Busque abaixo o que você precisa!

Lula volta para a defensiva com operação no Rio e sofre ataque em redes, Congresso e estados

Ranier Brago Victoria Azevedo / O ESTADÃO DE SP

 

A segurança pública, tema em que a esquerda costuma patinar, foi alçada à prioridade das discussões do governo Lula (PT) com a crise decorrente da megaoperação contra a facção Comando Vermelho, recolocando o petista na defensiva.

A ação de terça-feira (28) no Rio de Janeiro se tornou a mais letal da história do país, com 121 mortes, e fez Lula tomar atitudes até então inusitadas no campo da esquerda, em uma movimentação embalada pela apreensão entre aliados com os efeitos sobre a imagem de sua gestão.

Pesquisa Datafolha mostrou que a operação foi vista como um sucesso por 57% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio, contra 39% que pensam o contrário.

A operação patrocinada pelo governo do oposicionista Claudio Castro (PL) deixou em segundo plano, no campo político, assuntos até então na ordem do dia, como as negociações em torno do tarifaço de Donald Trump.

Mais do que isso, reunificou o discurso da direita —até então abalada pelas ações de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos e a condenação de Jair Bolsonaro (PL).

Além disso, interrompeu um ciclo de boas notícias para o Palácio do Planalto, que esperava pautar a campanha em busca de um quarto mandato de Lula com bandeiras como a defesa da soberania e da justiça tributária.

Destoando da reação histórica da esquerda a esse tipo de ação, Lula não criticou ou questionou publicamente a operação policial e evitou falar diretamente sobre o caso, o que deixou eventuais manifestações alusivas a "chacina" e "massacre" para a esquerda no Congresso, em especial o PSOL.

Havia uma expectativa de que Lula usasse evento de posse de Guilherme Boulos na Secretaria-Geral da Presidência, na quarta (29), para abordar o tema —o que não ocorreu. Na ocasião, houve um minuto de silêncio pelas vítimas da operação.

petista só quebrou o silêncio à noite, numa publicação nas redes sociais, em que falou em "trabalho coordenado" contra o tráfico de drogas que atinja a espinha dorsal do crime "sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco."

Um aliado de Lula diz que essa estratégia foi pensada justamente para evitar qualquer outro tipo de fala do presidente que pudesse ser usada por opositores para desgastá-lo.

Tão inusual quanto a ausência de questionamentos à ação policial foi o fato de o governo exaltar nas redes sociais para a sanção, por Lula, do projeto que prevê pena de prisão para quem planeja ataque ou ameaça contra autoridades que combatem o crime organizado.

Além de a esquerda quase sempre dizer que propostas de endurecimento da legislação penal não resolvem a criminalidade, o projeto em questão é de autoria do senador Sergio Moro (União Brasil-PR), responsável pelas condenações e prisão de Lula quando era juiz.

"É mais um passo no combate ao crime com inteligência, integração e punição. Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro, contra o crime organizado", diz a peça, sem citar o ex-juiz.

Lula já havia derrapado no tema da segurança pública ao chamar traficantes de vítimas —diante da repercussão, ele depois se retratou. A frase o levou a voltar ao foco da direita nas redes, sob o discurso de que ele e a esquerda defendem bandidos. Os ataques se intensificaram após a ação no Rio.

"Não dá mais para tratar o criminoso como vítima. O criminoso não é vítima, o criminoso faz vítima", disse o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), principal nome cotado para enfrentar Lula no ano que vem, em postagem sobre a reunião com governadores para tratar sobre o Rio, com mais de 3 milhões de visualizações até esta sexta-feira (31).

Apesar de a segurança pública ser um tema de competência dos estados, há uma avaliação entre integrantes do governo Lula de que essa crise poderá frear a maré favorável dos últimos meses ao petista.

Em meio às discussões sobre a reação mais adequada, aliados cobraram celeridade na tramitação de projetos enviados pelo Executivo que ainda não tinham sido chancelados, como a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública.

A megaoperção no Rio serviu também de oportunidade para governadores de direita, alguns deles pré-candidatos ao Planalto, novamente tentarem fustigar o petista. Na quinta (30), eles se reuniram no Rio para demonstrar apoio a Castro.

Em discursos com tom de campanha eleitoral antecipada, anunciaram a criação de um grupo que chamaram de "Consórcio da Paz", que reunirá os chefes dos Executivos estaduais em torno de ações de combate ao crime organizado.

Entre aliados de Lula, a reação foi de críticas às reais motivações dessa união. Boulos e a ministra Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais) disseram que o grupo atua para colocar o Brasil no radar de intervenções do governo Trump, num incentivo à ofensiva do americano contra a soberania brasileira.

Nos bastidores, um auxiliar do petista diz avaliar que a operação no Rio é uma espécie de tábua de salvação da direita, que estava acuada nos últimos meses. Ele reconhece que esse fato gerou uma oportunidade para unir os governadores numa tentativa deles se descolarem da figura de Bolsonaro.

Apesar de reconhecer possíveis efeitos negativos para o governo federal, esse aliado diz avaliar que o tema da segurança pública, por mais relevante que seja, não é, sozinho, determinante em resultados eleitorais.

Nas redes, a estratégia do governo será apostar no discurso de que está promovendo alterações no sentido de vencer o crime pela inteligência e não à bala, fazendo referências frequentes à Operação Carbono Oculto, em São Paulo, que contou com a atuação integrada da Polícia Federal, da Polícia Militar de São Paulo, do Ministério Público Federal e da Receita Federal, e identificou a infiltração do PCC no setor de combustíveis.

Um dirigente do PT diz que o partido encomendou duas pesquisas para entender o sentimento dos brasileiros em relação à megaoperação, uma presencial e outra digital. Ele afirma que o partido deverá ser objetivo no enfrentamento da narrativa da oposição, mas sem se estender na temática.

 

Gasto público desordenado afeta acesso a livros didáticos

A expansão desordenada de gastos desde o início do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não impacta apenas a política monetária, com juros escorchantes para controlar a inflação, mas políticas públicas essenciais.

É o caso do acesso a livros didáticos na rede pública de ensino. Para que as editoras consigam entregar as obras até o início do ano letivo de 2026, as encomendas deveriam ter sido feitas até agosto. Mas, como revelou a Folhaem julho ainda não havia pedido para parcela considerável dos cerca de 240 milhões de exemplares necessários.

Logo após a publicação da reportagem, o Ministério da Educação afirmou ter conseguido a verba para suprir integralmente a demanda. Ao final de agosto, contudo, os livros não haviam sido comprados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão ligado ao MEC responsável pela aquisição.

Agora, faltando apenas dois meses para o fim do ano, o problema continua, e a pasta ainda está em busca de recursos.

Há cerca de R$ 2,3 bilhões reservados aos livros, mas o MEC pede R$ 3,7 bilhões —as obras só para o ensino médio custariam em torno de R$ 1,4 bilhão.

Em ofício entregue à equipe econômica do governo na semana passada, o FNDE afirma que o atraso no repasse "compromete, também, a entrega nacional dos exemplares em tempo hábil para utilização pelos alunos". Ressalte-se que comunicado de teor semelhante já havia sido encaminhado pelo órgão em agosto.

Assim, a pasta foi obrigada a fazer escolhas. Em julho, das cerca de 59 milhões de obras para todas as disciplinas dos anos iniciais do ensino fundamental, foram encomendadas 23 milhões só para português e matemática.

Nenhum dos exemplares do tipo consumível (apostilas) de história, geografia e ciências, do 1º ao 3º ano, e de artes, do 1º ao 5º ano, havia sido adquirido. Para os anos finais dessa etapa (6º ao ao 9º), também só português e matemática foram contemplados.

Considerando os indicadores sofríveis da educação brasileira, tal incompetência é inaceitável. No Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências de 2024, o país ficou entre os últimos colocados na avaliação das duas disciplinas no 4º e no 8º ano do ensino fundamental e foi superado pelo vizinho Chile.

O governo Lula 3 promoveu expansão inaudita e insustentável do gasto federal, em especial com aposentadorias e outros benefícios sociais. O resultado é o estrangulamento progressivo de programas de execução não obrigatória no Orçamento, caso do Programa Nacional do Livro Didático, cujos recursos vêm sendo comprimidos desde 2023.

É ilusório imaginar que ampliar despesas com a seguridade será eficaz no combate à pobreza se não houver equilíbrio fiscal. Cedo ou tarde, inflação, juros, baixo crescimento econômico e cortes em serviços públicos incidirão sobre os estratos carentes.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Diretor-geral diz que PF no Rio sabia de operação e descartou participação

Mariana BrasilRaquel LopesVictoria Azevedo / FOLHA DE SP

 

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou nesta quarta-feira (29) que a equipe da corporação no Rio de Janeiro foi informada que haveria uma operação no Rio de Janeiro. No entanto, após analisar as características apresentadas no planejamento operacional, decidiu não participar por entender que não se tratava do tipo de atuação compatível com a PF.

A operação das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro deixou ao menos 119 mortos, incluindo quatro policiais, sendo a mais letal do país.

A declaração foi dada após o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, falar à imprensa que o governo federal não havia sido avisado da operação no Rio.

Andrei, no entanto, acrescentou que a data da operação não foi comunicada à Polícia Federal.

"Houve um contato em nível operacional informando que haveria uma grande operação e se a Polícia Federal teria alguma possibilidade de atuação na sua área e dentro do seu papel. A nossa equipe do Rio de Janeiro, a partir da análise geral do planejamento, não teve detalhes do planejamento. Entendemos que não é o modo como a polícia atua, o modo de fazer operações", disse.

"O colega do Rio de Janeiro informou o seu contato operacional que a PF segue seu trabalho de investigação, de polícia judiciária, fazendo seu trabalho de inteligência, mas que aquela operação que era do estado, tinha mais de cem mandados para cumprir do estado do Rio de Janeiro, não teríamos atribuição legal para participar e, portanto, não fazia sentido nossa participação", acrescentou.

Durante a fala do diretor-geral da PF, Lewandowski o interrompeu e disse que a comunicação precisa ser feita pelos níveis superiores das autoridades.

"A comunicação entre governador de estado e governo federal tem que se dar ao nível de autoridades de hierarquias mais elevadas. Uma operação desse nível, porte, não pode ser acordada entre o segundo ou terceiro escalão. Se fosse uma operação que exigisse a interferência do governo federal, o presidente da República deveria ser avisado, o vice-presidente que estava respondendo, ou o ministro da Justiça e Segurança Pública ou o próprio diretor-geral da PF", disse.

A ação ocorreu enquanto Lula retornava de uma visita oficial ao continente asiático. O presidente ficou incomunicável durante as mais de 15 horas de viagem, só tomando contato com o que ocorria no Brasil ao aterrissar. A conversa desta quarta foi feita na residência oficial da Presidência, o Palácio da Alvorada, em Brasília.

 

Operação no Rio: os bastidores da reunião no Palácio do Planalto que discutiu a GLO

Por  Bela Megale / O GLOBO

 

Policiais entrando na Vila Cruzeiro, na Penha, durante Operação ContençãoPoliciais entrando na Vila Cruzeiro, na Penha, durante Operação Contenção — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

 

A decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi um dos temas tratados na reunião de emergência realizada no Palácio do Planalto nesta terça-feira (28), sobre a megaoperação da polícia do Rio de Janeiro na zona norte da cidade, que deixou 64 mortos. A ação mirou a facção criminosa Comando Vermelho e se tornou a mais letal da história do estado fluminense.

 

Segundo presentes na reunião, que durou cerca de duas horas, parte dos integrantes do governo — inclusive um ministro — defendeu a adoção da GLO pelo presidente Lula. Entre os argumentos usados para sustentar a necessidade da medida estava o de que existe uma “falência múltipla” dos órgãos de segurança no Rio de Janeiro. A medida abriria espaço para a atuação das Forças Armadas na área de segurança pública do estado.

 

Foi consenso, porém, que uma das principais condições para a decretação da GLO é o reconhecimento público, por parte do governador Cláudio Castro, da falta de condições do estado para controlar a segurança pública fluminense, além do pedido formal pela adoção da medida.

 

No início do ano, o governador do Rio chegou a pedir ao governo federal que cedesse blindados, mas nunca formalizou a solicitação da GLO. Na ocasião, a Advocacia-Geral da União (AGU) avaliou que a cessão dos blindados só poderia ocorrer por meio da decretação da medida. Lula já declarou ser contrário à sua adoção.

 

Entre os órgãos que se colocam contra a medida está a Polícia Federal, que participou da reunião no Palácio do Planalto. Também estavam presentes Geraldo Alckmin, enquanto presidente em exercício; os ministros da Casa Civil, Rui Costa; da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira; das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann; e da AGU, Jorge Messias; além de representantes dos ministérios da Justiça e da Defesa. O presidente Lula não estava presente porque voltava de viagem da Ásia e estava em voo.

 

Conforme reportagem do GLOBO, mesmo com o agravamento da crise de segurança no Rio, o Palácio do Planalto não vê, por ora, perspectiva de adoção da GLO.

Apesar do corte da Petrobras, consumidores não percebem redução nos preços dos postos de Fortaleza

Escrito por Letícia do Valel DIARIONORDESTE
 
Mesmo uma semana após o anúncio da Petrobrás sobre o reajuste no preço médio do litro da gasolina comum, ainda não é possível observar diferença nos valores praticados pelos postos em Fortaleza, segundo relatos de consumidores.  Desde a última terça-feira (21), o preço do combustível vendido às distribuidoras pela estatal sofreu redução de 4,9%.
 
Na tarde dessa segunda-feira (27), o Diário do Nordeste visitou três postos de gasolina: um no cruzamento da rua Tomás Acioli com Desembargador Moreira; outro no cruzamento da rua Antônio Sales com Barão de Studart; e um terceiro no cruzamento da avenida Santos Dumont com Barão de Studart.
 
Os três locais registravam o litro da gasolina comum a R$ 6,23. Já o preço do etanol variou entre R$ 4,63 e R$ 4,88 o litro. 

Segundo observado pelo personal trainer Lucas Faustino, de 36 anos, que abastecia o carro em um dos postos, o preço do litro da gasolina reduziu poucos centavos em alguns postos de Fortaleza, mas nada muito significativo.

Quem também não percebeu variação no valor da gasolina foi o motorista de aplicativo Carlos Vinicius Cortez, 48, que preferiu abastecer o carro com etanol.  Outro gerente de um dos postos, Dailton de Lima, também reforçou que não houve queda no preço da gasolina. "Esse mês todinho ficou em R$ 6,23", indica. 

Litro de gasolina no Ceará poderia chegar a R$ 5,55

De acordo com cálculo realizado em matéria publicada pelo Diário do Nordeste na última segunda-feira (20), caso a redução anunciada pela Petrobras fosse repassada inteiramente ao consumidor, o preço médio do litro da gasolina comum nos postos do Ceará poderia variar entre R$ 5,55 e R$ 6,65. 

Esse resultado tem como base os dados mais recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que registrou o menor e maior preço do combustível  no Estado como, respectivamente, R$ 5,63 e R$ 6,75. 

As informações são referentes à semana de 12 a 18 de outubro, com levantamento feito em 111 postos cearenses.

Ainda segundo os dados, com a aplicação do desconto de 4,9% sobre a parcela da Petrobras na composição do combustível, o preço médio do litro da gasolina no Ceará poderia cair para R$ 6,18, já que a média indicada pela ANP no período em questão foi de R$ 6,27. 

Entenda como é calculado o preço da gasolina.

Vale a pena abastecer com etanol?

De acordo com o consultor na área de gás e petróleo, Bruno Iughetti, somente "compensa abastecer com etanol quando o preço por litro for de até 70% do preço por litro de gasolina". 

Assim, tomando como exemplo o preço de R$ 6,23 por litro de gasolina, o especialista indica que só será mais vantajoso abastecer com etanol se o preço for de até R$4,36 por litro.

Considerando os preços observados nos três postos visitados nessa segunda-feira (27) (R$ 4,88, R$ 4,69 e R$ 4,63), não é vantajoso abastecer com etanol, de acordo com Iughetti.  

Quanto custa encher o tanque com gasolina atualmente em Fortaleza

Considerando o valor de R$ 6,23 para o litro da gasolina comum, encontrado nos três postos visitados pelo Diário do Nordeste nesta segunda-feira (27), uma pessoa precisa desembolsar cerca de R$ 280 para encher um tanque de 45 litros. Já no caso de um carro com tanque de 55 litros, o valor sobe para R$ 342,65

Caso a redução no preço da gasolina fosse aplicada nos postos do Ceará, os consumidores poderiam economizar de R$ 3,60 a R$ 4,50 para encher um tanque de 45 litros. Já para um tanque de 55 litros, a economia seria entre R$ 4,40 e R$ 5,50. 

Em entrevista ao Diário do Nordeste na última segunda-feira (20), o assessor de assuntos econômicos do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos-CE), Antônio José, salientou que o preço da gasolina é influenciado por uma série de fatores e que não é possível afirmar que a redução da Petrobras irá ocasionar baixa nos preços da gasolina no Ceará. 

O Sindipostos-CE foi procurado para um novo posicionamento sobre os preços atuais da gasolina em Fortaleza, mas ainda não retornou os questionamentos. Em caso de novas informações, essa matéria será atualizada. GASOLINA NO posto ipiranga FORTALEZA

 
 

Operação expõe limite estadual no combate ao crime

Por  Editorial / O GLOBO

 

A resistência feroz que a polícia fluminense encontrou na operação desta terça-feira contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, é demonstração eloquente dos limites enfrentados pelos governos estaduais no combate às organizações criminosas. A ação reuniu 2,5 mil policiais e deixou ao menos 64 mortos, entre eles quatro policiais, 60 suspeitos, além de vários inocentes feridos. Diante da incursão, os criminosos ergueram barricadas, incendiaram veículos e fecharam vias essenciais paralisando a cidade. Usaram até drones com explosivos para intimidar a polícia.

 

O secretário de Segurança do Rio, Victor Santos, reconheceu que o governo do estado não tem condição de enfrentar o tráfico. “Não dá para enfrentar sozinho”, afirmou. “É preciso que, sem ideologia, estado, União e município se sentem à mesa.” O governador Cláudio Castro cobrou “um trabalho de integração muito maior com as forças federais”. Ele disse que pediu apoio de blindados do Exército por três vezes e que os pedidos foram negados. O governo federal afirmou que não houve pedido de ajuda para a operação atual.

 

A milhares de quilômetros dali, o panorama não é diferente. A cidade colombiana de Leticia, na tríplice fronteira de Brasil, Colômbia e Peru, virou reduto do CV, hegemônico na região, como mostrou reportagem do GLOBO. É lá que a facção negocia com fornecedores a compra de droga, produzida em fazendas vizinhas. Como no Rio, autoridades locais admitem que, isoladamente, não têm como combater o crime. “A gente precisa que haja ação mais incisiva das forças federais, e falo das Forças Armadas mesmo, no combate ao tráfico de drogas”, diz o secretário de Segurança do Amazonas, coronel Marcus Vinicius de Almeida.

 

A incapacidade dos estados para enfrentar as organizações criminosas já deveria estar clara. Primeiro, porque as maiores, como CV e PCC, atuam em vários estados e até no exterior, dificultando as investigações. Segundo, porque em geral estão mais bem armadas que as forças locais — no Amazonas, policiais abortaram a abordagem de uma lancha ao ver uma arma capaz de derrubar pequenas aeronaves. Terceiro, porque dominam extensões significativas do território, onde as forças de segurança têm dificuldade para entrar.

 

Não há outra saída a não ser combatê-las, ou elas continuarão a estender seus domínios pela economia formal e até pelas instituições da República. Mas operações letais como a do Rio expõem a vida de policiais e inocentes, com poucos resultados práticos. Daí a necessidade de atuação mais efetiva do governo federal e de maior integração entre as forças de segurança, priorizando o uso de inteligência e tecnologia para asfixiar o crime financeiramente e planejar o foco das ações da polícia.

 

Executivo e Legislativo têm obrigação de se debruçar sobre o tema urgentemente. Não dá para adiar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que prevê participação do governo federal e articulação entre as diversas forças, nem a legislação antifacção que o governo deve entregar ao Congresso. Eventuais divergências precisam ser superadas. Projetos aprovados recentemente são positivos, mas não resolverão o problema. O Brasil precisa de medidas capazes de tornar o Estado mais organizado que o crime. Ou governos federal e estaduais se unem para enfrentar as organizações criminosas, ou todos sairão derrotados.

 

Operação das polícias do Rio nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona NorteOperação das polícias do Rio nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/ 28/10/2025

O bunker eleitoral de Lula e o café servido pelo Planalto

Por  Thiago Bronzatto / O GLOBO

 

 

O cafezinho servido no Palácio do Planalto tem sido usado como metáfora para ilustrar a estratégia do presidente Lula para 2026. Integrantes do governo costumam dizer que não adianta servir um expresso com pouco adoçante a quem gosta da bebida pura e aos que preferem uma dose extra de açúcar. O meio-termo desagradará aos dois extremos. Segundo essa lógica, não dá para atender ao mesmo tempo o público moderado e o radical. Por isso o plano do chefe do Executivo envolverá uma combinação de elevar o tom dos ataques ao statu quo, reforçando o coro do “nós contra eles”, com medidas que toquem no bolso da classe média.

 

Daqui até 2026, o Lula que deverá se lançar à reeleição se aproximará mais da figura política controversa de 1989, que emergiu atacando as elites, que do político pragmático de 2002, signatário da “Carta ao povo brasileiro” para tranquilizar o país. O discurso conciliatório na posse em 2023 e a promessa de unir a nação numa frente ampla de partidos de centro têm cedido terreno à retórica antissistema, alicerçada na retomada da popularidade e na dispersão de líderes da direita.

 

Lula deverá apostar cada vez mais em se conectar com a indignação dos eleitores, criticando a Faria Lima e antagonizando o Congresso. A ideia é hastear as bandeiras da redução da jornada de trabalho, da taxação das grandes fortunas e da tributação das bets. Se não conseguir emplacar essas pautas, a culpa será dos “outros que não deixaram”.

 

A lógica maniqueísta, que joga contra o futuro do país, será impulsionada tanto pelo bunker eleitoral montado no entorno do presidente quanto pela investida do PT na guerra digital contra a oposição. Além de contar com os conselhos do marqueteiro Sidônio Palmeira, mandachuva da comunicação do governo, Lula terá a seu lado o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), novo ministro da Secretaria-Geral, que recebeu a missão de mobilizar os movimentos sociais a favor das pautas do Planalto. O parlamentar fará dobradinha palaciana com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, ex-presidente do PT, que tem se tornado mais porta-voz da polarização do mandatário que articuladora política.

 

Alinhado com essa estratégia, o PT reestruturou seu braço de comunicação para aumentar o engajamento das brigas compradas pelo presidente. O partido montou uma equipe própria que atua em sintonia com um grupo de influenciadores digitais arregimentados para espalhar conteúdos de interesse de Lula, nutrindo o algoritmo da polarização política. Entre os assuntos designados pela legenda para propagar nas redes, está um organograma que, sem provas, associa o ex-mandatário Jair Bolsonaro ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, no escândalo de desvio de aposentadorias que ameaça o atual governo.

 

Além da retórica, o presidente aposta num combo de medidas eleitorais para reconquistar parte da classe média, segmento em que a gestão petista derrapa desde a recessão e o escândalo do petrolão que minaram o governo Dilma. A ideia é ampliar o alcance da imagem de Lula para além do “pai dos pobres”. Nesse terreno, são adubados a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e um novo modelo de crédito imobiliário para comprar a casa própria. Nas palavras de um auxiliar palaciano, as eleições de 2026 deverão ser vencidas ainda em 2025, fazendo a máquina pública girar a favor da reeleição do líder petista.

 

A cartilha seguida por Lula contraria a do Lula candidato em 2022, quando criticou o então presidente Jair Bolsonaro por ser radical e usar o Planalto a seu favor nas urnas:

 

— Temos um cidadão que está na Presidência e que está usando a máquina do governo para fazer campanha (…). Quando eu era presidente, a gente só saía para fazer campanha às seis da tarde — disse à época o líder petista , que agora ativa o modo eleitoral antes do fim do expediente.

 

*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em Brasília

'Excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro', afirma porta-voz da PM sobre confronto entre facções rivais na região da Pedreira e do Chapadão

Por O Globo — 

 

Ao falar sobre a guerra entre bandidos dos complexos da Pedreira (Terceiro Comando Puro) e do Chapadão (Comando Vermelho), na Zona Norte da capital, nesta madrugada, que deixou dois moradores e dois suspeitos mortos, a porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Claudia Moraes afirmou que a situação "excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro". Em entrevista à Rádio CBN, a oficial defendeu uma integração com forças de segurança federais para tentar conter o a violência gerada pelo tráfico de drogas.

 

— Não interprete mal a minha fala. A Polícia Militar, as forças de segurança vêm trabalhando muito e duramente. A gente vem trabalhando todos os dias. O que eu estou deixando muito claro é que essa situação que estamos enfrentando nessa região, principalmente nesse confronto de facções criminosas, excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro — disse a tenente-coronel.

 

A oficial frisou que a PM está fazendo o seu trabalho diariamente, realizando apreensões de fuzis: — Ali é uma área onde a presença do policiamento vai desde buscar proteger a integridade física das pessoas até o combate a roubo de veículo, roubo de carga, roubo a transeunte. O roubo de veículo rapidamente pode evoluir para um latrocínio, a gente sabe disso. Essa questão da integração do estado com as forças federais... esses fuzis entram por algum lugar, a droga também não é fabricada aqui, ela chega aqui. A gente está combatendo o efeito, mas para trabalhar na causa é preciso de muito mais atores nesse contexto.

 

Claudia Moraes destacou que o 41º BP (Irajá) — responsável pelo policiamento no Chapadão e na Pedreira — é o que mais apreende fuzis no estado. Mas isso, afirmou, não é motivo de orgulho.

 

— A gente não se orgulha de um resultado desse porque se a gente está apreendendo muito é porque tem muito. Entram por fronteiras, por outras áreas. E tirar essas armas das mãos dos criminosos não é uma coisa simples. Não é uma questão de pedido de socorro. É um alerta para o país. O que acontece no Rio de Janeiro pode ser referência para outros estados. Para se ter uma ideia, esse ano em Pernambuco apreendeu 18 fuzis. Isso a gente apreende em uma semana no Rio de Janeiro — disse.

 

De acordo com a tenente-coronel, o policiamento segue reforçado na região do Chapadão e da Pedreira, com uma ocupação por tempo indeterminado nos acessos às comunidades.

 

Morte de refém

Claudia Moraes lamentou a morte de Marli Macedo dos Santos, de 60 anos, que teve a casa invadida por um traficante do CV que se perdeu. A idosa foi baleada na cabeça após bandidos do TCP metralharem a residência. Quando a PM chegou, negociou a rendição do criminoso e encontrou Marli já ferida. A oficial voltou a pedir integração das forças de segurança:

 

— O que aconteceu com a dona Marli é para a gente lamentar profundamente. É isso que os criminosos fazem, colocam a população como refém. Eles utilizam as Upas como pontos de vendas de drogas, utilizam a população, usam os serviços como uma espécie de escudo humano para se proteger e atuar livremente. Essa situação da invasão dessa casa, e a outra facção vai até lá para confrontar o criminoso, colocando essas pessoas em risco, e que culminou com a morte da moradora em sua residência, mostra como isso é complexo. Não é simples, não existe bala de prata, não existe solução única. A integração é o primeiro caminho, o primeiro passo. A gente não pode resolver da noite para o dia um cenário que se estabelece há mais de 40 anos.

A porta-voz destacou a proximidade da Pedreira e do Chapadão como fator que facilita esse cenário de guerra.

 

— O que a gente vê é isso: essa tentativa de domínio territorial. Ali naquela região você tem de um lado o Chapadão e, de outro, a Pedreira, cada um com uma facção. E é uma área muito próxima, então esses criminosos conseguem rapidamente acessar a área de um e do outro. A Polícia Militar faz o seu trabalho de policiamento ostensivo, mas é um cenário muito complexo e que a gente sempre diz o seguinte: a presença do fuzil, desses armamentos de guerra, de granadas não é uma questão banal, não é uma questão trivial. Esses equipamentos entram no Brasil. A gente precisa de um esforço grande para a gente conseguir enfrentar esse problema. Não será a Polícia Militar sozinha que vai resolver — afirmou.

 

UPA de Costa Barros

Sobre a reabertura da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Costa Barros, que ficou fechada por cerca de um mês por questões relacionadas à segurança e foi reaberta na manhã desta segunda-feira, Claudia citou a necessidade da presença de policiamento em frente ao local: — A gente está com o desafio agora de reabertura da UPA onde a gente está com uma situação de ter que colocar um blindado na porta da UPA para ela funcionar. Isso não é um estado de normalidade.

 

Tiroteio levou pânico a moradores do Complexo da PedreiraTiroteio levou pânico a moradores do Complexo da Pedreira — Foto: X/Reprodução

 

Sócio de ministro da Secom recebeu R$ 12 milhões de estatais para prestar serviços sob governo Lula

Por Aguirre Talento e Gustavo Côrtes / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA - A empresa de um sócio do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, recebeu R$ 12 milhões da execução de contratos de publicidade de duas estatais do governo Lula nos últimos dois anos, a Caixa Econômica Federal e a Embratur.

Procurado, o ministro disse que não interferiu em favor das contratações e que se afastou da gestão de suas empresas após assumir o cargo público (veja mais abaixo).

 

Os pagamentos foram feitos para a produtora Macaco Gordo, que pertence ao empresário Francisco Kertész, sócio de Sidônio em uma outra empresa: a M4 Comunicação e Propaganda — que depois mudou de nome para Nordx.

 

A M4 foi aberta no ano de 2022 para trabalhar na campanha eleitoral de Lula e, atualmente, sob o nome de Nordx, presta serviços para o diretório nacional do PT. Questionado, o empresário disse que a produtora foi escolhida em processos de concorrência por “adequação técnica” e pela oferta de menor preço.

 

Chico Kertész, como é conhecido, atualmente é sócio-administrador da agência Nordx. Sidônio ainda integra o quadro societário. Por ser ministro, porém, ele não pode mais ser sócio-administrador da empresa, função que também exercia quando a agência foi aberta.

 

A relação comercial entre Chico e Sidônio é anterior a essa empresa. A produtora Macaco Gordo presta serviços há diversos anos para a agência de publicidade de Sidônio, a Leiaute na execução dos contratos de publicidade do governo petista da Bahia, mas não trabalhava para o governo federal.

 

Com a vitória de Lula na disputa à Presidência da República, Sidônio passou a ser consultado em assuntos vinculados à imagem do governo. Em maio de 2024, por exemplo, quando o governo lançou campanha “Fé no Brasil”, Sidônio recebeu crédito de idealizador. Em janeiro deste ano, foi nomeado para a Secom da Presidência da República.

 

Chico também passou a frequentar eventos políticos em Brasília. Em 2025, com Sidônio já no posto de ministro, o dono da Macaco Gordo fez 13 visitas ao Palácio do Planalto entre janeiro e junho. Todas para se encontrar com Sidônio. Ao Estadão, Chico disse que os encontros foram “de cunho pessoal, sem que jamais tenha sido tratado das atividades da Macaco Gordo”.

 

Ele também é dono de uma rádio em Salvador, que tem uma linha de cobertura elogiosa a Lula e é ancorada por seu pai, o ex-prefeito de Salvador Mário Kertész.

 

No caso da Caixa, os pagamentos se intensificaram em 2025, após Sidônio ter se tornado ministro. A produtora do seu sócio foi a que recebeu os maiores valores para executar as peças publicitárias da estatal neste ano, em um total de R$ 4,3 milhões. Procurada, a Caixa diz que as contratações seguiram as normas legais (leia mais abaixo).

 

Os pagamentos das estatais ao sócio de Sidônio ocorrem de forma indireta. Assim como outros órgãos públicos, a Caixa e a Embratur mantêm contratos com agências responsáveis por criar campanhas publicitárias sob demanda, que foram contratadas por meio de licitação.

 

Quando esses serviços são executados, as agências subcontratam produtoras de vídeo, mas sem um processo licitatório formal. A partir de 2024, a Macaco Gordo foi contratada para produzir oito campanhas – seis delas do banco estatal e duas da empresa de turismo. Os dados foram obtidos pelo Estadão por meio da Lei de Acesso à Informação.

 

O órgão público não transfere o dinheiro diretamente para a produtora. Os valores são pagos às agências de publicidade, que ficam com o lucro correspondente e repassam parte dos recursos para as produtoras. Por isso, essas produtoras não aparecem nos portais do governo federal como empresas contratadas.

 

Não existe exigência de licitação para contratar essas produtoras. A agência de publicidade, porém, precisa fazer uma cotação de preços no mercado com no mínimo três diferentes propostas para justificar a contratação da mais barata. Esse procedimento não precisa seguir os parâmetros de transparência e publicidade definidos pela Lei das Licitações, já que a contratação não é feita diretamente pelo poder público. Mas, ao final da produção da campanha publicitária, o órgão público precisa dar sua aprovação ao processo.

 

Mesmo assim, nem sempre a regra dos orçamentos é cumprida. Os documentos obtidos pelo Estadão mostram que o maior pagamento recebido pela Macaco Gordo, para realizar uma campanha sobre renegociação de dívidas atrasadas para a Caixa, no valor de R$ 2,3 milhões, teve um aditamento com a dispensa na pesquisa de preços. A contratação foi em 2025.

 

A agência Calia, responsável pela campanha, fez uma cotação para produzir filmes publicitários de 30 segundos. A Macaco Gordo arrematou o serviço com uma proposta de R$ 1,6 milhão. Em seguida, a agência complementou o serviço contratado da Macaco Gordo e pediu a produção de outros filmes, que acrescentaram R$ 687 mil ao custo do contrato. Como justificativa, a Calia apresentou um documento dizendo que não iria realizar a cotação de preços porque se tratava apenas de um complemento.

 

Essa campanha, batizada de “Tudo em Dia Caixa”, incluiu a contratação do ator Paulo Vieira. Seu cachê foi pago à parte pela Caixa, mas os dados fornecidos pelo banco ao Estadão não incluíram esses valores.

 

“A produção de 01 FILME WEB REDUÇÃO DE 15′' referente a CAMPANHA CICLO CRÉDITO 2025 - ADIMPLÊNCIA - FASE 1 dispensa concorrência por se tratar de um serviço adicional ao anterior aprovado, conforme estratégia aprovada pelo cliente/agência”, diz um dos documentos. Questionada, a Calia negou irregularidades e afirmou que “o aditamento foi feito em razão de acréscimo quantitativo de objeto e período inicialmente contratado”.

No governo da Bahia, o Tribunal de Contas já apontou suspeitas de irregularidades no processo de escolha da Macaco Gordo para executar serviços da Leaiute, a agência de publicidade de Sidônio.

 

O tribunal entendeu que não havia detalhamento dos custos e suspeitou de um possível direcionamento à empresa. Com base nesses indícios, o Ministério Público da Bahia apresentou uma ação civil contra a agência de publicidade de Sidônio, que firmou um acordo para encerrar o processo e se comprometeu a implantar controles mais rígidos.

 

São João, afroturismo e Mega da Virada

A primeira campanha publicitária executada pela Macaco Gordo na Caixa sob o governo Lula foi sobre o concurso da Quina de São João, em junho de 2024. Foi concebida pela agência Binder e foi filmada na Bahia, em um cenário de festejo junino. A Macaco Gordo recebeu R$ 988 mil pelo trabalho.

 

Ainda naquele ano, também sob a agência Binder, a produtora fez as campanhas dos Poupançudos (personagens de desenho animado com dicas de educação financeira) e da Mega da Virada. A produtora recebeu, respectivamente, R$ 1,1 milhão e R$ 1,4 milhão pelos trabalhos.

 

Pela Embratur, a Macaco Gordo produziu uma campanha sobre afroturismo em 2024, concebida pela agência Calia, e filmada em pontos turísticos de Salvador e outras quatro localidades: Manaus, Rio de Janeiro, Fernando de Noronha e Recife. A produtora recebeu R$ 1,9 milhão pelo trabalho. A produtora também executou uma segunda campanha da Embratur em 2024 pela mesma agência, com o tema “projeto realidade virtual Sebrae”, por mais R$ 1,9 milhão.

 

A Calia ainda contratou a Macaco Gordo para uma campanha da Caixa sobre renegociação de dívidas atrasadas, em 2025, pagando R$ 2,3 milhões à produtora.

A agência Propeg executou mais duas campanhas com a Macaco Gordo pela Caixa neste ano: uma para a Lotofácil da Independência, com valor de R$ 1,5 milhão, e outra sobre o programa Minha Casa Minha Vida, de R$ 516 mil.

 

Em 2024, a Caixa registrou despesas de R$ 38 milhões com as produtoras responsáveis por suas campanhas publicitárias. Desse total, a Macaco Gordo faturou R$ 3,6 milhões. Neste ano, até o mês de setembro, a Caixa fez pagamentos de R$ 21 milhões às produtoras. A Macaco Gordo foi a que mais faturou: R$ 4,3 milhões, cerca de 20% do total.

 

As agências Binder e Calia afirmaram que a escolha da produtora foi feita em conformidade com a legislação, após cotação de preços no mercado. A Propeg não se manifestou.

 

Ministro afirma que ‘jamais’ indicou produtora de aliado

Questionado por meio da Secom, o ministro Sidônio Palmeira afirmou que “jamais” indicou a contratação da Macaco Gordo para campanhas publicitárias. O ministro, porém, não respondeu sobre as visitas do seu sócio, Chico Kertész, ao Palácio do Planalto.

 

“A escolha de qualquer fornecedor terceirizado, pelas agências licitadas, ocorre sem intervenção da Secom. O regramento em vigor obriga que as agências obtenham cotações de pelo menos três empresas capazes de prestar aquele serviço, de modo que a ofertante do menor preço o execute. No processo de aprovação das campanhas, compete à secretaria aprovar a linha conceitual e a alocação dos recursos nos diferentes veículos, à luz dos normativos de mídia técnica consolidados na legislação e nos acórdãos do Tribunal de Contas da União”, afirmou.

 

Na nota, a Secom ainda afirma que “jamais indicou ou endossou a escolha, pelas agências que prestam serviço à Embratur, à Caixa ou a qualquer outro órgão federal, de qualquer um dos fornecedores que tenham sido escolhidos”.

 

“Antes de assumir o cargo que hoje ocupa, o ministro Sidônio Palmeira afastou-se das funções de gestão e de administração das empresas em que já atuou, em absoluto respeito à legislação vigente e aos princípios éticos da alta administração federal. Desse modo, é descabido, infundado e mentiroso insinuar que tenha havido qualquer ingerência do ministro em favor de empresas ou indivíduos durante qualquer decisão de que ele tenha participado no âmbito do governo federal”.

 

Dono da Macaco Gordo diz que produtora foi escolhida por menor preço

O empresário Chico Kertész afirmou que sua produtora tem mais de 15 anos no mercado e foi escolhida por apresentar qualificação técnica e menores preços.

“A Macaco Gordo é uma produtora audiovisual que tem 15 anos de história e um portfólio com projetos realizados para mais de uma centena de clientes, como Natura, Britania, Perdigão, Multishow, Rede Globo, Rede Record, SBT e Ivete Sangalo, entre outros no mundo privado. Já no setor público, já prestamos serviços para as prefeituras de Salvador e do Rio de Janeiro e para os governos estaduais do Maranhão, do Pará e da Bahia. No caso dos projetos realizados para o governo federal, a produtora foi contratada por agências de publicidade que, conforme previsão contratual, devem terceirizar parte dos serviços pelos quais são responsáveis. Essa contratação decorre de concorrência interna, em que apresentamos orçamento e plano de trabalho, avaliados em razão da adequação técnica e da oferta do menor preço”, afirmou, em nota enviada ao Estadão.

 

O empresário também afirmou que disputou as cotações de preços “a convite das agências publicitárias”. “Em todos esses casos, ingressamos no processo de concorrência a convite das agências publicitárias, sem contato com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República ou com qualquer outro órgão da administração. Não houve, em nenhuma hipótese, engajamento de nenhum membro da Secom na apresentação, avaliação ou execução desses projetos junto às agências”, afirmou.

 

Caixa diz que seguiu critério de menor preço

A Caixa afirmou, em nota, que as contratações de serviços de produção publicitária realizadas pelas agências no âmbito dos contratos seguem os critérios estabelecidos pela legislação e pelas normas internas da estatal. Disse ainda que a escolha da Macaco Gordo foi aprovada pelo banco e se deu por critério de menor preço, mediante processo de cotação no qual foram coletados pelo menos três orçamentos no mercado. “Desde janeiro de 2023, a Caixa trabalhou com 41 produtoras de vídeo’.

 

“A Caixa esclarece que as contratações de serviços de produção publicitária realizadas pelas agências Propeg, Calia e Binder, no âmbito dos contratos vigentes com o banco, seguem os critérios estabelecidos pela legislação e pelas normas internas da instituição. A escolha da produtora Macaco Gordo para a produção de filmes publicitários ocorreu por meio de processo de cotação conduzido pelas agências de publicidade licitadas, conforme previsto contratualmente. A produtora foi selecionada por apresentar a proposta de menor preço entre, no mínimo, três orçamentos coletados no mercado. Desde janeiro de 2023, a Caixa trabalhou com 41 produtoras de vídeo. A Caixa aprovou os orçamentos apresentados pelas agências e autorizou a produção das campanhas por representarem a proposta de menor custo, em conformidade com os ritos legais e contratuais vigentes”, diz a nota.

Publicidade

Embratur defende legalidade de concorrências

A Embratur afirmou, em nota, que realiza chamada pública e sessões públicas para a escolha das produtoras que executam as campanhas, com a entrega de proposta em envelope lacrado. Disse ainda que não houve interferência de Sidônio. “O processo de seleção da produtora é realizado pela agência de publicidade à frente da campanha”, disse.

Agências defendem regularidade da contratação

A agência Binder afirmou que a escolha da Macaco Gordo ocorreu “após processo de cotação de valores de mercado e por ter apresentado o menor valor dentre todas as propostas recebidas”. A agência Calia também disse que a escolha da produtora ocorreu após processos pelo critério de menor preço. A Propeg não se manifestou.

Lula dobra aposta no embate

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva não engoliu a derrota da Medida Provisória (MP) que aumentava impostos na Câmara e vai dobrar a aposta no embate político. Desta vez, o Executivo vai segregar as propostas da MP em dois projetos de lei diferentes, deixando em um deles os trechos que ampliam a arrecadação e em outro aqueles que cortam gastos. De acordo com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a ideia é mesmo encurralar a oposição, que não terá o “pretexto de não votar o que eles reivindicam como agenda deles” – no caso, as medidas de contenção de despesas.

 

Ressentidos por terem entregado de bandeja uma bandeira eleitoral para Lula – a aprovação, por unanimidade, da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o desconto para quem recebe até R$ 7.350 mensais e a taxação da alta renda –, Centrão e oposição aproveitaram a MP para impor uma derrota política ao governo com o discurso de que a sociedade não aguenta mais aumento de impostos.

Mais que rejeitar o aumento da carga tributária ou obrigar o governo a apresentar medidas efetivas de cortar gastos, o que a Câmara queria mesmo era travar o ímpeto de Lula de lançar programas eleitoreiros até o ano que vem. Sem a MP, nem a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) nem o Orçamento ficam de pé, um impasse que Lula precisa contornar.

 

Sabendo disso, o governo se esforçou muito para aprovar a MP e aceitou esvaziar sua capacidade de arrecadação, assentindo até mesmo com o fim da isenção das Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA). O fato de que nem essa concessão foi capaz de convencer a bancada ruralista a dar seu aval e a participação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, nas articulações evidenciaram que a resistência não tinha nada a ver com o mérito da MP.

 

As propostas, agora, serão reempacotadas. As medidas para conter despesas e limitar o uso de créditos tributários serão apensadas ao texto que torna crime hediondo falsificar bebidas, cuja tramitação foi acelerada em razão da crise do metanol. Já as propostas para elevar a tributação das bets e das fintechs e de elevar o imposto sobre os Juros sobre Capital Próprio (JCP) estarão em outro projeto, ainda não definido.

 

É improvável chegar a uma economia de R$ 15 bilhões apenas com a inclusão do Pé-de-Meia no piso constitucional da Educação e mudanças no seguro-defeso, pago a pescadores no período da piracema, e no Atestmed, sistema que garante a concessão de auxílio-doença sem a necessidade de perícia presencial. Tampouco parece crível esperar arrecadar R$ 8,3 bilhões com a tributação de bets, fintechs e JCP quando ainda nem há uma estratégia para aprová-las.

 

O que há de mais concreto é o limite para uso de créditos tributários pelas empresas para compensar o pagamento de impostos, que deve render R$ 10 bilhões e já foi negociado com o setor. Como os deputados vão receber essas propostas é uma incógnita, mas o importante para o governo é manter o embate com os parlamentares e garantir que o Orçamento funcione no papel, para não ter de alterar a meta fiscal. Que o eleitor não se deixe enganar: nem o governo nem a Câmara estão realmente preocupados com as contas públicas.

Compartilhar Conteúdo

444