Busque abaixo o que você precisa!

Finanças dos Correios têm de ser investigadas

Por Editorial / O GLOBO

 

Com sucessivos prejuízos que somaram R$ 8,5 bilhões em 2025, os Correios dependiam de um empréstimo para fechar as contas. Mesmo com a garantia do Tesouro Nacional, a primeira tentativa de captação fracassou. Ante os riscos, os juros cobrados pelos bancos eram altos demais. Somente na segunda rodada, já em dezembro, foi fechado empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos. Agora, uma análise da área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) mostra indícios fortes de irregularidade. As suspeitas de avaliação incorreta da situação financeira da estatal e de sua capacidade de pagamento devem ser investigadas.

 

O empréstimo de dezembro foi destravado apenas depois de uma portaria permitir que técnicos do Ministério da Fazenda considerassem promessas previstas no plano de reequilíbrio financeiro da estatal. Não houve, segundo o TCU, exame robusto sobre a viabilidade. O procedimento normal seria ter dado ênfase à situação da empresa, com dados sobre solvência e fluxo de caixa. O lapso não parece ter sido casual. Qualquer análise minimamente aprofundada mostraria que o plano tem metas otimistas demais, que a sangria bilionária da estatal continuaria e que os riscos para o Tesouro ao bancar a operação seriam altos demais.

 

Por oposição ideológica à privatização, os Correios continuam em situação desesperadora, dependentes de dinheiro público. Não é a primeira nem a única vez em que o governo Luiz Inácio Lula da Silva é leniente e demasiado generoso com uma estatal em crise estrutural. Até setembro de 2025, o Tesouro transferiu R$ 20,8 bilhões às estatais, 14,2% a mais que em idêntico período de 2024. Tais transferências cresceram bem mais que a inflação. Nesse mesmo período, o governo recebeu em dividendos R$ 33 bilhões, 17,8% a menos. Não bastasse isso, os números deixam claro que Petrobras, Banco do Brasil e outras estatais que geram lucro não são capazes de financiar o socorro a empresas públicas cronicamente deficitárias.

 

A atual gestão dos Correios reconhece que 2026 será um novo ano de rombo bilionário de dois dígitos, com prejuízo estimado em R$ 10 bilhões. Isso exigirá novo empréstimo. Na visão edulcorada do governo, em 2027 a empresa entrará no azul. Só é difícil acreditar. Cortes na folha de pagamentos, melhorias operacionais, otimização logística e parcerias são medidas bem-vindas, mas terão impacto apenas marginal nas contas. A empresa continua refém de interferências políticas e obrigações legais que limitam a autonomia da gestão. Sem a concessão para a iniciativa privada e um modelo de negócios que gere caixa de forma sustentável, não haverá solução duradoura.

 

Repetidas falhas na execução orçamentária e financeira não são exclusivas dos Correios. Outra auditoria do TCU sobre 2025 divulgada na semana passada constatou que aportes do Tesouro superaram as necessidades de diversas estatais, como Infraero, Emgepron, Casa da Moeda e companhias do setor portuário. A consequência é sobra de caixa, com aplicações desvinculadas da execução imediata. Como alerta o TCU, os mecanismos de controle são falhos e não permitem fazer a distinção da origem e destino dos recursos. Tamanha falta de transparência é uma afronta ao contribuinte brasileiro, cujo dinheiro é desperdiçado.

 

A sede dos Correios em BrasíliaA sede dos Correios em Brasília — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Compartilhar Conteúdo

444