Galípolo eleva o nível do debate sobre juros altos
A gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central deveria bastar para desacreditar teorias conspiratórias a respeito das taxas de juros brasileiras, de fato historicamente acima dos padrões globais.
Afinal, com uma cúpula de maioria indicada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o BC mantém há quase um ano e meio as mesmíssimas diretrizes de política monetária herdadas da diretoria nomeada por Jair Bolsonaro (PL) e satanizada pelos petistas —o que implica manter a taxa Selic no nível necessário para buscar a meta de inflação, mesmo com sacrifícios para a atividade econômica.
Na terça-feira (19), o próprio Galípolo deu argumentos adicionais e cabais contra teses que atribuem os juros altos a taras ortodoxas ou a algum conluio entre o órgão e o mercado financeiro.
Em audiência no Senado, o presidente do BC apontou que, apesar de conviver com taxas superiores às da maioria dos países, o Brasil teve inflação acima do teto em 4 dos últimos 6 anos. Logo, como disse, a política monetária não foi mais rigorosa que o necessário. Pelo contrário.
Acrescente-se que os objetivos aqui fixados para o IPCA —variando de 4% com tolerância de 1,5 ponto percentual em 2020 a 3% mais 1,5 ponto em 12 meses atualmente— nada têm de anômalos ou draconianos.
Nesse período, o país e o mundo passaram por quatro grandes choques de oferta: a pandemia, o tarifaço de Donald Trump e as guerras na Ucrânia e no Irã. E a política de juros teve flexibilidade para não tentar cumprir as metas de inflação a qualquer custo. Buscou-se, na verdade, evitar um descontrole que seria trágico para o poder de compra da população, sobretudo a mais pobre.
Mas, se esses dados desmontam discursos politiqueiros, não são suficientes para esgotar o tema. Como também apontou Galípolo, cumpre debater "por que no Brasil o esforço da política monetária é maior para se conseguir o mesmo que em outros países".
A explicação mais óbvia, embora não necessariamente a única, é a expansão do gasto público, que ganhou força no final do governo Bolsonaro e foi acelerada por Lula. Não apenas se estimula a demanda acima da capacidade de oferta, pressionando a inflação, como se geram déficits orçamentários que levam o mercado credor a exigir taxas mais altas para financiar o Estado.
Outros fatores podem agravar o quadro, como o elevado volume de crédito com taxas favorecidas a setores como habitação, agropecuária e indústria, que não está sujeito à Selic e diminui a eficácia da política monetária. Há ainda muita indexação formal e informal na economia, o que pode perpetuar altas de preços.
Deve-se mencionar, por fim, a necessidade de consolidar a confiança no BC, que só há cinco anos ganhou autonomia na forma de mandatos para seus dirigentes. Ataques demagógicos de governantes aos juros só fazem elevar temores de retrocesso que dificultam o combate à inflação.

