Prisão de MCs revela como crime usa celebridades
Por Editorial / O GLOBO
Sob suspeita de lavagem de dinheiro para o crime organizado, os MCs Ryan SP, Poze do Rodo e influenciadores digitais foram presos na quarta-feira pela Polícia Federal (PF). Segundo as investigações, o grupo usava um sistema estruturado para ocultar e dissimular recursos, que incluía operações financeiras no Brasil e no exterior, transporte de moeda em espécie e transações com ativos digitais. A PF estima que os acusados tenham movimentado mais de R$ 1,6 bilhão em 24 meses, montante ilícito oriundo de tráfico, bets irregulares e rifas ilegais. São denúncias graves.
Nomes conhecidos do funk nacional, Ryan SP e Poze do Rodo têm enfrentado problemas recorrentes com a polícia. Em maio do ano passado, Ryan foi detido depois de fazer manobras perigosas com um carro de luxo em Piracicaba. Pagou multa de R$ 1 milhão para compensar os danos. Um ano antes, fora flagrado por câmeras de segurança agredindo a namorada. Poze do Rodo tem estado na mira da polícia fluminense sob acusação de apologia ao crime em letras e postagens e de ligação com o Comando Vermelho. Chegou a ser preso em maio do ano passado.
Não só no Brasil artistas são acusados de envolvimento com o narcotráfico. Nos Estados Unidos, o rapper Fetty Wap, autor de “Trap Queen”, foi condenado a seis anos de prisão por tráfico de drogas em 2023. Era acusado também de romantizar o tráfico em suas músicas. Em 2024, Young Thug foi condenado por posse de drogas e ligação com a gangue Bloods, suspeita de tráfico, assassinato e roubo de veículos. Rod Wave foi preso em 2025 no mesmo dia de sua primeira indicação ao Grammy, sob acusação de posse de substâncias controladas e porte de arma de fogo. Foi solto após pagar fiança.
Em todos esses casos, costuma haver acusações de glamourização do crime no trabalho artístico, ou mesmo de estímulo à violência. Mas apenas letras controversas ou provocativas não podem justificar censura ou punição. A liberdade de expressão precisa ser assegurada, e é comum que figuras de relevo na cultura popular adotem em seu trabalho postura considerada agressiva ou ofensiva. Por isso é essencial ressaltar que os artistas não foram presos pelo que cantaram, mas pelo que fizeram. E as acusações não podem ser minimizadas. O combate ao crime organizado é hoje um dos maiores desafios do país.
Ao menos 64 organizações criminosas atuam no Brasil. O dinheiro delas é lavado muitas vezes com a cumplicidade de figuras conhecidas. A visibilidade dos funkeiros permite movimentar grandes quantias sem despertar suspeitas nos sistemas de vigilância financeira. “Eles são muito úteis e facilmente recrutáveis”, afirma Marcelo Maceiras, delegado regional de Polícia Judiciária. Investigadores suspeitam que verbas de publicidade e bilheteria de shows eram infladas para ocultar o dinheiro do crime organizado.
Cabe à PF apresentar à Justiça provas consistentes que corroborem as acusações de lavagem de dinheiro. Diferentemente de opiniões sobre o que cantam ou usam, tais crimes não dependem de interpretações. Movimentações de grandes somas precisam ser explicadas de forma convincente. Independentemente da fama, das plateias cativas ou da legião de seguidores nas redes sociais, se comprovadas as acusações, eles precisarão acertar as contas com a Justiça. Exatamente como aconteceu com os rappers americanos que se envolveram com traficantes.

