Tarde demais, cara demais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cumpriu uma promessa de campanha ao inaugurar, ontem, a Linha 17-Ouro do Monotrilho, que liga o Morumbi ao Aeroporto de Congonhas. Em meio a tantas obras públicas que apodrecem a céu aberto como monumentos à incúria, é de justiça registrar seu mérito. Finalmente, um trem previsto para ser entregue a tempo da Copa do Mundo de 2014 começou a se mover. Mas é só isso. A história dessa obra inspira mais lamento do que celebração.
Concebida em 2010, sob o entusiasmo da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo seguinte, a Linha 17-Ouro do Monotrilho deveria ligar Congonhas ao estádio em tempo recorde. A promessa, como tantas daquela época, não passou disso, de uma promessa, sucumbindo à incompetência e à roubalheira. Vieram as mudanças no projeto original, aditamentos contratuais, a troca do estádio da abertura da Copa do Mundo pela Fifa, o corte de financiamentos e, em meio a tudo isso, a razia provocada pela Lava Jato, atingindo em cheio as empreiteiras responsáveis pela obra. Resultado: paralisações, contratos rescindidos pelo Metrô de São Paulo e um canteiro de obras que não demorou para se transformar numa pequena Cracolândia, para desespero de quem circula pela Avenida Roberto Marinho.
O Monotrilho chega com três Copas do Mundo de atraso, fato que, por si só, já demonstra que a ideia original perdeu o sentido. O custo, por sua vez, dobrou. O que começou como um orçamento de R$ 2,9 bilhões terminou em cerca de R$ 6 bilhões apenas nesta primeira etapa, sem que se possa dizer, com segurança, que se trata da conta final para os contribuintes. A bem da verdade, esse não é um problema exclusivo da Linha 17-Ouro. Obras públicas raramente têm esse tipo de acurácia no Brasil.
Portanto, a construção da Linha 17-Ouro do Monotrilho não foi um raio em céu azul. Foi fiel a uma tradição de desmazelo administrativo, para dizer o mínimo, que naturaliza o atraso e banaliza o desperdício de bilhões de reais em recursos públicos como se fossem fatos da vida.
Doze anos depois, Tarcísio tem o direito de receber os louros políticos pela conquista – afinal, de fato, ele concluiu uma obra que deveria ter sido entregue à população ainda nos tempos de Dilma Rousseff (PT). O Monotrilho, aliás, não é a primeira obra que Tarcísio retira do limbo das promessas não cumpridas por outros governos, algo que merece ser notado.
Para os turistas e moradores da capital paulista, resta a utilidade de mais uma linha de transporte sobre trilhos, ainda que de alcance limitado, e a esperança de que futuros presidentes da República, governadores e prefeitos guardem essa obra não como um triunfo de engenharia e gestão, mas como uma advertência para projetos dessa magnitude. Se a Linha 17-Ouro do Monotrilho deixar ao menos essa lição, já terá prestado um serviço muito melhor do que aquele para o qual foi concebida.

