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Ninguém solta a mão de ninguém

NOTAS E INFORMAÇÕES / O ESTADÃO DE SP

 

Já está clara a estratégia que o governo Lula usará para tentar evitar – ou postergar – a ruína dos Correios. Caberá a outros órgãos e empresas sob seu controle esticar artificialmente a vida da estatal zumbi. Só isso explica o fato de o Banco do Brasil (BB) ter firmado um novo acordo com a empresa para prestação de serviços postais em todo o País.

 

O contrato anterior vencia em 10 de julho, e o novo, válido para os próximos cinco anos, poderá alcançar até R$ 2,3 bilhões. O BB garante que a decisão foi tomada de forma “independente”. A contratação, no entanto, se deu de maneira direta, ou seja, sem a realização de um procedimento de licitação. A justificativa do BB é de que a maior parte dos serviços demandados está sujeita ao monopólio postal.

 

Sobre os demais serviços não monopolizados, entre as quais a entrega de encomendas expressas, a instituição financeira informou ter consultado outras duas empresas. Alegou, no entanto, que os valores eram similares aos cobrados pelos Correios e justificou que a estatal seria a única organização com “capilaridade, abrangência nacional e capacidade operacional” suficientes para assegurar atendimento integrado, contínuo e padronizado em todo o território nacional, inclusive em localidades remotas e de difícil acesso.

 

É quase inacreditável que um dos maiores bancos do País em ativos, carteira de crédito, número de clientes e valor de mercado trabalhe dessa forma, mas é exatamente assim que opera o lulopetismo quando se trata de empresas estatais. No caso do BB, uma sociedade de economia mista com capital aberto, quase metade dos papéis da instituição financeira pertence a acionistas privados, mas é em momentos como esse que o governo abusa de sua posição de controlador para impor suas vontades de maneira velada.

 

Os Correios tomaram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de cinco bancos no ano passado, entre os quais o Banco do Brasil e a Caixa. As instituições financeiras só aceitaram emprestar porque o Tesouro Nacional – ou seja, o contribuinte – se comprometeu a honrá-lo em caso de calote.

O Tribunal de Contas da União (TCU), no entanto, encontrou falhas na análise da operação e do plano de reestruturação da empresa e abriu um processo para apuração de responsabilidades – situação que pode atrapalhar a contratação do segundo empréstimo que a empresa pleiteia, entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões.

 

Os Correios registram prejuízo há 14 trimestres consecutivos, encerraram 2025 com um rombo de R$ 8,5 bilhões e devem fechar o ano com um resultado negativo de R$ 10 bilhões. Somente no primeiro trimestre, a perda foi de R$ 3,16 bilhões, causada pelo aumento de despesas gerais e administrativas e pela queda de receitas líquidas, inclusive em itens relevantes como encomendas e postagens internacionais.

 

Diante de números tão ruins, não é à toa que os bancos estejam reticentes em conceder um novo empréstimo. O governo, no entanto, assegura que a empresa está conseguindo recuperar contratos e logo voltará a registrar bons resultados. Aos poucos, começa a ficar claro que contratos são esses – e com quem eles têm sido fechados.

 

No mês passado, a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, disse que os Correios estavam prestes a anunciar uma parceria para gerenciar a logística dos galpões que recebem material apreendido pela Receita Federal – uma atividade que gera despesa para o órgão, mas que, de acordo com a ministra, sabe-se lá como, renderia receitas para os Correios.

 

Agora, chegou a vez de o Banco do Brasil contribuir com os Correios, e a julgar pela tradição dos governos petistas, outras empresas e órgãos públicos serão “convidados” a participar dessa operação conjunta de socorro, no melhor estilo “ninguém solta a mão de ninguém”.

 

Ainda que as receitas dos Correios voltem a crescer, é nas despesas que está seu maior desafio. Em vez de privatizar a empresa para dar fim a esse sorvedouro de dinheiro público de uma vez, o governo Lula não surpreende com suas falsas soluções, tampouco hesita em passar o custo de suas controversas escolhas à sociedade.

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