Maior hospital de trauma do CE atende média de 19 mulheres vítimas de violência doméstica por mês
Escrito por Ana Beatriz Caldas / DIARIO DO NORDESTE
Entre janeiro e maio deste ano, 96 mulheres deram entrada no Instituto Dr. José Frota (IJF), localizado em Fortaleza e considerado o maior hospital de trauma do Ceará, por ferimentos decorrentes de violência intrafamiliar – ou seja, agressões cometidas por pessoas próximas às vítimas, como cônjuges, namorados, ex-companheiros ou familiares.
O número, que assusta por si só, acende um alerta ainda maior quando comparado com os atendimentos registrados nos últimos três anos. Enquanto entre 2023 e 2025 a média mensal de vítimas de violência intrafamiliar atendidas no hospital variou entre 11 e 12, a média de 2026 já chega a 19. O aumento reflete uma onda de episódios graves de violência presenciados no Estado nos últimos meses.
Os números fazem parte de um levantamento feito pelo IJF após solicitação do Diário do Nordeste. Segundo os dados fornecidos pelo hospital, as vítimas mais frequentes são mulheres jovens, de 22 a 39 anos, e os principais agressores são cônjuges, namorados e ex-companheiros, que representam mais da metade dos casos.
Ao todo, entre janeiro de 2023 e maio deste ano, 525 mulheres foram internadas por violência intrafamiliar na unidade. Desses, 214 casos são reincidências.
Para a assistente social e coordenadora de Serviço Social do IJF, Pâmela Santos, o aumento dos registros também é fruto do aumento do número de denúncias e de um melhor atendimento institucional a mulheres vítimas de violência intrafamiliar.
“Elas estão denunciando mais, porque a gente está melhor organizado no fluxo”, aponta. Segundo ela, a organização de um protocolo próprio para atender as vítimas de violência doméstica e a melhor preparação dos profissionais de saúde reflete em uma maior confiança para que as denúncias sejam feitas.
“Mas a gente sabe que existe também a subnotificação. A mulher pode relatar que foi uma queda de escada, pode relatar que caiu, escorregou no banho e vai ocultar a informação”, completa.
Desde agosto do ano passado, o IJF conta com um protocolo chamado Código Lilás, que atende a uma legislação nacional e busca identificar, acolher e encaminhar vítimas de violência intrafamiliar para a rede de proteção adequada.
Segundo o equipamento de saúde, o atendimento é feito de forma sigilosa e humanizada e busca garantir a segurança física, emocional e financeira da vítima durante a internação e após a saída do hospital.
De acordo com o IJF, o acolhimento na unidade inclui uma sala especial para receber as vítimas, denominada Sala Lilás, para atendimento psicossocial e a notificação do caso de violência à Guarda Municipal de Fortaleza (GMF), responsável por acionar a Delegacia de Defesa da Mulher.
“Quando uma mulher adentra a unidade de saúde e refere que essa agressão é ocasionada pelo seu companheiro, pelo seu cônjuge, ou foi por algum parente no contexto familiar – que também pode ser chamado de contexto intrafamiliar – é obrigação das unidades de saúde informar as autoridades policiais”, destaca a coordenadora.
A notificação ocorre assim que o caso de violência doméstica é identificado, seja pela própria vítima, por um familiar ou pela equipe médica, já que “o crime contra a mulher, nesse contexto, é uma ação pública incondicionada, ou seja, que precisa ser investigada para além do desejo da vítima”, completa Santos.
Após a desospitalização, ou seja, o fim do internação da vítima, o IJF também atua como ponte para encaminhar a vítima para serviços de apoio, como a Casa da Mulher Brasileira, o Centro de Referência da Mulher e os Centros de Referência Especializados da Assistência Social (Creas) de municípios do interior.
Em casos mais graves, o equipamento de saúde também é responsável por acionar o programa de proteção a mulheres vítimas de violência. “Isso tem muito a ver com as tentativas, sobretudo, de feminicídio, que é quando o objetivo é exterminar a vida daquela mulher”, pontua Pâmela.
Em casos de violência doméstica, o acolhimento muitas vezes começa apenas no hospital, após episódios mais graves, mas deve perdurar para muito além da internação para que a vítima possa se curar.
A psicóloga e professora universitária Juliana Murta destaca que esses casos podem trazer, além de lesões físicas, questões emocionais sérias, como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e “alterações gravíssimas” no sono.
“As mulheres tendem a ficar cada vez mais hipervigilantes, porque ninguém sabe como a agressão, sendo física ou não, vai vir. Além disso, há o [abuso de] uso de álcool e tentativas de suicídio”, explica.
“Esse desenvolvimento de ansiedade, depressão e outros sintomas vêm por esse processo de quebra de autonomia e de possibilidade de existência que essas mulheres vivenciam, à medida que passam por essas agressões”, completa.
Juliana ainda reforça que o impacto emocional das violências tende a ser maior em casos de vítimas que foram desacreditadas por familiares, amigos ou pelos próprios sistemas de saúde e de Justiça.
Em todos os casos, a psicóloga ressalta a importância de, para além do apoio institucional – médico, social e jurídico –, mulheres vítimas de violência doméstica poderem contar com uma rede de apoio fortalecida, presente e que compreenda a complexidade da violência intrafamiliar, especialmente quando ela parte de cônjuges, namorados ou ex-companheiros.
“Tem muitas famílias que são boas, que querem ajudar, que estão desesperadas para ajudar – mas, nesse desespero para ajudar, acabam afastando ainda mais essa mulher. Vem aquela coisa de ‘você precisa se divorciar’ ou ‘você precisa sair de casa’. Essa família está errada? Não está. Mas vai dar conta? Não vai, vai afastar ainda mais, porque vai aumentar o limiar de culpa daquela mulher, porque ela não se vê conseguindo fazer aquilo”, explica Juliana.
“Então, a rede de apoio tem um desafio muito grande, que machuca muito a própria rede de apoio também, que é conseguir ter paciência suficiente para não tentar tomar decisões por essa mulher. Ela precisa dizer: ‘Eu estou aqui, vou te proteger, mas a gente precisa fazer com que você fique viva’”, conclui.
Reincidência acende alerta no poder público, diz secretária
A secretária executiva de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Secretaria das Mulheres do Ceará, Erica Praciano, destaca que os casos de violência intrafamiliar são um problema social complexo, “que exige toda a atuação permanente e integrada do poder público e da sociedade civil”.
Erica destaca que o fato de a maioria dos agressores de mulheres serem companheiros ou ex-companheiros das vítimas demonstra que existem ciclos de violência “marcados pelo controle, pelas ameaças, e até mesmo pelo fator que decorre da questão da dependência emocional e da dependência econômica em relação ao companheiro”.
“Esses casos de reincidência acendem um alerta muito importante para nós, do poder público. Eles mostram que não basta apenas interromper o episódio da violência, mas que é fundamental garantir toda a proteção contínua, todo o acompanhamento psicossocial, todo o acesso à Justiça e também a questão da autonomia econômica para as mulheres, que é justamente um dos motivos para que possa interromper esse ciclo de violência”, destaca a secretária executiva.
Segundo a gestora, o principal foco da Secretaria das Mulheres para reduzir os casos de violência intrafamiliar tem sido a ampliação da rede estadual de proteção às mulheres, especialmente com novas unidades da Casa da Mulher Brasileira e da Casa da Mulher Cearense, o fortalecimento das patrulhas Maria da Penha e campanhas permanentes de prevenção e conscientização.
Questionada sobre o crescimento na média mensal de mulheres atendidas por casos de violência intrafamiliar e o atual cenário da violência doméstica contra mulheres no Estado, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) afirmou que “realiza ações de combate, prevenção, reforço no policiamento e acolhimento às vítimas de violência doméstica” e que “as Forças de Segurança atuam diariamente para fortalecer a rede de atendimento, ampliar o acesso rápido aos serviços de proteção e o acompanhamento das vítimas”.
Entre as principais ações para auxiliar mulheres vítimas de violência estão o Grupo de Apoio às Vítimas de Violência (Gavv), ligado à Polícia Militar do Ceará (PMCE), e o sistema virtual de solicitação de medidas protetivas de urgência, disponível no site mulher.policiacivil.ce.gov.br.
SERVIÇO
ONDE BUSCAR AJUDA
Ligue 180 para denunciar situações de violência contra a mulher.
Disque 190 em casos de emergência.
Disque 100 – Violência contra crianças e adolescentes.
CASA DA MULHER BRASILEIRA
Fortaleza
Rua Teles de Sousa, s/n – Couto Fernandes
(85) 3108-2998 / 3108-2999 / 3108-2994 (administração)
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CASA DA MULHER CEARENSE
Juazeiro do Norte
Av. Pe. Cícero, 4501 - São José
(88) 98128-8071 / (85) 3106-3145
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Quixadá
Rua Luis Barbosa da Silva, s/n - Planalto Renascer
(88) 98957-2422 / (85) 3106-3202
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Sobral
Av. Monsenhor Aloísio Pinho, s/n - Gerardo Cristino de Menezes
(88) 98959-7453 / (85) 3106-3185
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Tauá
Rua Antônio Carvalho Citó, s/n - Planalto Nelândia
Tara golpista
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em um descarado flerte com o golpismo, o atual presidente da Colômbia, o esquerdista Gustavo Petro, insiste em afirmar que o opositor de direita Abelardo de la Espriella não venceu seu candidato, Iván Cepeda, nas eleições presidenciais, ao contrário do que atestam observadores estrangeiros e as próprias instituições colombianas encarregadas do processo eleitoral.
Assim, comprova-se que a tara golpista nas democracias das Américas não se restringe à direita trumpista ou bolsonarista. A esquerda que se apresenta como salvadora da democracia contra o autoritarismo de direita também não se faz de rogada quando o resultado das urnas lhe desfavorece e trata de deslegitimar a vitória dos adversários. Seja à esquerda ou à direita, trata-se de comportamento inaceitável, que merece franco repúdio das genuínas democracias da região.
Se era séria a “defesa da democracia” que animou a “4.ª Cúpula em Defesa da Democracia”, realizada com fanfarra em abril em Barcelona e que contou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o próprio Petro, então que o Brasil faça gestões junto ao atual presidente colombiano para que a transição no país se dê sem sobressaltos antidemocráticos.
Enquanto o Brasil silencia, Petro consagra os últimos dias de seu governo a inflamar os colombianos. O presidente sugere, por exemplo, que não comparecerá à posse de Espriella, marcada para 7 de agosto.
Tradicionalmente, os presidentes de saída na Colômbia fazem seu discurso de despedida no mesmo dia em que o novo mandatário toma posse. Como não admite a vitória de Espriella, Petro agora trata o 7 de agosto como “data trágica”.
Trágica, na verdade, é a maneira como Petro está instrumentalizando o feriado de independência da Colômbia, celebrado em 20 de julho. O esquerdista convocou uma “mobilização geral” dos colombianos na data de forte peso simbólico, quando promete antecipar seu discurso de saída. Já Cepeda, que chegou a reconhecer a derrota para Espriella, agora prega abertamente a “desobediência civil”.
O objetivo é claro: fomentar a narrativa de fraude eleitoral para jogar os colombianos contra Espriella. Petro e Cepeda apegam-se, sobretudo, ao fato de o presidente eleito ter cidadania norte-americana, o que faria dele alguém leal à Constituição dos EUA, e não à da Colômbia.
Espriella, por sua vez, acusou Petro de fomentar um golpe e suspendeu o processo de transição governamental que vinha tocando junto à administração do atual mandatário.
Tanto pior para a Colômbia, que, uma vez mais diante de uma escalada da violência, elegeu Espriella, por margem estreitíssima, na esperança de viver dias mais seguros.
Petro despeja mais gasolina na fogueira, inviabilizando a transição e elevando a temperatura em um país de passado recente trágico, marcado pela guerra civil e pela atuação violentíssima de grupos narcotraficantes e paramilitares – o que faz da promoção de ideias golpistas algo ainda mais irresponsável.
A ficção da ‘pré-campanha’
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Ao chamar de “papagaiada desgraçada” as restrições impostas pela legislação eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou expondo uma contradição que vai muito além de seu incômodo pessoal. O problema não é o defeso eleitoral, mas a ficção da chamada “pré-campanha”. A política brasileira já entrou em campanha há muito tempo. Só a legislação e os próprios atores políticos, quando lhes convêm, continuam sustentando essa ficção.
Não há mais nada de “pré” na disputa presidencial de 2026. Lula percorre o País anunciando obras e investimentos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) organiza viagens, mobiliza apoiadores e constrói seu palanque nacional. Partidos articulam alianças, testam discursos e ajustam estratégias. O noticiário acompanha diariamente pesquisas, movimentos eleitorais e cenários para outubro. Os tribunais já acumulam ações típicas de uma campanha em pleno andamento. Ainda assim, todos insistem em tratar seus protagonistas como “pré-candidatos”, como se a corrida eleitoral permanecesse apenas em fase de preparação.
As restrições previstas na legislação eleitoral continuam sendo indispensáveis. Democracias precisam impedir que governantes utilizem a máquina pública em benefício próprio. Precisam estabelecer uma fronteira clara entre Estado, governo e campanha, limitar o uso da publicidade institucional e evitar que quem ocupa o poder transforme a estrutura administrativa em vantagem eleitoral. O objetivo dessas normas permanece correto. O problema é que o conceito de pré-campanha deixou de corresponder à realidade política.
Os últimos dias demonstraram isso com clareza. Antes do início das restrições eleitorais, Lula participou de 19 agendas públicas em sete Estados, acelerou anúncios de investimentos, inaugurou um canteiro de obras e até um túnel ainda sem água. Em seguida, anunciou que, embora não pudesse mais inaugurar obras, continuaria visitando aquelas que ainda pretendia conhecer. “Nós temos agora o período de defeso. O defeso é para pesca. Você não pode pescar na época da desova. E agora a gente não pode inaugurar mais nada até as eleições”, queixou-se Lula. Mas não se deu por vencido: “Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas que ainda tenho de visitar”.
Não se trata de uma característica exclusiva do atual presidente. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) percorreu o País em motociatas e grandes eventos públicos muito antes da campanha oficial, suscitando exatamente o mesmo debate. Agora, na Paraíba, a Justiça Eleitoral determinou a retirada de vídeos de Wesley Safadão após o cantor fazer, durante um show do São João de Campina Grande, um gesto associado à pré-candidatura do senador Efraim Filho (PL-PB) ao governo do Estado. Em ambos os casos, a controvérsia não girou em torno de pedidos explícitos de voto, mas da tentativa de definir onde termina a manifestação política e onde começa a campanha.
Os números confirmam a distorção. Antes mesmo da abertura oficial da campanha, as equipes jurídicas de Lula e Flávio Bolsonaro já haviam levado ao Tribunal Superior Eleitoral mais de uma centena de representações. Ora, se a campanha ainda não começou segundo o calendário legal, como pode já ocupar tanto os tribunais, mobilizar partidos e dominar a agenda política nacional?
É preciso discutir de forma realista como impedir que quem exerce o poder utilize a máquina pública para perpetuá-lo. Essa é a fronteira que merece proteção rigorosa. É ela que assegura igualdade entre os concorrentes e preserva as instituições acima dos interesses eleitorais de ocasião.
Não faz sentido abandonar as regras. Faz sentido abandonar a ilusão de que elas ainda regulam a realidade. A democracia continuará precisando de limites rigorosos ao uso da máquina pública e de uma fronteira inequívoca entre Estado, governo e campanha. Mas insistir em tratar como “pré-campanha” um período em que todos já fazem campanha apenas transforma a legislação num exercício de faz de conta. O Brasil precisa de regras mais realistas, claras e eficazes.
Flávio Bolsonaro desserve o Brasil
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a produtos brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas àquele fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será muito mais alinhado ao presidente Donald Trump.
Com isso, Flávio perdeu a chance de provar que está interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast, empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e “constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.
Enquanto autoridades e empresários adotaram o tom pragmático que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big techs, corrupção no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele fórum. Para comprovar que seu interesse não era defender os exportadores brasileiros, e sim apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu irmão Eduardo Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos conspirando dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente a adoção de tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.
Não foram necessários mais do que cinco minutos para que Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno da confiança do setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha objetivos muito bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles remotamente ligado à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País, muito menos dos empregos de milhões de brasileiros.
O objetivo mais evidente da viagem de Flávio Bolsonaro era provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários que ainda é a melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o próximo dia 25 a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido na eleição de outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua própria base de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das inúmeras trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o incumbente. A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte de seus correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu no vídeo publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.
Somem-se a isso sua relação de “irmão” com Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134 milhões, e o passado para lá de suspeito do senador, que envolve prática de “rachadinhas”, suspeita de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates, compra de imóveis em dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro. É nesse contexto de fragilidade política que o senador foi a Washington para tentar reconstruir, à força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma viabilidade eleitoral que os fatos vêm corroendo dia após dia.
Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil para seus propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos brasileiros continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que provavelmente serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm genuíno interesse em ajudar o Brasil.
E aqui cabe o registro de que, na embaraçosa foto de Flávio e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao lado deles um constrangido embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, com décadas de atuação na diplomacia comercial. Ele estava lá a trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.
Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global
EDITORIAL DE O GLOBO
O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.
Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.
O preço do barril do petróleo registrou ontem a maior alta diária desde março. A cada dia que Ormuz permanecer fechado, a conta a pagar só aumentará para todo o mundo. A desaceleração da economia global é dada como certa. Entre 2024 e 2025, o crescimento anual foi de 3,5%. Neste ano, não deverá passar de 3%, segundo a atualização do Panorama Econômico Mundial anunciada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “A possibilidade de um novo conflito no Oriente Médio é iminente e pode prolongar a volatilidade dos preços das commodities, ameaçar ainda mais as cadeias de suprimentos, elevar os preços e pressionar as condições financeiras. A fragmentação do comércio global pode se acelerar, prejudicando potencialmente a produção e aumentando os preços”, afirma o relatório. No caso do Brasil, a previsão foi ajustada levemente para cima (ficou em 2,4%, perto da média latino-americana).
Desde que as primeiras bombas caíram sobre Teerã em fevereiro, os preços da gasolina nos postos de combustíveis subiram 30% nos países emergentes da Ásia e 15% na América Latina. Com um mercado menos integrado globalmente, o gás natural liquefeito subiu cerca de 50% na Ásia e 25% na Europa. Alavancada pelos preços de combustíveis, a inflação global disparou. A taxa anualizada subiu quase 4 pontos percentuais entre fevereiro e abril. Os efeitos negativos na expansão econômica só não são maiores porque muitos países são hoje menos dependentes da importação de petróleo, e alguns se beneficiam da expansão da inteligência artificial (IA).
O maior incentivo para Trump encontrar uma saída para o conflito é doméstico. Durante a campanha, o então candidato republicano prometeu acabar com as “guerras sem fim”. Quando a guerra começou, sua desaprovação já era superior a 55%. De lá pra cá, a avaliação positiva caiu ainda mais. Nos primeiros 535 dias do atual mandato, Trump conseguiu obter um índice de reprovação superior ao do antecessor Joe Biden no mesmo período. Com as eleições de meio de mandato em novembro cada vez mais próximas, o preço dos combustíveis é um dos melhores cabos eleitorais da oposição democrata.
Ataques no Golfo voltam a atingir navios — Foto: Foto: Reprodução/Redes sociais
Operação integrada aponta caminho promissor no combate a facções
Por Editorial / O GLOBO
Foi auspiciosa a união de forças de segurança na operação deflagrada ontem em 16 das 27 unidades da Federação para combater o crime organizado. O objetivo foi prender 93 investigados por tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e ligação com facções criminosas. As ações foram conduzidas pelas Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco), vinculadas à Polícia Federal (PF) e envolvendo também forças estaduais e municipais. É evidente que o trabalho conjunto, sob coordenação federal, é a melhor forma de enfrentar as quadrilhas.
Embora a segurança pública seja primordialmente tarefa dos estados, sozinhos eles não têm conseguido combater organizações criminosas que atuam em todo o país e no exterior. A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a fluminense Comando Vermelho (CV) estão presentes em diferentes estados, onde disputam o controle da venda de drogas com grupos locais. Passou a ser comum o intercâmbio de bandidos de uma mesma facção entre unidades da Federação, dificultando ainda mais o trabalho da polícia.
Não se trata apenas de problema interno. Em junho, o governo dos Estados Unidos classificou PCC e CV como organizações terroristas, abrindo caminho a sanções a instituições brasileiras e seus integrantes. Neste mês, autoridades americanas aplicaram punições a dois brasileiros e a três empresas do país, sob acusação de vínculo com o PCC e de lavagem de dinheiro em território americano. Em seguida, a PF deflagrou uma operação contra os acusados. O problema não pode, portanto, ser tratado de forma estanque.
Não há dúvida de que o crime organizado assumiu proporções alarmantes. Ele não está apenas nas guerras entre quadrilhas pelo controle dos pontos de droga. Está também no que geralmente não se vê: sucessivas operações têm revelado um quadro assustador de infiltração do crime na política e no mercado formal.
A Carbono Oculto mostrou que ele contaminava toda a cadeia de combustíveis e alcançava fintechs e instituições financeiras em áreas nobres de São Paulo. Nesta semana, uma nova fase da Operação Unha e Carne expôs no Rio as ramificações de uma quadrilha suspeita de lavar dinheiro com combustíveis. A operação foi deflagrada a partir de relatório apontando movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por uma rede de postos. Entre os alvos, estavam Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio.
Não há como enfrentar situação tão grave e complexa sem a união dos governos federal, estaduais e municipais. Ainda que não tenha produzido resultados estrondosos, a operação de ontem aponta um caminho promissor por meio das Ficco. O governo federal sempre relutou em cumprir seu papel na segurança, e os estados temem perder protagonismo. Não há espaço para disputas estéreis. Ou todos se unem para combater a chaga do crime organizado, ou perderão todos.
A sede da Polícia Federal (PF) em Brasília — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

