Ameaça à democracia não representa cheque em branco à campanha de Lula
Bolsonaro tornou as coisas mais fáceis para Lula. Tão fáceis que bastou o líder nas pesquisas anunciar que sua prioridade é restaurar a democracia e reconstruir tudo o que o capitão destruiu —saúde, educação, ciência, meio ambiente cultura...— para que a mistura de lula com chuchu fosse vendida como manjar. "Um hit da culinária brasileira", exagerou Alckmin. "O prato da moda no Planalto" em 2023, ecoou Lula.
Impossível discordar da prioridade atribuída à democracia e à reconstrução da administração pública. Mas o desafio é bem maior do que misturar lula com chuchu numa chapa ou numa receita de risoto replicada nas redes sociais. Será necessário administrar diferenças internas para apresentar um cardápio econômico mais denso e palatável.
Para ficar nos exemplos superficiais, Lula defende mudanças na política de preços da Petrobras e abomina as privatizações. Alckmin e outros conservadores que o pajé do PT deseja atrair para sua caravana querem a paridade internacional dos preços dos combustíveis e a desestatização de empresas como a Eletrobras. Aprovam a venda de subsidiárias da Petrobras.
A despeito dos ataques ao sistema eleitoral e das ameaças às instituições, Bolsonaro avançou nas pesquisas eleitorais. O crescimento empurra Lula para um discurso do tudo-ou-nada democrático. Quanto maior for o número de aliados, mais aguado tende a ficar o programa de governo. Para atrair eleitores não convertidos, a pregação torna-se evasiva.
Sumiram do pronunciamento lido por Lula no sábado, por exemplo, referências à reforma trabalhista. Nem revogação nem revisão. Nada! Aprisionado dentro das quatro linhas do discurso escrito, Lula preferiu equiparar a defesa dos direitos trabalhistas com uma pregação anódina em favor da retomada do crescimento econômico.
Num ambiente assim, é preciso cuidar para não produzir uma decepção pós-eleitoral. Supondo que Lula prevaleça, Bolsonaro vai para casa. Nem por isso a inflação acabará, os empregos ressurgirão e o endividamento dos brasileiros desaparecerá. É preciso informar quais são os planos para melhorar a mistura..
Pode-se anunciar boa comida da boca pra fora. Mas é da boca pra dentro que se descobre a qualidade do prato. O risco à democracia não pode ser confundido com cheque em branco. Convém adicionar tempero à receita. Sob pena de encurtar o intervalo entre a eventual consagração e a desilusão.
Para 82%, voto em Bolsonaro é definitivo, diz CNT; 78% não mudarão voto em Lula
Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgada nesta quarta-feira (10) mostra que 78,1% dos entrevistados que têm a intenção de votar no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizem que a decisão é definitiva, enquanto 21,9% afirmam que “podem mudar”. Dos eleitores que têm a intenção de votar no presidente Jair Bolsonaro (PL), 82,1% consideram que o voto é definitivo e 17,9% assumem que “podem mudar”.
No caso de Ciro Gomes (PDT), 51% disseram que a escolha é definitiva e 49% podem mudar. Dos entrevistados que têm a intenção de votar em João Doria (PSDB), 34,9% consideram que o voto seja definitivo e 65,1% podem mudar.
Potencial de voto
Dos entrevistados, 28,2% disseram que “votariam com certeza” em Bolsonaro; 15,4% “poderia votar nele”; 53,9% não votariam “de jeito nenhum”. Em relação a Lula, 35% afirmam que “votariam nele com certeza”; 18,6% poderiam votar nele; 44,1% não votariam de jeito nenhum. Se o candidato fosse Ciro Gomes (PDT), 4,3% dos entrevistados votariam nele “com certeza”; 39,5% poderia votar nele; 48,2% “não votaria de jeito nenhum”.
João Doria (PSDB) é o pré-candidato que acumula maior rejeição. Dos entrevistados, 68% disseram que não votariam nele “de jeito nenhum”; 19% poderiam votar nele; e 1,5% votaria nele “com certeza”.
A senadora Simone Tebet (MDB) acumula o maior nível de desconhecimento. Segundo a pesquisa, 48,5% dos entrevistados disseram que “não conhecem”; 37,5% não votariam “de jeito nenhum”; 10,4% poderia votar nela; e 1,2% votaria nela “com certeza”.
No levantamento agora divulgado, foram entrevistadas 2.002 pessoas entre os dias 4 a 7 de maio. A margem de erro é de 2,2 pontos porcentuais e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob número BR-05757|2022.
Pesquisa CNT: Lula tem 40,6% das intenções de voto, Bolsonaro, 32% e Ciro, 7,1%
Por Giordanna Neves e Matheus de Souza / O ESTADÃO
Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgada nesta terça-feira, 10, mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém a liderança nas intenções de voto para a Presidência no primeiro turno, com 40,6% no levantamento estimulado. O presidente Jair Bolsonaro (PL) segue em segundo lugar, com 32%.
Ciro Gomes (PDT) está em terceiro, com 7,1% das intenções de voto. Na sequência, aparecem João Doria (PSDB), que acumula 3,1%, e André Janones (Avante), com 2,5%. Simone Tebet (MDB) tem 2,3% e Luiz Felipe d’Ávila (Novo), 0,3%. Branco e nulos somam 5,1%, e indecisos, 7,0%.
Segundo turno
Nas projeções para um eventual segundo turno, Lula manteve a liderança contra todos os adversários. Contra Bolsonaro, o petista tem 50,8% ante 36,8%.
Bolsonaro só teria vantagem no segundo turno, segundo a pesquisa, se disputasse contra Doria ou Simone Tebet. O atual presidente teria 38,8% e o tucano, 33,9% das intenções de voto. Contra a senadora, Bolsonaro teria 39,6% dos votos e Tebet 30,5%.
Avaliação do governo
De acordo com a pesquisa CNT, 30,4% dos entrevistados avaliam o governo do presidente Jair Bolsonaro como “ótimo e bom”, enquanto 25,2% consideram “regular” e 43,6%, “ruim e péssimo”. Para 52%, o governo está “pior do que esperava”, enquanto 29% disseram estar “nem melhor, nem pior”. Para 17%, está “melhor do que esperava”.
Em relação ao desempenho pessoal do presidente, 37,9% disseram que aprovam e 58,8%, desaprovam.
No levantamento, foram entrevistadas mil pessoas entre os dias 4 a 7 de maio. A margem de erro é de 2,2 pontos porcentuais, para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob número BR-05757|2022.
Pela sexta vez
Pela sexta vez nas nove corridas eleitorais para a Presidência sob a Constituição de 1988, o PT indicará como candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Seu discurso de sábado (7), no lançamento da chapa, mostra que o líder petista evoluiu em alguns aspectos, embora não em outros, ao longo desses 33 anos.
Com as três derrotas de 1989 a 1998, e com as duas vitórias subsequentes, aprendeu a tomar distância relativa de algumas vicissitudes ideológicas que uma vertente da esquerda brasileira até hoje carrega como herança da Guerra Fria.
A abertura para forças de outras extrações e a modernização que redundaram desse processo contribuíram para o triunfo eleitoral de 2002 e, sobretudo, para a gestão moderadamente reformista do mandato inicial. O pacto com Geraldo Alckmin (PSB), político de origem conservadora por décadas rival do PT, sugere que esse aprendizado não foi de todo esquecido.
O Bolsa Família —resultado de outra derrota imposta por Lula no primeiro governo à ala dogmática, que tachava o programa de "neoliberal"— também foi lembrado no discurso deste fim de semana.
Falar às necessidades da parcela mais pobre da população, altamente representada no eleitorado, parece a estratégia mais forte do ex-presidente num contexto de aceleração inflacionária e desemprego.
Menções à agenda da inclusão e do desenvolvimento sustentável, desprezada por incompetência e negligência ideologicamente motivada no governo Jair Bolsonaro (PL), abrangeram educação, saúde, infraestrutura e meio ambiente.
Os bolores de ideias obsoletas, no entanto, não foram totalmente varridos do repertório do chefe petista. Eles se acumulam nas propostas para a economia e na confusão de desenvolvimento econômico com intervencionismo estatal.
Após o desastre na renda e no emprego e o descalabro de corrupção causados pela implantação desse receituário durante o seu segundo governo e os de Dilma Rousseff, Lula insiste em defender o fortalecimento de estatais em mercados como os de energia e o financeiro.
Nesse terreno, as afirmações do pré-candidato petista atual não se distinguem do que ele pregava antes da queda do Muro de Berlim. A diferença é que agora não se trata mais de falas abstratas, vindas de um político que jamais experimentou a tarefa de governar e portanto poderia abusar das bravatas.
Advogar o fortalecimento do intervencionismo econômico, no Brasil concreto, é cevar lobbies bem posicionados que parasitam o erário. Lula não entendeu, e isso preocupa, que o avanço da agenda social inclusiva que corretamente defende depende de fazer-se o inverso —afastar os caçadores de renda da esfera das decisões estatais.
Bolsonaro se une a PSDB e União Brasil nos estados e empareda terceira via
A adesão informal de candidatos da centro-direita a Jair Bolsonaro (PL), que marcou a reta final do pleito de 2018, começa a ganhar novo fôlego em 2022, faltando cinco meses para as eleições.
Em busca de palanques fortes que ancorem sua candidatura à reeleição em outubro, Bolsonaro iniciou um movimento de aproximação com pré-candidatos a governador de PSDB e União Brasil em seis estados e já recebeu apoio público em quatro deles.
A iniciativa do presidente empareda os partidos que nacionalmente tentam construir uma terceira via e amplia o isolamento das possíveis candidaturas de Luciano Bivar (União Brasil), João Doria (PSDB) e Simone Tebet (MDB).
O apoio a Bolsonaro já foi selado em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Rondônia. Também há movimentos de aproximação no Ceará e na Paraíba.
Aliados de Bolsonaro afirmam que o presidente tentará ampliar seus palanques para além da sua coligação formal. E avaliam que o recente respiro dele nas pesquisas e a força da máquina federal tendem a atrair candidatos da centro-direita nos estados.
As parcerias avançam a despeito do histórico de atritos entre Bolsonaro e governadores que ganhou força na pandemia, quando o presidente abriu guerra contra medidas sanitárias contra a Covid-19 e foi alvo de críticas de parte dos gestores estaduais.
Foi o que aconteceu em Mato Grosso, estado que tem economia ancorada no agronegócio e tem forte viés antipetista. O governador e candidato à reeleição Mauro Mendes (União Brasil), que havia se afastado Bolsonaro na pandemia, agora anunciou apoio ao presidente.
A aliança foi selada há duas semanas após uma visita de Bolsonaro a Mato Grosso. Em entrevista à rádio Metrópole FM de Cuiabá, o presidente confirmou que apoiará a reeleição do governador.
"Não tem atrito entre nós, estamos em paz. Mato Grosso é um estado importantíssimo para o Brasil, e harmonia entre mim e o Mauro Mendes interessa não só para Mato Grosso, mas para todo mundo. Então, estamos fechados e vamos tocar o barco aí", afirmou.
Para selar a parceria, o presidente pediu que aliados locais como o deputado federal José Medeiros (PL) e ao pastor Victório Galli (PTB) baixassem a temperatura nas críticas ao governador.
Medeiros, que é um dos mais fiéis aliados de Bolsonaro no estado, diz que não vai criar obstáculos para a aliança: "Eu, pessoalmente, não tenho condições de caminhar com governador. Mas não serei um empecilho para a aliança. Voto não se joga fora."
O acordo faz de Mauro Mendes favorito à reeleição, já que o governador não terá adversários competitivos no campo da direita e aliados do ex-presidente Lula seguem sem um nome para a disputa.
O cenário é semelhante em Mato Grosso do Sul, onde o ex-secretário Eduardo Riedel (PSDB) será candidato à sucessão do governador tucano Reinaldo Azambuja em uma aliança com PP e PL.
Mesmo com a pré-candidatura ao Planalto do tucano João Doria, ex-governador de São Paulo, Riedel afirmou que está "fechado com Bolsonaro".
"Estou em um partido que até hoje não decidiu se tem [candidato à] presidente ou não tem. [...] Entre os projetos que aí estão, eu coloco claramente minha posição pelo presidente Bolsonaro", disse Riedel há duas semanas em entrevista à imprensa local.
Pré-candidata ao Senado na chapa de Reidel, a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP) deve atuar como ponte para consolidar o apoio do presidente ao tucano.
O movimento isola o deputado estadual Capitão Contar, que ensaia concorrer ao governo de Mato Grosso do Sul representando o bolsonarismo raiz. Ele chegou a se filiar ao PL, mas acabou migrando para o PRTB após se ver sem espaço para uma candidatura majoritária no partido.
Outro tucano que iniciou um movimento de aproximação com o presidente é o deputado Pedro Cunha Lima (PSDB), pré-candidato ao governo da Paraíba. Na última quinta-feira (5), ele prestigiou Bolsonaro em uma solenidade na cidade de Itatuba (110 km de João Pessoa).
Uma possível aliança, contudo, demandaria negociações em âmbito local, já que os bolosnaristas lançaram o radialista Nilvan Ferreira (PL) como pré-candidato a governador. Procurado, Cunha Lima não respondeu aos contatos da reportagem.
No Amazonas, o governador Wilson Lima (União Brasil) também anunciou neste mês que vai endossar a candidatura à reeleição de Bolsonaro e negocia o apoio exclusivo do presidente.
O endosso acontece em um momento de tensão entre Bolsonaro e o governo do Amazonas em torno de um decreto do governo federal que altera a tributação e reduz a competividade das indústrias de bebidas não alcoólicas da Zona Franca de Manaus.
O governador tenta reverter a decisão em Brasília, mas tem evitado críticas diretas ao presidente.
Caso a aliança se consolide, Lima deve ter Coronel Menezes (PL), ex-superintendente da Zona Franca de Manaus e amigo de Bolsonaro, como candidato ao Senado. Bolsonaro trabalha para derrotar o senador e candidato à reeleição Omar Aziz (PSD), que presidiu CPI da Covid.
"É como o presidente fala: tem a fase do namoro, do noivado e do casamento. Estamos entrando na fase do noivado", afirma Menezes sobre a provável aliança entre Bolsonaro e Wilson Lima.
Rondônia é outro estado em que a União Brasil estará com Bolsonaro. Eleito governador em 2018 pelo PSL, Marcos Rocha permaneceu no partido após a fusão e mantém apoio ao presidente.
Ele deve dividir as atenções do presidente com o senador Marcos Rogério (PL), líder de tropa de choque de Bolsonaro na CPI da Covid e também pré-candidato ao governo.
Outro possível aliado é pré-candidato ao Governo do Ceará, deputado federal Capitão Wagner (União Brasil). Ele tem afirmado diz que trabalhará por um palanque amplo e aberto a outros presidenciáveis apoiados por aliados.
Mesmo sem cravar o apoio a Bolsonaro, o deputado já recebeu uma sinalização de apoio em agosto do ano passado, quando o presidente visitou o estado: "Tenho certeza que, assim como o Brasil tem um capitão, o Ceará terá brevemente um capitão também".
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), iniciou um movimento de reaproximação. Mas enfrenta desgaste entre as alas mais radicais do bolsonarismo após ter rompido com o presidente em meio a divergência sobre o enfrentamento à pandemia.
Dias atrás Caiado participou de um ato com Bolsonaro em Goiás e foi vaiado. Na última quarta-feira (4), o presidente comentou sobre a situação com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada: "Eu não tenho culpa disso não, tá? Ele colhe o que ele planta. Político colhe o que ele planta".
Para o secretário-geral da União Brasil, ACM Neto, a aproximação com Bolsonaro em alguns estados não é uma surpresa, já que cada diretório tem liberdade para adotar a estratégia seja mais adequada. Ele nega que haja um movimento coordenado dentro do partido para apoiar o presidente.
"O que eu posso assegurar que não existe nenhum tipo de orientação partidária nacional de aproximação nem de distanciamento com ninguém. [...] Essa não é uma tendência ou uma articulação nacional. O que existe é liberdade total para cada estado seguir o seu caminho", diz o ex-prefeito de Salvador.
Pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto diz que manterá o seu palanque aberto e deve permanecer neutro na eleição nacional, mesmo com a possível candidatura de Luciano Bivar.
Procurado, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, preferiu não comentar sobre a adesão de tucanos à candidatura de Bolsonaro.

