Busque abaixo o que você precisa!

Lula tenta se eximir de responsabilidade na segurança

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

São frustrantes os sinais de que o Palácio do Planalto pretende desistir da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, um dos dois principais projetos do governo federal na área (o outro é a legislação antifacção). A ideia de engavetar a PEC passou a ser cogitada devido a dificuldades para aprová-la no Congresso, diante de divergências com parlamentares e governadores, especialmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O governo considera que o texto em tramitação, relatado pelo deputado Mendonça Filho (União-PE), foi desfigurado e se afastou do propósito original.

 

A ideia de não levá-lo adiante já é admitida abertamente por lideranças petistas. “Se for para aprovar o relatório do Mendonça [Filho], melhor nem votar”, afirma o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Embora essa visão não seja unânime no governo, a desistência é cogitada. Não deveria. Elaborada pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, que entregou o cargo na semana passada e será substituído pelo advogado-geral da Petrobras Wellington César Lima e Silva, a PEC tem muitos méritos. O principal é aumentar o protagonismo do governo federal na segurança, setor historicamente negligenciado pelos petistas. A proposta amplia as atribuições da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, fortalece o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), estabelece o compartilhamento de bancos de dados e incentiva a integração entre as diversas forças da lei.

 

Um dos pontos de impasse é o desenho do Fundo Nacional de Segurança Pública. No relatório apresentado, os recursos seriam divididos apenas entre estados e Distrito Federal, não havendo previsão para bancar ações nacionais conduzidas pelo governo federal. Outras divergências dizem respeito ao papel da Polícia Federal na investigação de organizações criminosas e às regras para as guardas municipais.

 

Há sinais também de que o governo não pretende criar o Ministério da Segurança Pública, como prometera o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha eleitoral. A avaliação do comando petista é que o novo ministério poderia se transformar em armadilha no ano eleitoral. Pode haver bons motivos para não criar mais um ministério, de todo modo essa questão não deveria ser definida segundo a conveniência política.

 

Enfrentar a grave crise na segurança pública precisa ser política de Estado. Por isso o governo deveria insistir na aprovação da PEC da Segurança. É natural que projetos do Executivo sejam modificados no Legislativo. É preciso buscar consenso em torno dos pontos principais. Está demonstrado que os estados sozinhos não têm condições de combater organizações criminosas que atuam até no exterior. É imprescindível maior participação federal para enfrentá-las. Somente ações integradas de todas as forças de segurança serão capazes de derrotá-las. E é evidente que o modelo atual não funciona.

 

Maior preocupação dos brasileiros, a segurança é o ponto fraco do atual governo. Em três anos de mandato, Lula se revelou incapaz de conter o alarmante avanço do crime organizado, refletido não só nas guerras diárias entre facções, mas também na contaminação de setores da economia formal e até de instituições da República. Ele não pode continuar a se eximir de fazer o que precisa ser feito.

 

 

Barricada do tráfico em via do Complexo do Alemão, na Zona Norte do RioBarricada do tráfico em via do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/28/10/2025

Compartilhar Conteúdo

444