Trânsito impossível
Por
Basta sair às ruas da cidade de São Paulo para ver: nunca a capital paulista teve tantos veículos automotores em circulação como tem hoje. Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), a frota de carros, motos, micro-ônibus, ônibus e caminhões, entre outros modelos, passou de 7,8 milhões, em dezembro de 2016, para 10,1 milhões, em julho deste ano – dados mais recentes disponíveis.
Significa que há quase um veículo automotor para cada habitante, haja vista que a população de São Paulo é de 11,9 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não é exagero nenhum afirmar que, logo mais, haverá mais veículos do que pessoas na cidade.
O número de carros, por exemplo, passou de 5,4 milhões em 2016 para 6,5 milhões neste ano – alta de quase 20%. Já a quantidade de motos registradas saltou de 895 mil há dez anos para 1,4 milhão atualmente – um crescimento de 55%.
Vários fatores ajudam a explicar esses números. O primeiro deles é de ordem cultural: a aquisição de um veículo é uma legítima aspiração social. E as condições econômicas facilitam essa conquista.
De um lado, há uma crescente oferta de crédito para a compra de veículos. De outro, há as mudanças no mercado de trabalho, com o crescimento dos trabalhadores em plataformas digitais, seja como motoristas, seja como entregadores, que fazem do carro ou da moto um instrumento de ganha-pão.
Mais carros em circulação implicam ruas mais cheias. O trânsito em São Paulo vem piorando desde a pandemia, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Neste ano, no dia 24 de junho, o recorde da lentidão foi de incríveis 1.690 quilômetros. É como se se formasse uma fila de automóveis de São Paulo até Cuiabá.
Com tanto trânsito, os ônibus, por óbvio, andam devagar. A velocidade média dos coletivos nas ruas está estagnada em 15 quilômetros por hora nos horários de pico da manhã e da tarde. E, além de lentos, os coletivos estão vazios. A pesquisa Origem e Destino mais recente mostrou que, nas viagens motorizadas, o transporte individual passou a prevalecer sobre o coletivo a partir de 2023.
Diante desse círculo vicioso, a Prefeitura de São Paulo precisa agir. Primeiro, traçando políticas públicas que desincentivem o uso do transporte individual e reorganizando o sistema de ônibus da cidade – que, aliás, está à espera de um redesenho desde 2019.
Para reconquistar os passageiros perdidos ao longo dos últimos anos, o poder público terá de aprimorar a qualidade do serviço prestado, garantindo aos usuários a previsibilidade, a pontualidade e a confiabilidade no sistema de ônibus. E já há ferramentas tecnológicas para isso, como o georreferenciamento dos veículos em tempo real. Falta usá-las com eficiência.
Se nada mudar, os paulistanos continuarão impelidos a buscar as soluções por conta própria. Eis a vitória do transporte individual sobre o transporte coletivo. O resultado disso será mais trânsito, mais poluição e mais ônibus vazios.

