O solilóquio das universidades brasileiras
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Universidade, no vocábulo e na vocação, sempre implicou universalidade. Foi a primeira instituição verdadeiramente internacional criada pelo Ocidente: professores itinerantes, alunos peregrinos, saberes que cruzavam fronteiras antes mesmo de existirem Estados nacionais. No Brasil, porém, a universidade renegou essa origem. Num país forjado pela confluência de europeus, indígenas, africanos, árabes e asiáticos, o sistema universitário opera como uma das estruturas mais fechadas entre as grandes democracias.
Enquanto nas universidades brasileiras o contingente de docentes estrangeiros não passa de 2%, em países da Europa ocidental, por exemplo, ele oscila em torno de 20% – no Reino Unido e na Suíça, é mais de um quarto. Os estudantes estrangeiros mal chegam a 1%, enquanto na OCDE sobem de 5% na graduação para 25% no doutorado. Disciplinas em inglês são raridade, convênios são prolíficos no papel e escassos na prática, a captação de recursos externos é irrisória. Em publicações de impacto, o Brasil fica atrás não só de países avançados, mas de outros em condições socioeconômicas similares. Produz-se ciência majoritariamente doméstica, que fala sozinha e é pouco ouvida.
Programas como o Ciência sem Fronteiras dispersaram recursos em intercâmbios de curto prazo, sem forjar vínculos duradouros entre grupos de pesquisa. O Brasil atrai poucos estudantes de países desenvolvidos, quase nenhum professor de ponta, e não dispõe de uma “diplomacia científica” consistente que use as universidades como porta giratória para o mundo.
Pesquisas menos relevantes, inovação limitada e currículos que não dialogam com a fronteira científica comprometem a reputação institucional e afastam talentos estrangeiros – e até brasileiros expatriados. O déficit de internacionalização é o maior entrave ao desempenho brasileiro em rankings globais. Sem universidades de classe mundial, o País perde produtividade, capacidade tecnológica, inserção diplomática e soft power. Uma grande democracia multiétnica (a segunda maior do Ocidente) segue alijada dos circuitos globais de conhecimento, condenando-se a competir com instrumentos rupestres numa economia movida a ciência. A conta chega em menos renda, inovação, crescimento – e uma cultura provinciana.
A rigidez das regras públicas e pressões sindicais obstruem a contratação de estrangeiros ou a oferta de salários competitivos. O sistema vestibular é uma barreira de entrada a alunos. A endogamia acadêmica – professores formados na própria casa – reduz a circulação de ideias. A burocracia emperra convênios, compras e viagens. A expansão universitária priorizou quantidade e inclusão, relegando a excelência a segundo plano. Faltam financiamento condicionado a desempenho e uma estratégia nacional para formar um núcleo de universidades de classe mundial.
O casulo acadêmico precisa de um choque de cosmopolitismo. Investir no inglês como língua franca, perseguir contratos internacionais, ampliar cotutelas, duplas titulações e intercâmbios. Recursos devem ser vinculados a metas claras de internacionalização, com fundos patrimoniais e parcerias público-privadas. A autonomia precisa vir acompanhada da liberdade de recrutar estrangeiros, oferecer boas condições de trabalho e premiar quem constrói redes globais. E o País deve selecionar um grupo de elite de instituições para investimentos concentrados, como fazem China, Coreia do Sul ou Alemanha, em vez de fingir que todas as universidades podem ser tudo para todos.
Uma universidade isolada é uma contradição em termos. Um país que renuncia à internacionalização renuncia à própria ideia de universidade – e à possibilidade de desenvolvimento no século 21. Num mundo em que o conhecimento circula em redes transnacionais, o Brasil continuará falando sozinho se suas melhores instituições insistirem em permanecer monoglotas, endogâmicas e dependentes de verbas cativas. O Brasil não será maior se continuar voltado para dentro. Será maior quando suas universidades voltarem a olhar para fora e a participar, de igual para igual, na grande conversa científica planetária. Nossas universidades deveriam construir pontes para o futuro, mas ficarão cada vez mais atoladas no passado se não reerguerem pontes para o mundo.

