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A rocambolesca união governista

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O União Brasil é, de fato, um fenômeno. Durante meses, assim como outras legendas centristas ou aquelas classificadas como parte do Centrão, o partido conseguiu a proeza de permanecer no governo e, simultaneamente, atacar com frequência o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais recentemente, no apagar das luzes de 2025, a legenda protagonizou um novo capítulo de seu enredo politicamente rocambolesco, um exemplo bem-acabado da barafunda que é a base de apoio do governo.

 

Mais do que trafegar entre a adesão ao governo de ocasião, retribuída com cargos e verbas, e a eventual migração para a oposição, o presidente do União, Antonio Rueda, passou a exibir retórica francamente oposicionista e alinhamento explícito à candidatura presidencial da direita. Esse “governismo de oposição” pareceu ter chegado ao fim quando, ao lado do PP, o União Brasil oficializou a federação que os transformou num gigante eleitoral e, ao mesmo tempo, anunciou a saída da base de apoio ao governo, dando um ultimato a seus ministros para deixarem a pasta. A ponto de o então ministro do Turismo, Celso Sabino, ser expulso do partido por se recusar a desembarcar do ministério.

 

Pois bem. Sem qualquer constrangimento lógico ou político, o União Brasil passou agora a negociar a indicação de outro nome da própria legenda para ocupar o mesmo ministério que desprezara meses antes. A articulação foi costurada diretamente entre o Palácio do Planalto e o presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, um dos persistentes comandantes do Centrão, com o aval de Rueda. Poucos dias antes, Celso Sabino estava em Belém, sua base eleitoral, fazendo planos como ministro do Turismo, até descobrir que seria substituído – por indicação do mesmo partido que o desfiliara por se recusar a deixar o cargo. O nome indicado é o do deputado Damião Feliciano, paraibano como Motta. Não por acaso, a manobra gerou queixas duras, sobretudo da ala oposicionista da legenda.

 

É o Brasil. Um partido integra formalmente a base governista, ocupa ministérios e desfruta dos bônus do poder, mas se comporta como se estivesse na trincheira oposta, mirando a eleição presidencial de 2026. Quando convém, posa de aliado; quando o vento muda, veste o figurino oposicionista; e, quando a incoerência cobra seu preço, improvisa soluções que apenas aprofundam o desarranjo. O problema não é a flexibilidade política – virtude legítima em democracias complexas –, mas a ausência completa de coerência.

 

O episódio sintetiza duas patologias centrais do atual estado de coisas do sistema partidário brasileiro. A primeira é a fragmentação interna das grandes legendas, transformadas em federações informais de interesses regionais e pessoais. A segunda é o oportunismo elevado à condição de método, na qual cada decisão é guiada exclusivamente pela leitura, quase sempre errática, do humor do eleitorado e das apostas para o próximo ciclo eleitoral.

 

Antes que as gralhas gritem, convém dizer que Lula e o governo não são vítimas dessa incoerência conjugada com oportunismo, muito menos observadores passivos. Longe disso. Esse é o preço que o presidente tem a pagar tanto pela incompetência política no manejo de sua coalizão, que aguça – em vez de conter – a natureza fluida de Brasília, quanto pela dificuldade crônica do PT de dividir espaços reais de poder na condução de sua gestão. Ademais, basta acompanhar o ideário dos partidos envolvidos para constatar que nada têm a ver com o lulopetismo: a agenda que pregam, como a defesa de ajuste fiscal, menos impostos e redução do Estado, significa o oposto do que Lula e seus sabujos defendem. Nessa história, contudo, não há nem ingênuos nem heróis.

 

Este jornal insiste que o centro político é indispensável à governabilidade e à contenção dos extremos. Mas essa função pressupõe algum compromisso com a estabilidade institucional e com a palavra empenhada. Quando o pragmatismo degenera em incoerência e o cálculo eleitoral substitui qualquer noção de responsabilidade, o centro deixa de ser fiador da governabilidade para se tornar, ao contrário, um fator permanente de instabilidade.

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