Um alívio pontual na inflação
O IPCA de junho, com alta de apenas 0,16%, bem abaixo da expectativa mediana de 0,31% do mercado, foi o primeiro alívio em meses para a trajetória da inflação brasileira, mesmo que pontual.
O índice acumulado em 12 meses recuou para 4,64%, ante 4,72% em maio, ainda acima do teto oficial de 4,5%. Mesmo diante de incertezas externas, como a volatilidade dos preços do petróleo, pode haver algum espaço para o Banco Central continuar a reduzir os juros de forma cautelosa.
A melhora foi disseminada, abarcando produtos voláteis, como alimentos, bens industriais e serviços. A média anual das cinco medidas de núcleo de inflação mais usadas pelo BC e por analistas —que buscam medir a dinâmica de preços mais estrutural— passou de 4,64% para 4,43%.
Mesmo assim, segmentos que refletem pressões internas de demanda mantêm ritmo preocupante. O conjunto dos serviços ainda acumula alta próxima de 5,9% em 12 meses.
O cenário permanece cercado de riscos, ademais. A continuidade das tensões no Oriente Médio pode reverter a recente queda nos preços do petróleo e reacender pressões de custos.
O fenômeno climático El Niño, com probabilidade elevada de assumir forma severa no segundo semestre deste 2026 e se prolongar até 2027, ameaça a produção de alimentos. A corrida eleitoral e as indefinições sobre a política econômica após o pleito de outubro dificultam as projeções.
Nos últimos meses, as expectativas de inflação se elevaram de forma persistente, impulsionadas pelo encarecimento do petróleo e de seus derivados —e também pelo expansionismo orçamentário do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que neste ano eleitoral já criou despesas e operações de crédito que somam ao menos R$ 180 bilhões.
A injeção de recursos no curto prazo sustenta o consumo, mas pressiona a inflação e, consequentemente, a política monetária, na forma de juros altos.
Contudo, diante de limites fiscais evidentes, evidenciados pelo acelerado crescimento da dívida pública, os estímulos tendem a se reduzir nos próximos meses e, muito provavelmente, em 2027. O aperto financeiro provocado pela taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano, deve ganhar força sobre as contas de famílias e empresas.
O alívio da inflação em junho não é, por si só, um ponto de virada. Diante da perspectiva de arrefecimento da demanda doméstica, porém, deve permitir que o Banco Central prossiga com reduções graduais dos seus juros, a depender do panorama global.
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