Operação policial no Rio foi resultado de planejamento
Por Editorial / O GLOBO
As polícias Militar e Civil do Rio correram enorme risco ao entrar no quartel-general do Comando Vermelho durante a megaoperação de terça-feira nos complexos do Alemão e da Penha. Os traficantes demonstraram resistência incomum — a ponto de, pela primeira vez, usarem drones para lançar bombas nos agentes —, matando quatro policiais e ferindo outros 15. Os policiais prenderam 113 suspeitos — entre eles lideranças do CV, não apenas do Rio — e apreenderam mais de cem armas. É revelador que a operação, a mais letal na história do Rio, tenha deixado mais de uma centena de mortos. Mas ela foi resultado de planejamento para tentar preservar os moradores e encurralar os traficantes nas matas, onde ocorreu a maior parte dos confrontos.
O número oficial de mortos chegou a 121 na manhã de ontem. Quando o dia amanheceu, havia dezenas de corpos enfileirados numa praça da Penha, retirados da mata pelos moradores. As autoridades afirmam que todas as vítimas fatais eram vinculadas ao tráfico — além dos quatro policiais, dizem que quatro inocentes foram atingidos.
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, descreveu o quadro encontrado como “cenário de guerra”. “O que as polícias do Rio enfrentam não é mais questão de segurança pública, é uma guerra irregular, assimétrica, uma questão de defesa e de soberania nacional”, disse. É um argumento que não pode ser desprezado. Ao mesmo tempo, as autoridades não conseguiram prever em seu planejamento a reação feroz dos criminosos, que levou pânico a praticamente todas as regiões do Rio, com sequestros de ônibus e bloqueios de vias, paralisando a cidade.
Será preciso apurar se, nos confrontos, houve excessos da polícia. Eventuais denúncias devem seguir as vias institucionais: corregedorias internas e Ministério Público. Foi um exagero, por isso, o pedido do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por mais informações ao Estado do Rio. Cabe aos estados desenvolver suas políticas de segurança. “O STF não tem capacidade institucional para lidar com problemas técnicos, complexos e multifatoriais como os que envolvem a segurança pública”, afirma o jurista Gustavo Binenbojm, da Uerj. “Nem legitimidade democrática para fazer escolhas de políticas públicas, que cabem aos governantes eleitos. O papel que o Supremo pode ter é na supervisão e monitoramento das polícias, por intermédio dos órgãos encarregados do controle externo.”
Num primeiro momento, ao analisar a ação conhecida como ADPF das Favelas, o Supremo impôs restrições exageradas que engessaram o trabalho da polícia. Ao julgá-la em abril, acertadamente reduziu as restrições, estabelecendo medidas de monitoramento. Seria importante não haver retrocesso.
O que faltou foi integração com as forças federais, em especial por ser a maior operação já feita contra uma facção no Rio. Esperava-se que todos estivessem juntos numa ação que envolvia riscos evidentes para os moradores das favelas. Infelizmente, o que se viu inicialmente foi a troca de acusações entre Rio e Brasília. Só ontem o governo federal prometeu criar um escritório conjunto para ampliar a cooperação. É fundamental que presidente, ministros, governador e Judiciário consigam, nas próximas iniciativas, transmitir um recado inequívoco de união e ação conjunta capaz de extirpar do Brasil a chaga do crime organizado.

