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Inflação da demagogia

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Depois de ultrapassar o teto da meta mês a mês de janeiro a outubro, a inflação acumulada em 12 meses teve em novembro seu primeiro resultado do ano levemente abaixo do limite máximo permitido para o IPCA, de 4,5%. Com seis meses consecutivos de queda, os preços dos alimentos tiveram papel importante na redução lenta, mas contínua, da taxa até atingir 4,46% em novembro. É possível que a inflação termine o ano dentro do intervalo de tolerância da meta, o que até pouco tempo parecia improvável, mas ainda está longe do centro da meta e mais distante ainda de ser percebida com alívio pelos consumidores.

Estudo recente dos economistas André Braz e Matheus Dias, da Fundação Getulio Vargas (FGV), comprova que o recuo no preço dos alimentos (2,69% entre junho e novembro) ainda é muito discreto diante do forte aumento acumulado nos últimos anos. Entre janeiro de 2020 e novembro de 2025, esses preços subiram 57%, enquanto o IPCA avançou 38%. No levantamento, os especialistas explicam que a grande diferença, de quase 20 pontos porcentuais, indica que os alimentos passaram a consumir um espaço maior no orçamento das famílias.

 

É uma situação que contribui para a desigualdade, já que, quanto menor a renda, maior o efeito da inflação dos alimentos. Para muitas famílias, manter a despesa com alimentação significa reduzir gastos com outros bens e serviços ou encarar o endividamento. A conta do supermercado passou a pesar mais no custo de vida e a empurrar com mais força a inflação média. Para o recuo recente dos alimentos começar a ser, de fato, percebido, precisa se estender por mais tempo e de forma mais intensa.

 

A julgar pelas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na mais recente reunião ministerial, contudo, o governo parece convicto de que tudo vai bem e que, “se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o problema da industrialização, do consumo, da agricultura, da inflação”.

 

A simplicidade do raciocínio do presidente é comovente, mas não se sustenta nos fatos. A inflação corrói o poder de compra do dinheiro, sobretudo dos mais pobres, que não conseguem proteger seus recursos aplicando no mercado financeiro para aproveitar os juros nas alturas. E haverá mais pressão inflacionária sempre que o governo gastar mais, a título de dar “dinheiro na mão do povo”, o que obriga a autoridade monetária a elevar os juros. Ganha quem está no topo da pirâmide, perde quem está embaixo – justamente a clientela que Lula diz cultivar.

 

Como mostra o estudo da FGV, a recente queda nos preços dos alimentos se deve, principalmente, ao câmbio, com valorização do real, e à boa safra produzida pelo setor do agro, que tem puxado a macroeconomia brasileira. Como o grupo alimentação responde por cerca de 20% das despesas familiares, a desaceleração também contribuiu para moderar a inflação média.

 

Do governo deve-se cobrar o mínimo: ajudar a autoridade monetária a cumprir o centro da meta inflacionária, de 3% ao ano. Até aqui, o Banco Central tem trabalhado sozinho nessa empreitada, em meio às pressões de Lula, incapaz de entender que a exorbitante taxa de juros de 15% ao ano, em vigor desde junho – e que não deve cair em janeiro –, é resultado direto da gastança desenfreada de recursos públicos da política de incentivo ao consumo.

 

A política monetária tenta refrear o estrago do expansionismo desmedido do lulopetismo. Consegue efeito razoável em relação ao crédito, inibido pelos juros mais altos, mas seu alcance em relação ao preço dos alimentos é limitado.

 

André Braz e Matheus Dias ponderam que a inflação dos alimentos só retrocederá de maneira mais consistente quando a oferta e a produtividade aumentar. Se a produção não avançar, os preços tenderão a se estabilizar em patamares elevados ou mesmo voltar a subir. Os pesquisadores sugerem ações de longo prazo, como melhoria da infraestrutura logística, investimentos em transporte por cabotagem, investimentos para desenvolver sementes mais resistentes às variações climáticas, entre outras medidas que poderiam fazer parte da lista de um governo interessado em governar, e não apenas dar “dinheiro na mão do povo”.

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