Sociedade brasileira não pode ser condescendente com furto de energia
Por Editorial / O GLOBO
Emaranhado de fios denuncia ligações clandestinas em Rio das Pedras, na Zona Sudoeste do Rio — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
Por terem se tornado comuns na paisagem das cidades brasileiras, especialmente em áreas onde a polícia não entra, os furtos de energia, conhecidos popularmente como “gatos”, costumam ser tolerados. Não deveriam. Primeiro, por se tratar de crime, com pena prevista de um a oito anos de prisão. Segundo, porque assumem proporções gigantescas. Terceiro, porque impõem prejuízos não só às concessionárias, mas também aos consumidores, cuja conta de luz fica mais cara.
De acordo com a Associação das Distribuidoras de Energia, apenas em 2024 foram desviados mais de 22,5 bilhões de kWh, volume suficiente para abastecer por um mês toda a Região Sudeste, como mostrou reportagem do Jornal Nacional. O problema se mostra mais grave nos estados de Amazonas, Amapá, Rio de Janeiro, Rondônia, Pará e Pernambuco. As ligações irregulares não ocorrem apenas em favelas. Em Salvador, a polícia flagrou a prática ilegal numa fábrica de bebidas. Em Niterói, foram encontrados 17 “gatos” em quiosques à beira-mar, como informou a coluna de Ancelmo Gois.
Esse tipo de crime acarreta perdas significativas. No ano passado, os “gatos” causaram prejuízo de R$ 10 bilhões às concessionárias. É inevitável o reflexo para os consumidores que pagam seus boletos em dia. Estima-se que o impacto nas contas de luz seja de quase 3%. Os furtos também sobrecarregam o sistema, trazem riscos de incêndios e deterioram a qualidade do serviço. Em 2025, as ligações clandestinas provocaram 620 mil apagões, afetando cerca de 2,1 milhões de residências e pontos comerciais em todo o Brasil. Os recursos desviados poderiam ser investidos no próprio sistema, beneficiando a todos.
Não se pode dizer que os crimes não sejam combatidos, mas as ações têm se mostrado insuficientes. Em março, a Light identificou 4.139 “gatos” no estado do Rio, tanto em residências quanto em estabelecimentos comerciais como restaurantes ou mercados. Operações policiais levaram à prisão de 20 suspeitos em flagrante e ao registro de 38 ocorrências. A concessionária informou ter recuperado volume de energia suficiente para abastecer quase 30 mil residências durante um mês.
Embora não ocorram apenas em áreas conflagradas, é nesses locais que a polícia e as concessionárias encontram maiores dificuldades para combater o problema. Em geral, são regiões controladas por facções ou milícias, que impedem a entrada das operadoras para realizar reparos ou desligar eventuais “gatos”. O serviço ilegal é cobrado dos moradores por traficantes e milicianos.
Por causar danos ao sistema elétrico e prejuízos a empresas e consumidores, os “gatos” precisam ser combatidos de forma firme e permanente. É fundamental rechaçar a ideia equivocada de que essa prática criminosa é um problema menor. A sociedade não pode ser condescendente com o furto de energia. Crime é crime, e assim deve ser tratado.

