Esquerda retoma o rótulo de 'inimigos do povo' contra a Câmara e Motta após aprovação do PL da Dosimetria
Por Rafaela Gama — Rio de Janeiro / O GLOBO
Buscando repetir a estratégia adotada para barrar o avanço da PEC da Blindagem em setembro — aprovada na Câmara dos Deputados e depois rejeitada no Senado —, parlamentares e contas ligadas à militância da esquerda voltaram a descrever o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos), como "inimigo do povo" após a aprovação do PL da Dosimetria, na madrugada desta quarta-feira. Nas redes sociais, compartilharam montagens que ironizavam Motta e o associavam à alcunha.
A direita bolsonarista, por sua vez, comemorou o avanço da proposta de redução de penas que beneficiaria o ex-presidente como um sinal de "justiça" aos condenados pelo 8 de janeiro e como o "primeiro passo" para a libertação de Jair Bolsonaro (PL).
A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) disse, em seu perfil nas redes sociais, que Motta "pautou e, na calada da madrugada, deputados aprovaram um projeto para anistiar e reduzir as penas de golpistas condenados, inclusive Bolsonaro". A parlamentar paulista também retomou o uso da expressão "Congresso Inimigo do Povo".
A hashtag foi criada no início deste ano, após a derrubada pelo Legislativo do decreto de aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas ganhou força meses depois, durante a movimentação da esquerda nas redes contra a PEC da Blindagem. A parlamentar paulista também retomou o uso da expressão "Congresso Inimigo do Povo". Em setembro, a estratégia incluiu levar a pauta para as ruas, em protestos realizados nas principais capitais, e influenciou na derrubada do texto pelo Senado na semana seguinte.
Na quarta-feira, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) criticou a aprovação do PL da Dosimetria: "a qualquer sinal de que um político do centrão ou da direita será responsabilizado por seus atos, ou sua corrupção, correm para alterar as regras do jogo". A movimentação também foi criticada pela deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), que escreveu em um post no X que a Casa "votou escondido para salvar Bolsonaro" enquanto "a maioria esmagadora da classe trabalhadora está dormindo e descansando da exaustiva escala 6x1".
Entre as postagens, também foram veiculadas postagens que retomaram o apelido "Hugo Nem sem Importa", também usado pela militância para ironizá-lo no passado, além de montagens que o associavam a descrições pejorativas como "playboy", "protetor de bandidos" e "moleque". Dados de um levantamento obtido pelo GLOBO e realizado pela Ativaweb, que encontrou mais de 7 milhões de menções relacionadas ao PL da Dosimetria, também indicam que 9 a cada 10 menções a Motta tiveram teor negativo nas últimas 24 horas.
Representantes da base do governo exigiram a renúncia de Motta e também foram críticos à remoção à força do deputado Glauber Braga (PSOL) da cadeira da presidência, em um momento que antecedeu a votação. Entre os que se manifestaram, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ) compartilhou um trecho de seu discurso na tribuna da Casa, no qual dizia que Motta "está perdendo as condições de ser presidente da Câmara". "Ao tentar votar esse projeto de anistia, ele está definitivamente enterrando qualquer história vinculada à democracia", escreveu na legenda do vídeo publicado no X. Além do petista, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência e deputado federal licenciado, Guilherme Boulos (PSOL), classificou o ocorrido como uma "noite de vergonha para o parlamento brasileiro, com a imprensa evacuada, o sinal da TV Câmara interrompido e jornalistas e parlamentares agredidos a mando do comando da Casa".

