Mistério sobre os juros
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Sem surpresas, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fez o que o mercado já esperava e reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 13,75% ao ano. É pouco para fazer alguma diferença na vida dos brasileiros, mas um alento para o governo Lula, que precisa desesperadamente de boas notícias para tentar reverter o humor do eleitorado a seu favor ao longo das próximas semanas.
Sabendo que, a esta altura da campanha, qualquer pingo poderia ser tomado como letra, o BC divulgou um comunicado sucinto e quase idêntico ao anterior, especialmente o trecho final, no qual não dá qualquer sinalização sobre os próximos passos a serem adotados nas reuniões de novembro e dezembro. Até lá, o País já terá escolhido o próximo presidente, o que pode mudar significativamente as projeções dos analistas sobre o cenário fiscal e os juros nos próximos anos.
Independentemente de quem vença a disputa eleitoral, pouco ou nada deve mudar em tão pouco tempo. A questão é que o mercado financeiro embute expectativas melhores ou piores a respeito do reequilíbrio das contas públicas em suas previsões e ajusta suas apostas com base nessas sinalizações.
Foi o que aconteceu na manhã de quinta-feira, quando a curva de juros a termo mostrou que a chance de haver um novo corte nos juros em novembro caiu de 68% para 59%, e a possibilidade de manutenção aumentou de 32% para 41%. Já a previsão para a Selic ao fim de 2026 subiu de 13,52% para 13,62%. Para 2027, por sua vez, a projeção aumentou de 13,90% para 14,15%.
O motivo de uma mudança tão intensa no espaço de horas foi o anúncio do reajuste de 15,04% do Bolsa Família, que sai dos atuais R$ 600 para R$ 691. A medida havia sido descartada havia apenas 17 dias, quando o Executivo enviou o Orçamento de 2027 ao Congresso, e evidenciou, mais uma vez, o que Lula realmente pensa sobre a responsabilidade fiscal.
Se há incertezas sobre quem governará o País nos próximos quatro anos, o certo é que o BC terá um complicador adicional com o qual lidar. Também anteontem, o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês) decidiu, por unanimidade, elevar os juros norte-americanos em 0,25 ponto porcentual, para o intervalo entre 3,75% a 4% ao ano.
Foi o primeiro aumento desde 2023, e a maioria de seus dirigentes projeta ao menos mais uma alta de 0,25 ponto porcentual neste ano, para a fúria do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para quem os juros deveriam estar em 1% ao ano ou menos do que isso.
Para o Brasil, isso significa que o espaço para o carry trade – diferença entre os juros cobrados no País e no exterior – ficará ainda menor, o que pode afugentar investidores e causar impactos para o câmbio em algum momento. Por ora, a atividade econômica e a inflação arrefeceram, mas o mercado de trabalho segue apertado e a política fiscal dos próximos anos continua uma incógnita.
Há condições para fazer mais um corte mínimo ou manter os juros no patamar em que estão, mas o BC, estrategicamente, decidiu esperar. Logo, não se deve esperar mensagens mais taxativas na ata da reunião, a ser divulgada na próxima semana.

