O Brasil não é refém de Lula e Bolsonaro
Por Notas & Informações / o estadão de sp
As primeiras pesquisas eleitorais de 2026, divulgadas nos últimos dias pelos institutos Genial/Quaest e Meio/Ideia, ajudam a organizar o debate sobre a sucessão presidencial deste ano. Lidas em conjunto, evidenciam o quanto o Brasil ainda permanece dividido e revelam, ao mesmo tempo, um presidente competitivo, alternativas moderadas sendo travadas e o avanço de uma candidatura que vive, sobretudo, da herança política do bolsonarismo. Como toda pesquisa eleitoral, esses levantamentos apenas retratam o momento. Num cenário ainda em formação, com candidaturas não oficializadas e estratégias em disputa, os ventos políticos mudam com maior rapidez.
Feita essa ressalva, convém registrar que a Quaest confirma um ponto central já indicado pela pesquisa Ideia. Entre os nomes hoje testados, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, segue como o adversário mais competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno. No confronto direto, Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 39% de Tarcísio – uma diferença estreita, dentro da margem de erro, que não se repete quando o petista enfrenta outros governadores da direita ou candidatos de menor projeção nacional. O governador do Paraná, Ratinho Junior, que acaba de se apresentar como pré-candidato à Presidência, aparece como o terceiro nome mais competitivo da direita.
Tarcísio ainda é o nome mais capaz de ameaçar a tentativa de reeleição de Lula. No primeiro turno, contudo, o governador paulista permanece travado. Nos cenários testados pela Quaest, Lula lidera com porcentuais que variam de 40% a 35%, enquanto Tarcísio aparece em patamares mais baixos (27%, na melhor hipótese), atrás do senador Flávio Bolsonaro (32% no melhor cenário para ele). É aí que se impõe o lamento da direita democrática: uma candidatura com maior potencial eleitoral e perfil mais institucional segue desperdiçada, refém de um campo político sequestrado pelo bolsonarismo na fase pré-eleitoral. O custo dessa captura é elevado – não apenas para a direita, mas para a qualidade do debate público.
Por outro lado, a mesma pesquisa mostra a consolidação de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula no campo da direita. No primeiro turno, o “zero um” aparece com intenções de voto entre 23% e 32%, conforme o cenário, superando Tarcísio e os demais governadores da direita. No segundo turno contra Lula, o senador ainda perde – 45% a 38% –, mas com desempenho suficiente para se apresentar como candidato competitivo. Esse avanço não decorre de trajetória própria nem de um projeto nacional consistente, mas, em grande medida, da incorporação quase automática do eleitorado fiel a Jair Bolsonaro, fenômeno que este jornal já apontou (ver editorial O nome do pai, 19/12/2025).
Com essa consolidação, torna-se difícil imaginar que Flávio desista da disputa, salvo em um cenário de racha explícito na família. O contraste é eloquente: enquanto Flávio ocupa redes sociais e espaços na mídia como candidato declarado, Tarcísio segue equilibrando pratos de forma cuidadosa, quase silenciosa, preso a um cálculo que combina cautela institucional, lealdade política e receio de confrontar o bolsonarismo mais radical.
As pesquisas ainda acrescentam um pano de fundo decisivo: o País segue dividido sobre a permanência de Lula no poder. Segundo o Instituto Ideia, 46,9% avaliam que o presidente merece continuar no cargo, enquanto 50% defendem o contrário. Na Quaest, 56% afirmam que Lula não merece um novo mandato. A margem é estreita, e a disputa, aberta.
Não está escrito nas estrelas que o Brasil está condenado a um duelo empobrecido e reciclado entre lulismo e bolsonarismo. O País não é prisioneiro desse cenário. A democracia brasileira é mais ampla do que essa dicotomia estéril. Há espaço – e necessidade – para lideranças que saibam disputar o poder sem sequestrar campos inteiros do espectro político, que ofereçam projetos em vez de heranças e que compreendam que vencer eleições é apenas o começo. Superar esses limites é uma urgência nacional.

