Os tartufos petistas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
“Templo é dinheiro”, dizia uma máxima, décadas atrás, que ironizava a ascensão das igrejas neopentecostais, braço evangélico que emergiu a partir dos anos 1970 e 1980 e que, liderado pela Igreja Universal do Reino de Deus e outras, notabilizou-se pela força midiática de pastores, pela teologia da prosperidade e pela organização empresarial da fé. A variação da expressão atribuída a Benjamin Franklin – “tempo é dinheiro” – era fruto em grande medida do preconceito e do choque de um país de maioria católica, onde inclusive ser católico chegou a constar como precondição para votar, e que se viu estremecido com a vertiginosa ascensão e relevância dos evangélicos. Ainda que tenha contribuído para isso o vigarismo religioso que marcou a conduta de pastores desde então, não deixa de ser chocante que, depois de tantos anos de crescimento da população evangélica, o País ainda se veja às voltas com o preconceito, a desinformação e a instrumentalização da fé para fins políticos.
Atribuem-se ao segmento evangélico muitos dos males do fundamentalismo bolsonarista e do radicalismo de pastores que se misturam à política. A confusão, o preconceito e os estereótipos, afinal, se ampliaram depois que pastores influentes passaram a atuar em favor de Jair Bolsonaro, que teve alta taxa de sucesso eleitoral nas disputas de 2018 e 2022. Ao mesmo tempo, as últimas campanhas presidenciais e os institutos de pesquisa mostraram a distância que separa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT dos evangélicos. Desde então, conselheiros do presidente e estrategistas petistas não hesitam em tentar uma, vamos chamar assim, aproximação, na expectativa de fazer Lula ser visto como crente. O “aceno” petista para a população evangélica parece estar em toda parte.
Recentemente, o presidente abriu sua agenda para receber bispos no Palácio do Planalto. A possível indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal passou a incluir a condição de evangélico como atributo a ser considerado em seu favor. Com alguma frequência, Lula passou a exibir sua verve de pregador de quermesse, usando referências religiosas em discursos. Até a onipresente primeira-dama Janja da Silva tem se empenhado em participar de cultos em templos religiosos a fim de desfazer a imagem de inimiga dos evangélicos e se contrapor a Michelle Bolsonaro, a ex-primeira-dama declaradamente evangélica e conservadora. Lula e Janja também já se deixaram fotografar orando, alimentando suspeitas de que o esforço é apenas uma estratégia marqueteira. Sem contar a produção de cartilhas do PT para ensinar o comissariado e a militância a “como falar com os evangélicos”.
Essas e outras iniciativas são evidências de quem não parece ter intimidade com o segmento. São a certeza de que os evangélicos – hoje cada vez mais organizados e eleitoralmente fortes – representam uma massa ao mesmo tempo genérica e uniforme, composta por pastores e parlamentares populares, influentes e barulhentos, e uma população fiel, obediente e facilmente manipulável. Na falta de compreensão real, opta-se pela cooptação.
Esse tipo de instrumentalização da fé pela política é nociva à integridade da democracia. Primeiro, porque, quando líderes políticos se apropriam do discurso religioso para obter poder ou tentar manipular eleitores, a espiritualidade – que deveria servir à reflexão, à ética e à busca do bem comum – é reduzida a uma ferramenta de controle e persuasão. Segundo, porque, assim, o autoritarismo e o populismo se disfarçam de missão divina. Terceiro, porque a fusão entre religião e política mina o pluralismo e a liberdade de consciência, pilares fundamentais de uma sociedade democrática.
Por fim, ignora-se o elementar: ninguém é apenas evangélico. Todos têm aspirações e necessidades que passam tanto por suas crenças quanto por elementos reais do cotidiano. Como qualquer eleitor com distintos valores religiosos ou morais, preocupam-se com segurança, trabalho, renda, saúde, bem-estar e um futuro próspero. Simples assim. Quem olha para os evangélicos e vê apenas uma pilha de votos não está genuinamente interessado nem nos valores religiosos nem no exercício saudável do poder.

