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Tempestade perfeita entre Trump e Lula vinha se formando e situação fugiu do controle

Por Lourival Sant'Anna / O ESTADÃO DE SP

 

Uma tempestade perfeita vinha se formando nas relações entre os governos Trump e Lula, com os motivos se avolumando para o presidente americano dirigir sua metralhadora giratória contra o Brasil. Fiz essa análise na segunda-feira e a reação predominante foi um discurso de suposto “patriotismo”, contra o que seria uma visão de “vira-lata”.

 

Isso explica por que Lula vê vantagem nessa briga, que envolve três populistas, ou seja, líderes para os quais é mais importante exaltar seu papel de insubstituíveis salvadores da pátria do que agir segundo a lógica da economia: Trump, Lula e Jair Bolsonaro, cujo filho Eduardo se autoexilou nos Estados Unidos para tracionar essas tensões entre Brasil e Estados Unidos.

 

Trump usa na carta a Lula a expressão “caça às bruxas” para se referir ao processo do STF contra Bolsonaro. É a mesma expressão com que ele qualificou a abertura do impeachment pela Câmara e seus problemas com a Justiça americana. Tanto Trump quanto Bolsonaro tentaram reverter suas derrotas eleitorais mobilizando suas bases para enfrentar as instituições de seus respectivos países.

 

Na carta, o presidente americano apresenta a si mesmo e a Bolsonaro como defensores da democracia, e a Justiça e o governo brasileiros como se estivessem solapando as instituições democráticas. A realidade é, em grande medida, o inverso, embora se possa, também, argumentar que o STF comete excessos, e o lulo-petismo se engaja na captura do Estado.

 

Ao anunciar a alíquota de 50% sobre os produtos brasileiros, Trump retrata o Brasil como um país que usufrui de práticas comerciais desleais e assimétricas com os Estados Unidos – um tema recorrente do presidente americano em relação ao resto do mundo.

 

O Brasil é um dos países mais protecionistas do mundo, com média de tarifas de 11%, além de uma série de barreiras não-tarifárias e uma burocracia infernal para quem tenta exportar para o País. Ainda assim, os Estados Unidos gozam de superávit no comércio com o Brasil. Trump apresenta como solução para o conflito empresas brasileiras se instalarem nos EUA, quando a competitividade dos produtos brasileiros se deve ao clima tropical do Brasil – algo que não pode ser transferido.

 

O STF tem adotado medidas contra as redes sociais que não obedecem suas ordens de retirada de conteúdos considerados ataques à democracia, desinformação e discurso de ódio. Isso fere os interesses de Trump de múltiplas formas.

 

As big techs, donas das plataformas digitais, são fonte substancial de receitas para os EUA. Seus CEOs se alinharam politicamente com Trump depois de sua eleição em novembro. O governo brasileiro editou medida provisória em outubro que aplicou imposto mínimo de 15% sobre essas empresas, em linha com o que defende a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A iniciativa foi aprovada na reunião do G20, no mês seguinte, no Rio.

 

Trump é ele próprio dono de uma rede social, Truth Social, para a qual a Rumble, que tem sofrido punições do STF, fornece conexão de internet. O presidente americano responde às acusações de ataques à democracia colocando-se como defensor da livre expressão nas redes sociais. Por todos esses motivos o STF e o governo brasileiro, que defende a regulação das redes sociais, são alvos naturais de Trump.

 

A cúpula do Brics no Rio de Janeiro exacerbou as tensões. Em 31 de janeiro, 11 dias depois de assumir, Trump ameaçou impor tarifas de 100% a integrantes do bloco que levassem adiante a ideia de substituir o dólar como moeda de reserva global. O tema voltou na cúpula de domingo e segunda, ao lado de condenações a Israel, ao bombardeio americano ao Irã, às sanções unilaterais adotadas pelos EUA e à guerra tarifária lançada por Trump.

 

Essas críticas ao governo Trump, embora seu nome não fosse citado, estiveram presentes tanto nos discursos de Lula quanto no comunicado final do encontro. O Brics é liderado pela China, que disputa a hegemonia global com os Estados Unidos.

 

Trump segue a Doutrina Monroe do século 19, “a América para os americanos”, e a reinterpreta como licença para os Estados Unidos se projetarem como líderes do Hemisfério Ocidental, desengajando-se da Ásia Pacífico, que deveria ser liderada pela China, e da Europa, a ser disputada entre Rússia, Alemanha, França e Reino Unido.

 

O presidente argentino, Javier Milei, outro populista, também tem tracionado essas tensões, identificando uma oportunidade de elevar seu perfil como interlocutor preferencial de Trump no Cone Sul. Enquanto impunha 50% de tarifa contra o Brasil, o governo americano avançava nessa quarta-feira em um acordo de livre comércio com a Argentina. Os 100 produtos argentinos mais exportados para os EUA, que representam 80%, podem ter tarifa zero, assim como os produtos americanos na Argentina.

 

Gerardo Werthein, ministro argentino das Relações Exteriores e Comércio Internacional, esteve reunido hoje com o secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, em Washington.

 

Trump estava com outras prioridades. Mas era natural que, diante de tudo isso, um dia ele voltasse sua atenção para o governo Lula, que representa, por causa da importância do Brasil, o principal fator de questionamento de seu poder nas Américas. Esse dia chegou. O certo teria sido evitar se chegar a essa situação. Agora, a situação foge ao controle. O Brasil adota alíquotas recíprocas contra os produtos americanos e o próximo passo é Trump dobrar a tarifa contra o Brasil.

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Opinião por Lourival Sant'Anna

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais

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