A imagem do desrespeito A foto que mostra metade das bancadas vazias num debate presidencial é
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Realizado pela Band e o Estadão, em parceria com a TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan, o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República, anteontem à noite, só contou com a participação de Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que, juntos, representam apenas uma parcela minoritária das intenções de voto – cerca de 11%, somados. Mais eloquente foi a imagem dos três púlpitos vazios no estúdio, o retrato mais bem acabado do profundo desrespeito dos srs. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) aos eleitores.
Zema, convenhamos, é irrelevante. Mas a Lula e a Flávio Bolsonaro, por serem os líderes de todas as pesquisas de intenção de voto, faltaram seriedade e espírito público. A despeito de seus interesses e estratégias pessoais, considerando suas posições na disputa pelo alto cargo a que almejam, ambos deveriam se apresentar ao País, em todas as oportunidades que tiverem, para expor suas ideias às críticas dos adversários e ao escrutínio de jornalistas profissionais, além de prestar contas à sociedade sobre fatos que maculam suas candidaturas. Como se sabe, Lula está às voltas com as suspeitas que recaem sobre seu primogênito e sobre seu ex-chefe de gabinete; Flávio Bolsonaro, por sua vez, ainda deve explicações sobre sua relação com Daniel Vorcaro e os milhões de dólares que recebeu do banqueiro para, supostamente, financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.
Lula optou por conceder uma entrevista à TV Record, que a emissora escolheu levar ao ar no mesmo horário do debate. Flávio Bolsonaro, por sua vez, escapou do confronto por temer ser o alvo preferencial dos adversários, uma decisão que até pode ser compreensível do ponto de vista tático, mas é inaceitável para quem se propõe a governar o Brasil.
Coube a Caiado, Cury e Santos oferecer aos eleitores o mínimo que a democracia exige: o livre debate de ideias entre os que se pretendem líderes da Nação. Aqui não nos propomos a avaliar os méritos ou deméritos de cada uma das propostas que os três candidatos apresentaram, mas não podemos ignorar o comportamento agressivo do sr. Renan Santos, que chegou a ser admoestado por Cury. O excesso, contudo, não anula a disposição dos presentes de se submeterem ao desconforto de participar de um debate eleitoral, sujeitando-se às perguntas incômodas, às críticas e até a seus próprios erros, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro se resguardaram.
Discute-se hoje a relevância dos debates na TV para a formação das convicções de voto. É uma reflexão legítima. Mas não se pode perder de vista que debates não são meros compromissos de campanha. Além de servirem de palco para a exposição de planos de governo, são também um dos raros momentos em que os eleitores podem observar os candidatos juntos em um ambiente que não controlam.
É nos debates que transparecem suas expressões físicas, maneirismos e reações aos temas tratados, ajudando a audiência a ter uma visão mais completa sobre aqueles que pedem o seu voto. Evitar esse teste é um luxo antidemocrático.
O plano quinquenal chinês e o Brasil
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Como faz regularmente desde 1953, a China divulgou recentemente sua visão estratégica para o período de cinco anos entre 2026 e 2030. Em seu 15.º plano quinquenal, Pequim eleva a autossuficiência alimentar ao status de prioridade, pregando inclusive a moderação nas importações, algo que impacta diretamente o Brasil, principal fornecedor de produtos agrícolas para o gigante asiático.
Para atingir tal objetivo, a China está investindo em tecnologia e no aumento de produtividade para ampliar sua produção de proteína animal e de grãos como a soja. No primeiro trimestre de 2026, a produção de carne suína na China aumentou 4,2%, para 16,69 milhões de toneladas métricas, ante o mesmo período de 2025.
Apesar de ser a maior produtora de suínos do mundo, a China, dado o tamanho de sua população, ainda precisa importar carne de porco de outros mercados, entre os quais o Brasil. Mas quando amplia significativamente sua produção, como agora, a China acaba derrubando os preços no mercado internacional, comprimindo as margens de lucro dos exportadores brasileiros.
Além disso, traumatizado pelo surto de peste suína africana que levou ao abate de parte significativa do rebanho suíno chinês em 2019, o gigante asiático também está investindo em biossegurança para evitar que novos episódios de doenças impeçam o país de reduzir suas importações de carne de porco.
Paralelamente, Pequim visa ainda a ampliar a produção doméstica de soja nos próximos anos entre 13% e 30%, a depender da fonte da estimativa. Atualmente, a China produz cerca de 20 milhões de toneladas de soja por ano. Já o Brasil, apenas em 2025, exportou 80% de sua produção do grão, ou 87,1 milhões de toneladas, para o mercado chinês. Mesmo que a China só consiga incrementar sua produção de soja em 13%, isso não deixa de representar um desafio para os produtores brasileiros, especialmente porque os embarques recordes de soja daqui para a China no ano passado contaram com a ajuda inadvertida do presidente dos EUA, Donald Trump.
Em meio à guerra tarifária com Trump, Pequim reduziu em 2025 a compra de soja dos EUA, segundo maior produtor do grão, e ampliou importações oriundas do Brasil e da Argentina. Em 2026, porém, a China voltou a acelerar as importações de soja americana.
Como o principal alvo da renovada ofensiva protecionista de Trump é exatamente a China, a soja dos EUA é um fator importante nas negociações comerciais entre os dois países. O presidente chinês, Xi Jinping, será recebido por Trump na Casa Branca no final de setembro.
Não bastasse o contexto da guerra comercial, com o qual a China tem jogado muito bem escolhendo de quem compra ou não, Pequim também vem reduzindo o uso da soja como ração para animais, e tem apostado em um subproduto do milho chamado DDG. A China é um dos maiores produtores de milho do mundo, atrás apenas dos EUA e à frente do Brasil.
Embora especialistas apontem limitações no desejo manifesto chinês de ser autossuficiente na produção de alimentos – a disponibilidade de terras cultiváveis na China é pequena, e o uso do DDG como ração animal é desafiador porque o farelo de soja consumido pelos rebanhos é mais nutritivo –, o Brasil não pode ser apenas espectador das mudanças que Pequim vem buscando acelerar.
É verdade que a condição do Brasil de maior exportador de produtos agrícolas para a China não vai mudar da noite para o dia. Mas por mais que o plano de autossuficiência alimentar chinês envolva desafios de grande monta, convém não duvidar de uma nação que em pouco mais de três décadas converteu-se de um país miserável na segunda maior economia do mundo.
Cabe ao governo e ao setor agrícola do Brasil analisar conjuntamente os desdobramentos em curso na China e trabalhar para que o País amplie o valor de sua cadeia produtiva agrícola. A busca incessante de novos mercados para os produtos brasileiros também é um imperativo.
Se nada fizer, o Brasil corre o risco de perder protagonismo até mesmo em uma das poucas áreas, o agronegócio, nas quais se destaca globalmente.
Cinismo petista
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O ministro Dario Durigan informou que quer se reunir com os economistas Pedro Malan e Arminio Fraga para discutir a agenda fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual quarto mandato. Chega a ser comovente a tentativa dos petistas de revestir de racionalidade e sensatez uma candidatura, a de Lula, fundada na demagogia e na presunção de que dinheiro público brota em árvore – nada mais distante, aliás, da prudente condução da economia por Malan e Arminio, respectivamente ministro da Fazenda e presidente do Banco Central nos governos de FHC.
Na hipótese de que esse encontro realmente ocorra, seria muitíssimo interessante e útil se Durigan se dispusesse a discutir a “herança maldita” – não aquela que Lula levianamente disse ter recebido de Fernando Henrique Cardoso quando chegou ao poder, em 2003, mas sim a “herança maldita” real, aquela que Lula legará a si mesmo, caso vença a eleição e permaneça mais quatro anos no poder.
Os números falam por si. A dívida bruta do governo geral – dado do Banco Central que inclui os governos federal, estaduais e municipais, além do INSS – aumentou nada menos que dez pontos porcentuais ao longo do terceiro mandato do petista, saindo de 71,38% do Produto Interno Bruto (PIB), em janeiro de 2023, para 81,9% do PIB em junho, o maior patamar dos últimos cinco anos.
Diante desse descalabro, tanto Malan quanto Arminio já manifestaram preocupação. Em artigo publicado no Estadão por ocasião dos 400 dias deste governo Lula, Malan avaliou o programa Nova Indústria Brasil e constatou que “o pensamento de 15 anos atrás” perdurava. Alertou, no texto, que uma política fiscal insustentável impediria o desenvolvimento econômico e social sustentado no longo prazo.
Fraga, por sua vez, disse recentemente que a política fiscal do governo Lula é fraca, não facilita em nada a vida do Banco Central e cria fragilidades que afetam a saúde das empresas e do próprio Estado brasileiro. Segundo ele, o quadro é desastroso, e o País caminha para uma crise semelhante à que gerou a recessão econômica do governo de Dilma Rousseff.
É improvável que Durigan, uma espécie de estagiário ambicioso que ora ocupa a Fazenda, se abale com essas observações. Nada parece capaz de desviá-lo do objetivo de agradar ao chefe, na ânsia de ficar no cargo caso Lula vença, razão pela qual não vale um pequi roído sua tentativa de espalhar por aí que o próximo mandato do petista, caso venha, será de ajuste fiscal. É apenas a reciclagem preguiçosa da conhecida farsa de Lula para engabelar eleitores de centro.
Que ninguém se deixe enganar. Lula foi desonesto em relação a Malan, Arminio e Fernando Henrique Cardoso desde seu primeiro dia no poder. Em abril de 2004, por exemplo, declarou que recebeu da gestão tucana uma herança “pra lá de maldita”, numa referência à crise cambial e à alta da dívida pública legadas por FHC. O que Lula não disse é que boa parte dessa turbulência resultou do chamado “risco Lula”, isto é, do temor dos mercados com a perspectiva de vitória do petista. A verdadeira herança de FHC para Lula, jamais reconhecida pelo petista, foram o controle da inflação, o superávit primário consolidado e a cultura da responsabilidade fiscal, materializada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000. Sem isso, Lula jamais teria condições de implementar sua agenda social, por meio da qual pretende ser consagrado pela História.
Mas Malan e Arminio são dois democratas, genuinamente interessados no bem do País. Por essa razão, é possível até que aceitem conversar com Durigan, ocasião em que poderiam explicar ao voluntarioso ministro que ele está simplesmente errado, por exemplo, ao dizer que a dívida pública sobe porque os juros são elevados – tentativa nada sutil de livrar o perdulário governo Lula de responsabilidade pelas escorchantes taxas. Nessa aula, Malan e Arminio poderiam ensinar a Durigan que os juros são altos porque o mercado cobra cada vez mais caro para financiar um governo que sistematicamente gasta mais do que arrecada e não demonstra compromisso com o equilíbrio fiscal.
Autoridades precisam ter mais empenho para combater bets ilegais
Por Editorial / O GLOBO
Práticas ilegais de apostas têm dominado fatia relevante do mercado brasileiro. Três em quatro usuários de bets (77%) dizem ter apostado nos últimos três meses em plataformas que mantêm pelo menos uma prática ilegal, segundo pesquisa do instituto Locomotiva. Para elaborar o questionário, os pesquisadores usaram como parâmetro as ações proibidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda.
As práticas ilegais mais frequentes foram falta de reconhecimento facial (53%) e uso de domínios diferentes do único autorizado, bet.br (48%). “A exigência de reconhecimento facial busca frear o acesso de impedidos de apostar, como menores de idade ou quem possa ter acesso a informações sobre eventos esportivos objetos de apostas”, diz o advogado André Santa Rita. De acordo com ele, sites usam domínios diferentes do bet.br para fugir à fiscalização e poder agir sem nenhuma restrição, aplicando golpes contra os apostadores.
Outra prática ilegal frequente nesses sites é permitir o uso de cartão de crédito. Na pesquisa, 37% confessaram ter conseguido pagar suas apostas no crédito, percentual alarmante. Tais usuários estão vulneráveis ao furto de dados e passam ao largo das medidas de prevenção ao endividamento. As apostas alimentam a fatura do cartão com valores exorbitantes e, em pouco tempo, uma dívida pequena fica impagável. Também preocupante é a fatia que admite pagar apostas com criptoativos (23%), outro recurso proibido. “Os objetivos da proibição são a prevenção à lavagem de dinheiro, a identificação da origem dos recursos e a rastreabilidade financeira”, diz o advogado Daniel Dias, da FGV Direito Rio.
É verdade que o governo tem apertado o cerco contra apostadores que não seguem a lei. De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, 800 mil foram excluídos das plataformas de aposta depois de entrarem no programa Desenrola, de renegociação de dívidas — levando a 5 milhões o total de cidadãos proibidos de apostar. Mas, apesar de os esforços terem surtido algum resultado, os sites ilegais se mantêm relevantes, como atesta a pesquisa. De janeiro a junho do ano passado, seis em dez entrevistados reconheciam pelo menos duas práticas ilegais ao apostar em bets. No semestre seguinte, a fatia caiu para 55%. Em maio, estava em 50%, patamar ainda inaceitável. Entre quem ganha até dois salários mínimos, alcançava 51% dos apostadores.
As consequências nefastas das bets ilegais são sentidas não apenas no estímulo ao vício que contribui para o endividamento, mas também nos cofres do governo. Em audiência no Congresso, Durigan afirmou que a arrecadação anual com a tributação de empresas de apostas já alcançou R$ 9 bilhões. Se dedicar mais energia a reprimir as bets que operam fora da lei, o governo conseguirá ampliar essa arrecadação, aliviando a pressão sobre as contas públicas.
Governo tem apertado o cerco, mas práticas ilegais de bets persistem — Foto: Gustavo Azeredo/Agência O Globo
Faltar a debate viola direito do eleitor a informação
Por Editorial / O GLOBO
Foi frustrante o primeiro debate presidencial desta eleição. Estavam presentes no estúdio da Band apenas três dos seis candidatos que tinham o dever de comparecer: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Juntos, os três não somam 10% das intenções de voto, segundo o último Datafolha. Não foram debater nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — os dois primeiros colocados nas pesquisas. Romeu Zema (Novo) também se negou a ir.
Faltar a um debate é um desrespeito ao eleitor. É uma afronta a seu direito a informação. Eventos televisionados, em que as propostas são apresentadas, criticadas e discutidas, permitem ao cidadão avaliar melhor os candidatos antes de decidir seu voto. Confrontos de ideias num embate ao vivo são essenciais na democracia e não podem ser ignorados.
O mesmo vale para entrevistas feitas por jornalistas profissionais, cujo preparo e cuja experiência lhes permitem inquirir os candidatos com mais profundidade e pertinência do que os influencers, podcasters e youtubers a que eles têm acorrido em busca de tratamento benevolente. É por isso lamentável que Lula e Flávio também tenham se recusado a comparecer a sabatinas da imprensa profissional, como a organizada pelos veículos da Editora Globo, entre eles O GLOBO (ao menos ambos confirmaram presença na entrevista que a TV Globo realiza a partir desta segunda-feira com os principais candidatos).
Não faltam temas sobre os quais o eleitor ainda não foi devidamente informado. O nível de detalhamento a respeito do que cada um pretende fazer para desarmar a bomba fiscal é ínfimo. Na área da segurança, um sem-número de promessas parece inviável. Em educação, falta explicar o que será feito para cobrar e incentivar governadores e prefeitos responsáveis pelos resultados vexatórios nos níveis de aprendizado. Há pontos de interrogação também na saúde e em outras áreas cruciais para o futuro do Brasil. Apenas o questionamento firme num ambiente jornalístico profissional é capaz de elucidá-los com respostas satisfatórias.
Infelizmente, a prática de evitar confronto de ideias tem larga história. A decisão sobre ir a debates costuma ser baseada em cálculo meramente eleitoral. Quem está na frente tende a fugir. Em 1989, na primeira eleição direta depois da redemocratização, Fernando Collor não foi a nenhum dos quatro realizados antes do primeiro turno. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso foi a apenas um dos três. Em 2006, Lula não foi aos três anteriores ao primeiro turno. É verdade que já houve eleições melhores, como 2002, quando Lula e José Serra compareceram aos principais debates, ou 2022, que também contou com participação expressiva. Essa deveria ser a regra. Mas não é.
O futuro do Brasil não é um produto em busca da melhor vitrine. A distribuição de conteúdo por redes sociais e aplicativos de mensagens não informa o eleitor. Sem debates e sem o jornalismo profissional, ele fica à deriva e pode ser facilmente influenciado por discursos tão sedutores quanto mentirosos. Quando a intenção é manter controle total sobre o que os candidatos podem dizer, quem mais perde é a democracia.
Lula e Flávio Bolsonaro faltaram ao debate presidencial da Band — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Lula e Flávio Bolsonaro faltaram ao debate presidencial da Band — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Na mira da PF, 'Dark Horse' tem registro concedido pela Ancine
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO
A dois meses das eleições presidenciais, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) aceitou no último dia 7 o registro de obra estrangeira de "Dark Horse", polêmico longa-metragem sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Este é o primeiro passo para o lançamento do filme, que ainda precisa cumprir outras etapas burocráticas para ser exibido nos cinemas, como obter aval da Ancine para exploração comercial e ainda ganhar uma classificação indicativa do Ministério da Justiça.
Na mira do Supremo Tribunal Federal (STF), “Dark Horse” abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção.
Uma das linhas de investigação da Polícia Federal é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante autoexílio nos Estados Unidos.
Em 22 de junho, a Europa Filmes apresentou o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) para “Dark Horse”, já esclarecendo, portanto, que não se trata de um filme nacional. A notícia veio à tona após uma proposta para lançar o filme no Brasil ter sido recusada pela Paris Filmes, uma das maiores distribuidoras nacionais, com um catálogo que inclui as franquias “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”.
Conforme informou o blog, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para o filme sobre o atentado à faca contra Bolsonaro em 2018. A ideia é que "Dark Horse" seja exibido em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e com cópias dubladas espalhadas por todo o país. Mas isso apenas depois das eleições, a partir de novembro.
Agora, a distribuidora de "Dark Horse" vai atrás do Certificado de Registro de Título (CRT), documento emitido pela própria Ancine que dá aval à comercialização de uma obra audiovisual no Brasil. A Ancine é responsável pela regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro e, por isso mesmo, desempenha um papel-chave ao autorizar o lançamento de um filme no circuito nacional.
De acordo com a agência, para a emissão do CRT, "deve ser demonstrada a detenção dos direitos de exploração comercial da obra no Brasil e para o segmento pretendido, mediante a apresentação do contrato de cessão, licenciamento ou transferência desses direitos". Em média, essa segunda etapa dura 30 dias.
PF cobrou informações
Conforme informou o blog, a Polícia Federal deu um prazo de 10 dias para a Ancine apresentar informações sobre "Dark Horse".No ofício assinado na última terça-feira (18), a PF pediu informações sobre o registro de “Dark Horse”, além de “comunicação de produção, certificação ou qualquer outro procedimento administrativo relacionado à obra cinematográfica”.
Outro ponto que a PF quer elucidar é quais são as pessoas físicas e jurídicas vinculadas ao filme, além de produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes do projeto que constam no banco de dados da Ancine.
A PF também quer que a Ancine esclareça se o filme recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou “quaisquer benefícios vinculados às políticas públicas de financiamento do setor”.
Filmagem irregular
Em 28 de julho, a Ancine abriu um processo administrativo e autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades na gravação de "Dark Horse", o que deve constar na resposta que está sendo elaborada para a PF. O auto de infração, emitido pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, informa a conduta que levou à intervenção da agência: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.”
Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na própria Ancine, que além de comunicar sobre a obra tem que apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso, no entanto, foi feito pela produtora no caso de “Dark Horse”. Na prática, com a autuação da Go Up, a Ancine sinaliza a aplicação futura de uma multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.
Proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama nunca lançou nenhum filme no Brasil. Além da Go Up, as outras duas empresas que constam no sistema da Ancine no nome de Karina – a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil – também nunca registraram nem lançaram nenhuma produção em território nacional, seja em cinema, TV aberta ou fechada.
Núcleo duro da campanha de Flávio Bolsonaro já viu o filme
Segundo a equipe da coluna apurou, integrantes do núcleo duro da campanha de Flávio fizeram questão de assistir a “Dark Horse” antes da estreia nos cinemas para avaliar os riscos de judicialização e de eventuais novos desgastes, já que o filme virou foco de crise no clã Bolsonaro, respingando nas intenções de voto.
Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura.
O filme recria cenas como um debate presidencial, mas sem usar os nomes dos adversários que enfrentaram Bolsonaro naquele pleito. O autor do atentado em Juiz de Fora (MG) é retratado como um militante de esquerda, mas não se chama Adélio Bispo.
Em outra cena, os personagens de Michelle, Flávio e Eduardo Bolsonaro conversam com o “doutor Tavares” nos corredores de um hospital após o atentado. “Deus está com ele, doutor”, afirma Michelle ao médico.
Um rascunho do roteiro explora a relação de Bolsonaro e Michelle, com cenas do casamento dos dois, o parto da filha Laura e o apoio da mulher durante a campanha eleitoral de 2018. “As coisas que dizem sobre você... Isso me assusta. Estão tentando provocar alguém para te machucar”, afirma a personagem da ex-primeira-dama, em tom premonitório. “Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.”
O elenco de "Dark Horse" é predominantemente estrangeiro, capitaneado pelo ator Jim Caviezel, célebre por interpretar Jesus Cristo em “A paixão de Cristo” e estrelar “O conde de Monte Cristo”. Já Michelle Bolsonaro é vivida por Camille Guaty, que já fez participação no seriado "The Good Doctor: O bom doutor”. Os diálogos são em inglês, em uma estratégia para ampliar as chances comerciais do filme no exterior.
Três cenários
Em meio à polarização política que pode invadir os cinemas, o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, traça três cenários possíveis para a performance comercial de “Dark Horse”, que vai ser lançado no Brasil com o mesmo título original em inglês. O filme tem 100 minutos de duração, incluindo os créditos finais.
Na pessimista, o filme sobre Bolsonaro repete o fraco desempenho de “Lula, o Filho do Brasil” e atrai 800 mil espectadores. Na realista, faz entre 1,5 milhão e 2 milhões de espectadores. Na otimista, supera os 2 milhões – um patamar alcançado por poucos filmes nacionais lançados no pós-pandemia, especialmente os voltados para o público adulto.
É uma meta ambiciosa. Para efeito de comparação, “O agente secreto” atraiu 2,4 milhões de espectadores ao longo de quatro meses em cartaz, turbinado pelo mar de premiações e as quatro indicações ao Oscar – algo que “Dark Horse” não deve ter a seu favor, como admite o próprio Feitosa.
“Não é filme que vai ser indicado para o Oscar, não vai concorrer para indicação, mas tem esse selo hollywoodiano de qualidade”, afirma Feitosa, que tem no currículo o lançamento de produções nacionais como “O menino maluquinho” e “Lula, o filho do Brasil”, além de sucessos americanos, como o terror “A bruxa de Blair”.

