Carta de Trump expõe viés político inédito nas relações com os Estados Unidos, avaliam especialistas
Por Bernardo Mello — Rio de Janeiro / O GLOBO
Ex-integrantes do governo que atuaram na relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos e cientistas políticos avaliam que a carta enviada na quarta-feira pelo presidente americano, Donald Trump, expõe a piora na interlocução com a gestão Luiz Inácio Lula da Silva a um patamar raro na história dos dois países. O tom do documento, em que Trump anuncia sobretaxação de 50% para exportações brasileiras e faz críticas ao Executivo e ao Judiciário do país, representa um gesto à oposição ao Planalto, segundo os analistas.
A avaliação é de que o governo americano tenta influenciar o cenário doméstico brasileiro e abrir caminho a um grupo mais alinhado à cartilha trumpista, em mais um capítulo de uma “disputa de longo prazo” com a China. Para os especialistas, no entanto, os impactos de médio e longo prazo das novas tarifas — previstas para entrar em vigor no dia 1º de agosto — dependerão da reação do governo brasileiro. A aposta é de que o Itaramaty tende a articular uma saída negociada e evitar retaliações, o que pode reduzir a fervura.
Embora os países tenham, ao longo da História, outros momentos tensos na relação comercial, a carta expõe um viés político e ideológico claro que é inédito. Segundo o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral a disputa atual tem paralelo no episódio conhecido como “guerra do algodão”, que se desenrolou na primeira passagem de Lula pela Presidência. Na ocasião, o Brasil entrou em litígio contra os EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) questionando subsídios concedidos pelo governo americano a produtores de algodão. A OMC deu ganho de causa ao Brasil em 2007.
— Esse foi o último grande contencioso, mas foi algo mais pontual, que não atrapalhou a interlocução em outras áreas. A questão agora é que Trump está queimando pontes com vários parceiros históricos ao mesmo tempo, e tocou em questões domésticas que sequer dependem do Executivo, como as decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo as big techs — avalia Barral.
O ex-secretário afirma que falta hoje ao Brasil “interlocução de alto nível” com o governo americano, e pondera que o “timing da cúpula dos Brics pode ter afetado o tom” da carta. A cúpula, que teve o Brasil como anfitrião, teve sinalizações de parcerias estratégicas com a China, como o projeto de uma ferrovia sul-americana conectando os oceanos Atlântico e Pacífico e a defesa de Lula de uma “desdolarização” do comércio global.
Para o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV EAESP, o anúncio de Trump se deve menos a questões específicas da relação entre EUA e Brasil, e mais à disputa por influência com o regime chinês.
— O timing dessas declarações parece ter a ver com a crescente fragilidade do governo Lula e a percepção, por parte do governo Trump, de que ele pode ter um papel decisivo nas eleições do ano que vem. Ajudar a eleger um aliado facilitaria o trabalho dos EUA.
Em artigo publicado na quarta-feira, o economista americano Paul Krugman, vencedor do Nobel em 2008, avaliou que Trump “mal fingiu ter justificativas econômicas” para as novas tarifas e se concentrou em “punir o Brasil pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro”, réu no STF no inquérito da tentativa de golpe.
Falta de interlocução
Para o ex-embaixador Rubens Barbosa, que atuou nos EUA no primeiro governo Lula, o uso de tarifas para pressão política tem sido recorrente sob Trump, mas foi “agravado pelo fato de o Brasil não ter estabelecido canais de comunicação” com a gestão trumpista. — Enquanto a oposição bolsonarista trabalhou intensamente junto ao Congresso dos EUA e ao (secretário de Estado) Marco Rubio, o governo Lula não teve ações concretas. E isso por questões ideológicas, o que cobra um preço em política externa.
Professora da ESPM e pesquisadora em Relações Internacionais, Denilde Holzhacker avalia que tanto o tom da carta, quanto o patamar das tarifas representam “algo que não se via há muito tempo” na relação entre os dois países.
— Houve tensões, por exemplo, quando o Brasil quis desenvolver um programa nuclear na ditadura militar. A carta de agora colocou o Brasil na categoria de países que os EUA consideram que infligem interesses americanos para além de questões comerciais.
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