Campanha medíocre
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A campanha eleitoral oficial ainda não começou. Mas já está claro que, no que depender dos dois principais pré-candidatos à Presidência da República, os eleitores terão de cruzar um deserto de ideias até as urnas. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o senador Flávio Bolsonaro têm se mostrado fiéis à tradição de indigência que marca os pleitos nacionais mais recentes. Nem um nem outro se mostram dispostos a travar um debate ancorado em fatos, orientado por prioridades nacionais e organizado por propostas condizentes com as necessidades mais prementes do País. Em vez disso, grassam mentiras, ataques pessoais e estímulos a uma guerra tribal de soma zero que nada têm a ver com o interesse público.
Ao olhar para um lado, os eleitores se deparam com Lula, um governante envelhecido em suas ideias, desconectado do Brasil e do mundo do século 21 e, ademais, protagonista de dois dos maiores esquemas de corrupção de que o Brasil já teve notícia na história recente: o “mensalão” e o “petrolão”. Ao se virar para o outro lado, lá está Flávio Bolsonaro, um senador que só existe politicamente por ter o sobrenome do pai e que é notório – para além de seu evidente despreparo para administrar até uma loja de chocolates – pela suspeita de ter liderado um esquema de “rachadinhas” em seu gabinete na Alerj, termo singelo para abarcar crimes graves como peculato, corrupção e lavagem de dinheiro.
A percepção social de que a política nacional está indelevelmente maculada por práticas pouco republicanas desde o topo contribui para uma descrença generalizada. Quando “todos são corruptos” aos olhos dos eleitores, a decisão de voto tende a se deslocar do campo programático – racional – para o terreno identitário – emocional. Noutras palavras: o bem comum se torna uma consideração menos relevante para a tomada de decisão do que a reafirmação de convicções e o fortalecimento dos vínculos de grupo.
Isso ajuda a explicar por que temas laterais ocupam o centro do debate eleitoral no País. A chamada “guerra cultural”, envolvendo primordialmente questões de costumes, passa a organizar as discussões na esfera pública, enquanto desafios estruturais muitíssimo mais importantes para o Brasil seguem à margem – quando não olimpicamente ignorados. Essa inversão de prioridades empobrece a democracia e compromete a capacidade do eleitor de fazer escolhas bem fundamentadas.
Nesse ambiente hiperintoxicado pela ideologia, questões cruciais para o País, como o ajuste fiscal, as reformas administrativa, previdenciária e do Judiciário, as deficiências de infraestrutura, os gargalos da saúde pública e da educação básica, entre tantos outros, perdem espaço para a ladainha assistencialista de curto prazo. A conquista do eleitor passa a girar não em torno de projetos nacionais em disputa, e sim de quem promete distribuir mais dinheiro – longe, é claro, de uma estratégia sustentável de desenvolvimento. O resultado é a substituição de políticas públicas estruturantes por medidas populistas tão apelativas quanto irresponsáveis.
Este jornal espera que isso não seja um destino inscrito em pedra. A campanha eleitoral tem de servir à discussão de uma agenda virtuosa para o Brasil. Áreas nas quais o País está atrasado não faltam. Da incorporação de novas tecnologias, como a inteligência artificial, à modernização do Estado. Do equilíbrio das contas públicas ao desenvolvimento da educação básica. Da reorganização do Sistema Único de Saúde à reforma do Judiciário. Os desafios são sobejamente conhecidos e há muito diagnosticados. Faltam coragem e disposição política para enfrentá-los com seriedade e espírito público numa disputa eleitoral que promete ser acirrada.
Aqui reside a responsabilidade das forças políticas liberais e democráticas. Longe dos extremos que hoje intoxicam o debate público, quando não o interditam, o centro tem o dever de apresentar ao País um projeto de governo consistente, com visão de Estado, que combine responsabilidade fiscal, sensibilidade social e resgate institucional. Ainda que não seja a opção favorita dos eleitores, a julgar por pesquisas de momento, seu papel é fundamental para a qualificação do debate público e, consequentemente, para o aprimoramento da democracia. Com todas as suas carências e potencialidades, o Brasil exige e merece mais do que essa miséria intelectual que está posta.

