Alckmin de novo: Lula e Dilma já tentaram trocar vice, mas desistiram de mudar chapa
As dificuldades enfrentadas por eles naquelas ocasiões, em 2006 e 2014, se repetiram agora. De um lado, as legendas cortejadas para compor a chapa resistiram a aderir. De outro, os próprios vices sinalizaram não ter interesse em concorrer a outro cargo que não a vice-presidência, o que acabou fazendo os titulares cederem.
Desta vez, a troca só não ocorreu por causa da oposição de diretórios emedebistas mais ligados à direita e porque Lula consolidou seu palanque em São Paulo com Fernando Haddad (PT) à frente da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
No início de fevereiro, Lula tornou público em uma entrevista ao UOL o que até então era discutido há mais de um ano em conversas fechadas no Palácio do Planalto: queria que Alckmin fosse candidato em São Paulo – a governador, cargo que já ocupou por quatro mandatos, ou ao Senado.
A declaração foi vista como uma sinalização ao MDB de que o presidente estava de fato disposto a oferecer a sua vice para outro partido e trabalhar para atrair para seu campo diretórios mais à direita, como o de São Paulo e os dos estados do Sul.
“Temos condições de ganhar as eleições em São Paulo. Eu ainda não conversei com o Haddad, ainda não conversei com o Alckmin, mas eles sabem que têm um papel para cumprir em São Paulo”, declarou o petista na ocasião.
Mais de um mês depois, em 19 de março, Lula voltou a pressionar o vice no evento que lançou a pré-candidatura de Haddad ao governo paulista.
O presidente declarou que a vaga em sua chapa estava aberta para o aliado, mas ponderou que, se Alckmin se candidatasse em São Paulo, poderia “ajudar mais”, já que, em sua opinião, o grupo político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Jair Bolsonaro, “não tem senador para disputar” com a esquerda.
“Eu ficarei imensamente feliz em ter o Alckmin vice outra vez. É um companheiro que eu aprendi a gostar, [uma pessoa] de muita lealdade, com muita competência de trabalho, um executivo extraordinário, ele só me ajuda. Mas você tem que conversar com o Haddad para saber onde colheremos mais frutos dele. Se ser candidato ao Senado, sabe, ajuda mais”, declarou o petista.
Apesar de todos esses recados, Lula não conseguiu atrair o MDB, e vai repetir a dobradinha com Alckmin, que se desincompatibilizará nos próximos dias do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Mesmo roteiro em 2006 e 2014
Em 2006, na eleição em que disputou o Planalto contra o então tucano Alckmin, Lula também tentou substituir o vice-presidente José Alencar, que era filiado ao PRB (atual Republicanos). Alencar foi eleito em 2002 pelo PL, mas decidiu mudar de legenda em 2005. O petista, que há tempos tentava consolidar uma aliança formal com o MDB (à época PMDB), tentou convencê-lo a se filiar ao partido, mas o mineiro não lhe deu ouvidos e escolheu a sigla alinhada à Igreja Universal.
Lula então buscou atrair um peemedebista “raiz” para a chapa, mas as conversas não foram adiante. A partir dali, decidiu trabalhar por uma coligação com o mesmo PSB que 20 anos depois esteve sob a ameaça de ser desalojado do Palácio do Jaburu.
O partido era estratégico no cálculo eleitoral. Quatro anos antes, o PSB tinha lançado para a presidência o governador do Rio, Anthony Garotinho, que quase foi para o segundo turno e colou no segundo colocado, o candidato da situação José Serra (PSDB). Garotinho já não estava mais no PSB em 2006, mas dois ministros de Lula filiados ao partido eram vistos como potenciais vices: Eduardo Campos e Ciro Gomes.

