A GUERRA DO TRÂNSITO
Tragédia que deixou mais de 734 mil mortos em 20 anos no Brasil, a maioria jovens até 29 anos, os acidentes de trânsito despedaçam famílias e sobrecarregam a saúde pública. No mesmo período, o SUS desembolsou R$ 5,3 bilhões em procedimentos médicos relacionados a acidentes nas ruas e estradas. Especialistas temem piora no cenário com alterações no Código de Trânsito Brasileiro propostas por Bolsonaro.
Créditos
Reportagem: Marlen Couto e Marcelo Remigio | Arte e desenvolvimento: Christiano Benicio Pinto | Edição: Daniel Lima | Coordenação: Rubens Paiva
País tem uma morte a cada 15 minutos
Mães perdem filhos, filhos perdem pais. São milhares as histórias atravessadas pela epidemia de mortes no trânsito que o Brasil, há décadas, vive e não tem sido capaz de controlar. A cada 15 minutos, em média, uma morte é registrada nas ruas e estradas do país. Em 20 anos, foram 734.938 óbitos, segundo levantamento do GLOBO a partir de dados públicos do Ministério da Saúde — número superior à população de nove capitais, como Vitória, Cuiabá e Florianópolis.
Além das milhares de vidas interrompidas e das marcas trágicas deixadas em seus sobreviventes, os acidentes sobrecarregam a saúde pública. Entre 1998 e 2018, o país desembolsou R$ 5,3 bilhões, corrigidos pela inflação, em 2,8 milhões de procedimentos médicos relacionados ao trânsito, cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Um levantamento do Conselho Federal de Medicina estima que esses acidentes geram mais de 160 mil internações por ano.
"Todos os dias temos o equivalente a um avião com cem passageiros caindo. Se pensarmos nas vítimas que ficam feridas, são 11 aviões por dia"
RODOLFO RIZZOTO, COORDENADOR DO PROGRAMA SOS ESTRADAS
Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, o cenário deve piorar, com mais acidentes, mortes e gastos públicos, se medidas propostas pelo presidente Jair Bolsonaro que alteram o Código de Trânsito Brasileiro avançarem no Congresso. Entre elas, o aumento de 20 para 40 pontos do limite para o motorista infrator perder a carteira.
— Todos os dias temos o equivalente a um avião com cem passageiros caindo — resume Rodolfo Rizzoto, coordenador do programa SOS Estradas, que lembra o impacto gerado na Previdência:
— Falta máquina de calcular aos governantes. Se você fizer a conta dos benefícios de se combater os acidentes no trânsito, vai ver que para o governo é um excelente negócio.
Mais letal que armas
A proporção de mortes no trânsito é comparável a de homicídios. Também em 20 anos, 726,6 mil pessoas foram assassinadas por arma de fogo.
— Se nós não fizermos uma ação coordenada e planejada, não vamos mudar a situação. Não é tirando radar que se resolve, mas aumentando a fiscalização. O essencial está no comportamento do motorista. O trânsito nunca foi tratado como tema de governo e está sendo politizado — avalia José Aurelio Ramalho, do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).
Membro da Comissão de Viação e Transporte da Câmara e autor da Lei Seca, o deputado federal Hugo Leal (PSD-RJ) afirma que para reduzir os índices de acidentes de trânsito é preciso combater as causas, que vão além da imprudência:
— É preciso olhar região por região. Aqui os acidentes são provocados pelo traçado errado de uma rodovia? É o motociclista que não usa capacete? É a falta de sinalização? Então vamos buscar os responsáveis pela rodovia, educar o motociclista, cobrar a sinalização.
O perito criminal Rodrigo Kleinübing, especialista em acidentes de trânsito, pondera que as estatísticas oficiais estão aquém da realidade e que o total de mortos é ainda maior. Os dados disponíveis não considera em todo o país óbitos ocorridos até 30 dias após os acidentes, como é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e a maior parte dos estados contabilizam apenas mortes imediatas.
— A realidade fica em torno de 60 mil mortes por ano no trânsito. Vivemos uma epidemia — conclui Kleinübing. — E a maioria é jovem. Olha o tamanho do problema que temos. As pessoas não estão olhando para as estatísticas.
Pedro Borges, filho de Orlando Borges, vítima tardia do trânsito.
Foto: Alexandre Cassiano
A morte do professor universitário Orlando de Oliveira Borges é uma das que ficaram de fora das estatísticas. Sua rotina incluía a passagem pela BR-393, que liga Volta Redonda, no Sul Fluminense, até a BR-040 (Rio-Juiz de Fora), na altura de Três Rios, já na Região Serrana. A estrada é considerada uma das mais perigosas do estado. Em 2005, à época com 38 anos, o professor despencou de uma ponte, na altura de Volta Redonda. Desde então, foram dois anos em coma e mais seis vivendo em uma cama, sem poder se movimentar, até morrer.
— À época, testemunhas contaram que ele foi fechado por um caminhão. Depois, disseram que um carro havia batido no do meu pai, mas esse carro nunca apareceu. Ele era prudente ao dirigir — conta o filho de Orlando, o artista visual Pedro Borges, de 32 anos. O GLOBO

