Busque abaixo o que você precisa!

Crise inédita no STF favorece discurso antissistema e desafia governo às vésperas da eleição, apontam especialistas

A crise sem precedentes em que o Supremo Tribunal Federal (STF) está envolvido na esteira do caso Master, que teve no julgamento de ontem um momento marcante, pode impactar a eleição de diferentes formas, segundo analistas. A principal consequência é o sentimento generalizado contra o “sistema” — o que acaba pressionando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apesar de o principal adversário dele, Flávio Bolsonaro (PL), ser investigado pelos elos com o Master. Como está no cargo e concorre à reeleição, o petista é hoje mais próximo a esse sistema contra o qual o eleitor se rebela.

 

Também há, no entanto, uma possível contribuição para o desânimo do eleitorado com a eleição de forma mais ampla. Isso reforça uma preocupação já patente nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, que é o possível percentual alto de “não voto”, ou seja, de abstenções e sufrágios em branco ou nulos. O eleitor parece desmobilizado. Segundo a pesquisa Quaest de ontem, apenas 37% se consideram “muito interessados” na disputa cujo primeiro turno ocorre em menos de 20 dias.

 

— Essa sessão e toda a confusão no STF criam um tumulto mental na opinião pública de que toda a classe política e as instituições estão contaminadas, e isso pode ter dois efeitos. Geralmente, quando há essa confusão, a oposição se beneficia, porque o governo obviamente acaba constituindo essa “instituição” contaminada — avalia Mauricio Moura, fundador do instituto Ideia e colunista do GLOBO. — E também pode ter um efeito de desânimo, aumentando as abstenções e os votos em branco e nulos.

 

A avaliação de Moura é corroborada pela última Quaest. Ao serem perguntados quem foi mais afetado negativamente com o escândalo, 9% aponta Lula e o PT; 15% veem o governo anterior e a família Bolsonaro; para 15%, o STF, e 46% enxergam “todos os eles” como impactados.

 

Mudança de voto

Divulgada na segunda-feira, a Quaest mostrou ainda que 7% afirmam que consideram mudar o voto na eleição a partir da crise no Supremo, enquanto 67% dizem que o cenário não afeta em nada a decisão. Outros 22% apontam que as revelações recentes reforçam a escolha que já fariam nas urnas.

 

Embora o percentual de entrevistados propensos a mudanças seja pequeno, eles podem ser decisivos numa eleição que se desenha apertada, com rejeições altas e intenções de voto que pouco oscilam. Nas simulações de segundo turno, Lula e Flávio aparecem em empate técnico.

 

Fica evidente, na mesma pesquisa Quaest, a falta de confiança das pessoas no Supremo. Apenas 9% alegam “confiar muito” na Corte, e 56% afirmam que não confiam. O percentual dos que confiam pouco é de 30%.

 

— Qualquer crise que foge das pautas eleitoralmente mais relevantes, como saúde, segurança, educação, tende a favorecer a oposição. A ligação de Moraes com Lula está no imaginário popular. Portanto, a permanência dessa pauta no imaginário popular dificulta a reeleição do presidente Lula — observa o fundador do Locomotiva e também colunista do GLOBO, Renato Meirelles.

 

Na visão do cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, fundador do Ipespe, o eleitor estava “atônito” e ficou “perplexo” com a quantidade de ministros citados. Ele avalia, no entanto, que ainda é cedo para ter clareza dos impactos nas próximas semanas, e que o problema da abstenção, notoriamente uma preocupação do PT por questões estruturais do eleitorado petista, já era precificado antes mesmo da crise atual pelas duas candidaturas: — Abstenção alta já haveria. Isso pode até prejudicar Flávio, se novas denúncias contra ele surgirem.

 

Reações das campanhas

O filho de Jair Bolsonaro, inclusive, pegou carona no julgamento de ontem e apareceu no horário eleitoral em um vídeo cuja estética remete a um pronunciamento oficial de presidentes. De terno e gravata, bandeira do Brasil ao fundo, ele afirma na peça que está “interrompendo a campanha” por causa da “gravidade do momento político”. E cita o “escândalo de Alexandre de Moraes”.

 

A despeito de ele próprio ser investigado no caso Master, o candidato do PL tenta concentrar a repercussão das investigações no Judiciário, com Moraes como principal algoz.

 

Lula, por sua vez, também produziu peças voltadas para o episódio. Além do vídeo em que defendeu a quebra de sigilo de toda a investigação e no qual cobrou respostas “doa a quem doer”, veiculou inserções em que chama o principal adversário de mentiroso por ter negado que mantinha vínculos com Daniel Vorcaro.

 

Na reta final da semana passada, com a derrubada do sigilo, o noticiário passou a se dividir entre as revelações relacionadas aos ministros, sobretudo Moraes e sua reação com acusações de ilegalidades por parte do relator André Mendonça, e informações sobre o envolvimento de Flávio.

 

Soube-se que o senador, que pediu dinheiro a Vorcaro para financiar a cinebiografia do pai, é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Até então, não se tinha esse grau de detalhamento sobre as apurações relacionadas ao filho de Jair Bolsonaro.

Compartilhar Conteúdo

444