O Brasil precisa fazer sua parte
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A dimensão da abertura da janela de oportunidade para o Brasil do acordo comercial fechado entre Mercosul e União Europeia (UE), depois de mais de 26 anos de negociações, não será definida apenas por decisões tarifárias, mas também – e principalmente – por avanços domésticos para fazer a economia brasileira competir mais em pé de igualdade com os países da UE. Aumento da produtividade, modernização da produção, redução do custo Brasil, estabilidade regulatória e do ambiente de negócios, ajuste das contas públicas e previsibilidade econômica são os fatores-chave na busca dessa simetria.
Se superar os entraves políticos e judiciais na Europa, como se espera, o tratado entre os dois blocos econômicos, celebrado como um marco histórico num momento de reordenamento geopolítico e fragmentação do comércio global, embute alguns riscos, como pressões competitivas sobre a indústria menos preparada à concorrência internacional e mais voltada ao mercado interno. É necessário preparar o terreno, sobretudo institucionalmente, para que o Brasil possa aproveitar plenamente o potencial dessa nova fase comercial.
No artigo Avaliando os impactos regionais no Brasil do acordo Mercosul-União Europeia, publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), os economistas Flávio Ataliba Barreto, Thiago de Araújo Freitas, João Mário Santos de França e Pedro Avelino reforçam os ganhos potenciais, que podem influenciar, inclusive, decisões de novos investimentos. Mas destacam também riscos e condicionantes, institucionais e produtivas.
No âmbito do comércio exterior brasileiro, a China, os Estados Unidos e a Argentina ocupam, respectivamente, as primeiras posições como principais parceiros comerciais. Contudo, os países da União Europeia também desempenham papel relevante no contexto agregado: em 2025, as exportações brasileiras para esse bloco totalizaram US$ 49,8 bilhões em mercadorias, representando um acréscimo de 3,2% em relação ao ano anterior.
Os economistas chamam a atenção, porém, para a grande diferença nas dinâmicas regionais internas do comércio, concentrado no Sudeste e no Sul do País, embora o Centro-Oeste, com o agronegócio, cresça de forma mais notável. Quatro regiões tiveram crescimento no ano passado, em maior ou menor grau, enquanto o Nordeste teve queda expressiva nas exportações para o bloco europeu, de 12,3% no período. As disparidades permitem estimar que os efeitos da ampla liberalização tarifária não se distribuirão de forma uniforme nem pelas regiões nem por setores. Haverá oportunidade para uns e grandes desafios para outros.
Avanços estruturais poderiam garantir maior aproveitamento. A despeito das recorrentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa do multilateralismo, a economia brasileira, como é amplamente sabido, se mantém entre as mais fechadas do mundo, com baixa participação do comércio exterior em relação ao PIB e altas tarifas de importação, o que limita crescimento e produtividade. Não raro, setores industriais são carimbados como “estratégicos” para dispor de incentivos governamentais, prática comum sobretudo em gestões lulopetistas.
Os déficits no comércio do Brasil com a União Europeia concentram-se em setores mais industrializados. Já o agronegócio tende a ampliar oportunidades. O saldo final dessa conta será ditado não apenas pela eliminação tarifária, mas pelo necessário aumento da competitividade e capacidade de atendimento de exigências sanitárias, ambientais e técnicas.
Os quatro economistas da FGV reforçam em seu levantamento que, caso não venha acompanhada por avanços em produtividade, redução do custo do capital, fortalecimento institucional e políticas de apoio à adaptação empresarial, a liberalização comercial pode resultar em perda de densidade industrial em determinadas regiões, configurando um processo de desindustrialização relativa.
O acordo histórico Mercosul-União Europeia é um importante instrumento de inserção internacional efetiva do Brasil, mas dependerá de uma guinada macroeconômica e institucional para gerar impactos positivos.

