Rombo é rombo
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Bola da vez entre estatais federais deficitárias, a Eletronuclear decidiu recorrer a todos os expedientes possíveis para fechar o ano no azul, mesmo que à custa de uma certa maquiagem. As providências da empresa, responsável pelas usinas de Angra 1, 2 e 3, baseiam-se em acordos de postergação do pagamento de empréstimos e outras dívidas para 2026. São medidas que, segundo reconhece a própria estatal, são paliativas, voltadas ao “curtíssimo prazo”. O que significa, em bom português, que apenas empurrarão o problema para o ano que vem.
O ofício desprovido de subterfúgios que o presidente da ENBPar, controladora da Eletronuclear, Marlos Costa de Andrade, enviou ao alto escalão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva deixa claro que a manobra salvará apenas o resultado de 2025. Aos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, de Minas e Energia, Alexandre Silveira, do Planejamento, Simone Tebet, e da Gestão e da Inovação, Esther Dweck, o executivo foi bem direto ao comentar que nem mesmo os R$ 2,4 bilhões do acordo entre a União e a Axia (antiga Eletrobras) serão suficientes para resolver a situação de maneira definitiva.
Vale relembrar que a ministra Esther Dweck mostrou-se contrariada com o tratamento crítico dado pela imprensa ao resultado negativo das estatais em 2024, de cerca de R$ 8 bilhões, e declarou que déficit “não é rombo”. Compreende-se, nesse contexto, o esforço da direção da Eletronuclear em registrar um resultado positivo para 2025 que não existe.
O balanço da empresa indica que até 30 de setembro o prejuízo acumulado ao longo do tempo é de R$ 3,53 bilhões. Os resultados operacionais e financeiros deste ano estão ali detalhados, como o prejuízo de R$ 66,4 milhões de janeiro a setembro, por exemplo, incomparável ao lucro de R$ 874 milhões registrado no mesmo período de 2024. Custa a entender o sentido de mascarar o resultado do ano. Uma explicação plausível, mas não aceitável, é o desgaste de imagem num momento em que a crise avassaladora dos Correios deixa patente a ineficiência estatal.
É curiosa, para não dizer danosa, a forma do governo Lula de lidar com problemas concretos como esses, que exigem soluções estruturais, e não remendos. Ao negociar com a União, a Axia deu três assentos de seu Conselho de Administração e, em troca, saiu da Eletronuclear. Livrou-se de um grande problema e concedeu a Lula as vagas de conselheiros que ele buscava, mas, na prática, a União não terá o poder de comando que pleiteava na ex-estatal.
A Eletronuclear pede uma definição para a obra de Angra 3, paralisada há uma década, e deixa claro que sem essa decisão a situação da estatal fica “cada vez mais irreversível”. Concluir ou enterrar de vez a obra, mostram estudos, terá o mesmo custo, em torno de R$ 20 bilhões. Mas, até agora, o único aceno do governo aponta para o caminho de empurrar a crise com a barriga.

