Fernando Haddad ainda não entendeu o regime de metas
Por Alexandre Schwartsman / O ESTADÃO DE SP
Fernando Haddad afirmou que, se fosse diretor do BC, votaria pela redução da taxa de juros, “apesar da pressão dos bancos”. Declaração curiosa por ao menos dois motivos: primeiro porque sete dos nove membros da diretoria do BC, portanto do Copom, inclusive seu presidente, foram indicações de Haddad; segundo porque revela ignorância imperdoável depois de 26 anos do regime de metas para a inflação.
Simplificadamente, o Copom decide a taxa de juros com base no desvio da inflação com relação à meta. Se a inflação está acima da meta, a Selic deve superar o que se estima ser o juro dito “neutro”; se abaixo da meta, o contrário.
Obviamente, inflação não se refere à observada nos últimos 12 meses. Ainda não inventaram uma maneira de alterar a inflação passada (alguns bem que tentaram, mas não deu muito certo).
Como a taxa de juros afeta os preços com certa defasagem (15 a 18 meses), quando o Copom fala de inflação, refere-se à sua própria projeção para o “horizonte relevante”, que, diga-se, não é a mesma feita pelo mercado financeiro.
No caso, o BC prevê inflação de 3,3% nos 12 meses até junho de 2027, com base numa trajetória em que a Selic começaria a cair já na primeira reunião de 2026 e atingiria 10,50% ao final de 2027. A menos que o STF tenha alterado também a matemática, a inflação ficaria acima da meta caso a Selic fosse reduzida agora.
Isto dito, o Copom não é escravo dos seus modelos. Há, como sempre houve, espaço para julgamento por parte de seus membros, em particular o chamado “balanço de riscos”, isto é, como se avaliam as chances de a inflação ficar acima ou abaixo da projetada em seu cenário de referência. A decisão sobre a Selic, portanto, depende tanto do que o Copom espera ser a inflação futura, como dos riscos associados a esta previsão.
Aí me pergunto se Haddad sabe de algo sobre a evolução futura da inflação que o BC não saiba para ter tanta certeza de que a Selic já poderia cair. Pergunta retórica, bem entendido.
É feio, embora não inédito, o desconhecimento do regime monetário em vigor há tantos anos no Brasil. Mais feio ainda, todavia, é o esquerdismo juvenil de associar o juro alto no Brasil à “pressão dos bancos”.
Não é, porém, surpreendente dada a insistência de Haddad em se distanciar de qualquer responsabilidade pelas consequências de suas políticas. A origem do elevado juro real no Brasil é o crescimento dos gastos e da dívida, quesitos que só pioraram em sua gestão. Quando entender isso e agir de acordo, o juro poderá cair.
Opinião por Alexandre Schwartsman
Economista e consultor da Pinnotti & Schwartsman Associados
Lula ganhou nos erros dos adversários, mas adotou tática arriscada agora
Por William Waack / O ESTADÃO DE SP
Lula decidiu desafiar uma convenção do marketing político, segundo a qual se a onda é forte o melhor é passar por baixo dela. E passou a criminalizar a atuação da polícia na megaoperação no Rio, que desfruta hoje de um apoio na população tão inédito quanto o número de mortos registrados no confronto com uma organização criminosa preparada para combater.
Considerando que segurança pública é a preocupação número 1 do eleitor, o tipo de assunto no qual governos petistas apanham fácil, peitar a onda em favor da megaoperação é postura de alto risco. O que levaria um político experiente a optar por um cálculo que só promete desvantagens?
Relatos de quem esteve conversando com Lula nas últimas semanas– antes da megaoperação mas depois dos sucessivos erros políticos da oposição (dos quais o apelo a Trump foi monumental) – dão conta de que ele está convencido de vencer no primeiro turno. Lula já insinuou isso publicamente.
Os profissionais em pesquisas são mais cautelosos. Observam como são voláteis as alterações em termos de aprovação/desaprovação do governo em função da velocidade com que se sucedem os acontecimentos políticos dentro e fora do Brasil. A “arte” desse tipo de interpretação de dados estatísticos consiste em separar a “volatilidade” da “constância” nos números.
Trata-se dos tais “fatores estruturais” que teimam em permanecer negativos do ponto de vista do governo. Grosso modo eles se dividem em dois grandes grupos. O primeiro é a disseminada noção de que o “sistema” quebrou e que governos (qualquer um) nada resolvem. Muito menos o que está de plantão.
O segundo é específico de Lula e o PT. O velho em Lula não é a sua idade, mas a incapacidade atual de “vender” sonhos e perspectivas. Há transformações importantes também nas periferias que o petismo e seu único nome viável hoje não conseguiram acompanhar – resultado em boa parte do mesmo tipo de “sociologia” que os levam a considerar criminosos como “reflexos” de uma sociedade capitalista cruel.
Vem daí a combinação de duas conhecidas táticas, a dos “ricos contra pobres” e o assistencialismo turbinado. Ocorre que a primeira já não “cola” como em eleições anteriores, pois a pregação da prosperidade avançou bastante em faixas do eleitorado que Lula há anos não consegue atingir.
E na segunda não há diferenças sensíveis em relação ao Centrão de “centro direita” que vive da eterna expansão fiscal. Assistencialismo virou política de Estado. Lula é altamente competitivo sobretudo – neste momento – em função dos erros e omissões de seus adversários. Mas parece que resolveu devolver o favor.
Lula tenta se blindar de responsabilização política ao chamar ação no Rio de 'matança'
Por Ivan Martínez-Vargas — Brasília / O GLOBO
Lula fala com jornalistas estrangeiros em Belém — Foto: Pablo Porciúncula/AFP
Ao declarar que a operação Contenção, realizada pelas polícias do Rio e que deixou 121 mortos, foi uma "matança", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis deixar um registro de manifestação sobre o assunto para o futuro, ocasião em que eventuais investigações podem chegar à conclusão de abusos. A ideia do petista, segundo aliados, é não ser responsabilizado politicamente pela omissão. Além disso, apoiadores acham importante demarcar que o governo federal não vê como aceitáveis possíveis violações de direitos humanos, mesmo que os atos de repressão sejam populares.
Aliados próximos do presidente afirmam, reservadamente, que a estratégia de esperar para dar uma declaração pública também foi proposital. O Palácio do Planalto não quis dar corda a uma disputa midiática com a gestão de Cláudio Castro, mas o presidente avaliou ser necessário dar sua visão após os primeiros dias da operação, considerada a mais letal da história do país.
— O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa — afirmou Lula em entrevista a agências internacionais em Belém, cidade que vai sediar a COP30 nas próximas semanas.
O presidente também disse que “houve uma matança” e que “é importante investigar em que condições ocorreu”. A escolha de falar a agências internacionais não foi trivial. Lula quis falar também para o público externo — na imprensa internacional a operação foi retratada majoritariamente de maneira negativa.
Embora a operação traga ganhos de popularidade ao Castro no curto prazo, assessores próximos de Lula fazem um paralelo dessa operação com a que matou 111 detentos no Carandiru. No longo prazo e na História, o governo Fleury ficou marcado pelas execuções.
Um aliado que esteve com o presidente ao longo da terça-feira em Belém diz que a fala de Lula é lastreada na comparação com outras operações de combate ao crime organizado.
O exemplo usado mais por assessores de Lula é o da Operação Freedom, deflagrada pela Polícia civil da Bahia, estado governado pelo PT, na própria terça-feira. A polícia baiana deflagrou a operação com o intuito de desarticular o núcleo armado e financeiro do Comando Vermelho, a mesma facção criminosa que havia sido alvo da ação policial no Rio.
A operação na Bahia prendeu 38 pessoas e resultou na morte de um único suspeito, que usava roupas camufladas e portava um revólver. Foram cumpridos 46 mandados de busca e apreensão, de forma simultânea, na Bahia e no Ceará e houve o bloqueio de 51 contas bancárias supostamente usadas pela organização criminosa.
Na Contenção, 99 pessoas foram detidas, sendo 82 em flagrante e 17 com mandados de prisão. Além disso, foram apreendidos 96 fuzis, 25 pistolas e um revólver.
No Planalto, a avaliação é de que ambas as operações policiais foram realizadas contra a mesma facção e para cumprir mandados judiciais, mas tiveram índices de letalidade muito diferentes. O argumento é que o número de mortos na Operação Contenção precisa ser investigado e que a operação policial na Bahia mostra que é possível combater o crime organizado com respeito ao Estado Democrático de Direito.
Além disso, assessores do presidente lembram que, apesar de Lula não ter se manifestado publicamente sobre o tema nos primeiros dias, ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos) já haviam feito críticas à operação.
Um movimento de endosso à operação do Rio ou um silêncio mais prolongado sobre o tema, diz um assessor próximo de Lula, poderia ser lido como oportunismo político, ao passo que a defesa de investigações e de ações policiais com o foco em ações de inteligência são bons contrapontos à ação. Lula disse em Belém que o governo federal já está "tentando (fazer) essa investigação".
— Estamos tentando, inclusive, ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte. A decisão do juiz era uma ordem de prisão. Não tinha ordem de matança e houve uma matança. É importante a gente verificar em que condições ela se deu — ressaltou o presidente.
Apesar disso, o governo de Cláudio Castro dispensou na quarta-feria o auxílio de peritos da Polícia Federal para analisar os corpos dos 117 mortos durante a operação Contenção.
Juridicamente, uma investigação federal sobre as mortes só poderia ocorrer caso haja determinação da Justiça, o que pode ocorrer a pedido do Ministério Público ou da Defensoria do Rio.
Haddad, como Lula, dificulta a redução dos juros
EDITORIAL DA FOLHA DE SP
Fernando Haddad foi a voz solitária da racionalidade econômica no governo e no PT até a primeira metade do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo deste ano, contudo, vai deixando de lado os reparos à gestão das contas públicas e compartilhando críticas oportunistas ao Banco Central.
Na terça-feira (4), disse que, se fosse presidente do BC, votaria pela redução dos juros. Nesta quarta (5), para surpresa de ninguém, a instituição manteve sua taxa, a Selic, em 15% anuais.
No atual patamar, os juros são insustentáveis, diz o ministro da Fazenda —é fato. No entanto ele não aborda as condições para que eles possam começar a cair, como afirma desejar, para já.
Na hipótese menos ruim, Haddad apenas prepara discurso para a campanha eleitoral de 2026, ameaçando a credibilidade do BC e dificultando o corte da taxa. Se não é o caso, mostra compreensão precária dos problemas macroeconômicos do país.
A economia ainda está inflacionada. A variação do IPCA deve terminar o ano perto de 4,5%, longe da meta de 3%. A expectativa para o fim de 2027, mesmo com a Selic nas alturas, é de 3,8%. Continua difícil conter a alta dos preços de serviços, pressionados pelo mercado de trabalho aquecido.
O déficit com o exterior sobe, em boa parte devido à queda do saldo comercial, pois as importações crescem, dada a escassez de oferta, sintoma de atividade econômica acima do potencial.
O IPCA melhor do que o esperado deste ano deve-se a safra, clima melhor, preços mundiais bem comportados e queda do dólar por efeito de medidas de Donald Trump. No mais, a carestia e a desvalorização do real são contidas pelo arrocho monetário.
As taxas de juros seriam menores caso houvesse contribuição da política de gastos, que pressiona a demanda. No ano passado, o afrouxamento da meta fiscal e o pacote frustrante de ajuste deram impulso a um movimento de alta de dólar, inflação e juros.
Haddad tergiversa sobre os erros, preferindo atribuir responsabilidades a administrações passadas ou ao Congresso Nacional. De fato, o governo herdou gastos contratados e isenções fiscais —muitas delas, diga-se, de outras administrações petistas. Porém o que fez foi agravar o quadro.
Sob Lula, o Tesouro terá déficit primário (sem contar juros) em todos os anos —neste 2025, o rombo esperado ronda os R$ 70 bilhões, dos quais a maior parte não será considerada para o cumprimento da meta oficial.
A despesa federal já aumentou 14%, em termos reais, cerca de R$ 290 bilhões ao ano, e no momento avança no Congresso um reajuste salarial para os servidores do Judiciário mais caro do mundo. A dívida pública subiu de 71,7% para 78,1% do PIB.
O governo criou as condições que levaram os juros ao insustentável. Baixar a Selic agora ou sem mais causaria danos no dique que contém deterioração macroeconômica ainda maior, se não for o gatilho de tumulto imediato.
Governo testa projeto contra facções em estado comandado pelo PT e tenta driblar resistência de governadores
Por Jeniffer Gularte — Brasília / O GLOBO
O Ministério da Justiça começou a testar um projeto-piloto contra facções criminosas no Nordeste. O governo escolheu uma área do Rio Grande do Norte, estado comandado pela petista Fátima Bezerra, para implantar um projeto em parceria com a USP que prevê a retomada do território por força policial, prendendo lideranças e colocando serviços de acesso à Justiça e assistência social. A primeira operação ocorreu em uma comunidade do Rio Grande do Norte em outubro.
A área foi retomada com forças policiais em uma ação com participação da Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Ministério Público do RN.
A pasta comandada pelo ministro Ricardo Lewandowski planeja divulgar a partir de dezembro os primeiros resultados do território seguro. Se o modelo se demonstrar eficiente, a ideia é multiplicar esse formato em outras áreas conflagradas pelo tráfico.
— É um projeto científico, construído com diálogo com universidade e sociedade civil, que tem como fundamento a inteligência e a retomada por força policial, serviços entrando no território. A polícia entra, satura e depois entram os serviços públicos, e a polícia vai saindo aos poucos — explica o secretário Nacional de Segurança, Mário Sarrubbo.
O Ministério da Justiça trabalha neste projeto desde março, iniciativa que prevê uma ação urbana em múltiplas frentes. A iniciativa prevê, por exemplo, a entrada de serviços público de Defensoria, mediação de conflitos, iluminação, urbanismo e serviços de saúde e educação.
Nota vermelha
É inegável que o Brasil ampliou o acesso à educação nas últimas décadas. Mas tal avanço não se deu pari passu com a aprendizagem, como mostram avaliações domésticas e internacionais. E mais uma pesquisa, divulgada na última quinta (30), evidencia o problema.
O Índice de Inclusão Educacional (IIE), desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura, é um indicador que cruza dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) para mensurar a distorção entre série e idade dos alunos em conjunto com o nível de aprendizagem.
O resultado é vexatório. Em 2023, só 15,5% dos jovens se formaram no ensino médio na idade correta (17 anos) ou com apenas 1 ano de atraso e demonstraram conhecimento mínimo desejável em português e matemática. Para piorar, a pandemia interrompeu uma trajetória de alta, e o país não conseguiu se recuperar.
O IIE, que é medido a cada dois anos, era de 9,5% em 2015, subiu a 13,5% em 2017 e atingiu 18,9% em 2019. Em 2021, caiu a 17%.
Há discrepâncias regionais. Dentre os 26 estados mais o Distrito Federal, 4 dos 5 piores colocados são do Norte: Amapá (5,6%), Amazonas e Roraima (6,6%, ao lado do Maranhão) e Pará (6,9%). Já do topo da lista, consta só um estado do Nordeste, o Ceará (18,1%), atrás de São Paulo (18,6%), Goiás (19%), Espírito Santo (19,5%) e Paraná (20,4%).
Baixos índices de aprendizagem estimulam a distorção série-idade com repetência que, por sua vez, leva à evasão escolar, o maior flagelo do ensino médio.
Ademais, esse enorme montante de jovens com educação precária enfrentará dificuldades para continuar sua formação acadêmica ou encontrar trabalho e alcançar boa remuneração. Trata-se, portanto, de um ciclo de mediocridade que limita talentos individuais e o desenvolvimento econômico do país.
Tal gargalo precisa ser atacado já no ensino fundamental, com aulas de reforço para alunos em defasagem. O modelo de ensino integral, que melhora indicadores, deve ser expandido nas duas etapa da educação básica.
A reforma do ensino médio, que ampliou a carga horária de disciplinas obrigatórias como português e matemática, além de adaptar o currículo aos interesses dos alunos inclusive com o ensino técnico, também tem potencial para minimizar a evasão e incrementar a aprendizagem.
Espera-se, assim, que a expansão de matrículas possa enfim redundar num ensino de qualidade.
Declaração de Lula sobre operação irá prejudicá-lo eleitoralmente
Por Fabiano Lana / O ESTADÃO DE SP
De um lado, o presidente Lula finalmente se pronuncia verbalmente sobre a megaoperação que fulminou cerca de 120 homens no Rio de Janeiro. Considerou uma “matança” e “desastrada”.
De outro, temos a mesma ação majoritariamente aprovada pelos brasileiros. E com índices que se aproximam de 90% nos locais mais afetados pelo tráfico, as favelas da capital fluminense. E, por fim, uma imagem que vale por mil palavras.
No último domingo, ao comparecer à missa matinal, o governador Cláudio Castro foi aplaudido de maneira veemente pelos fiéis – que provavelmente não se lembraram do versículo de Mateus sobre amar até os inimigos (5:44).
Se, em breve, os traficantes conseguirem se recompor e voltar a dominar toda a região conflagrada no Rio, Lula pode até ter razão do ponto de vista dos fatos. Teria sido uma matança inútil, que não abalou de maneira profunda o comércio de venda de drogas na região, nem mesmo o controle de território pelas facções. Isso logo saberemos.
Na prática, o que temos visto são os criminosos seguirem a enfrentar o Estado depois dessas operações que deixam um rastro de sangue nas ruas.
Também conta toda a ideologia do presidente Lula, que não vê o criminoso como alguém apenas dotado de uma psicologia intrinsicamente perversa. Mas uma espécie de vítima (nas palavras dele) de um sistema muito maior, que envolve usuários dispostos a pagar uma fortuna pela droga, uma polícia truculenta, uma sociedade desigual que o oprime e não lhe oferece saídas. A visão clássica da esquerda sobre a bandidagem.
O que Lula pode não ter percebido (ou tem consciência disso, mesmo assim enfrentou a opinião pública) é que os atos policiais violentos no Rio de Janeiro são fortemente aprovados não pela sua racionalidade, mas pelo grau de catarse envolvido. No sentido de que a megaoperação ajudou a liberar uma série de emoções reprimidas por tantos.
A fúria descarregada sobre quem, em tese, ameaça a nossa vida diariamente. O presidente, nas eleições, por causa de frases como a de hoje, terá que dar explicações. Mais uma vez será acuado pelos adversários como “protetor de bandidos”.
É ultrajante criminosos ocuparem territórios, extorquirem moradores de comunidades pobres, imporem toques de recolher, lei do silêncio. Uma espécie de regime totalitário dentro de tantas comunidades aceito passivamente por parcela de extratos privilegiados da sociedade. Cria-se todo um caldo que se desdobra em revolta surda por quem está envolvido ou se sente acuado.
Aplaudir a matança, no final das contas, tem mais a ver com o desespero de perceber todo esse absurdo ocorrer e finalmente o Estado agir. Acordou e se moveu, executando, contra quem consideram bandidos.
Exaltar tantos assassinatos pode ser, ao mesmo tempo, inaceitável do ponto de vista de preceitos éticos abstratos (um filósofo como Kant ficaria horrorizado) e compreensível quando se leva em conta o mundo real. É uma reação humana, demasiada humana. Contraditória, muitas vezes inevitável, e necessariamente violenta.
TCU dá 15 dias para Hugo Motta prestar esclarecimentos sobre suspeitas de ter funcionárias fantasmas
Por O GLOBO — Brasília / O GLOBO
A área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) solicitou ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que preste esclarecimentos sobre suspeitas de empregar funcionárias fantasmas em seu gabinete. A Corte de Contas deu um prazo de 15 dias para que Motta forneça uma série de dados que comprovem que as funcionárias exerciam de fato as atividades para as quais eram contratadas.
Em reportagem publicada em julho, o jornal Folha de S. Paulo mostrou o caso de três servidoras que acumulavam o cargo com outras ocupações. Gabriela Pagidis, com salário de R$ 11,4 mil, e Monique Magno, com salário de R$ 1,7 mil, exerciam funções remotas e estavam no gabinete de Motta, mas tiveram a exoneração encaminhada.
“Quanto aos indícios de irregularidade, a representação informa que os fatos narrados teriam potencial de causar dano ao erário. Nesse sentido, faz-se necessário diligenciar ao gabinete do representado para que preste esclarecimentos sobre o regime de trabalho das servidoras acusadas de trabalhar como funcionárias fantasmas antes que seja realizada uma análise precisa da admissibilidade da representação”, diz a decisão da área técnica do TCU.
O parececer do TCU, noticiado pelo Metrópoles, também foi obtido pelo GLOBO.
Em nota divulgada em julho, Motta afirmou que “preza pelo cumprimento rigoroso das obrigações dos funcionários de seu gabinete, incluindo os que atuam de forma remota e são dispensados do ponto dentro das regras estabelecidas pela Câmara”.
Como a vaga não era presencial, as funcionárias tinham dispensa de marcação de ponto. Segundo a Folha, Motta empregou em seu gabinete três funcionárias com rotinas incompatíveis com as funções que deveriam exercer no Legislativo. As duas dispensadas são uma fisioterapeuta (Gabriela Pagidis) e uma assistente social (Monique Magno) de uma prefeitura na Paraíba.
Em reportagem, a Folha citou ainda uma estudante de medicina. Todas são contratadas no cargo de secretário parlamentar, com jornada de 40 horas semanais, com proibição de exercer outra função pública e sem necessidade de bater o ponto com biometria na Câmara.
A sociologia de Lula romantiza o crime
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Já entrou para a antologia política a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que os traficantes são “vítimas dos usuários”. Em seguida, temendo os efeitos eleitorais, tentou dizer que a frase foi “mal colocada”. Seus intelectuais de estimação – sempre prontos a traduzir toda estupidez lulista em tese sociológica – contemporizaram: o presidente só queria apontar a cumplicidade do consumo na cadeia do tráfico. Mas não foi ato falho. Para Lula e a esquerda, o crime, numa sociedade capitalista, é mero subproduto do meio, um reflexo das desigualdades. A culpa, portanto, é da sociedade.
De Marx a Foucault, a cada geração os esquerdistas conjuram a fraseologia da “violência estrutural” para dissolver responsabilidades pessoais em sociologia. O criminoso é desconstruído como sujeito ético e reduzido a objeto de forças externas. No lugar da moral, entra o diagnóstico: “contextos de vulnerabilidade”, “ressocialização em meio aberto”, “reeducação psicossocial”. Sob essa semântica profilática, a delinquência vira sintoma, e o delinquente, paciente de uma patologia coletiva diagnosticada por quem jamais esperou um ônibus à noite. E enquanto o crime avança, os criminólogos lapidam eufemismos.
Essa subcultura humanitária não disfarça uma inversão moral: a compaixão pervertida em condescendência. A responsabilização do indivíduo é tratada como opressão burguesa, e a indulgência, como virtude. O progressismo cultiva o marginal como símbolo de “autenticidade social”, enquanto humilha o cidadão comum, que paga impostos e respeita a lei, como hipócrita e alienado. O delinquente virou personagem de “resistência”; o trabalhador, engrenagem da máquina de opressão.
A teologia da inocência universal esquerdista redime vítimas perpétuas e condena culpados abstratos: o “sistema”, o “mercado”, a “herança colonial”. Mas, mais do que um instrumento de satisfação narcísica, essa vitimologia é uma ferramenta de poder: um modo de capturar o monopólio da virtude, exigir mandatos para desconstruir “estruturas” e desmoralizar toda contestação como repressão “fascista”.
Os ideólogos que povoam o governo alternam garantismo e punitivismo ao sabor da conveniência política: rigor contra adversários, indulgência com aliados. É a ética dos “companheiros” travestida de teoria crítica. Os mesmos militantes que celebram terroristas e ditadores recriminam a punição a delinquentes como “violência estatal”. Entre o sentimentalismo e o cinismo, derramam lágrimas para bandidos e fazem selfies com tiranos.
O Comando Vermelho herdou mais que seu nome das milícias marxistas dos anos 1970. Elas lhe ensinaram não só táticas de guerrilha urbana, mas o léxico da guerra cultural. “Paz, justiça e liberdade!”, rezava o lema da facção, enquanto a contracultura glamourizava a bandidagem: “Seja marginal, seja herói!”.
Hoje a esquerda festiva celebra qualquer pichador como um Rimbaud das periferias. Mas essa farsa revolucionária se repete todos os dias como tragédia. Juízes progressistas libertam criminosos com dezenas de reincidências (alegando que o “Estado de Direito” não admite “futurologia”), desativam hospitais de custódia e despejam psicopatas em “ambientes comunitários”. ONGs financiadas por facções filmam documentários sobre “direitos humanos”. Ministros e secretários de Segurança querem enfrentar o crime com assistentes sociais e campanhas de reeducação. O resultado é um país onde o medo é rotina, e a lei, ficção.
A ideologia coitadista fabricou um paradoxo cruel: quanto mais a esquerda se compadece dos criminosos, mais abandona os pobres. O progressismo penal, que se apresenta como gesto civilizatório, é na prática um luxo ostentado por elites protegidas nas torres de marfim da academia ou em condomínios amuralhados. E quem paga a conta são os pobres. São eles que veem seus filhos aliciados, seus bairros sitiados, sua vida devorada por uma guerra estetizada pela retórica progressista.
Nenhuma sociedade pode prosperar quando transforma a justiça em “opressão” e o criminoso em “oprimido”. O Brasil já experimentou o bastante dessa moral bastarda. É tempo de descartar a mitologia de que punir o criminoso é “criminalizar o pobre”. A esquerda quis humanizar o crime. Desumanizou-se a si mesma. E os pobres são punidos todos os dias pelos tribunais da bandidagem.
Por que Brasil virou refém de Lula para preservar democracia
Marcio Aith
Quando Lula sentou-se ao lado do turbulento Donald Trump em Kuala Lumpur, no domingo passado, o encontro tinha todos os ingredientes do impossível. Três meses antes, Washington havia imposto tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal. A crise bilateral era a mais grave em dois séculos de relações diplomáticas.
E ali estava Lula —perseguido, preso, com processos anulados pelo STF, reeleito— conversando de igual para igual com Trump, que declarou admirar a carreira política do brasileiro, eleito três vezes presidente da República.
A cena na Malásia é a síntese perfeita da extraordinária capacidade de sobrevivência política de Lula. Ele renasce das cinzas. Da prisão em Curitiba ao Palácio do Planalto em menos de cinco anos. Do político com processos judiciais ao estadista que negocia com potências. Essa capacidade de renascimento, porém, tornou-se também sintoma de uma debilidade nacional: nossa democracia não consegue produzir alternativas ao seu protagonista mais longevo.
Poucos dias antes, em Jacarta (Indonésia), Lula havia encerrado qualquer suspense sobre 2026. "Eu vou completar 80 anos, mas pode ter certeza que eu estou com a mesma energia de quando tinha 30 anos. Vou disputar um quarto mandato no Brasil", declarou ao lado do presidente indonésio Prabowo Subianto. E completou, com uma franqueza reveladora: "Estou preparado para disputar outras eleições."
Com essa frase, acabou o falatório mais previsível da política brasileira. Em 2022, o mesmo Lula dizia: "Quando chegar 31 de dezembro de 2026, quando a gente entregar esse mandato para outra pessoa, o país estará bem".
Pois bem. Chegou o segundo ato. Prometeu mudar tudo e mudou de ideia. Jurou sair, mas só jurou. A indecisão foi teatro. O final, previsível.
Ao confirmar que disputará um quarto mandato, Lula encerra o teatro da dúvida e revela um país incapaz de substituí-lo. Neste ponto, o autor se vê obrigado a corrigir o próprio texto: não se trata de disputar um quarto mandato, mas de uma sétima tentativa presidencial. Lula foi candidato em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2022 e agora será novamente em 2026. Antes disso, foi eleito deputado federal em 1986 e derrotado ao governo de São Paulo em 1982.
Ou seja: há 43 anos Lula é candidato a alguma coisa. E talvez o país tenha se acostumado tanto a vê-lo disputar que, quando vota nele, parece reencenar o mesmo ato.
A questão, portanto, não é a idade, mas a longevidade. Não a biológica, mas a política: o fato de o Brasil, quatro décadas depois, ainda depender do mesmo nome para salvar a democracia, articular esperança, poder e estabilidade. A política brasileira parece um carrossel: gira, mas o eixo continua sendo Lula.
Nascido em 27 de outubro de 1945, ele chegará ao primeiro turno de 2026 com 80 anos e 11 meses; ao segundo, com 81. Nenhum presidente em democracia consolidada chegou tão longe em idade e, sobretudo, em tempo de influência contínua. Mas não é o corpo que preocupa. É o vazio em volta.
A energia de Lula aos 80 é, de fato, notável. Viajou 22 horas de avião até a Indonésia. Participou de cerimônias, firmou acordos comerciais, ganhou uma festa de aniversário antecipada com o presidente Subianto (que fez 74 anos dias antes). Seguiu para a Malásia. Reuniu-se com Trump por 50 minutos. Negociou tarifas, defendeu ministros do STF, propôs mediação na Venezuela. Voltou ao Brasil após uma semana de agenda intensa.
Não há sinais de fadiga cognitiva. Não há perda de comando. Lula mantém o instinto político, o carisma, a capacidade de improvisação —que, de tão eficiente, às vezes tropeça na autoconfiança e comete gafes, como a de dizer que traficantes são vítimas de usuários. Sua lucidez aos 80 anos supera a de muitos líderes mais jovens.
Individualmente, tanta vitalidade é admirável. Coletivamente, nosso problema é a ausência de energia ao redor dele. Lula persiste porque o sistema não produziu alternativas —e ele mesmo não permitiu que existissem.
Em 2010, obrigado a deixar o cargo, Lula tinha capital político para eleger qualquer um. Havia quadros preparados, lideranças jovens, ministros de talento. Ele escolheu Dilma Rousseff, uma técnica sem trajetória eleitoral, com origem em outro partido.
O objetivo era claro: não o ameaçar. Dilma não foi projetada para liderar, mas para guardar o lugar até o retorno do chefe. Lula quis voltar em 2014? Os que o conhecem de perto dizem que sim. Não voltou por resistência da própria Dilma, em um episódio nunca satisfatoriamente esmiuçado por jornalistas, historiadores e cientistas políticos.
Fernando Haddad, desprezado em 2010, só virou alternativa na missão impossível de 2018, quando Lula estava preso, e Bolsonaro varreu o país. E Haddad, agora, carrega pedras no Ministério da Fazenda. É assim que Lula move as suas peças
(Aqui, o autor se vê obrigado a corrigir novamente o próprio texto. Mesmo da prisão, em 2018, Lula se lançou candidato, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral. O que leva a oito o número de suas tentativas presidenciais.)
Dilma não foi herdeira, foi interregno. Haddad virou preposto. Gleisi Hoffmann é bedel, não alternativa. Nenhum sucessor sobreviveu dentro do PT. O partido envelheceu sob a sombra do homem que o fundou. E ali ficou. Na sombra. Houve várias oportunidades de forjar novas lideranças ao longo de décadas. E 2010 talvez tenha sido o momento mais adequado para uma verdadeira renovação.
Em 2022, Lula literalmente segurou a democracia pelo colarinho. Por pouco. Mas 2026 será outra história. O golpismo bolsonarista, que quase venceu, foi contido e punido. O próximo pleito promete correr dentro da normalidade democrática. A direita terá seu nome. À esquerda, só há Lula. Ao redor dele, o deserto político que ele mesmo ajudou a criar.
E sempre há uma justificativa para Lula concorrer. Desta vez, é o avanço da direita no eleitorado. Só ele poderia se contrapor a essa onda. Só ele manteria a esquerda no poder. A lógica se renova a cada ciclo, mas o protagonista permanece o mesmo.
A crítica, repito, não é ao octogenário candidato, mas ao sistema político que o torna indispensável, ao partido que se dissolveu nele e ao país que não soube criar alternativas.
Lula é populista. E isso não é ofensa, é constatação. Dispenso o aval acadêmico: a palavra tem valor descritivo, não depreciativo. Quando "Vem fazer o L" substitui programa partidário, fica óbvio que não há mais partido, apenas um homem.
O homem que fala "como o povo" há décadas aprendeu a ser o próprio povo. Seu populismo é democrático, performático, conciliador e centrado em si. Fala aos de baixo contra os de cima, encarna o injustiçado que venceu, transforma a biografia em mito. Promove inclusão social sem romper o pacto dos privilegiados: rentistas, conglomerados erguidos por crédito estatal.
Seria injusto, porém, tratar Lula como aberração. Os modelos de representação mudaram no mundo todo, como bem demonstrou o cientista político francês Bernard Manin, falecido em novembro de 2024. Segundo ele, as democracias contemporâneas deixaram de ser de partido para se tornarem "democracias de público".
Nelas, os eleitores não se guiam mais por ideologias ou programas coletivos, mas por vínculos afetivos com figuras carismáticas. A política virou espetáculo, e o voto, ato de identificação pessoal. O líder passa a representar o sentimento difuso da maioria —não uma plataforma, mas um personagem.
Nesse ambiente, o populismo não é desvio nem destino: é uma possibilidade constante. Surge quando a representação política se confunde com a performance, e o público transforma o político em protagonista. A democracia de partido deu lugar à democracia do público.
Há outro fator a se registrar. Lula também é filho legítimo do sistema que o cerca, o mesmo que manteve oligarquias no poder por décadas. Alckmin governou São Paulo durante 12 anos no período de hegemonia tucana; Sarney controlou o Maranhão por quase meio século; ACM transformou a Bahia em dinastia; Maluf, Quércia, Garotinho e Barbalho são variações regionais do mesmo padrão. No Brasil, o poder raramente troca de mãos.
Lula, portanto, não inventou a perpetuação, apenas a democratizou. Construiu sua longevidade no voto direto, na popularidade genuína e no carisma pessoal. No entanto, o resultado é o mesmo: a incapacidade do sistema de produzir renovação.
E não apenas nas eleições majoritárias. Como observa o cientista político Antonio Lavareda, o voto proporcional em "lista aberta" é, na prática, uma lista desordenada, um convite para escolher rostos, não ideias. O modelo transforma cada candidatura em uma franquia pessoal de poder. O voto deixa de representar um projeto coletivo e vira ativo privado.
As legendas, dominadas por seus donos de voto, perdem a capacidade de se renovar. O resultado é um Congresso imóvel, de caciques vitalícios e reeleições sem fim. É nesse terreno que o populismo prospera —e que Lula se torna, mais do que líder, uma instituição.
Democracias tendem a se apegar a líderes que parecem insubstituíveis, como os Estados Unidos fizeram com Franklin D. Roosevelt, eleito quatro vezes seguidas entre 1933 e 1945. Sua permanência no poder foi tamanha que o país criou, em 1951, a 22ª Emenda, limitando todos os presidentes a dois mandatos. A medida nasceu do medo de ver uma democracia transformar-se em monarquia eletiva.
O Brasil, ao permitir a reeleição em 1997 através da Emenda Constitucional nº 16, seguiu caminho oposto. Acreditou que a limitação a dois mandatos consecutivos, ainda que com a possibilidade de retorno depois de um interregno, seria suficiente para evitar a perpetuação.
Ignorou, porém, a lição que o caso Roosevelt havia ensinado: um líder não precisa de golpe ou fraude para se perpetuar. Bastam a popularidade e a falta de alternativas. Foi exatamente isso que os americanos temeram: não o abuso do poder, mas a dependência em relação ao líder.
Lula, como Roosevelt, não governa pela força, mas pela ausência de quem possa substituí-lo. E, como Roosevelt, tornou-se o fiador de uma estabilidade que, também, esconde a fragilidade das instituições. A diferença é que os americanos aprenderam a lição em 1951. O Brasil ainda a adia.
Lula, aos 81, será o mais velho candidato de uma democracia estável. E o mais longevo líder popular da história do país. Getúlio Vargas, é verdade, governou por mais tempo —18 anos e meio, entre 1930 e 1954. Mas desses, apenas seis anos e meio foram em governos democráticos (1934 a 1937,eleito pela Assembleia Nacional Constituinte, e 1951 a 1954, dessa vez pelo voto popular). Oito anos foram de ditadura declarada, no Estado Novo (1937-1945). Quatro anos, de governo provisório sem eleições (1930-1934), após tomar o poder pela Revolução de 1930. Getúlio construiu sua longevidade também pela força, pelo golpe, pela supressão do voto.
Lula, ao contrário, construiu a sua exclusivamente pelo voto direto, pela popularidade genuína, pela capacidade de se reinventar dentro das regras democráticas. É exatamente isso que torna sua longevidade ainda mais emblemática: não apenas o tempo no poder impressiona, mas sobretudo os 43 anos de influência política ininterrupta, de candidaturas sucessivas, de presença constante no imaginário nacional.
Um feito admirável e, ao mesmo tempo, um sintoma alarmante: o de uma nação que confunde continuidade com futuro. A democracia envelhece quando o futuro é tratado como risco, e o passado, como zona de conforto.
O encontro com Trump na Malásia provou que Lula ainda tem energia, sagacidade e presença de palco. Mas também revelou algo mais profundo: o Brasil, após 43 anos, ainda precisa dele para se fazer ouvir no mundo. O Brasil não envelheceu com Lula. O Brasil envelheceu por não conseguir sair de dentro dele.



