Lula e o PT não ouviram o bom conselho da autocrítica
Dora Kramer / Jornalista e comentarista de política / folha de sp
Pleito batendo à porta, a campanha da reeleição ainda está no modo "onde foi que erramos?", sem conseguir chegar ao ponto de virada. Houve um equívoco de origem que Luiz Inácio da Silva e o PT não cometeram sozinhos.
A quase totalidade do mundo político e adjacências compartilhava a visão de que Flávio Bolsonaro (PL) seria presa fácil, escolhido pelo pai para manter o nome da família na roda. Era essa a impressão que davam os telhados de vidro e a falta de lastro do moço.
Pois eis que a má avaliação do governo se juntou à identificação bolsonarista, encontrou abrigo na soberba petista e produziu o cenário de empate que flerta com aquela vitória considerada improvável.
Mesmo quando o transcorrer da campanha sinalizava desmentido à interpretação inicial, continuou dominante a indiferença aos fatos. O despertar veio tardio e improvisado, na forma de medidas tão populistas quanto irresponsáveis para tentar reduzir o presumido prejuízo.
Reação pautada pela suposição de que o eleitorado —ou a parcela mais necessitada— está sempre à venda. Não se levou em conta a fadiga do país com Lula e com um partido que chegou aos quase 18 anos no poder sem um plano para tirar o Brasil do atraso.
Seria de se esperar que gente com expertise de cinco governos e inúmeras campanhas eleitorais nos 46 anos de vida do PT percebesse que a luta era dura, que a população queria outro tipo de diálogo, que era preciso falar do futuro como gente grande.
No entanto, prevaleceu o projeto de culto à personalidade de Lula, a submissão ao líder, a suposição de que ele seria uma fonte inesgotável dos votos necessários à sobrevivência da esquerda. Não se ouviu o bom conselho da autocrítica que facilita o discernimento entre desejo e realidade.
O corre-corre de última hora até pode atingir o objetivo de obter os votos que tirarão a diferença na urna, mas não apagará o fato de que Lula e o PT não levarão o país a um bom lugar nos próximos quatro anos se não se dispuserem a mudar.
Com seis anúncios de apelo a um mês do pleito, Lula eleva 'canetadas' eleitorais a patamar inédito no século
Por Paulo Assad / O GLOBO
Pressionado pelas diferentes pesquisas que o colocam em empate técnico com o senador Flávio Bolsonaro (PL), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apostou, ao longo de setembro, em medidas de apelo eleitoral na tentativa de impulsionar a campanha às vésperas do primeiro turno. A quantidade, a variedade e o recorte temporal das movimentações, embora repitam expediente empregado por outros ocupantes do Planalto, levam a sequência de anúncios — que vão do fim das bets ao aumento do Bolsa-Família — a um patamar inédito neste século.
Levantamento do GLOBO listou pelo menos seis decisões com forte apelo tomadas pelo petista desde o início do mês passado. Para especialistas, apesar da estratégia direcionada ao humor do eleitor, a tática pode ter tanto “fôlego curto” quanto efeitos tardios, sentidos só após o primeiro turno a ser realizado no próximo domingo ou mais tarde.
A novidade mais recente foi a assinatura, na última sexta-feira, de uma medida provisória que proíbe plataformas de apostas on-line de operarem no Brasil. Na mesma data, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou uma nova edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas lançado em 2023. A expectativa do governo é que R$ 150 bilhões em débitos de famílias sejam adquiridos pelo estado. O primeiro leilão, no entanto, só deve acontecer em novembro, depois das eleições.
A lista inclui também o reajuste de 15% no Bolsa Família, o primeiro concedido por Lula neste mandato. O aumento no benefício em ano eleitoral não é inédito, tendo ocorrido sob diferentes presidentes, como Dilma Rousseff (PT) em 2014 e Michel Temer (MDB) em 2018. Ainda que acréscimos inclusive superiores já tenham ocorrido no passado — caso de Jair Bolsonaro (PL), que em 2022 deu R$ 200 a mais aos beneficiários do programa, rebatizado de Auxílio Brasil —, é a primeira vez que isso ocorre a menos de um mês do primeiro turno.
Em setembro, Lula também usou um decreto e uma MP para reduzir o preço da gasolina e do diesel. Dias antes, ele sancionou a lei que põe fim à “taxa das blusinhas”, regra de tributação criada pelo próprio governo em 2024. Mais recentemente, o Ministério da Saúde solicitou a inclusão das canetas emagrecedoras no SUS à comissão responsável. A medida veio após um anúncio do presidente durante ato de campanha em Minas Gerais.
— O governo dedicou muito espaço a temas de difícil tradução eleitoral, como soberania, terras-raras e inteligência artificial — analisa o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), que vê um uso “apressado” das “ferramentas da incumbência”. — Os efeitos poderão ter um fôlego curto. E é possível que sejam tardios, a serem sentidos apenas ao longo de outubro.
Como foi no passado
Historicamente, a maior parte das decisões com esse perfil tende a ser tomada em meses anteriores. Em 2006, quando também disputava uma reeleição, Lula anunciou apenas dois pacotes após setembro: um para o setor de habitação e outro para reduzir os juros. Meses antes, no entanto, o Bolsa Família havia ampliado o seu alcance e passado a atingir 11,1 milhões de pesosas. Em 2010, tendo Dilma favorita para sucedê-lo, o petista foi ainda mais comedido, divulgando apenas o acesso de estudantes ao Fies mesmo sem fiador já tão em cima da votação.
Bolsonaro, por sua vez, apostou, às vésperas do primeiro turno de 2022, na entrada de novas famílias no Auxílio Brasil, na regulamentação do empréstimo consignado no benefício e na redução dos preços de combustíveis e do gás de cozinha. Na época, a Caixa também lançou linhas de produtos com vantagens para mulheres — segmento no qual as pesquisas eleitorais indicavam um ponto fraco do então presidente.
Presidente Lula e ministros anuncia o fim das bets. — Foto: Edilson Dantas / O Globo
Ciro diz que pesquisa não mexe na estratégia e vai focar em cidades que são 'pontos de influência'
Escrito porLuana Barros e Milenna Murta*/ DIARIONORDESTE
Ciro Gomes (PSDB), candidato ao Governo do Ceará, disse, nesta quinta-feira (24), que prefere não comentar a segunda rodada da Pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (23). O levantamento mostra, pelo primeira vez, Ciro e Elmano de Freitas (PT) tecnicamente empatados.
"Eu não comento pesquisa. Pesquisa é retrato, e a vida é filme", disse o candidato que participou de uma caminhada pelo bairro Paupina, em Fortaleza.
para baixo. Já Elmano, subiu sete pontos percentuais, somando 41%. A margem de erro é de 3 pontos percentuais.
Ele afirmou que acompanha as "indicações" das pesquisas com "certa vivência" e com a experiência de 40 anos na vida pública. "Essas coisas não mexem com nada, está tudo certo", disse.
Ciro pretende visitar cidades que sejam 'pontos de influência'
Ciro Gomes também falou sobre a estratégia para a reta final da campanha para o Governo do Ceará. Faltam agora 10 dias para o 1º turno das eleições, que será realizado no próximo dia 4 de outubro.
Ele citou como exemplo as agendas que deve cumprir ainda nesta quinta, com previsão de entrevistas em Sobral e carreatas nas cidades de Paracuru e Itapipoca.
Ainda segundo ele, as "linguagens" utilizadas na campanha devem seguir sendo diversas, com a realização de caminhadas, carreatas e entrevistas, dentre outras.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.

Dino atua para reeleger Lula
Por
Foi exclusivamente política a decisão que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou ao derrubar uma ordem do ministro André Mendonça, na condição de vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para remover publicações em redes sociais que prejudicavam o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
Dino atropelou competências de maneira monocrática e atuou de forma escancarada como militante da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Nada surpreendente, diante da baderna judicial à qual infelizmente o País já começa a ficar habituado, graças à irresponsabilidade de uma parte dos ministros do Supremo.
Na sexta-feira passada, o ministro André Mendonça mandou tirar do ar 1.125 publicações segundo as quais Flávio Bolsonaro, na condição de senador, havia apoiado um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. A informação, inverídica, foi criada e difundida por perfis de esquerdistas.
Pode-se até discutir se o TSE deveria ter derrubado as publicações, à luz da garantia constitucional da liberdade de expressão e também à luz da autonomia do eleitor, mas o que é indiscutível é a competência da Justiça Eleitoral para fazê-lo – e de modo célere, se entender que as publicações podem desequilibrar a disputa eleitoral.
O ministro Flávio Dino, recorde-se, é o mesmo que ignorou as garantias constitucionais do sigilo da fonte e da liberdade de imprensa ao usar seu poder para perseguir um jornalista do Maranhão, seu reduto político, por ter publicado notícias das quais ele não gostou. Recorde-se também que o ministro Flávio Dino jamais disse uma única palavra contra as inúmeras decisões arbitrárias de seu colega Alexandre de Moraes contra bolsonaristas suspeitos de “golpismo”, incluindo censura e suspensão de perfis em redes sociais. Logo, sua súbita conversão em paladino da defesa da liberdade de expressão é apenas cínica.
Nada disso pode ser lido fora do contexto da sangrenta rinha de galo em que o Supremo mergulhou, opondo lulistas e bolsonaristas. Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e fidelíssimo escudeiro do presidente, foi colocado no STF porque, nas palavras do petista, tem “cabeça política”. E ele não vem decepcionando: está na linha de frente na defesa dos interesses de Lula no tribunal, sobretudo quando se trata de confrontar os ministros indicados por Jair Bolsonaro – André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
O resultado disso é que, de uns tempos para cá, quase todas as decisões importantes emanadas da Corte são entendidas como resultado de confronto político, e não jurídico. A Constituição é mera figurante nessa confusão. Nos votos dos ministros, a hermenêutica é exclusivamente política, e o que resta aos cidadãos é procurar entender quem ganha e quem perde com esta ou aquela sentença. Às favas a jurisprudência.
É evidente que isso desmoraliza ainda mais o Judiciário, já bastante desacreditado, como indicam claramente inúmeras pesquisas de opinião. Ministros que só se preocupam com o horizonte eleitoral colaboram de modo decisivo para arruinar a necessária imagem de imparcialidade e prudência que o Supremo, mais do que qualquer outro tribunal, deveria ter. Hoje, já é possível dizer que o Supremo, tal como desenhado na Constituição, está definitivamente arruinado.
Para piorar, mais uma vez o País está perdendo tempo e energia com temas absolutamente inúteis para o futuro, empobrecendo ainda mais uma campanha eleitoral que já não despertava grande interesse por sua absoluta indigência. Na prática, a consequência desse irrelevante caso de fake news contra Flávio Bolsonaro será a confirmação, de resto desnecessária, de que os agentes de Lula no Supremo não medirão esforços para eleger o chefão petista – uma clara aposta na manutenção do atual estado de coisas e na nomeação de mais ministros que tornem o bloco lulopetista no Supremo imbatível. O problema é que se trata de algo tão escandalosamente claro para todos que o tiro pode acabar saindo pela culatra.
Justiça Eleitoral tem de ser rígida com candidatos suspeitos
Por Editorial / O GLOBO
Até dezembro de 2024, a Justiça Eleitoral costumava barrar candidaturas apenas de condenados em segunda instância, como determina a Lei da Ficha Limpa. Naquele momento, ao julgar o recurso impetrado por um candidato no município fluminense de Belford Roxo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) formulou um entendimento segundo o qual devem ser barradas candidaturas com “indícios robustos” de envolvimento com o crime organizado, ainda que não haja condenação em segunda instância. A eleição deste ano é a primeira em que a jurisprudência tem sido aplicada. Pelo que foi observado até agora, é necessário que o TSE zele para que seja adotada de modo uniforme pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) — sempre pela interpretação mais rígida.
A tentativa de infiltração das facções criminosas nas instituições justifica a postura conservadora. Até a semana passada, o TRE-RJ havia rejeitado 15 candidaturas por suspeita de vínculo com o crime organizado, mas não havia um só veto do tipo aplicado pelo TRE-SP. Pode ser que haja justificativas plausíveis para a disparidade, mesmo assim ela levanta dúvidas. Ainda mais depois da operação que desbaratou, na semana passada, as conexões do PCC — a maior facção criminosa do país — com 12 das 22 empresas de ônibus paulistanas e com o clã político do ex-vereador Milton Leite, que presidiu a Câmara Municipal por quatro mandatos.
Ao TRE-SP, houve apenas dois pedidos relativos a suspeita de vínculo com o crime. Um foi rejeitado; no outro o candidato desistiu da disputa — por bons motivos. Candidato a deputado estadual pelo Podemos, Emerson Dias Rocha, o “Felipinho”, foi alvo em agosto de operação policial, acusado de fazer parte de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
As histórias de candidaturas barradas pela Justiça Eleitoral comprovam que o país precisa de filtros eficazes para evitar que integrantes de facções ou qualquer outro grupo criminoso entrem no Legislativo ou no Executivo. Depois da prisão do ex-deputado estadual fluminense TH Jóias e do próprio ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro Rodrigo Bacelar, ambos acusados de conexões com Comando Vermelho, não deveria haver mais dúvidas sobre isso. No resto do país, proliferam histórias semelhantes. O TRE-BA barrou por unanimidade a tentativa de reeleição do deputado estadual Kléber Cristian Escolano de Almeida (Avante), conhecido como “Binho Galinha”. De acordo com o Ministério Público, ele foi alvo de duas operações policiais, acusado de envolvimento em lavagem de dinheiro, jogo do bicho, agiotagem, tráfico de armas e milícias. Surpreende que tenha disputado a eleição anterior.
No Rio, constam da lista de registros barrados nomes conhecidos, como a ex-deputada Cristiane Brasil, acusada de irregularidades no período em que foi secretária municipal de Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida no Rio, e o Pastor Everaldo, suplente na chapa ao Senado do irmão Marcos Dias Pereira (Podemos), acusado de vínculos com uma organização criminosa que atuou na gestão do governador Wilson Witzel. Mas boa parte foi barrada por suspeita de vínculo com facções criminosas ou milícias. Ocupar cargos eletivos, aproximar-se do poder, é um objetivo constante do crime organizado. É necessário apertar os controles para evitar o pior.
A sede do Tribunal Superior Eleitoral — Foto: Luiz Roberto/TSE

