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Impacto de eventos climáticos extremos na educação é pior que a pandemia

Por  Priscila Cruz / O GLOBO

 

 

Escola Moinhos, em Estrela: devastação causada por temporais no Rio Grande do SulEscola Moinhos, em Estrela: devastação causada por temporais no Rio Grande do Sul — Foto: Secretaria de Educação do RS

Estamos até hoje tentando reduzir os efeitos da pandemia de Covid-19 na educação devido ao fechamento das escolas. Sem a presença coletiva no espaço escolar, a aprendizagem se enfraquece muito e outras dimensões essenciais do desenvolvimento se tornam inviáveis.

 

A pandemia passou, mas outras circunstâncias continuam afastando alunos e professores da escola durante o período letivo, como a violência, greves e eventos climáticos extremos. Neste mês da COP30, focarei nas razões climáticas.

 

Segundo dados do Banco Mundial, alunos brasileiros já deixam de ir à escola por volta de 10 dias por ano devido ao clima (enchentes, queimadas, calor excessivo, etc.), correspondendo a 5% do ano letivo de 200 dias, com efeitos diretos na aprendizagem. Um exemplo dramático foi a enchente no Rio Grande do Sul em 2024: o estado despencou 19 pontos percentuais no indicador de crianças alfabetizadas após a tragédia. E a recuperação posterior sofre com o pânico que os alunos têm até hoje quando começa a chover, pois muitos deles acabam não saindo de casa para ir à escola, aumentando a ausência mesmo nos períodos em que há normalidade no clima. Sem falar na ansiedade e até mesmo no luto climático.

Estamos avançando muito lentamente na aprendizagem dos alunos em todas as etapas. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no Ensino Fundamental I, indicador que mais melhorou na última década, avançou a uma taxa média de quase 3% por ano. Não podemos perder força de políticas públicas essenciais, como a ampliação da educação integral e a formação de professores, com escolas fechadas e perda de frequência escolar de alunos e professores. Com muita razão, o novo Plano Nacional de Educação (PNE) traz um objetivo que não existia nos PNEs anteriores, de “enfrentamento das mudanças do clima em todos os estabelecimentos de ensino”.

 

Nada leva a crer que os eventos climáticos extremos vão diminuir em quantidade e em intensidade, e não há como desvincular clima e educação. Não haverá melhora sustentada da aprendizagem se nossas escolas continuarem sendo paralisadas por chuvas torrenciais, calor insuportável ou desconforto térmico – ou até mesmo se escolas forem sempre a primeira opção de abrigo. Não haverá equidade se estudantes em áreas de risco perderem mais dias letivos do que aqueles em regiões protegidas.

 

Não podemos continuar a reagir pontualmente em cada nova tragédia. É com este senso de responsabilidade que o Todos Pela Educação elaborou um novo material, com o Vozes da Educação, apoio da B3 Social e contribuições de 14 organizações, apresentando um conjunto de recomendações para tornar as redes escolares e escolas mais preparadas.

Entre as medidas propostas estão a criação de diretrizes nacionais de governança para situações de emergência, a instituição de planos de contingência escolares, alternativas à escola como abrigo e a formação de comissões intersetoriais permanentes. Há também recomendações para o financiamento, como a criação de um Fundo Nacional para Escolas Resilientes.

 

Na dimensão da justiça climática, o documento propõe direcionar recursos prioritariamente para as escolas mais vulneráveis e garantir a continuidade da aprendizagem — com transporte emergencial, bolsas de permanência e apoio psicossocial. E na dimensão pedagógica, destaca-se a importância de incluir educação climática e gestão de riscos na formação de professores, além do envolvimento de toda a comunidade.

“O impacto dos eventos climáticos extremos é pior que o da pandemia” é uma frase da secretária de Educação do Rio Grande do Sul, a Raquel Teixeira, que viveu as duas crises. Ela conta que a gestão da educação em uma crise climática é lidar com situações mais heterogêneas entre os estudantes; é ter que descobrir em qual abrigo cada um deles está; é lidar com a dor de famílias que perderam tudo o que construíram a vida toda; é lidar, assim como na pandemia, com vidas perdidas.

 

O futuro do planeta e o futuro da educação são o mesmo futuro. Legamos do século 20 um planeta mais instável e alunos que ainda não têm seus direitos educacionais assegurados. Agora teremos que lutar muito mais para deixar um mundo melhor para as pessoas do século 21, que já nasceram.

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