Busque abaixo o que você precisa!

Tesouro reprova empréstimo de R$ 20 bilhões aos Correios com juros acima de 120% do CDI

Por Alvaro Gribel / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA - Em reunião nesta terça-feira em Brasília, o Tesouro Nacional informou aos Correios que não dará aval a um empréstimo de R$ 20 bilhões caso as taxas de juros estejam acima de 120% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). A proposta dos bancos, segundo apurou o Estadão, foi de 136% do CDI. Ou seja, com essa taxa, a proposta está recusada e haverá nova rodada de negociação.

 

Esse teto é estabelecido pelo Comitê de Garantias do Tesouro, que avalia os juros para entes subnacionais (Estados e municípios). Esse mesmo teto será usado agora para uma empresa estatal. Para o casos dos Correios, há limite de 120% do CDI para empréstimos que não podem securitizados (a dívida ser revendida) e com prazos maiores do que 10 anos.

 

Com a Selic a 15%, um empréstimo de 120% do CDI teria taxa de juros de 18% ao ano. Os bancos, ao pediram 136% do CDI, queriam uma taxa de 20,4%. Para um empréstimo no valor de R$ 20 bilhões e prazo de 15 anos, qualquer ponto percentual a mais significa aumento de custo financeiro para a estatal e grande rentabilidade para os bancos.

 

No entendimento do Tesouro, os juros cobrados foram muito elevados para uma operação que tem garantias da União, o que foi visto como uma espécie de “abuso” por parte dos bancos. A informação já teria sido comunicada aos cinco bancos que fizeram a proposta: Banco do Brasil, Citibank, BTG Pactual, ABC Brasil e Safra.

 

Apesar de os Correios terem pressa na negociação, o fato de o presidente Emanuel Rondon ter vindo do Banco do Brasil, com carreira no setor bancário, ajudou no entendimento de que a taxa estava elevada, já que se trata de uma operação com garantia da União. A participação do Banco do Brasil na operação com juros altos causou desconforto em integrantes que participaram das negociações.

 

Os Correios correm para conseguir a liberação do empréstimo para lidar com uma crise financeira sem precedentes. De janeiro a setembro deste ano, a empresa teve prejuízo de R$ 6,05 bilhões, em uma combinação de queda de receitas com aumento de despesas.

 

Com o empréstimo, a empresa pretende quitar uma dívida de R$ 1,8 bilhão, pagar fornecedores em atraso, além de financiar um programa de desligamento voluntário (PDV) e fazer investimentos para tentar recuperar espaço no mercado de encomendas e elaborar novas fontes de receitas.

 

A estatal precisa também precisa regularizar pendências com fornecedores. Isso é visto como crucial pela atual gestão para que a empresa recupere a performance no setor de entregas, a confiança de clientes e tenha aumento de receitas. Especialistas, contudo, são céticos em relação à operação. Um ex-presidente da estatal chegou a classificar o plano como “morte assistida”, como mostrou o Estadão.

 

A crise dos Correios provocou a queda de Fabiano Silva da presidência da estatal. Pressionado, ele pediu demissão em julho deste ano. Silva é integrante do Grupo Prerrogativas, que reúne advogados ligados ao PT. Ele atribuiu prejuízo da empresa à taxação de compras internacionais - o imposto de até US$ 50 cobrado para a importação de encomendas - que ficou conhecido como “taxa das blusinhas”.

 

O atual presidente Emmanoel Schmidt Rondon foi escolhido para assumir os Correios apenas em setembro deste ano. Ele é funcionário de carreira do Banco do Brasil e é ligado ao setor financeiro. O Centrão estava de olho no cargo.

 

Rondon pretende adiar ao máximo a convocação de aprovados em concurso realizado em dezembro de 2024.

 

Mudança da meta

 

rombo bilionário nas contas dos Correios deve tornar necessária uma mudança na meta fiscal das empresas estatais do ano que vem, segundo integrantes da equipe econômica. A avaliação é de que o prejuízo contabilizado pela estatal vai continuar pelo menos ao longo de 2026. Se o alvo for mantido, isso vai limitar o espaço para gastos do governo no ano eleitoral.

O debate sobre a mudança do alvo fiscal das empresas ainda não começou na Junta de Execução Orçamentária (JEO), que reúne os ministros da Casa Civil (Rui Costa), da Fazenda (Fernando Haddad) e do Planejamento (Simone Tebet). No entanto, técnicos da equipe econômica consideram certo que a discussão vai ter de acontecer, devido aos riscos para o Orçamento.

A crise dos Correios levou o governo a ampliar a projeção de déficit nas empresas estatais este ano de R$ 5,504 bilhões para R$ 9,208 bilhões.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, classificou como “graves” e “estruturais” os problemas dos Correios. Ele também disse que o impacto fiscal pode ser maior em 2026 do que o deste ano.

“Eu não tenho o número fechado, nós vamos ter que nos debruçar em cima do plano assim que apresentado pelos Correios; mas a gente tem, sim, uma situação grave que demanda atenção”, disse.

Compartilhar Conteúdo

444