A caminho da verdade do clima na COP30
Em que pesem avaliações negativas que se podem traçar da COP30, a cúpula sobre mudança climática de Belém do Pará, cumpre não subestimar as várias conquistas do evento. Entre as mais notáveis, que a reunião se tenha concluído no prazo usual, isto é, com o atraso regular dos últimos anos.
Mais de 60 mil delegados de quase duas centenas de países passaram pela metrópole de 2,7 milhões de pessoas encravada na floresta e envolta nas águas abundantes da amazônia. Padeceram com calor, umidade e alagamentos, amostra do que já enfrentam populações mais vulneráveis a eventos extremos do aquecimento global.
Houve consideráveis percalços, como a tentativa de invasão da zona azul —área restrita a negociadores— e um incêndio no mesmo espaço. Sinais de despreparo, que por sorte não fez vítimas graves, só arranhões na reputação dos organizadores.
O desastre logístico predito por não poucos não chegou a se materializar. Por outro lado, no que toca à substância de decisões e documentos, houve poucos avanços, como a entronização do ideal de transição justa, mecanismo para dar a sociedades desfavorecidas meios para renunciar a combustíveis fósseis e adaptar-se à mudança do clima.
Teria sido melhor detalhar tal compromisso com cifras e prazos, mas assim procedem as COPs: palavra por palavra, até que em futuro incerto o verbo coalesça em metas identificáveis, desprovidas porém de controles para cumprimento. Assim caminha o multilateralismo imprescindível, com lentidão aquém da emergência climática.
Na prática, abusa-se do poder de veto. Arábia Saudita, China, Índia e Rússia incineraram o mapa do caminho para longe dos fósseis que a presidência brasileira preconizava. A União Europeia travou o financiamento, ficando apenas a promessa genérica de triplicar os recursos a desembolsar por países desenvolvidos.
Restam pouco mais de 11 meses, até a COP31 na Turquia, para produzir o roteiro prometido pelo Brasil, doravante por conta própria. A diplomacia nacional confia no apoio de 80 países, e uma reunião separada sobre o tema espinhoso deverá ocorrer na Colômbia no primeiro semestre.
O avanço possível se deu não no item principal da mitigação (redução das emissões de carbono), mas no da adaptação. No jargão das COPs, trata-se de enfrentar as condições ameaçadoras criadas pela omissão internacional, 33 anos após adotada a Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas, na neutralização dos fósseis que a ciência prescreve para 2040.
A COP30 seria a COP da verdade e foi: nunca esteve tão evidente o abismo que separa governos comprometidos com deter a crise climática —para esta e para futuras gerações— dos que trabalham há um terço de século pela precedência dos próprios interesses econômicos e estratégicos, doa a quem doer.
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

