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Voto de confiança em Milei é recado para toda a América Latina

Por  Editorial / O GLOBO

 

Argentina não pode desperdiçar a oportunidade que seus eleitores deram ao presidente Javier Milei nas eleições do último domingo. O resultado foi um voto de confiança renovado no programa de ajuste fiscal — ambicioso e doloroso, mas necessário — de Milei. Seu êxito não apenas encerraria a sucessão de ciclos de incúria fiscal que amaldiçoa os argentinos, mas também serviria de exemplo a toda a América Latina, em especial ao Brasil, onde déficits públicos têm sido tratados com leniência, alimentando o endividamento de modo irresponsável e pondo em risco qualquer perspectiva de crescimento sustentado e desenvolvimento duradouro.

 

Contra as projeções e a opinião de analistas, o partido de Milei, A Liberdade Avança (LLA), obteve 41% dos votos, nove pontos à frente do bloco peronista e kirchnerista — chegou em primeiro mesmo em redutos peronistas como a Província de Buenos Aires. Com isso, Milei passará a contar com 93 dos 257 deputados e 19 dos 72 senadores. É o suficiente para barrar propostas de gastos, tentativas de suspender decretos ou mesmo pedidos de impeachment, embora reformas trabalhista ou tributária ainda exijam negociações. A valorização recorde dos títulos da dívida argentina sugere que a crise pré-eleitoral ficou para trás.

 

Em setembro, o cenário era outro. Os peronistas venceram por mais de 14 pontos eleições locais na Província de Buenos Aires, despertando o temor de que as legislativas sepultariam o plano de estabilização. Parte ponderável do pessimismo se deveu aos escândalos de corrupção envolvendo Milei e sua irmã e braço direito, Karina — acusações que ainda merecem investigação e punição rigorosa. Diante do noticiário negativo, nem o programa de socorro do Fundo Monetário Internacional bastou para conter a fúria do mercado contra o peso. Foi necessário que Milei obtivesse US$ 20 bilhões com seu aliado ideológico Donald Trump, além da promessa de mais US$ 20 bilhões do setor privado americano.

 

Milei chegou ao poder em dezembro de 2023 com inflação anual de 211% e recessão de mais de 1,5%. Desregulamentou mercados e enxugou a máquina estatal, fechando repartições e demitindo milhares de servidores. O déficit fiscal de 4,4% do PIB há dois anos foi reduzido a praticamente zero. Os resultados não demoraram a aparecer. A inflação no mês passado foi de 2,1% e, nos últimos 12 meses, 31,8%. A economia voltou a crescer, e os índices de pobreza refluíram. O desemprego caiu de 7,9% para 7,6% do primeiro para o segundo trimestre deste ano.

 

Os obstáculos diante de Milei não são triviais. As denúncias de corrupção continuarão a assombrá-lo, e a dependência de Trump é uma fragilidade. Mais que tudo, será essencial articular maioria sólida no Congresso. A perspectiva política que se desenha agora, contudo, é bem mais otimista. “O governo entendeu que convém ampliar sua coalizão”, afirmou o cientista político Andrés Malamud, da Universidade de Lisboa, ao La Nación.“Seu partido agora detém o capital político necessário para acelerar as reformas estruturais”, disse à Bloomberg Alejo Czerwonko, diretor do UBS Global Wealth Management. Ao dar nova chance a Milei, o eleitor demonstra entender a relevância do ajuste fiscal. E prova que a democracia é o melhor caminho para resolver os dilemas. São recados que valem para toda a América Latina — inclusive o Brasil.

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