Busque abaixo o que você precisa!

Sobra informação, falta ação

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A uma plateia de oficiais, o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), expôs a arquitetura do crime organizado que opera dentro e ao redor do Brasil, conforme recentemente reportou o Estadão.

 

Cercado pelos três maiores produtores de cocaína do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – e pelo maior produtor de maconha, o Paraguai, o Brasil funciona como uma espécie de entreposto logístico de uma cadeia criminosa que movimenta, só no mercado interno, cerca de R$ 30 bilhões por ano. Some-se a isso outros R$ 50 bilhões advindos da exportação de cocaína. Segundo o general Costa, facções brasileiras de natureza mafiosa, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), mantêm relações estreitas com os principais cartéis daqueles países e com o Tren de Aragua, da Venezuela.

 

O general foi igualmente didático ao tratar de outra frente da “guerra híbrida” que o Brasil enfrenta: a ameaça cibernética. Só em 2025, o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de invasão de sistemas brasileiros, muitas bem-sucedidas em razão da fragilidade de instituições públicas mal preparadas para lidar com o problema. O vazamento de 3,39 terabytes de dados da Dígitro Tecnologia, cujos sistemas de interceptação são usados por 90% das empresas de segurança do País, e a paralisação de serviços essenciais do governo federal em junho de 2025 provam que nossa vulnerabilidade não se circunscreve às fronteiras físicas nem ao tráfico de drogas.

 

Não é a primeira vez que o Estado brasileiro tem à disposição um diagnóstico detalhado da engrenagem criminosa que afronta sua própria autoridade e inferniza a vida de milhões de cidadãos. Relatórios de inteligência, CPIs, operações policiais e estudos acadêmicos já demonstraram o alcance territorial e o poder bélico e financeiro das organizações mafiosas consolidadas no País. Não falta informação. Falta ação inspirada por um senso de urgência nacional que una a sociedade contra inimigos comuns, independentemente das diferenças político-ideológicas que legitimamente dividem os cidadãos em uma democracia.

Basta observar o destino da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que, a despeito de suas lacunas, dota o Estado de instrumentos mais eficazes para o combate ao crime organizado. Meses depois de aprovada na Câmara, a PEC dormita nos escaninhos do Senado, à mercê dos interesses políticos do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), às turras com o Palácio do Planalto. Uma pauta que deveria ser prioridade republicana virou refém de uma rinha entre Poderes.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, não pode transformar a segurança pública em reles bandeira eleitoreira. Ele sabe que a violência urbana figura entre as maiores aflições dos brasileiros e ocupará papel central na campanha eleitoral deste ano, em que tentará a reeleição. Tratar do tema só quando lhe é conveniente, ou culpar governadores de oposição pelos fracassos da segurança pública, é tão irresponsável quanto a inércia do Senado.

 

O combate ao crime organizado precisa ser uma política de Estado, perene e protegida das ventanias da conjuntura política, não uma agenda condicionada às ondas de indignação popular e/ou aos ciclos eleitorais. Nenhuma nação se desenvolveu econômica, política e socialmente sob a sombra do crime organizado. Organizações como o PCC não são bandos quaisquer: são estruturas mafiosas que nasceram e prosperaram sob o beneplácito do mesmo Estado que tem o dever de destruí-las, como detentor do monopólio da violência.

 

O Brasil precisa enfrentar esse monstro que ajudou a criar por décadas de omissão e complacência, no melhor cenário, ou por corrupção de seus agentes, no pior. O próprio general fez questão de delimitar o papel das Forças Armadas: por força da Constituição, cabe a elas a defesa da soberania territorial, não a linha de frente do combate ao crime organizado – tarefa que recai sobre as polícias e os órgãos de segurança pública, estaduais e federais. Não há atalho nem substituto para a ação coordenada das forças públicas. Não existe organização criminosa maior nem mais poderosa do que o Estado. Passa da hora de agir.

Compartilhar Conteúdo

444