Caso Master: ‘Governo não tem dado apoio ao BC’, avalia ex-diretor
Por Paulo Renato Nepomuceno — Rio / O GLOBO
O ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Reinaldo Le Grazie vê um cerceamento à autoridade monetária no caso Master. A decisão do ministro do TCU Jhonatan de Jesus, na segunda-feira, de determinar uma inspeção nos documentos do BC relacionados à liquidação do Banco Master gerou reações contrárias de instituições financeiras ao que pareceu uma tentativa de cancelar a determinação do Banco Central. Mas, sob pressão, o ministro deve paralisar a apuração.
Como o senhor avalia a atuação do TCU no caso?
Já faz algum tempo que os Tribunais de Contas buscam um aumento da competência. Todos os instrumentos de governo brigam por espaço, isso é legítimo. Mas, na prática, isso está virando um cerceamento ao Banco Central. Chama atenção pelo ineditismo da matéria.
Quem entende de liquidação é o BC, que tem os dados. O TCU, mesmo que viesse a ter acesso, não vai conseguir entender com clareza o que aconteceu.
O que chama sua atenção?
É incrível como o Banco Central está solitário nessa operação. O governo não tem dado apoio explícito. O BC é muito próximo à Fazenda, era esperada participação na discussão. O apoio ficou a cargo das associações. O que é insosso, porque associações não têm cara.
Em que resultará a movimentação do TCU?
Acho que não vai dar em nada. Acho que o BC vai cumprir seu papel, tenho certeza de que fez um bom trabalho. Mas vai ficar uma marca no chão de até onde o governo brasileiro vai permitir o peso político em agências reguladoras. O BC não é órgão de governo, é de Estado.
Pode haver impacto na economia?
Se o cerceamento do BC for grande, complica a relação institucional. Quando o regulador é fraco, o sistema é fraco. Os canais de transmissão da política monetária dependem de credibilidade. Se não tem, não tem credibilidade para guiar inflação e juros. Sob pressão, um BC entrega inflação mais alta sob juros mais altos.
Há chances de reverter a liquidação?
Não se ressuscita um banco. É tão descabido falar nisso… porque ele não tem capacidade financeira de sobreviver e voltar.

