Haddad, o injustiçado
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se sente injustiçado. Para ele, o esforço fiscal que o governo tem feito não recebe o devido reconhecimento, não apenas do mercado e da imprensa, mas também do Banco Central (BC). Esperançoso, o ministro ainda acredita que o empenho da equipe econômica será atestado. “Estou louco para ver uma ata do Banco Central dizendo que eu estou fazendo um esforço relevante, como fez o Fundo Monetário Internacional. Mas vai chegar meu dia”, afirmou, em entrevista ao Estadão.
Ninguém pode dizer que o trabalho do ministro seja fácil. É realmente desafiador defender o reequilíbrio fiscal com um presidente como Luiz Inácio Lula da Silva, que não vê problema em aumentar o gasto público, com um Congresso que se recusa a rever subsídios e a aumentar impostos para cobrir as renúncias e com um Judiciário que não vê problema algum em privilégios que garantem supersalários e ignoram o teto remuneratório. Mas daí a se sentir um injustiçado vai uma distância considerável.
O cargo de ministro da Fazenda requer muitas habilidades, e talvez a maior delas seja saber dizer “não” quando todos, especialmente seu chefe, esperam que diga “sim”. Pedidos para aumentar gastos e reduzir impostos virão de todos os lados diuturnamente – do próprio ministério, dos colegas de Esplanada, do presidente da República, do Legislativo, do Judiciário, do mercado financeiro, do setor produtivo.
Resistir a essas pressões é a essência do cargo, reconhecidamente o pior emprego do Brasil. Quando o ministro da Fazenda erra, as consequências afetam a vida de toda a sociedade. Quando acerta, não fez mais do que sua obrigação. É provável que isso explique por que o ministro diz não ter certeza de que quer continuar na Fazenda caso Lula seja reeleito.
Dito isso, seria de bom tom que o ministro fizesse um mea culpa sobre sua atuação nos últimos três anos, mas ele parece bastante satisfeito com o que fez. Na avaliação de Haddad, o arcabouço fiscal é a legislação mais avançada que o País já teve – a despeito de a dívida bruta na proporção do Produto Interno Bruto (PIB) continuar em ascensão. Para ele, a meta fiscal será cumprida – ainda que em seu limite inferior e excluindo várias despesas da conta.
É difícil compreender a lógica do ministro. Gestada para ser uma bandeira eleitoral, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, na avaliação de Haddad, foi feita de forma equilibrada e inteligente, muito embora técnicos do Senado não concordem com os cálculos da Fazenda.
Até a descabida tarifa zero para o transporte público, que em outros tempos seria descartada de imediato por qualquer ministro da Fazenda, por sua absoluta inviabilidade, está em estudo. “O trabalho que eu estou fazendo, se terminar a tempo, vai ser publicizado, e cada candidato que se vire para assimilar ou não”, afirmou Haddad.
O saldo negativo entre receitas e despesas, que ocorre de maneira sistemática desde 2014, é uma das principais razões pelas quais a taxa básica de juros está em 15% ao ano. Para Haddad, no entanto, tudo vai bem. É revelador que o ministro tenha dito que a inflação aumentaria “apenas” 0,2 ponto porcentual se os juros estivessem em 12% ao ano.
Mais de 30 anos após o Plano Real, Haddad ainda acredita na balela de que é possível tolerar um pouco mais de inflação para estimular o crescimento. Ora, a meta de inflação é de 3% e foi ele mesmo quem a definiu, juntamente com a ministra do Planejamento, Simone Tebet, e o então presidente do BC, Roberto Campos Neto.
E, se a inflação ainda não chegou à meta mesmo com a Selic a 15%, foi sobretudo porque o governo fez de tudo para impedir que isso acontecesse, ao apostar numa política fiscal expansionista, ao não apoiar reformas que cortem gastos de maneira estrutural, ao ampliar o crédito direcionado e ao alimentar incertezas quanto à estabilização da dívida pública, como descreveu o BC na ata da mais recente reunião do Copom.
Nada disso é obra do acaso. “Eu já falei que entreguei tudo aquilo que ele (Lula) encomendou. O que ele encomendou eu entreguei”, afirmou Haddad. Nisso, de fato, o ministro tem toda razão.
Escândalo no INSS volta a assombrar Lula
Apesar de ter sido encoberta pela sucessão de temas que assolaram o noticiário doméstico desde o começo do ano, como a guerra comercial de Donald Trump contra o Brasil ou o debate acerca da segurança pública, a crise do INSS volta a ser a alvo de atenção.
Nesta quinta (13), a Polícia Federal prendeu Alessandro Stefanutto, ex-presidente do órgão que ocupou o cargo de julho de 2023 a abril deste ano, quando a eclosão do escândalo forçou sua saída.
É um sinal salutar que, mesmo com a barulheira no mundo político, com direito à criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para apurar a fraude, o trabalho de investigação policial seguiu seu curso.
Ele já havia revelado as proporções infames do esquema descoberto, no qual entidades usualmente ligadas a políticos descontavam de forma não autorizada valores de aposentadorias e pensões na casa de mais de R$ 6 bilhões, segundo a investigação.
Por óbvio, a detenção de Stefanutto e outras frentes são parte do processo, não seu fim, sendo necessário estabelecer responsabilidades e garantir o amplo direito à defesa aos acusados.
Do ponto de vista político, a nova etapa da chamada Operação Sem Desconto é motivo para tensão extra no Palácio do Planalto, dado seu potencial impacto na campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026. Os elementos do escândalo são de facílima compreensão para o eleitorado: resumem-se ao proverbial roubo do dinheiro de velhinhos.
O que estará em jogo no próximo pleito é a paternidade do malfeito, cujas origens remontam à gestão de Michel Temer (MDB), entre 2016 e 2018.
O esquema prosseguiu no governo Jair Bolsonaro (PL) e chegou ao de Lula, quando atingiu o recorde de R$ 1,3 bilhão desviado em 2024, de acordo com a PF.
O trabalho da polícia abarca ambos os lados do espectro político. Entre os alvos da operação, além do ex-presidente do INSS nomeado sob Lula, está o ex-ministro do Trabalho de Bolsonaro Armed Mohamad Oliveira (PL).
Políticos do PSB do vice Geraldo Alckmin e do Republicanos do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também estão no rol de investigados, e ainda há suspeitas sobre sindicato no qual um irmão de Lula, conhecido como Frei Chico, é vice-presidente.
Com efeito, o Planalto corre para dizer que o problema é de todos —e que foi sob Lula que a PF enfim revelou o esquema. Pode ser, mas isso não apaga um fato básico do presidencialismo: toda e qualquer crise acaba na mesa do chefe do Executivo.
Governo Lula volta atrás em acordo com 41 países sobre descarbonização de caminhões
Pedro Lovisi / FOLHA DE SP
Menos de 24 horas depois de aderir a uma coalizão de outros 41 países sobre descarbonização de ônibus e caminhões, o governo federal voltou atrás e declarou ter cancelado sua participação na iniciativa. O recuo surge depois de reportagem da Folha que apontava contradições entre o acordo assinado e a narrativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na COP30, em Belém.
"O Ministério dos Transportes informa que, diante de interpretações divergentes quanto ao objetivo originalmente pretendido, determinou o cancelamento imediato da participação da pasta no memorando de entendimento que tratava da meta de emissão zero para veículos pesados e médios", afirmou a pasta em nota enviada à reportagem por volta das 13h30 desta quarta-feira (12).
Nos portais do ministério e da coalizão, no entanto, a participação do Brasil ainda é mencionada.
Na tarde de terça, durante a COP30, o governo federal, por meio do Ministério dos Transportes, havia assinado um memorando de entendimento que previa que até 2040 todos os caminhões e ônibus vendidos no país deveriam ser livre de emissões de gases de efeito estufa. Já em 2030, a meta era de 30% de veículos limpos.
A iniciativa, chamada de Drive to Zero e liderada pelo governo da Colômbia, tem como premissa a contabilização de emissões apenas a partir dos gases que saem do escapamento dos veículos, o que limita o acordo a veículos elétricos ou movidos a hidrogênio verde.
Os biocombustíveis têm carbono em sua composição e, por isso, liberam gases de efeito estufa quando são queimados. Mas eles são considerados limpos quando se analisa todo o seu ciclo de vida, incluindo a absorção de carbono das plantações das matérias-primas desses combustíveis.
Na prática, o acordo assinado pelo governo brasileiro, portanto, excluía caminhões movidos a biodiesel e biometano do mercado brasileiro a partir de 2040. Apesar de não ser deliberativo, o memorando indica o caminho que os países assinantes pretendem seguir em sua descarbonização.
O acordo ia em direção contrário ao pleito do presidente Lula durante a Cúpula do Clima, evento que antecedeu o início oficial da COP30, em Belém. Na ocasião, Lula pediu a adesão de países a um compromisso lançado pelo Brasil para o mundo quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2035, incluindo os biocombustíveis.
A agenda é estratégica para o agronegócio brasileiro, que vê oportunidade de alavancar suas exportações de etanol, biodiesel e biometano. Nos últimos meses, por exemplo, houve disparada nos emplacamentos de caminhões a gás no Brasil, que podem usar o biometano. No primeiro semestre, segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), foram 356, mais do que o dobro do que o ano passado inteiro.
A Folha apurou que a decisão de aderir à iniciativa partiu do Ministério dos Transportes —a presença do ministro Renan Filho na cerimônia era cogitada até segunda (10). Dentro do Itamaraty, que participa de discussões globais sobre o uso de combustíveis no setor rodoviário, técnicos desconheciam a iniciativa, assim como a indústria de biometano.
Após a publicação da reportagem de terça, representantes do setor de biocombustíveis solicitaram reuniões para a pasta. O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), presidente da Comissão Especial da Transição Energética da Câmara dos Deputados, publicou uma nota na tarde desta quarta dizendo que a adesão do Brasil ao acordo causou perplexidade no setor e comemorando o cancelamento em seguida.
Na nota enviada, o Ministério dos Transportes disse que "ainda que o referido memorando não estabelecesse metas vinculativas, a decisão busca assegurar total alinhamento entre as políticas do Ministério dos Transportes e as diretrizes estratégicas do Governo Federal".
"O caminho escolhido pelo Brasil para reduzir as emissões do setor de transportes é claro: quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2035, incluindo o avanço dos biocombustíveis. Essa é a base da transição energética nacional e representa o compromisso efetivo do Ministério dos Transportes com uma infraestrutura moderna, eficiente e ambientalmente responsável", acrescentou a pasta.
Correios: TCU faz auditoria presencial na estatal em crise para apurar possíveis irregularidades na gestão
Por Thaís Barcellos e Geralda Doca — Brasília / O GLOBO
Centro de Tratamento de Encomendas dos Correios em Benfica, Zona Norte do Rio — Foto: Fernando Frazão/EBC/Agência Brasil
O Tribunal de Contas da União (TCU) está realizando uma auditoria presencial nas instalações dos Correios para verificar possíveis irregularidades administrativas, financeiras, operacionais e institucionais no âmbito da gestão da empresa nos últimos anos.
A estatal vive a pior crise da sua história e tenta negociar um empréstimo de R$ 20 bilhões com aval da União para manter suas atividades desde a chegada do seu novo presidente, Emmanoel Rondon. A fiscalização atende a uma solicitação da Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização, Controle e Defesa do Consumidor do Senado.
O plenário do TCU deve discutir o tema na sessão desta quarta-feira. Segundo interlocutores a par do assunto, a auditoria, realizada pela equipe técnica especializada no setor de Comunicações, deve durar até o fim deste mês.
A Corte de contas já vem acompanhando a situação financeira dos Correios há algum tempo. Na semana passada, a empresa apresentou seu plano de reestruturação a representantes do tribunal.
Segundo documento obtido pelo GLOBO, o escopo da inspeção envolve uma série de possíveis irregularidades que constam da representação do Senado, que vão desde atrasos de repasses ao Postal Saúde, convênio dos servidores, e de pagamento a fornecedores até doações ao Rio Grande do Sul que não foram entregues, passando por transporte de baterias de lítio em possível desconformidade com as regras da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Acordo com Postalis no alvo
O TCU também vai investigar o contrato de confissão de dívida em que os Correios se comprometeram a transferir R$ 7,6 bilhões ao Postalis, fundo de pensão de seus funcionários, para cobrir metade do rombo do plano de aposentadoria.
Outro eixo da auditoria foca em questões financeiras e contábeis, como o atraso na divulgação do balanço do ano passado e mudanças nas informações de saldo do caixa deixados pela gestão no governo de Jair Bolsonaro, que terminou em 2022.
Além disso, a auditoria vai analisar o aumento de gastos com patrocínio de 2022 a 2024, despesas com serviços advocatícios e conflito de interesses na gestão.
Em relação à auditoria, a unidade técnica do TCU defendeu que a fiscalização ocorresse in loco na empresa (inspeção) "diante da relevância do objeto proposto" e também porque as demais auditorias realizadas ou em curso na Corte não atendem integralmente as solicitações do Congresso.
A fiscalização presencial prevê um exame minucioso e detalhado da situação, podendo incluir a verificação de documentos, processos e até mesmo o ambiente físico.
Lula leva 28 ministros a Belém e aposta em COP30 como ativo eleitoral
Por Bernardo Mello Franco / O GLOBO
Deu no Diário Oficial: de 11 a 21 de novembro, a capital do Brasil fica transferida para Belém. Lula parece ter levado a Lei 15.251 a sério. Nos últimos dias, carregou 28 ministros para circular na cidade-sede da COP30. Em campanha aberta à reeleição, o presidente apostou alto na conferência amazônica. Visitou aldeia indígena e quilombo, tomou açaí, inaugurou obras e quase perdeu a voz de tanto discursar. Só na cúpula dos líderes, fez cinco pronunciamentos em dois dias.
A COP recolocou Lula no centro do palco internacional. No front externo, ele voltou a pontificar como líder do Sul Global. Defendeu a troca da dívida de países pobres por serviços ambientais, lançou um fundo de preservação de florestas e cobrou grandes poluidores a financiarem ações contra o aquecimento do planeta.
No front doméstico, o presidente capitalizou resultados da gestão de Marina Silva no Meio Ambiente, como a redução dos incêndios florestais e a menor taxa de desmatamento na Amazônia em uma década. Ao desfilar os números, expôs o contraste com o antecessor, que tratava ambientalistas como inimigos e fazia piada com o apelido de “Capitão Motosserra”.
Ontem uma pesquisa da Quaest informou que 41% dos brasileiros acreditam que a COP vai trazer resultados positivos para o Brasil. Apenas 7% preveem saldo negativo, enquanto outros 41% acham que a cúpula “não fará diferença”. Segundo o mesmo levantamento, quase todos (94%) percebem mudanças no clima, como calor mais intenso e secas mais longas.
Os números sugerem que insistir no negacionismo não será bom negócio nas urnas. A ver se os protestos programados contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, apoiada por Lula, serão suficientes para arranhar a imagem verde que ele busca projetar.
Na política paraense, a COP virou ativo para os Barbalho. O governador Helder, que se reelegeu com 70% dos votos, agora saboreia uma temporada de projeção nacional. A cúpula animou a família a preparar uma dança de cadeiras nas eleições de 2026. O patriarca Jader Barbalho promete se aposentar, mas o clã terá candidatos ao Senado, à Câmara e à Assembleia Legislativa.
O desafio é convencer os eleitores de que a COP deixará um legado permanente — o que nem sempre acontece após grandes eventos internacionais.
- Lula e Fafá de Belém: Presidente contorna mal-estar com cantora
- A floresta no centro: Com atraso de 5 anos, Brasil recebe a COP
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/w/W/sl9sdmRs2I8XhRbMIIdA/54906841872-017e2b474a-k.jpg)
Lucro do Banco do Brasil cai mais de 60% no terceiro trimestre, ainda pressionado pelo agro
Júlia Moura / O ESTADÃO DE SP
O Banco do Brasil reportou, nesta quarta-feira (12), um lucro líquido ajustado de R$ 3,8 bilhões no terceiro trimestre de 2025, 60,2% menor que há 12 meses. O resultado, porém, veio acima da expectativa de R$ 3,55 bilhões de analistas consultados pela Bloomberg.
O resultado contábil foi de R$ 3,028 bilhões. O dado veio estável em relação ao trimestre anterior, mas, em comparação com o mesmo período de 2024, há uma queda de 66%.
O banco estatal passa por um momento de forte inadimplência de clientes do agronegócio, um dos seus principais segmentos, com diversos deles em recuperação judicial.
Junto ao balanço, o banco também divulgou uma revisão de suas estimativas para 2025 para baixo. Agora, o custo do crédito neste ano como um todo deve somar entre R$ 59 bilhões e R$ 62 bilhões (R$ 6 bilhões acima do anteriormente previsto) e com um lucro líquido entre R$ 18 bilhões a R$ 21 bilhões, ante R$ 21 bilhões e R$ 25 bilhões.
O RSPL (Retorno sobre o Patrimônio Líquido), que mede a rentabilidade do banco, ficou em 8,4%, também estável em relação ao segundo trimestre. No entanto, há um ano, esta métrica estava em 21,1%.
"O ano de 2025 é um ano de ajustes, marcado pela resiliência do nosso balanço diante de desafios. Atuamos com responsabilidade para controlar a inadimplência, gerar novos negócios e diversificar receitas, preparando o Banco do Brasil para um novo ciclo de crescimento", diz a administração do banco no balanço.
No trimestre, o custo de crédito foi R$ 17,9 bilhões, aumento de 12,7% na comparação com o trimestre anterior e um salto de 77,7% ante o ano passado. "Destaca-se que, além do aumento da inadimplência, em especial na carteira agro, houve agravamentos em casos específicos em Grandes Empresas", diz o balanço do BB.
A taxa de inadimplência do banco também segue em alta, com 4,93% da carteira de crédito em atraso há mais de 90 dias, um aumento de 1,6 ponto percentual em 12 meses.
A carteira de crédito expandida do BB terminou setembro com R$ 1,28 trilhão, uma alta de 7,5% em um ano e queda de 1,2% no trimestre. Os maiores crescimentos vieram de pessoas físicas, grandes empresas e exterior, com ganhos anuais de 7,9%, 8,4% e 21,9%. Na comapração trimestral, porém, apenas créditos a pessoa física e ao governo expandiram.
Os maiores bancos privados do país sinalizaram nas últimas semanas estar mais cuidadosos na concessão de crédito com receio do crescimento da inadimplência, em meio ao maior nível de juros registrado em quase 20 anos.
Durante a divulgação dos seus balanços do terceiro trimestre, eles disseram que por ora os atrasos estão sob controle, mas que o momento requer cuidado ao emprestar para consumidores de maior risco de crédito. O surgimento de novas recuperações judiciais de empresas também está no radar dos executivos.
A avaliação é que a taxa básica de juros (Selic) em dois dígitos desde fevereiro de 2022 tem penalizado a saúde financeira de indivíduos e companhias.
Apesar do juro em 15%, as carteiras de crédito seguem crescendo, ainda que em ritmo menor. Porém, segundo o Banco Central, as taxas de crescimento são maiores nas modalidades de crédito de maior risco, como o rotativo e o crédito pessoal consignado, no caso de pessoas físicas.
No BB, foram essas linhas que puxaram o crescimento da carteira de crédito. No caso dos clientes pessoas físicas, os empréstimos somam R$ 350,5 bilhões.
Junto ao balanço, o banco comunicou a distribuição de R$ 410.587.269,98 em JCP (Juros sobre Capital Próprio) em 11 de dezembro, tendo como base a posição acionária de 1º de dezembro. Serão R$ 0,07192713139 por papel.
RAIO-X | BANCO DO BRASIL NO 3º TRI DE 2025
Fundação: 1808
Lucro: R$ 3,8 bilhões
Agências: 3.997
Funcionários: 87.101
Principais concorrentes: Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Nubank e Caixa Econômica Federal

246 suspeitos de integrar facção e homicídios são presos em 60 horas no CE
Todos os presos são suspeitos de envolvimento em Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) e outros crimes em todo o estado, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS).
Os indivíduos capturados no Ceará durante o final de semana são suspeitos de praticarem diversos atos criminosos, tais como:
- homicídio doloso;
- estupro de vulnerável;
- tráfico ilícito de drogas;
- roubo;
- furto;
- organização criminosa;
- violência doméstica.
A operação teve como objetivo combater a atuação de grupos criminosos e coibir os CVLIs. O titular da Coordenadoria Integrada de Planejamento Operacional (Copol), delegado Harley Filho, destacou o êxito da ação e os resultados alcançados.
“Do total de quase 250 pessoas presas, foram capturados diversos homicidas e integrantes de organizações criminosas, não apenas em Fortaleza, mas também em pontos estratégicos da Região Metropolitana e do Interior Norte”, analisou o delegado.
Harley disse ainda que também foram apreendidas quase 60 armas de fogo e cerca de 10 quilos de substâncias entorpecentes.
“Esses números refletem a motivação dos profissionais envolvidos e o investimento do Estado, por meio do aporte de horas extras, o que tem possibilitado a ampliação do efetivo policial nas ruas e o fortalecimento do enfrentamento à criminalidade”, ressaltou o delegado.
DIVERSOS CRIMES E MANDADOS EM ABERTO
A SSPDS ressaltou que os suspeitos foram pesos por envolvimento em crimes de diversas naturezas e em todas as regiões do estado.
omente por autos de prisão e apreensão em flagrante, foram 219 capturas – sendo 58 apenas na Capital, 44 na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), 45 suspeitos capturados na Região Norte e 72 na Região Sul.
Diligências operacionais realizadas pelos agentes da Polícia Civil e da Polícia Militar resultaram, ainda, na captura de 27 suspeitos que estavam com mandados de prisão em aberto.
Os alvos foram localizados e conduzidos para unidades da PCCE, onde foram efetivados os cumprimentos das ordens judiciais.

Lula se irrita com Centrão, dobra aposta em Messias para STF e fatura do Senado fica mais cara
Por Vera Rosa / O ESTADÃO DE SP
Pouco depois de chegar a Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi informado de que a temperatura das articulações contrárias à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) estava mais elevada do que a de Belém. Envolvido nos últimos dias com a Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), na capital do Pará, Lula não escondeu a irritação: decidiu dobrar a aposta.
Enquanto não anuncia que seu escolhido é Messias, no entanto, o chefe do Executivo fica refém de todo tipo de “toma lá dá cá”. Além disso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) – fiador e cabo eleitoral de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) –, vai ganhando mais crédito na conta com o Palácio do Planalto.
Diante da desconfiança em relação ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) – sobretudo depois que ele indicou o deputado Guilherme Derrite (PL), secretário da Segurança do governo Tarcísio de Freitas, como relator do projeto antifacção –, Lula precisa cada vez mais de Alcolumbre. O senador atua como uma espécie de “facilitador” do Planalto no Congresso.
Agora, por exemplo, o Centrão pede o comando do Banco do Nordeste, a presidência e a superintendência-geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e uma vice-presidência da Caixa Econômica Federal. O PT também está prestes a perder o controle do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) para o União Brasil, como mostrou o Estadão.
Amigo de Pacheco, Alcolumbre nega a moeda de troca para conseguir apoio a Messias, mas avisou Lula que, se o governo não entrar logo em campo, o advogado-geral da União terá dificuldades quando for sabatinado pelo Senado. Pelos números de suas planilhas, a maioria dos parlamentares prefere Pacheco no STF.
Em público, o Centrão não vincula o aval ao nome de Messias à liberação de cargos, mas, nos bastidores, põe tudo na fatura cobrada do Planalto. Interlocutores de Alcolumbre alegam, ainda, que o atendimento das demandas políticas é fundamental para Lula manter a “governabilidade” na CPI do INSS. No caso do STF, o argumento usado por senadores de partidos como o União Brasil, PP e PSD é de que ninguém quer na Corte “um novo Dino”.
Aprovado em dezembro de 2023 pelo Senado para ocupar a vaga de Rosa Weber, Flávio Dino obteve o apertado placar de 47 votos, apenas seis a mais do que o mínimo necessário. Seis meses depois, iniciou uma verdadeira cruzada contra o orçamento secreto. Ao jogar os holofotes sobre o desvio de recursos das emendas parlamentares, virou “persona non grata” no Congresso.
Uma ala do Senado, liderada pelo PL de Jair Bolsonaro, com respaldo de integrantes do Centrão, pretende agora usar a votação do nome de Messias, quando sua indicação for enviada por Lula, para impor uma derrota maiúscula ao governo. Mas não se trata só disso: a ideia é sinalizar para um “impeachment simbólico” de ministro do STF, já que a chance de uma proposta assim sair do papel é remota.
Lula disse a aliados que se arrependeu de indicações feitas para a Corte por recomendação de juristas, principalmente em seu primeiro mandato, quando o PT e o governo quase foram dizimados pelo escândalo do mensalão. Agora, porém, só ouve uma pessoa: ele mesmo.
Com obras ainda em andamento, Belém se prepara para testar infraestrutura na COP30, que consumiu R$ 4 bilhões
Por Lucas Altino— Belém / O GLOBO
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/p/j/T9ihGyTgidWpNMrCJOZQ/20251108115256-gf00025415-f00464331.jpg)
Na quinta e na sexta-feira, foi decretado feriado municipal, a fim de desafogar o trânsito. A situação favoreceu a logística, que a partir de amanhã, quando começa oficialmente a COP30, será mais uma vez colocada à prova. A expectativa é que cerca de 50 mil pessoas cheguem à cidade.
Em alguns pontos, o cenário de canteiro de obras se mantém. Neste sábado, por exemplo, o governo estadual inaugurou mais uma obra: a macrodrenagem do canal União, no bairro do Marco.
Ao todo, foram mais de 30 obras. A administração de Helder Barbalho (MDB) informou que os investimentos para a COP chegaram a R$ 4,5 bilhões, somando tesouro estadual, BNDES, Caixa Econômica e parceria com a Itaipu Nacional. Já a União cita um valor, de sua parte, de R$ 4,2 bilhões, mas também considerando os recursos do BNDES. Procuradas, as partes não souberam esclarecer o valor total, evitando repetições. A prefeitura investiu R$ 63,5 milhões.
Otimismo da população
Desde o anúncio da sede, autoridades defendem que as obras na cidade serão um legado para a população, com destaque para o Parque da Cidade, onde acontecerão as reuniões da COP, a macrodrenagem de 13 canais, as reformas do Porto de Outeiro e Mercado de São Brás e a implantação do novo BRT.
No caminho, não faltaram turbulências. Além de críticas sobre alguns gastos e suposta ausência de projetos para a periferia, a crise da oferta e preços de hospedagem, que assustou comitivas internacionais nos últimos meses, evidenciou problemas de gestão e gerou, inclusive, pedidos pela troca de sede da COP30.
Mas, chegada a conferência, a maioria dos moradores ouvidos pela reportagem diz que as obras melhoraram a cidade. Entre participantes da cúpula de líderes, a impressão inicial foi positiva.
Kaline Lima, motorista de aplicativo, mantém expectativa positiva de um legado para a cidade. Apesar de se dizer cética quanto a soluções climáticas, ela afirma que a recuperação de galpões abandonados, transformados no Porto Futuro II, foi bem-vinda para a população, e as reformas do aeroporto e do Porto de Outeiro serão essenciais para manter o turismo aquecido.
Já os Parques Lineares ela destaca que, apesar de positivos, serviram mais para “esconder o esgoto”. Em Belém, mesmo nos bairros mais ricos, é normal ver o despejo correndo a céu aberto.
Durante o encontro de chefes de Estado, a motorista elogiou o esquema de trânsito.
— Está melhor que o normal, o feriado funcionou. Muita gente viajou para praias próximas — disse Kaline.
Cofundador do Observatório das Baixadas, ONG ambiental que foca nas periferias, Andrew Leal disse que as vias centrais ficaram de fato desafogadas com o esquema desenhado, em que algumas avenidas eram bloqueadas para passagem exclusiva de ônibus da COP. Por outro lado, ele cita que algumas regiões da periferia ficaram sobrecarregadas e com trânsito.
Esta semana não será feriado, mas haverá ponto facultativo para o funcionalismo público e férias escolares. Assim, o governo acredita que o trânsito continuará bom.
Para Leal, as obras na cidade foram positivas, apesar de sua queixa sobre a concentração dos investimentos na região central.
— O movimento está grande nos locais inaugurados, vai impulsionar de fato a economia turística. Já as obras para o problema de saneamento e as inundações vão ajudar, mas não resolvem totalmente, até porque precisaria remodelar toda infraestrutura da bacia. Essa semana choveu e inundou algumas regiões da cidade.
Para amenizar o forte calor, de quase 40ºC nos últimos dias, pontos de hidratação foram distribuídos nos pontos mais movimentados da cidade. A Águas do Pará instalou 13 pontos, que garantem água até para pets, no Parque da Cidade, Estação das Docas, Nova Doca, Mangal das Garças e Parque do Utinga. Já a Companhia de Saneamento do Pará instalou no Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna, Porto Futuro e na Green Zone da COP30.
Durante a conferência, parte das delegações internacionais precisará apenas atravessar a rua para acessar a área oficial do evento. São os hóspedes da Vila COP, área de 19 mil metros quadrados, com cinco blocos que somam 405 suítes, 37 presidenciais, inaugurada às vésperas do evento. A partir do ano que vem, o espaço, que custou cerca de R$ 200 milhões, será convertido em um centro de administração estadual.
Por motivos de segurança, a Vila não pode receber visitantes nem imprensa nessa semana. Mas, na última quinta-feira, O GLOBO acessou o lobby de recepção, onde uma cafeteria de uma tradicional rede argentina atraía os hóspedes. A Vila ainda conta com escritórios, salas de reunião, academia, quiosques de artesanato e souvenirs. Os quartos estão sendo usados principalmente por delegados internacionais, responsáveis pelas negociações durante a COP. Poucos são os chefes de Estado. Entre os nomes mais conhecidos da lista, está o da ex-presidente Dilma Roussef, que hoje comanda o Banco dos Brics.
Hospedagem no porto
Outra solução pensada para a hospedagem foi a contratação de dois transatlânticos, que somam seis mil leitos, atracados no Porto de Outeiro. Lá, ficará boa parte da delegação brasileira, além de algumas comitivas internacionais, como a da Itália e da própria ONU.
Gabriela Lima, gerente de projetos da Secretaria Extraordinária para a COP30, responsável pela operação do Porto de Outeiro, explica que as cabines variam de perfil, e chegam até ao luxo de 5 estrelas. A operação de logística, ela diz, é rápida:
— O hóspede sai de sua cabine, pega uma van e em quatro minutos está no receptivo, onde pega um ônibus até a Blue Zone.
O trajeto do Porto ao local da COP dura cerca de 40 minutos, quase meia hora a menos do que durava antes da inauguração da nova ponte do outeiro, feita para o evento. Além disso, o próprio porto foi reformado, em uma obra de R$ 233 milhões, para possibilitar a atracação de mais navios: de um para cinco.
Jardel Silva, diretor presidente da Companhia Docas do Pará, afirma que o novo Porto abre um novo horizonte de turismo para a cidade.
— Cada navio que atraca aqui é uma fábrica de emprego, oportunidade, renda. Fora que além das operações de turismo, a gente vai poder seguir com novas operações de carga — celebra.
Caetano Scannavino, integrante do Observatório do Clima e morador do Pará, diz que os percalços eram previstos e aposta que o evento será bem-sucedido.
— É uma cidade que ainda está em obras. Mas Belém se preparou, a população se preparou e o povo aqui tem o orgulho de hospedar a COP.
Se parcerias com o setor privado funcionam bem em diversas áreas, por que não aplicar na educação?
Por Fernando Schüler / O ESTADÃO DE SP
Cerca de 95% dos alunos que concluem o ensino médio em nossas redes públicas não sabem o adequado em matemática. Não é um problema deste ou daquele governo. A falência é crônica. Em 2009, nossos alunos obtiveram 386 pontos em matemática, no PISA, da OCDE, contra 379 pontos, em 2022. Em doze anos, aumentamos o recurso para a educação, mas os resultados são pífios. Recentemente, o Estado de Minas Gerais fez um movimento para virar o jogo: o projeto Somar, permitindo que três escolas da periferia de Belo Horizonte tivessem gestão privada. O projeto vem dando certo. As faltas de professores diminuíram, o desempenho melhorou. Em qualquer país civilizado, seria a senha para corrigir falhas e seguir em frente. Mas não no Brasil. Por esta semana, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) mandou proibir a iniciativa, a partir de uma ação do sindicato de professores.
Esta tem sido a crônica brasileira. Criamos um sistema de monopólio estatal da educação pública. Ele não funciona, mas não reagimos. Não funciona em razão da burocracia, do mando corporativo, da falta de competição e incentivos. E a cada vez que alguém tenta mudar, a reação é feroz. Nos tornamos um vergonhoso país do status quo, na educação. Há várias razões para isso. Uma delas é que se trata de um drama em banho-maria. Na saúde, é chocante ver um idoso morrer na sala de espera de uma unidade do SUS. Na educação, um jovem negro abandona a escola e a maioria não aprende. Mas quem se preocupa? Outra razão: famílias de menor renda não têm poder de pressão. Já os sindicatos e ONGs ideológicas, têm de sobra. E por fim, a indiferença. Quem tem dinheiro, no Brasil, põe o filho na escola privada. Está “protegido”, no mercado. Alguém acha que os juízes que decidiram proibir os alunos mineiros de estudar em escolas com gestão privada topam colocar os próprios filhos no sistema estatal?
Os bons exemplos estão aí, a nossa disposição. Na Inglaterra, o sistema das Academies é um sucesso. A escola é pública, a gestão privada. No Brasil, é só ir até a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, e visitar o IMPA, instituição modelo no ensino e pesquisa da matemática. Há 25 anos ela é gerida por uma Organização Social privada. A pergunta óbvia é: qual o princípio metafisico que impediria que isto também fosse feito em nossa educação básica?
No Brasil recente, nossos aeroportos deram um salto de qualidade migrando para a gestão privada. O mesmo se dá com a cultura, as ciências e o meio ambiente, em casos de sucesso como a OSESP e o Museu do Amanhã. Ou ainda com o Porto Digital, no Recife, ou parques como o das Cataratas do Iguaçu e o Ibirapuera, em São Paulo. Se o modelo funciona em todas estas áreas, por que não poderia funcionar na educação? É evidente que poderia. O que temos é apenas o mando das corporações. Justamente na educação, optamos pelo atraso. E quem sabe só vamos resolver o problema quando levarmos nossas escolas tão a sério como levamos a qualidade de nossos aeroportos. Isto definitivamente não deveria ser assim.



