Fronteira fora de controle
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Uma extensa área de Mato Grosso do Sul está sob o nível máximo de alerta de segurança para viagens de cidadãos dos Estados Unidos. O Estadão informou que a decisão foi tomada em meio à escalada da guerra entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) pelo controle das rotas da cocaína. O aviso do governo americano inclui Corumbá, considerada uma das principais portas de entrada de turistas no Pantanal. Para o Estado de Mato Grosso do Sul e para o País, é obviamente uma péssima notícia.
O alerta, o mais grave na classificação norte-americana, abrange uma faixa de 160 quilômetros a partir das fronteiras com Paraguai e Bolívia, de Mundo Novo a Corumbá. A maior parte do Brasil permanece no nível 2, de cautela. A exceção feita ao Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense não vale para todo o Pantanal, como o nome pode sugerir. Corumbá e Ladário continuam na área desaconselhada.
Os motivos do alerta estão à vista. Mato Grosso do Sul registrou 368 homicídios de janeiro a agosto, 65 a mais que no mesmo período do ano passado. Segundo o Ministério Público estadual, ao menos cem mortes neste ano foram causadas pela guerra entre PCC e CV. Criminosos chegaram a divulgar nas redes sociais uma lista de 24 pessoas marcadas para morrer. Duas foram assassinadas. Em um dos ataques, morreu uma criança de 3 anos.
PCC e CV disputam os corredores usados para levar drogas do Paraguai e da Bolívia aos grandes centros consumidores e aos portos de exportação. A extensa fronteira seca torna Mato Grosso do Sul especialmente cobiçado pelas facções. O domínio das cidades e rodovias da região significa também controlar por onde passa a droga e para onde ela seguirá. Fora de São Paulo, o Estado é o que tem mais integrantes do PCC, segundo o Ministério Público. A facção domina há anos a rota tradicional por Ponta Porã. O CV, historicamente mais forte no vizinho Mato Grosso, avançou para Mato Grosso do Sul em busca dessas mesmas rotas. À medida que o CV avançou sobre áreas de domínio do PCC, a disputa ficou mais violenta.
Os Estados Unidos já classificaram PCC e CV como organizações terroristas. Este jornal considerou a decisão legítima à luz das leis americanas, mas inadequada à realidade jurídica brasileira. A discussão quase bizantina sobre a classificação das facções não pode, porém, servir para desviar a atenção do essencial.
O País já dispõe de instrumentos para enfrentar esses bandos criminosos e conhece há muito tempo suas rotas e seus métodos. A defesa da soberania, nesse caso, dispensa bravatas contra Washington. Exige que o País faça a sua parte no combate às facções.
O governo federal e o do Mato Grosso do Sul dizem atuar de forma integrada. A escalada da violência mostra que é preciso fazer mais. Inteligência, fiscalização das rotas, cooperação com os países vizinhos e asfixia financeira das facções são tarefas urgentes, para que se evite no futuro o constrangimento de, mais uma vez, outro país recomendar a seus cidadãos que evitem uma parte do Brasil por causa do avanço das facções.

