (PL), a área devastada na Amazônia Legal subiu de 10,1 mil km² em 2019 para 11,5 mil km² em 2022, com pico de 13 mil km² em 2021 (maior patamar desde 2006), de acordo com o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em 2025, o indicador caiu a 5,7 mil km², o terceiro menor da série histórica iniciada em 1998.
No cerrado, viu-se movimento semelhante, com alta de 6,3 mil km² para 10,6 mil km², entre 2019 e 2022, e diminuição até 7,3 mil km² no ano passado.
Na seara dos combustíveis fósseis, aparece a contradição entre a pasta do Meio Ambiente e a chefia do Executivo. A Política Nacional de Transição Energética, lançada pelo Planalto em 2024, prestou-se a fomentar o gás natural. O programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), criado por medida provisória no mesmo ano, incluiu medidas retrógradas em meio ambiente e economia, como subsídios à indústria automotiva. Lula 3 também elevou o imposto para importação de carros elétricos e híbridos.
Sob pressão do governo federal, o Ibama concedeu licença para pesquisa da Petrobras na bacia da Foz do Amazonas poucos dias antes da COP30 em Belém.
Num Congresso Nacional com forte atuação do agronegócio, o ministério sofreu derrota com a aprovação da lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, principalmente no caso do dispositivo que agiliza autorizações para empreendimentos considerados estratégicos por órgão ligado à Presidência —regra que recebeu aval do Planalto.
No lugar de Marina, assumiu João Paulo Capobianco, que era secretário-executivo da pasta e não deve mudar a política da gestão anterior. Apesar da melhoria no cenário do desmatamento, o governo Lula ainda deve medidas efetivas em áreas cruciais como transição energética e adaptação aos efeitos da mudança climática.
Cobrança híbrida e conta-salário: veja mudanças previstas para o Pix em 2026
O Pix, mecanismo de pagamento brasileiro lançado em 2020, vem passando por diversas atualizações desde então. Uma das prioridades do Banco Central para 2026 é a cobrança híbrida e ajustes no campo de 'descrição'.
O Pix se tornou alvo de críticas do governo dos Estados Unidos, que alegam que o sistema é prejudicial às empresas de cartão de crédito, como as estadunidenses Visa e Mastercard.
Em resposta às críticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ressaltou que 'ninguém vai fazer o Brasil mudar o Pix', que tem prestado serviço à sociedade brasileira.
As mudanças previstas pelo Banco Central, discutidas na 28ª Reunião Plenária do Fórum Pix, buscam aprimorar a ferramenta de mecanismos instantâneos.
O campo de descrição do Pix deve passar por ajustes após constatação de que está sendo utilizado de maneira indevida para transmitir mensagens ofensivas ou intimidatórias.
Entre as medidas previstas, estão ações de orientação aos usuários, aplicação de restrições ou filtros no campo e definição de valor mínimo para o qual o campo de descrição possa ser preenchido.
Cobrança híbrida e conta-salário
Outra mudança debatida para 2026 é a da agenda híbrida, que junta em um único documento o boleto bancário com o QR Code disponibilizado pelo Pix.
Isso permitirá o pagamento da conta tanto pelo código de barras quanto pelo QR Code.
A agenda evolutiva do Pix também prevê que as contas-salário possam ser utilizadas para operações de Pix-automático. Atualmente, apenas contas correntes realizem a operação.
O mecanismo deve ser ampliado também para o pagamento de duplicatas, que são títulos de crédito. O Banco Central prevê adequar o sistema ao pagamento de impostos em tempo real, que vem sendo desenvolvido pela Receita Federal para a reforma tributária.
Veja algumas medidas aplicadas nos últimos anos:
- Pix Saque e Pix Troco: permite retirar dinheiro físico em lojas e estabelecimentos comerciais.
- Pix agendado: permite agendar pagamentos periódicos, com datas fixas. Utilizado principalmente por profissionais liberais.
- Pix automático: permite automatizar pagamentos recorrentes, assim como o débito automático.
O Pix já é utilizado por mais de 170 milhões de pessoas físicas, quase 80% da população brasileira, segundo o Banco Central.
Em janeiro de 2026, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações. O volume movimentado em um mês chega a R$ 3 trilhões, o que equivale a mais de 3 PIBs mensais.
Promessa é dívida: com novo programa, Lula tenta evitar fim de mandato sem ‘desenrolar’ endividados
Por Thaís Barcellos e Lívia Mendes* O GLOBO
A seis meses da eleição, o governo Lula corre para tentar reduzir o alto nível de endividamento que corrói a renda de boa parte da população. É uma tentativa de reduzir a rejeição nas pesquisas às vésperas de o presidente concorrer à reeleição e não descumprir uma das principais promessas da campanha que lhe deu o terceiro mandato. Em 2022, o petista prometera uma saída para as famílias com dificuldades de lidar com dívidas, atacando os níveis recordes de endividamento do fim do governo de Jair Bolsonaro. Lançou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas, no início do mandato, em 2023, mas, passados três anos, com a escalada dos juros para conter pressões inflacionárias, os números estão nos mesmos níveis de 2022.
E com um agravante: a fatia da renda das famílias usada para pagar dívidas cresceu. Com o custo alto dos empréstimos, há pouco tempo para Lula apresentar avanços nessa área.
O desafio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, é entregar soluções que gerem efeitos no curto prazo, tendo em vista a campanha para a eleição de outubro, quando Lula será cobrado sobre o tema. Os dados de endividamento acenderam um sinal de alerta no governo, que busca explicações para o mau humor dos eleitores em meio à alta da renda e o desemprego na mínima histórica.
O auge do endividamento ocorreu em julho de 2022, quando a relação entre o saldo das dívidas das famílias e a renda acumulada em 12 meses chegou a 49,9%, sem considerar o financiamento da casa própria. A taxa fechou aquele ano em 49%. Em janeiro de 2026, último dado disponível, foi de 49,7%. A parcela do orçamento familiar gasto com parcelas foi recorde: 29,3%.
Neste período, houve algum alívio. O Desenrola, que terminou em maio de 2024, surtiu um efeito momentâneo. Mas os indicadores de endividamento voltaram a subir, acompanhando a escalada da taxa básica de juros (Selic), que chegou a 15% ao ano e segue no maior nível em duas décadas mesmo com o corte recente do Banco Central para 14,75%. É só a base de um sistema financeiro que cobra taxas muito mais altas de quem pega empréstimo e usa cartão de crédito.
Um relatório do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif) em colaboração com o BC mostra que o comprometimento de renda com dívidas é maior entre os mais pobres. No grupo de beneficiários do Bolsa Família, superou 30% no fim de 2024, último período analisado.
Nova estratégia
O plano em discussão no governo e com bancos é ter, dentro de poucos dias, um novo programa de renegociação de dívidas em atraso, uma versão simplificada e de menor duração do Desenrola, focada nas modalidades mais caras do mercado: cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, como antecipou O GLOBO. Durigan adiantou à colunista Míriam Leitão que busca descontos de até 80% na dívida com refinanciamento do restante. Ainda está em discussão se será imposta um teto para a taxa dos novos contratos, mas essa é a tendência, dizem executivos do setor financeiro, diante de garantias que devem ser dadas pelo governo.
O programa também deve incluir algum tipo de solução para tentar evitar que as pessoas se endividem novamente. Segundo a Folha de S. Paulo, o governo cogita algum tipo de veto a apostas em bets para quem ingressar no programa e estender benefícios a pequenos empreendedores com CNPJ, como microempreendedores individuais (MEIs).
'Enrolados' vivem 'bola de neve'
Entre os que seguem “enrolados”, a sensação é de uma “bola de neve” incontrolável. O analista João Vitor Fonseca, de 40 anos, conseguiu quitar uma de suas dívidas no Desenrola, em 2024, mas o programa não funcionou para as outras, e ele segue inadimplente. — O sistema financeiro engole a gente, a ponto de você submergir em valores tão altos que impossibilitam as chances de pagamento da dívida real. Devo cerca de R$ 100 mil derivados de um valor original em torno de R$ 40 mil. Hoje tenho que comprar tudo à vista, ou pedir cartão emprestado a familiares — diz Fonseca.
Ele continua: — Eu tinha uma dívida de dois cartões de crédito de R$ 6 mil com juros, o valor original era R$ 2 mil. Quitei pagando seis parcelas de R$ 180 pelo Desenrola, que me ajudou, mas não contemplou todas as dívidas porque tinha um período determinado considerado. Fonseca diz conviver com dívidas desde que começou a trabalhar, aos 18 anos:
— Eu me deixei levar. Comecei a usar cartões em grande quantidade, limites especiais em bancos, linhas de crédito e financiamentos. Comecei viver uma sensação de ter uma renda dez vezes maior.
'Ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar'
O bombeiro civil Yan Teixeira, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também começou a usar cartões aos 18. Hoje, com 26 anos e salário de R$ 1.820, chega a comprometer até R$ 1.500 por mês com três cartões diferentes. Admite que, em alguns meses, recorre ao parcelamento das faturas com juros para não ficar inadimplente: — Tem mês que não tem jeito, eu parcelo. Aí no outro mês já vem mais coisa, e meu medo é virar uma bola de neve.
Apesar de satisfeito com a renda fixa do emprego formal, ele diz que essa dinâmica tem frustrado seu plano de sair da casa dos pais. Sente que ordenado “desaparece” de forma menos perceptível usando cada vez menos dinheiro vivo: — No começo, o cartão era só pra uma coisa ou outra, mas quando vi já estava usando pra tudo.
Ele diz ter dificuldade de conter o impulso no consumo de roupas, acessórios e passeios;
— Às vezes aparece uma promoção, uma viagem com os amigos, e eu acabo indo. Na hora, parece que vai dar para pagar depois. Você faz um Pix, passa o cartão, parcela... Não tem aquela sensação de que o dinheiro está indo embora. Quando você vê, foi quase o salário todo. Era pra eu conseguir guardar, só que nunca sobra. Trabalho, ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar. Quero comprar um carro, financiar ou alugar uma casa, mas não dá. Sempre tem o cartão pra pagar.
Cartão como ‘extra’
Para a especialista em crédito da Tendências Consultoria, Isabela Tavares, o governo Lula teve boas iniciativas para enfrentar o problema, como a criação do crédito consignado privado. É uma opção mais barata e estruturada de crédito, mas não disponível para quem não tem carteira assinada. Esse grupo acaba recorrendo ao rotativo quando a situação aperta. Sem educação financeira muitos veem o cartão como uma “renda extra”, ela observa: — Essas pessoas não conseguem modalidades melhores porque os bancos estão mais seletivos. Acabam pegando crédito nas piores modalidades, o que vira uma bola de neve. Pagam contas (imediatas), mas não conseguem pagar o empréstimo.
Para Isabela, um novo programa de renegociação do governo tende a ajudar se alongar prazos e reduzir as taxas do cartão.
'Vou dando um jeito'
Clea Machado, de 66 anos, vive sozinha em Magé, no Grande Rio, com a aposentadoria de um salário mínimo (R$ 1.621), mas terá R$ 270 descontados por mês até 2030 para pagar um empréstimo renegociado. A dívida começou com gastos inesperados de saúde, que ela foi cobrindo com o cartão de crédito. Em pouco tempo, perdeu o controle. — Fui passando o cartão, quando vi já estava em quase R$ 3 mil. Aí fiz um empréstimo de R$ 5 mil. Passados dois anos, tentei renegociar para pegar outro para fazer uma obra, e o banco juntou tudo num só. Quando eu vi, já estava devendo R$ 16 mil. Já tinha pago cerca de R$ 4 mil reais. Peguei mais R$ 6 mil, mas aquilo que eu já tinha pago parece que sumiu — diz a aposentada.
Enquanto as despesas com medicamentos não param de subir, ela segue usando o cartão de crédito para tentar fechar as contas do mês: — Quando faço a compra do mês, parcelo tudo. Compro arroz, feijão, azeite, o que está faltando em casa. Depois vou só completando. Mas você parcela uma compra de R$ 400 e, quando vê, está pagando quase R$ 600.Sem familiares para contar, Clea resolveu voltar a trabalhar para tentar sair do endividamento. Ela conta que passou a fazer faxinas para complementar a renda, mesmo sofrendo de osteoporose.
— A aposentadoria não dá para tudo, não. Não é suficiente para pagar os remédios e as contas — ela diz, ressaltando que tenta manter algum dinheiro para necessidades cotidianas. — Tem que sobrar ao menos R$ 100, R$ 150, para comprar um pão, uma verdura ou se eu quiser tomar um sorvete. A gente trabalha e merece. Vou dando um jeito. Mesmo enrolada, eu me organizo. Mas só a aposentadoria é pouco para viver com dignidade de verdade.
Cartão à mão vira problema
O aumento do uso das linhas de crédito mais caras — cujo acesso foi facilitado pelas fintechs — é apontado por especialistas como um fator decisivo na alta do endividamento e comprometimento de renda, mesmo com salários em alta nos últimos anos. Só o montante financiado no rotativo do cartão de crédito (quando o titular paga parte da fatura e soma o restante à próxima com juros) cresceu 32,7% nos 12 meses encerrados em fevereiro, a maior expansão entre linhas do crédito livre para pessoas físicas. É a modalidade mais cara, com juros de 15% ao mês ou 435% ao ano, mas muito usada para fechar as contas do mês.
A designer Taisa Alcantara, de 28 anos, começou a acumular dívidas no cartão quando se mudou para São Paulo, em 2022. Em junho do ano seguinte, devia R$ 2.614. Em fevereiro de 2025, a dívida em aberto já superava R$ 26 mil. — Resolvemos tentar a vida lá sem uma reserva financeira. Fui sem emprego e, nesse meio tempo, meu cartão estourou. Meu marido já estava com o nome sujo — conta.
Taisa tinha outras dívidas e fez novos empréstimos no nome do sogro para pagá-las, mas acabou deixando a fatura do cartão de lado. Já recebeu proposta de desconto e parcelamento, mas espera oferta melhor enquanto se reorganiza: — Há um ano, consegui retomar o controle. Tenho tudo em planilha e aos poucos estou me livrando das dívidas. A prioridade é pagar meu sogro, as dívidas do meu marido e, por último, limpar meu nome.
Porta de entrada
Um dos autores do estudo do FGVcemif, o professor de Finanças Rafael Schiozer diz que, nas faixas de renda mais baixas, a inclusão no setor bancário nos últimos anos se deu majoritariamente pelo cartão de crédito, cuja oferta tem sido “menos discriminada”, principalmente nos bancos digitais:
— As pessoas que têm mais cartões estão mais endividadas. Poderia ser demanda, mas parece mais um problema de oferta. Quem está ofertando está fazendo de maneira menos discriminada — avalia Schiozer, ressaltando que a democratização do crédito é positiva, mas precisa de um ajuste qualitativo e iniciativas de esclarecimento sobre as condições que poderiam vir das próprias instituições financeiras. — É preciso dar mais informação na concessão do limite.
Viviane Fernandes, pesquisadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), vê uma oferta indiscriminada de produtos financeiros ruins. Por isso, ela não vê sentido num novo Desenrola, cujo impacto diz não ser claro.
— Falta acompanhamento. Não é que a pessoa não saiba gerir seu orçamento. Ela recebe tanta oferta de crédito, com cheque especial, cartão, consignado CLT, Pix Parcelado, que, em algum momento, vira a vítima perfeita. Se estou precisando, vou usar. Se contratei e não entendi, saio prejudicada — diz. — Precisamos pensar nas causas. Regular a oferta indiscriminada de crédito.
(*Estagiária sob supervisão de Luciana Rodrigues)

