Documentos da Receita indicam pagamento de R$ 40 mi do Master a escritório de mulher de Moraes
Documentos da Receita Federal enviados à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Senado que investiga o crime organizado indicam que o Banco Master, de Daniel Vorcaro, pagou R$ 40,11 milhões ao escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em 2024.
Procurado, o Barci de Moraes disse que "não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos". O escritório não quis informar qual seria o valor correto dos pagamentos. Moraes foi procurado, mas não se manifestou até a publicação deste texto.
Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), é uma das sócias do escritório, e admitiu que manteve contrato com o Master.
Os pagamentos aparecem em uma declaração de Imposto de Renda do Master, que teve seu sigilo fiscal quebrado pela CPI do Crime Organizado.
O contrato do Master com o escritório Barci de Moraes foi assinado em 2024. Previa o pagamento mensal de R$ 3,5 milhões, num total de R$ 129 milhões em três anos, segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo.
Os dados da Receita obtidos pela Folha mostram que o banco declarou 11 pagamentos mensais de R$ 3.646.529,72 ao escritório em 2024, totalizando R$ 40.111.826,92. Sobre esses pagamentos, o Master informou ter recolhido R$ 2.466.877,38 em impostos retidos na fonte.
Nesta terça-feira (7), durante a sessão plenária do Senado, o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), anunciou que os dados haviam sido entregues à comissão. Ele afirmou que a Receita Federal teria enviado dados incompletos sobre o banco e que a complementação das informações chegou apenas na segunda (6).
"Mesmo com a quebra de sigilo aprovada pela Comissão Parlamentar de Inquérito e não suspensa pela Justiça, a Receita Federal do Brasil mandou os dados incompletos. Foi preciso solicitar a reiteração, a complementação, para que chegasse o dado bancário que comprova o recebimento e a dedução de impostos pelo escritório da doutora Viviane Barci. Só em um ano, R$ 40 milhões recebidos. Contraprestação de serviço? A própria doutora Viviane já publicizou: nada que justifique esse valor", disse o senador.
O contrato do Master com o escritório previa 36 pagamentos, mas foi interrompido em novembro de 2025, quando a instituição de Daniel Vorcaro foi liquidada pelo BC (Banco Central) e o ex-banqueiro foi preso.
A defesa de Vorcaro também foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.
No mês passado, o Barci de Moraes confirmou que prestou serviços de consultoria e atuação jurídica ao banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, período em que realizou 94 reuniões de trabalho. De acordo com o escritório, 79 delas foram presenciais, na sede do Master.
O Barci de Moraes diz ainda que produziu 36 pareceres e opiniões legais sobre compliance, regulação, questões trabalhistas e previdenciárias, entre outros temas.
Afirmou também que a contratação pelo banco envolveu o trabalho de 15 advogados e ainda serviços de outros três escritórios especializados em consultoria.
Disse que a equipe jurídica ajudou a implementar o novo código de ética e conduta do banco e que nunca conduziu nenhuma causa no âmbito do STF.
Também nesta terça-feira, Vieira teve uma reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para pedir a prorrogação da CPI do Crime Organizado, mas a resposta foi negativa. Com isso, a comissão será encerrada na próxima terça-feira (14), com a votação do relatório final.
Segundo Vieira afirmou à imprensa, Alcolumbre preferiu não estender a CPI em meio ao período eleitoral, o que o senador classificou como um "desserviço para o Brasil".
Em dezembro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, determinou o arquivamento de um pedido de investigação sobre a possível atuação de Moraes no caso Master. O autor era o advogado Enio Martins Murad.
Na ocasião, Gonet disse não ter vislumbrado "qualquer ilicitude" que justificasse a intervenção da Procuradoria-Geral. Disse que não seria de sua competência "a ingerência em negócios jurídicos firmados entre particulares".
Alimentando privilégios
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Foi em 1998 que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, pela primeira vez, que o auxílio-alimentação é devido apenas aos servidores da ativa. De lá até 2014, tramitaram na Corte 21 ações sobre o tema, que, acertadamente, foram encerradas com o mesmo entendimento. A certeza da inconstitucionalidade levou o STF a baixar, em 2016, uma súmula vinculante, que diz, de forma cristalina: “O direito ao auxílio-alimentação não se estende aos servidores inativos”. Apesar desse comando, a Câmara Municipal de São Paulo decidiu descumpri-la: como mostrou recente reportagem do Estadão, os vereadores paulistanos acharam por bem criar para os seus servidores efetivos aposentados um auxílio-alimentação com outro nome.
Como o auxílio-alimentação é proibido para os servidores inativos, os parlamentares fizeram um malabarismo e, em 2023, instituíram um novo direito: o “benefício complementar nutricional”. E essa proposta foi incluída pela Mesa Diretora num projeto de lei que reorganizava os cargos e as vantagens dos servidores da Casa. Como o texto é de autoria do comando da Câmara, não é possível nem mesmo identificar a sua paternidade, o que indica um drible na transparência durante o processo legislativo. Filho sem pai, o benefício é uma mãe: paga atualmente R$ 1,4 mil por mês aos contemplados e, desde a sua criação, já custou R$ 14,3 milhões aos cofres públicos.
Obviamente, não basta alterar a nomenclatura nem diferenciar os valores pagos entre os ativos e os inativos para que o privilégio se torne legal. O tal “benefício complementar nutricional” é tão somente um auxílio-alimentação.
Não foi por capricho que o STF vedou esse tipo de pagamento: o auxílio-alimentação é uma indenização, e não parte da remuneração do servidor ativo ou inativo. Como tal, deve ser pago a título indenizatório para cobrir as despesas com a alimentação de quem trabalha, e não de quem não trabalha. A explicação é tão óbvia que deveria ser dispensável, mas a Câmara, em nota oficial, sustenta que a lei que instituiu o “benefício complementar nutricional” é “diversa da lei que criou o auxílio-alimentação” e que “seu valor mensal é diferente e inferior ao valor mensal pago a título de auxílio-alimentação”, razão pela qual “o benefício complementar nutricional não guarda qualquer relação com o auxílio-alimentação pago aos servidores em atividade”.
Enquanto ofende a inteligência alheia, a Câmara paulistana atropela a Súmula Vinculante 55, ao mesmo tempo que implode o princípio constitucional da moralidade, criando um penduricalho que, na prática, implica um aumento salarial aos servidores inativos.
Das duas, uma: ou a Câmara de São Paulo não sabe elaborar, discutir e aprovar seus projetos de lei – o que não parece razoável –, ou ignora deliberadamente a constitucionalidade e a legalidade em prol do corporativismo e do patrimonialismo de seus servidores, o que é grave. Seja como for, tenha o nome que tiver, esse novo privilégio é inaceitável.
O ‘lucro social’ da Conab
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Às vésperas de deixar o cargo para disputar a eleição, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), João Edegar Pretto, anunciou que a companhia teve um “lucro social” de R$ 18,4 bilhões em 2025. Não se sabe exatamente como ele chegou ao número, mas supostamente é resultado da relação entre o lucro da estatal e os recursos investidos em suas políticas públicas nas áreas de abastecimento, segurança alimentar e nutricional e inteligência agropecuária. Cada R$ 1 teria gerado R$ 8,78 para a sociedade brasileira. Parece piada, mas é por meio de termos como esse que o lulopetismo expressa sua peculiar visão sobre as empresas estatais.
Entre suas várias funções, a Conab é responsável pelo levantamento de dados sobre a safra agrícola, como produção, custos, preços e armazenagem. As informações são colhidas diretamente com produtores e cooperativas, e é com base nelas que o governo faz suas estimativas sobre o Plano Safra, maior mecanismo de financiamento do crédito agrícola. É indiscutível, portanto, que a Conab traz algum tipo de retorno à sociedade. A questão é quantificá-lo, isto é, saber se a Conab presta esse serviço da melhor maneira possível ou se haveria formas mais eficientes de realizá-lo. Para isso, é fundamental analisar os indicadores econômico-financeiros da companhia.
O resultado líquido da Conab referente ao ano passado ainda não foi divulgado, mas, até o terceiro trimestre de 2025, a empresa acumulava um prejuízo de R$ 23 milhões. Perto dos Correios, que registraram um rombo de R$ 6 bilhões entre janeiro e setembro do ano passado, parece um valor irrisório. Mas a Conab depende fundamentalmente de dinheiro do Orçamento-Geral da União para se sustentar. Para ter uma ideia, em 2024 a Conab registrou lucro de R$ 14,1 milhões, mas recebeu R$ 1,260 bilhão em repasses do Tesouro Nacional. Não fosse esse aporte, a empresa teria encerrado o ano com um prejuízo de R$ 1,242 bilhão.
Daí se entende o esforço de Pretto para justificar os resultados da Conab. Recursos públicos são, por natureza, escassos – e, diante das enormes necessidades da sociedade e de um déficit estrutural entre receitas e despesas, supõe-se que deveriam ser alocados da melhor maneira possível, de forma a maximizar o retorno à sociedade. Mas há formas de avaliar políticas públicas, e a Casa Civil tem uma série de publicações para guiar a avaliação dessas ações que vai muito além do mero uso dos recursos. Basicamente, é preciso confrontar os objetivos de uma política pública e seus resultados efetivos, e não simplesmente fazer uma conta de padeiro como a que Pretto propôs.
A Conab, por exemplo, tem entre suas principais ações o programa de formação de estoques públicos e a política de preços mínimos. Essa atividade, por óbvio, tem um custo: afinal, são 126 armazéns em todo o País e quase 3,2 mil empregados. Isso não necessariamente significa que a empresa deva ser privatizada ou fechada, mas, no mínimo, deveria ser um incentivo para reduzir custos.
Se há alguns anos fazia sentido estabelecer preços mínimos e manter estoques reguladores de produtos agrícolas, talvez hoje haja formas mais baratas e eficazes de garantir o abastecimento e a assistência a produtores familiares sem que parte dos recursos públicos acabe nas mãos de atravessadores e sem que a empresa seja utilizada para acomodar aliados políticos.
Fazer um debate como esse deveria ser obrigação no setor público, mas, no mundo em que vivem os petistas, trata-se de crime de lesa-pátria. Ora, foi a própria Constituição que definiu, em seu artigo 173, que a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida por imperativos de segurança nacional ou relevante interesse coletivo.
O lulopetismo, no entanto, interditou esse debate há décadas e confunde deliberadamente o chamado interesse coletivo com seus próprios interesses eleitorais. “Lucro social” é apenas o neologismo mais recente para escamotear prejuízo, o que permite a perpetuação do uso político das empresas públicas e sua transformação em escoadouro de dinheiro público à revelia dos interesses da sociedade.
É preciso investigar os ministros do STF
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
É dever do procurador-geral da República, Paulo Gonet, requisitar a imediata abertura de inquérito para apurar as ligações dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques com Daniel Vorcaro e os negócios do Banco Master. Ainda que inédita, essa providência não seria extravagante. Ao contrário: só demonstraria que Gonet respeita o princípio da igualdade de todos perante a lei, pilar da ordem jurídica.
Os fatos envolvendo aqueles ministros e seus familiares, trazidos à luz pelo diligente trabalho da imprensa profissional, malgrado não autorizem condenações prévias, tornam estranhíssimo o silêncio sepulcral do chefe do Ministério Público Federal. Para começar, Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, realizaram ao menos oito voos em jatinhos vinculados a Vorcaro. Em nota, a sra. Barci de Moraes justificou que o pagamento desses voos foi realizado por meio de “compensação de honorários advocatícios” – ou seja, o casal sabia muito bem a quem pertenciam as aeronaves nas quais embarcou.
Sabe-se que o escritório de advocacia da família Moraes foi contratado pelo Banco Master por R$ 129 milhões, cifra que supera em muito a cobrança usual pelos mesmos serviços que a mulher do ministro diz ter prestado a Vorcaro. Mas, admitindo-se que o desempenho da advogada seja tão exuberante quanto seus honorários, por que seu marido estava a bordo? Na condição de ministro do STF, Moraes jamais deveria estar nesse voo, especialmente porque se tratava de contrapartida por serviços advocatícios prestados por alguém tão próximo como sua mulher – e a um cliente àquela altura sabidamente envolvido em obscuras transações.
Ademais, no que concerne à família Moraes, há questões patrimoniais que também exigem esclarecimentos. Nos últimos anos, como revelado por este jornal, Moraes e sua mulher compraram imóveis que somam R$ 23,4 milhões, todos pagos à vista, elevando o patrimônio imobiliário do casal a mais do que o triplo do registrado à época da posse de Moraes no STF, em 2017. Os rendimentos conhecidos do ministro, limitados ao teto constitucional, não explicam essa notável evolução. Pode-se argumentar que a origem dos recursos seria o trabalho da sra. Barci de Moraes, mas sua atuação na advocacia era relativamente modesta até a chegada do marido à mais alta instância judicial do País.
No caso de Toffoli, também há registro de voos em jatinhos ligados a Vorcaro e a outro empresário. Um dos destinos foi o resort Tayayá, do qual Toffoli já admitiu ter sido sócio. Novamente, a pergunta se impõe: a troco de que um ministro do STF aceita viajar a lazer às expensas de empresários decerto interessados em decisões do STF? Desde quando isso é aceitável numa república digna do nome?
Nunes Marques, por sua vez, também embarcou em aeronave pertencente ao enrolado banqueiro para ir de Brasília a Maceió em viagem pessoal. O voo, segundo seu gabinete, foi custeado por uma advogada do Banco Master, mulher de um ex-colega do ministro no Tribunal Regional Federal da 1.ª Região que celebrou o aniversário na capital alagoana. Não nos esqueçamos de que o filho do ministro, o recém-formado advogado Kevin Marques, recebeu milhares de reais de uma empresa abastecida por recursos de Vorcaro.
A presença regular de ministros do STF em voos custeados direta ou indiretamente por Vorcaro pode ser apenas falta de vergonha. Mas pode ser mais do que isso. A sociedade tem o direito de saber, e Gonet, o dever de apurar.
Nada do que foi exposto, por si só, a priori configura crime. Mas os fatos, tomados em conjunto, exigem investigação. O que está em jogo são o interesse público e a força do Supremo como instituição. É precisamente por isso que Gonet não pode se omitir, sob pena de sua omissão ser interpretada como acobertamento – ainda mais quando contrastada com o ímpeto do procurador-geral para lançar o aparato persecutório do Estado contra cidadãos comuns, como o empresário condenado a 14 anos de cadeia porque doou R$ 500 para o fretamento de um ônibus de manifestantes do 8 de Janeiro, sem demonstração de seu vínculo causal com os atos golpistas.
Quem é o cérebro por trás da arquitetura de criação do Banco Master
Por Luiz Vassallo, Jenne Andrade e Arthur Guimarães / O ESTADÃO DE SP
Habitué de alguns dos hotéis mais luxuosos do mundo, dono de jatinhos e de mansões multimilionárias e anfitrião de festas com políticos no Lago Sul, em Brasília, o banqueiro Daniel Vorcaro teve à sua sombra um discreto operador do mercado financeiro, que o auxiliou desde a arquitetura inicial do Banco Master até seus primeiros negócios com a Fictor, empresa que propôs, em 2025, comprar o banco às vésperas da liquidação dele pelo Banco Central (BC). Alvo da Polícia Federal e dono de uma longa ficha na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a mente por trás da complexa teia de fundos de investimentos, captação de dinheiro de pensionistas e compra e venda de títulos podres a valores duvidosos é Benjamim Botelho de Almeida, dono da gestora Sefer Investimentos.
A Sefer, empresa de Botelho, afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, que as operações com fundos são regulares (leia mais abaixo). A defesa de Vorcaro, por sua vez, afirmou que não iria se manifestar.
Nas milhares de páginas de documentos da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias no Master, há centenas de menções ao nome de Botelho na condição de operador de Vorcaro e de seus familiares desde antes do início do banco, em 2019. A PF afirma que a “grande maioria das operações suspeitas” da família Vorcaro “envolve também as empresas de Benjamim Botelho”.Entre essas operações, segundo a PF, estão “compra e venda de fundos imobiliários, debêntures e outros títulos de origem duvidosa, constituição de empresas de fachada e conflitos de interesses entre empresas da mesma família”.
Botelho mora há cinco anos em Portugal e viaja com frequência ao Brasil. É dono de um cipoal de empresas de capital multimilionário, muitas delas com conexões com paraísos fiscais, como Delaware, nos Estados Unidos. Sedia algumas das empresas em Cascais, reduto de endinheirados na costa de Portugal.
Sempre levou uma vida discreta, sem redes sociais nem extravagâncias como as de Vorcaro. No dia a dia, ex-associados do empresário na Sefer contam que ele não tirava por nada seus óculos escuros e gostava de ficar isolado em sua sala envidraçada no escritório. Usava o termo “chinese wall” para descrever o tamanho do distanciamento que queria dos empregados.
Além de investigado pelas fraudes em fundos ligados ao Master, Botelho é protagonista em uma transação de mais de R$ 500 milhões entre uma empresa de Vorcaro nas Ilhas Cayman e a Fictor, nebulosa empresa do mercado financeiro que anunciou a compra do Master na véspera da liquidação do banco e no dia da operação que prendeu Vorcaro pela primeira vez, em 2025.
Pouco mais de um mês após o anúncio de que compraria o banco, foi a própria Fictor que pediu recuperação judicial, com R$ 4 bilhões em dívidas. Em razão de negócios com Vorcaro, a empresa listou a empresa de Botelho como sua segunda maior credora à Justiça de São Paulo.
Documentos mostram que o verdadeiro credor da Fictor, por trás de um fundo administrado pela Sefer, é uma holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman. Com isso, na condição de segundo maior credor da Fictor, ele terá peso no destino da recuperação judicial da empresa (leia mais detalhes abaixo).
Se Vorcaro era um novato no mercado financeiro em 2019, quando assumiu o Master, Botelho já tinha anos de experiência como estruturador de fundos de investimentos. Trabalhou para o lendário Banco Garantia, nos anos 1990. Botelho fundou a gestora e administradora de fundos de investimentos Sefer, sediada na Avenida Faria Lima, em São Paulo, em 2003.
A Sefer teve antes outros dois nomes: Foco DTVM e Índigo DTVM. A empresa foi rebatizada ao longo dos anos ao passo em que seu fundador era enredado, mais e mais, em processos sancionadores da CVM e em investigações da Polícia Federal. Entre 2019 e 2021, Botelho foi alvo de pelo menos cinco processos sancionadores — abertos quando técnicos da autarquia acreditam ter evidências suficientes para levar um executivo a julgamento. Entre os casos, estão investimentos de fundos de pensão que teriam beneficiado empresas de Daniel Vorcaro.
Hoje, a Sefer administra 102 fundos, com patrimônio de mais de R$ 20 bilhões. Desses, pelo menos R$ 9,6 bilhões (48% do total), possuem alguma relação financeira com o ecossistema formado pelo Master, seja pelo investimento direto em empresas ligadas ao banco, seja por manter nas carteiras ativos que já foram alvos da instituição, como precatórios de usinas.
Um desses fundos da Sefer, o Nazaré, integra esse grupo e já registrou, por exemplo, investimentos de R$ 14 milhões na Super Empreendimentos, empresa apontada pela Polícia Federal como dona de bens de luxo de Vorcaro, como sua mansão em Brasília, de R$ 36 milhões.
Operação Fundo Fake
Botelho atua para o Master desde a época em que o banco ainda não pertencia a Vorcaro e se chamava Máxima. Ele foi alvo da Operação Fundo Fake, que investigou desfalques do Máxima em fundos de pensão. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, porém, acolheu pedidos de investigados na Operação e anulou as investigações. Em 2019, quando Vorcaro assumiu o Máxima e mudou seu nome para Master, já conhecia Botelho. A relação se aprofundou ainda mais depois disso.
Tudo aquilo que a Fundo Fake investigou voltou a ser objeto de escrutínio da PF na Operação Compliance Zero, que levou Vorcaro à prisão duas vezes, em novembro de 2025 e em março de 2026, pelas fraudes no Master. Nas investigações mais recentes, Botelho voltou a ser tido por investigadores como um operador de fraudes contábeis de Vorcaro desde a gênese do Master.
Segundo narra a PF, Botelho gere fundos de investimentos que compram imóveis e outros ativos duvidosos e jogam seus preços para as alturas. Invariavelmente, esses imóveis, empresas e outros bens são revendidos a empresas de Vorcaro e familiares. O resultado da tabelinha entre Vorcaro e Botelho é que ambos ganham, mas outros investidores — o que inclui fundos de pensão — saem prejudicados.
Em parte, essas operações inflaram também ativos que foram parar no patrimônio do Máxima e, posteriormente, do Master. Em uma dessas operações, descrita pela Polícia Federal, um fundo administrado pela Sefer comprou um terreno em Aracaju onde se propagandeava que seria construído um condomínio residencial. Nada foi construído, nem a empresa dona das terras, que recebeu investimentos do fundo, podia ser qualificada com segurança como proprietária do terreno. Isso porque a Justiça chegou a dar razão a um casal, que nada tinha a ver com a empresa, mas reivindicou ser dono daquela área desde os anos 1990.
A PF apontou que transações envolvendo esse terreno e empresas da família Vorcaro deram prejuízos milionários ao fundo da Sefer, que teve como investidores fundos de pensão. Este mesmo fundo foi usado, mais tarde, para capitalizar o Master quando os Vorcaro adquiriram o banco.
A ‘holding ostentação’ e a Fictor
As digitais de Benjamim Botelho estão, também, na Titan, a famosa “holding ostentação” que Vorcaro usa para abrigar seus investimentos pessoais. A holding fica localizada em dois andares de um dos ícones da Faria Lima, o “prédio da baleia”.
É um escritório de 4 mil metros quadrados, divididos em duas lajes e com apenas cerca de dez funcionários — sendo que empresas no mesmo prédio costumam colocar de 150 a 200 pessoas por andar. Um elevador privativo liga a Titan ao heliponto. Formalmente, a Titan é sediada em um prédio comercial em Georgetown, nas Ilhas Cayman. Ela também já se chamou Master Holding — Sefer Investimentos. Todos os seus contatos no Brasil são da gestora de fundos de Botelho.
A Titan e a Sefer foram os veículos de um primeiro negócio, no valor de R$ 500 milhões, entre Vorcaro e a Fictor, empresa que era mais conhecida por patrocinar o Palmeiras e anunciou, em 17 de novembro de 2025, um dia antes da liquidação do Master, que compraria o banco.
No mês anterior à tentativa de compra do Master, a Fictor acertou a compra de R$ 566 milhões em precatórios que pertenciam à Titan Holding. Os precatórios eram valores a serem recebidos por usinas de açúcar que quebraram nos anos 1980 em razão do congelamento de preços pelo governo federal e que obtiveram a condenação da União a indenizá-las em razão da política econômica.
Na prática, a Titan havia comprado dos autores da ação judicial e dos advogados que aguardavam o pagamento pelo governo o direito de receber essa indenização. E vendeu à Fictor esses recebíveis. O negócio envolveu um fundo de investimentos da Sefer, e o pagamento pela Fictor, por contrato, seria feito em uma conta da empresa de Botelho. O negócio foi revelado pelo Estadão. E detalhes do contrato foram revelados pelo ICL Notícias.
Depois da tentativa fracassada de comprar o Master, a Fictor pediu recuperação judicial, em janeiro deste ano. A empresa listou como uma de suas principais credoras a Sefer Investimentos.A dívida de R$ 430 milhões, segundo apurou o Estadão, na verdade, corresponde a valores que não haviam sido pagos ainda pela aquisição dos precatórios da Titan Holding. Como a Sefer administra o fundo de investimentos que foi usado na transação entre a Titan e a Fictor, ela foi listada de maneira equivocada como credora da empresa. Na verdade, esta é uma dívida da Fictor com a Titan.
Na condição de uma das maiores credoras da empresa, a holding de Vorcaro terá um importante peso na assembleia que vai aprovar, ou não, o plano de recuperação judicial proposto pela Fictor.
A lista de credores enviada pela Fictor à Justiça, na prática, escondeu o tamanho da influência que o próprio banqueiro investigado, e também o próprio negócio de mais de meio bilhão de reais às vésperas de a empresa tentar comprar o banco.
Em Portugal, onde reside ao lado de sua mulher, Botelho é dono de um cipoal de empresas. Uma delas, a Zeal Capital, fica em uma sala de um centro comercial em Cascais. Está em nome de sua mulher, que declara residir em uma rua bucólica na sofisticada cidade de Oeiras, espécie de Vale do Silício português, região com concentração de empresas de tecnologia, boa qualidade de vida e localizada a menos de 20 quilômetros da capital, Lisboa. O capital da empresa é equivalente a R$ 3,8 milhões.
No mesmo escritório, ainda sedia outra empresa, a Drako, cuja controladora é uma empresa de Zug, na Suíça, onde vivem pouco mais de 20 mil habitantes e estão instaladas companhias que buscam impostos baixos e altíssima discrição.
A empresa suíça, por sua vez, tem a Hoag Investments, que tem a mulher de Botelho como conselheira, segundo documentos obtidos pelo Estadão. Seu capital é de R$ 63 milhões, decorrente da aquisição de duas empresas em Delaware, Estado conhecido como um paraíso fiscal norte-americano.
Defesas
A Sefer Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda. (Sefer DTVM) afirmou que “são inverídicas as informações que atribuem a determinadas pessoas físicas a condição de cotistas dos fundos de investimento por ela administrados”. “A composição do quadro de cotistas de fundos de investimento é informação protegida por sigilo bancário e fiduciário, nos termos da legislação aplicável, razão pela qual não pode ser divulgada a terceiros, inclusive à imprensa. Todavia reafirmamos que as pessoas mencionadas na reportagem não constam como cotistas desses fundos ou ainda beneficiários finais”, afirmou.
A Sefer ainda diz que, “no que se refere à constituição de fundos de investimento e às operações de aquisição, cessão ou alienação de ativos realizadas no âmbito desses veículos, a Sefer DTVM destaca que todas as operações observam rigorosamente a legislação do mercado de capitais, os regulamentos dos respectivos fundos, bem como as normas emanadas dos órgãos reguladores e autorreguladores, sendo lícitas, regulares e pautadas por critérios técnicos e de mercado”.
“Por fim, a Sefer DTVM reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência regulatória e o cumprimento integral de seus deveres fiduciários, permanecendo à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários, nos canais apropriados”, afirma.
Candidaturas ligadas à segurança revelam como eleitor valoriza o tema
Por Editorial / O GLOBO
Ao menos 15 ex-secretários de Segurança ou chefes de polícia Militar ou Civil anunciaram intenção de se candidatar em outubro para uma vaga nas Assembleias Legislativas ou no Congresso, como revelou reportagem do GLOBO. A ausência de candidatos de esquerda ou centro-esquerda é sinal de como a pauta da segurança — preocupação essencial dos eleitores — tem sido dominada pelo campo conservador. Todos os 15 nomes são ligados a legendas de centro ou de direita. A dificuldade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em formular um discurso minimamente convincente sobre o tema ficou evidente na reunião ministerial da semana passada no Palácio do Planalto. Na lista dos destaques divulgada pelo Planalto, nenhuma menção à área da segurança.
Motivo para falar no assunto não falta. O medo do crime é a maior inquietação da população. O último Datafolha mostrou segurança empatada com saúde como maior problema do país. Pesquisa Quaest apontou que 27% dos brasileiros afirmam que a violência é sua maior preocupação, 7 pontos acima da corrupção. O Ipsos revelou que, para 48%, crime e violência são os temas que mais preocupam.
À primeira vista, os indicadores de violência não parecem amparar a percepção. As mortes violentas caíram 5,4% em 2024 (último dado disponível), para 20,8 por 100 mil habitantes. Na comparação com 2012, a queda foi de 25%. Roubo a residências e furto de veículos também caíram. A chave para entender a preocupação da população está no aumento dos estelionatos digitais (17%) e dos roubos e furtos de celulares (acima de 850 mil por ano). Criminosos costumam provocar perdas grandes às vítimas com desvio das economias ou empréstimos fraudulentos. Quem está on-line ou tem celular se sente vulnerável.
Houve avanços da pauta da segurança no Legislativo, com a aprovação do Projeto de Lei Antifacção. Mas a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança anda devagar no Congresso. Além de promover maior integração entre os entes federativos, o texto aumenta a participação do governo federal no combate à criminalidade ao dar segurança jurídica ao combate às organizações criminosas. “O governo atrasou em 2025 o envio da PEC ao Congresso e deixou o debate ser contaminado pela corrida eleitoral. Agora ninguém sabe quando será destravada”, diz Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Boa parte dos candidatos com passagens em secretarias de Segurança e nas polícias Militar ou Civil costuma aderir ao discurso de mão pesada contra os criminosos. Isso pode render votos, mas não resolve o problema. O essencial são políticas com base em evidências científicas, gestão eficaz dos recursos públicos e mais inteligência para perseguir as fontes de financiamento e desarticular as organizações criminosas. Não são temas que costumam atrair a atenção. Mas tratar deles com afinco será fundamental para aliviar as angústias e aflições da população.

