Plano Real: 25 anos após entrada em vigor, tecnologia muda relação do brasileiro com a moeda
RIO — Em 1994, o Plano Real começava a deixar para a História ahiperinflação , que acumulava quase 5.000% em um ano, mudando radicalmente os hábitos dos brasileiros no supermercado, no banco e no cotidiano com a recuperação da confiança na moeda . Hoje, 25 anos depois da estabilização , o brasileiro experimenta uma nova revolução na sua relação com o dinheiro: a digitalização de operações financeiras.
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Cada vez mais transações, incluindo as mais cotidianas, são feitas sem o uso de dinheiro vivo. A mudança vem acontecendo aos poucos — e não praticamente da noite para o dia, como foi no 1º de julho de 1994 com o início da circulação do real — e terá impacto não só nos hábitos dos brasileiros, como também na economia. A digitalização e as inovações financeiras, dizem os analistas, ajudarão na redução dos juros e na expansão do crédito.
Em apenas dois anos, 15 milhões de contas digitais foram abertas no Brasil, o que representa 10% do total de 155 milhões do país. Somente entre 2017 e 2018, os pagamentos de contas pelo celular cresceram 80% e as transferências, 119%. Ambos já são mais frequentes em smartphones que nos computadores. Para especialistas, essa nova realidade tem consequências que permitem paralelos com a ruptura provocada pelo real. Se antes da moeda forte ninguém guardava dinheiro na carteira por muito tempo porque o preço do feijão era um de manhã e outro de noite, hoje cédulas perdem espaço para cartões e aplicativos guardados no celular.
Cotidiano sem cédulas
Raul Miyazaki, diretor para a Indústria de Serviços Financeiros da Deloitte, observa que o avanço das tecnologias financeiras no Brasil só é possível na velocidade atual por causa da moeda estável e do sistema bancário saudável, conquistas do Plano Real.
— A estabilização da moeda permite que as pessoas se planejem. A regulamentação torna forte o sistema financeiro. Sem essas duas coisas não adianta ter a melhor tecnologia.
Segundo Silvio Marote, sócio da Bain & Company, a revolução tecnológica acontece mesmo em países onde não houve estabilização, como a Argentina. No entanto, o legado do Plano Real proporcionou ao país uma atratividade para investimentos em soluções de tecnologia que não seria possível sem ele.
— Em um cenário de inflação alta, o nível de juros mudaria a relação entre risco e retorno. Muito possivelmente, os investidores não teriam a mesmo apetite apresentado hoje. Além disso, pensando nos consumidores, o acesso a bens tecnológicos tenderia a ser menor, reduzindo a base de alcance para esses novos serviços e soluções — observou.
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Cédulas e moedas não fazem parte do cotidiano do estudante de Publicidade Daniel Oliveira. Aos 23 anos, a maioria dos seus serviços bancários está no celular. Sair de casa sem dinheiro no bolso não é problema para ele. O transporte é pago com cartões de recarga que não existiam na época da inflação. Se precisar comprar algo, o importante para ele é ter boa conexão de internet e encontrar um estabelecimento que aceite pagamentos eletrônicos, por aplicativos ou por cartões. A multiplicação de maquininhas pelo comércio facilita a vida de Daniel, mas ele ainda espera mais: pensa não mais na extinção do dinheiro, mas dos cartões.
— Gostaria que todas as lojas tivessem algum aplicativo para fazer os pagamentos. Seja por transferência ou leitura de QR Code — diz Daniel, que já passou sede na rua sem achar alguém que venda refrigerante com cartão ou se surpreendeu quando tomou um táxi e o motorista pediu pagamento em dinheiro no fim da corrida.
Já a mãe dele, a técnica de radiologia Cristiane Oliveira, de 51 anos, não sai sem dinheiro na bolsa, mesmo com a carteira cheia de cartões. Ela e Daniel se diferenciam até na hora de economizar. Ele busca vídeos na internet com indicações de investimentos e usa o celular para fazer aplicações. Já chegou a investir em criptomoedas, como o bitcoin, mas hoje deixa o dinheiro em um CDB. Ela faz aplicações seguras, como títulos públicos, mas só depois de ir ao banco ouvir conselhos do gerente.
A maior cautela de Cristiane está ligada à memória dos tempos de inflação alta, algo que o filho nunca viu. Foi na transição para a estabilidade que ela aprendeu o valor da moeda estável. Só em junho de 1994, a inflação foi de 47%. No mês seguinte, com a substituição do cruzeiro real pelo real, caiu a 6,84%. Hoje, gira em torno de 3,5% — ao ano.
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— Na época da inflação, a relação com dinheiro era de quantidade, não de qualidade. Eram cifras muito altas para comprar coisas simples, do dia a dia. Você nunca sabia quais seriam os preços amanhã. Lembro que meu pai comprava caixas fechadas de biscoitos, para tentar garantir o melhor preço — recorda Cristiane. — Desde que me casei e tive filhos, nunca estoquei produto.
Efeito sobre o crédito
Ricardo Tiezzi, diretor do Boston Consulting Group (BCG), observa que o brasileiro se relaciona com os bancos pela internet há mais de uma década, mas, na era dos smartphones, avança rapidamente o relacionamento puramente digital com instituições financeiras:
— Houve alta exponencial de contas digitais abertas nos últimos dois anos, enquanto o total de contas físicas é o mesmo nos últimos cinco anos.
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Os efeitos não se limitam ao comportamento do brasileiro. A estrutura da economia muda. Para o economista Persio Arida, autor de um artigo em conjunto com o economista André Lara Resende, que ficou conhecido como Plano Larida e foi a base do Plano Real, o avanço da digitalização da economia contribui para ampliar o acesso ao crédito e baixar a taxa de juros, um gargalo para o crescimento.
— Esse processo é bem-vindo, só tem vantagens. Com mais produtividade, o spread (diferença entre o custo de captação do banco e o repassado ao cliente) bancário diminui. É movimento firme, que avança independentemente da taxa de crescimento do país. Tem um ganho de eficiência muito grande — diz Arida.
Luiz Fernando Figueiredo, sócio-fundador da Mauá Capital e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, avalia que o principal ganho da atual revolução tecnológica é o maior acesso a produtos financeiros, do crédito aos investimentos, com concorrência.
— Se antes do real o dinheiro era um problema, agora, quanto mais virtual ele se torna, mais fácil é disponibilizá-lo. Estamos apenas no começo — diz Figueiredo, cuja gestora lançou este ano a fintech (start-up financeira) de crédito Pontte. — Uma hipótese investigada para explicar por que os juros estão tão baixos em todo o mundo tem a ver com a tecnologia. Ela mudou a disponibilidade de bens e os preços. Agora, esse fenômeno está se dando entre os serviços. O GLOBO

