Master: denúncia anônima recebida pela PF levou à abertura de investigação
COLUNA DA MALU GASPAR / Por Rafael Moraes Moura e Johanns Eller— Brasília e Rio / OGLOBO
Uma denúncia anônima recebida pela Polícia Federal auxiliou as apurações no caso Banco Master e levou à abertura de uma investigação preliminar para averiguar o conteúdo encaminhado ao e-mail institucional da corporação. Após uma investigação própria acabar confirmando os elementos trazidos pela denúncia, a PF decidiu instaurar um inquérito policial que mira um esquema de gestão fraudulenta, desvio de valores, organização criminosa e lavagem de dinheiro em torno do Master.
O e-mail enviado à PF continha um arquivo em formato PDF intitulado "Informações Banco Master". Os detalhes da investigação são citados em decisão do ministro Dias Toffoli, que autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal de investigados no caso Master no último dia 6 -- e foi tornada pública nesta quinta-feira (15).
"A PF confirmou o conteúdo da denúncia, aí virou inquérito. O procedimento fixado pelo STF em precedentes foi totalmente observado", disse à equipe da coluna uma fonte a par das investigações. "Somente no caso de confirmação [da denúncia] é que é instaurado inquérito."
Conforme revelou o blog, as medidas cautelares cumpridas pela PF na segunda fase da Operação Compliance Zero na última quarta-feira (14) contra o dono do Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, familiares e suspeitos de integrar o esquema de fraudes na instituição já haviam sido solicitadas pelos investigadores à Justiça em outubro de 2025, um mês antes da megaoperação que prendeu o banqueiro e da liquidação do Master pelo Banco Central.
Em manifestação de outubro do ano passado, a Procuradoria da República em São Paulo apontou que a análise dos investigadores "revelou elementos de prova que apontam para a existência de uma rede complexa e articulada de relações empresariais e financeiras, com indícios consistentes da prática de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, notadamente gestão fraudulenta, indução de investidor em erro, uso de informação privilegiada e manipulação de mercado, além de lavagem de dinheiro e constituição de organização criminosa."
O caso tramitava na 8ª Vara Criminal Federal de São Paulo, até Toffoli atender a um pedido da defesa de Vorcaro e reivindicar para si o poder de decidir sobre quaisquer novas medidas tomadas em investigações relacionadas ao Banco Master. O ministro também decidiu colocar o caso sob sigilo.
Em novembro, a Justiça Federal de São Paulo pediu esclarecimentos sobre as medidas cautelares solicitadas pela PF. As diligências, no entanto, só foram autorizadas neste mês, após o caso chegar ao STF.
'Risco sistêmico ao sistema financeiro'
Segundo os investigadores, o esquema criminoso envolvia o "uso de fundos de investimento para circulação de ativos sem liquidez, artificialmente precificados, e reiteradas operações entre partes relacionadas — muitas delas sob controle direto ou indireto de indivíduos ligados por vínculos societários, familiares ou funcionais".
A Polícia Federal constatou, por exemplo, que empresas com capital social ínfimo cediam direitos creditórios milionários para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (“FIDCs”) vinculados ao Banco Master.
Também identificou movimentações financeiras suspeitas, incluindo uma transferência de R$ 9 milhões de um intermediário para Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro (o dono do Master), o que levou à conclusão de que “há fortes indícios de desvio de recursos e risco sistêmico ao sistema financeiro”.

