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Esquerda dá mau sinal ao não aceitar derrota na Colômbia

Na definição minimalista de Adam Przeworski, a democracia é o sistema no qual os políticos que perdem eleições entregam o poder pacificamente aos vencedores.

Outros teóricos podem apontar outros elementos relevantes para caracterizar um país como democrático, como a vigência do Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos e às liberdades cívicas, mas poucos duvidarão de que o primordial é assegurar que a alternância no poder se dê tranquilamente e sem violência.

Sob esse critério, vai mal a democracia no subcontinente sul-americano. O caso mais grave hoje é o da Colômbia. O atual presidente, o esquerdista Gustavo Petro, e o presidente eleito, o direitista Abelardo de la Espriella, trocam acusações graves, e o processo de transição de governo se encontra suspenso.

De la Espriella afirma que Petro prepara um golpe para manter-se no poder. A acusação veio depois de o presidente ter dito que não reconhecia a legitimidade do futuro governo e que o rival não vencera as eleições.

O direitista superou por margem mínima o candidato situacionista, Iván Cepeda. A diferença foi de pouco mais de 250 mil votos num universo de mais de 26 milhões. Cepeda chegou a reconhecer a derrota, mas falou em recorrer à desobediência civil.

Apesar da retórica perigosamente inflamada, não há sinais objetivos nem de irregularidades no pleito, que foi chancelado por observadores internacionais, nem de que o atual governo prepare medidas para não entregar o poder. Pelo contrário, Petro antecipou a data em que deixará o cargo, provavelmente para não ter de passar a faixa ao sucessor.

Outro caso de revés recente da esquerda ocorreu no Peru, onde Keiko Fujimori venceu Roberto Sánchez também por margem mínima. Depois de um excruciante processo de contagem, Sánchez reconheceu nesta semana a vitória da adversária, mas de forma inquietantemente ambígua.

Disse que aceitava a proclamação do resultado oficial, mas que não abria mão do direito de denunciar irregularidades —sabe-se lá o que isso significa.

Na Bolívia, o direitista Rodrigo Paz foi eleito no final do ano passado num pleito sem contestações. O concorrente no segundo turno era do mesmo campo ideológico, mas Paz não teve direito a um período de trégua.

Poucos meses após a posse, tiveram início protestos violentos, em alguma medida orquestrados pelo ex-presidente Evo Morales, que pediam sua renúncia. As manifestações continuam, embora o antigo aliado do chavismo tenha anunciado uma suspensão dos bloqueios rodoviários.

Trata-se de sinais alarmantes em um panorama de polarização e eleições acirradas. Ainda que tais episódios não tenham chegado a uma tentativa de golpe como a de Jair Bolsonaro (PL) no Brasil, a recusa ao veredito das urnas e o esforço para desacreditar o sistema eleitoral afrontam a essência da democracia.

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