Brasíliada
Inevitável, porém, que a conversa acabasse no assunto que todos preferiam esquecer: a guerra instalada no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), latente há anos, uma briga de poder sem trégua entre dois grupos. Estranho que haja grupos no plenário da mais alta Corte do país? Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra teve início. Da guerra interna, passamos a outra guerra, entre gregos e troianos, do filme sensação do momento, Odisseia, de Christopher Nolan.
Imagine-se que os nossos ministros do Supremo fossem os combatentes da Guerra de Tróia – uma “Brasilíada”, criação de um poeta presente. Uma guerra que se inicia por uma causa supostamente nobre – recapturar uma mulher raptada –, mas, em seguida, perde seu sentido original, transformando-se num banho de sangue. Alguma coincidência com nossa guerra, que começou com a defesa da democracia e terminou no escândalo do Banco Master?
Do lado grego teríamos o líder Agamenon, avatar do decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Poderoso, arrogante, soberbo. Não morre na guerra, mas acaba perecendo quando acredita que encontrou a paz. O ministro Alexandre de Moraes, que nos tempos de glória era aclamado por Xandão, compara-se a Aquiles: irascível, destemido, mercurial. Age emocionalmente, sem se preocupar com seu enorme e suscetível calcanhar. Também do lado grego encontra-se o ministro Flavio Dino, ou melhor, Ulisses. Esperto, ensaboado com as palavras, um guerreiro que, na verdade, se preocupa acima de tudo com a sua terra natal, Ítaca (ou Maranhão).
O ministro Dias Toffoli seria Nestor, outro rei grego, de um estado menor, que, por conta do exagero no vinho, não se engaja tanto nos combates. Há ainda um personagem de pouco destaque no texto de Homero, Estêmulo, um escudeiro – desempenhado na nossa epopeia pelo ministro Cristiano Zanin. Um comandado, que não expressa suas próprias opiniões. Do lado dos troianos, seu grande herói é Heitor – o ministro André Mendonça. Sempre com discursos bonitos e moralistas, acaba morrendo pelas mãos de Aquiles (ou Xandão). Os dois se digladiam, um para confirmar a epopeia, outro para mudar seu final.
Há também Paris, outro príncipe troiano, que se mete em confusões e recusa o embate direto. Papel para o ministro Kassio Nunes Marques. O Presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, seria o rei troiano Príamo, bem intencionado, mas que não é levado em conta pelos que deveria comandar. Na nossa guerra interna, Facchin tenta reverter este papel, veremos na terça-feira se terá força para levar adiante sua tentativa de recuperar a credibilidade do plenário que preside. O ministro Luiz Fux seria Eneias, o filho de Afrodite, deusa do amor. Um nobre troiano, cioso na proteção de sua própria família. Consegue escapar quando, ao fim, Troia é invadida.
Finalmente, a ministra Carmen Lúcia assume o papel de Helena, todos lutam por ela, embora por motivos diferentes, na epopeia de Homero ou na nossa. O enredo não merecia uma epopeia, há um elemento trágico: todos sabem o que há de errado. O vício se coloca claro bem na frente de todos nós. Contudo, o Brasil não reage. Estamos paralisados. Esqueçam a epopeia. O que vivemos é uma tragédia.
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